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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

CUBA - NÃO HÁ NENHUMA INTENÇÃO DE REGRESSAR AO CAPITALISMO


“Não há nenhuma intenção de regressar ao capitalismo”

Deputado e pastor cubano comenta o momento de mudanças e o papel da religiosidade na ilha
 Renato Godoy de Toledo
da Redação de Brasil de Fato

Reverendo Raúl Súarez, 
deputado cubano.
Foto: Cubadebate
O reverendo Raúl Súarez, 77 anos, é um dos principais personagens ecumênicos da Revolução Cubana. O pastor batista – membro do parlamento cubano desde 1993 – é considerado um dos responsáveis pela flexibilização do Estado cubano em relação à religiosidade. Por um longo período, desde 1959, os dirigentes do Partido Comunista não admitiam as práticas religiosas no país, muito menos a presença de religiosos na agremiação. Súarez participou de conversas com Fidel Castro, que foi se convencendo do poder de mobilização da religião, sobretudo após visita a um encontro das Comunidade Eclesiais de Base no Brasil, em 1990. Em entrevista ao Brasil de Fato, Súarez relata como sua trajetória religiosa encontrou-se com os ideais políticos da revolução cubana. O pastor também comenta o momento atual de Cuba, que passa por mudanças para “aperfeiçoar o socialismo”.
Brasil de Fato – Para iniciar, poderia contar um pouco sua trajetória como pastor batista e o seu encontro com os ideais da revolução de 1959?
Raúl Súarez - Vivi 24 anos no sistema capitalista de Cuba. Em 1953, com 18 anos, pela primeira vez ouvi o nome de Fidel Castro, quando do assalto ao Quartel de Moncada. Desde então, minha simpatia por seus ideais se iniciou e permanece até hoje. Quando a revolução triunfa em 1959, iniciei minhas atividades como pastor, em um setor bastante pobre do país, a Península de Zapata. Participei da ajuda aos feridos da invasão mercenária do país, na Baía dos Porcos. Posso dizer que não estava preparado bíblica e politicamente para viver uma revolução comandada por pessoas que não eram da igreja e, em sua maioria, eram marxistas que queriam implementar o socialismo.
No entanto, por minha origem social, em meio aos trabalhadores rurais, algo como os sem-terra do Brasil, um setor muito pobre, meu coração sempre esteve ao lado da revolução, pela obra humanitária de justiça social para todos os cubanos.
Então, havia uma contradição entre um coração que respondia à minha origem social e uma racionalidade que respondia à formação teológica por missionários estadunidenses. Foi um processo agônico, conflituoso, tenso. Mas, em 1971, senti a necessidade de mudar de minha pastoral para iniciar uma nova pastoral com uma base bíblica e teológica mais fortalecida e aberta, contextualizada. Por outra parte, a interpretação que alguns setores da revolução faziam do marxismo-leninismo, criava dificuldades para se tomar uma consciência. Era muito dogmática e sectária, influenciada pelos manuais soviéticos sobre o tema da fé cristã e da revolução.

Como foi a evolução da relação entre a revolução cubana e a religiosidade no país?
Por um longo período, desde 1959, os dirigentes
do partido comunista não admitiam as práticas religiosas no país
Foto: Pepe Lopex/CC
A partir de 1984, a história me proporcionou um encontro com Fidel Castro. Ali se inicia uma plena consciência de que unidos à revolução, poderíamos superar as contradições entre marxistas e cristãos, tudo pela unidade nacional.
Nesse ano, preparei uma atividade em homenagem a Martin Luther King, como secretário-executivo do Conselho Ecumênico de Cuba, em que defendemos a candidatura do Reverendo Jesse Jackson à presidência dos Estados Unidos. Nesse ato, Fidel compareceu. Participei do jantar que Fidel ofereceu a Jackson e tive uma conversa de três horas com ambos. Fidel nos presenteou com o livro “Fidel e a Religião”, de Frei Betto, que ainda não havia sido publicado. Com o propósito de que percebêssemos qual era seu pensamento em relação à religião, que não era um dogmático. Foi um reconhecimento de que não tinha nenhuma restrição com o símbolo, como ele disse, que é Jesus Cristo. Após esse encontro, iniciou-se uma nova etapa entre a revolução e a igreja.
Em 1990, Fidel vem ao Brasil na posse de Fernando Collor e se impressiona com um encontro com cerca de 4 mil delegados de Comunidades Eclesiais de Base. Nessa época, a União Soviética já dava indícios de que desapareceria, e amigos e inimigos da revolução pediam que Fidel fizesse o mesmo movimento que se desenhava no Leste Europeu, ou seja, uma transição ao capitalismo. Nesse encontro, as canções, consignas e as leituras da bíblia eram solidárias com Cuba e pediam a Fidel que se mantivesse firme com a revolução e o socialismo.
Após seu regresso a Cuba, reunimo- nos com muito mais pessoas, por nove horas e, a partir dessa reunião, o Partido Comunista fez uma nova interpretação em relação à política. Em seu 4º Congresso, em relação à igreja, eliminou os impedimentos à religiosidade no país e as barreiras para que os religiosos fossem membros do Partido.
Formulou-se também uma nova lei eleitoral e, em 1993, a Central do Trabalhadores de Cuba me indicou como deputado, pelo papel que o movimento ecumênico estava desempenhando na unidade dos cubanos. Então, desde lá até hoje, sou membro do parlamento cubano e da comissão de relações internacionais.
Não tenho contradição entre ser um pastor ativo, fiel à minha vocação pastoral, e em me posicionar ao lado da revolução e um sentimento de pertencimento ao processo revolucionário.

Como o senhor avalia o processo de mudanças que Cuba vive no momento. Com a renovação dos quadros e a chamada atualização do socialismo?
Eu creio que a situação atual de Cuba e sua definitiva convicção de que se deve reorientar a política e a economia é parte de um processo revolucionário.
A revolução não é um projeto petrificado, congelado no passado, não é um museu, mas um movimento. A situação que vive a humanidade, com crises econômicas, ecológicas, é resultado de um sistema globalizado capitalista, que não é mais sustentável. Por ser globalizado, o capitalismo atinge os países pobres, e Cuba não está imune a isso. Temos poucos recursos. As conquistas sociais de Cuba foram alcançadas em um momento propício.
Fidel, antes da doença, disse: “não há bloqueio estadunidense que possa derrotar a revolução, só nós mesmos podemos o fazer”. Aí ele desenvolve um resumo do que é a revolução, como um decálogo, que reflete a essência do pensamento de Fidel e do pensamento ético revolucionário do povo cubano.
Ele afirma que temos que mudar tudo o que deve ser mudado, sem pular etapas e sem copiar qualquer modelo estrangeiro. Não levamos a cabo o modelo chinês, soviético, vietnamita. Estamos dispostos a aprender com todos, como disse Raúl Castro, mas o nosso projeto deve nascer do contexto cubano, caribenho e latino-americano. Esse processo se leva a cabo com a participação ativa do povo. Iniciou-se um debate em toda a sociedade, incluso as igrejas. Mais de 7 milhões de pessoas participaram, sendo que 1,5 milhão expuseram suas demandas. Disso, criou- -se um diagnóstico em que apareceu a angústia, as críticas e as esperanças do povo. As principais críticas eram referentes à burocracia do país, o centralismo do Estado. Não houve críticas ao socialismo e à revolução.
Então surge uma proposta de alinhamento econômico e social. Agora estamos em fase de implementação dessas demandas apontadas no processo de discussão. Por outra parte, se leva a cabo a descentralização do Estado, com menos ministérios, menos burocracia. E a eliminação de algumas decisões verticais e a atribuição de mais poder aos municípios e comunidades, que terão mais autonomia e responsabilidades. É uma reconsideração do projeto socialista e do projeto econômico.

Há uma leitura feita pela imprensa internacional de que essas transformações seriam parte de uma transição ao capitalismo. O que o senhor pensa desta avaliação?
Foi interessante o discurso de Raúl Castro quando tomou posse. “Não fui eleito para destruir o socialismo, mas para aperfeiçoá-lo”. A intenção é essa, colocá- lo em seu tempo e espaço sobre uma base econômica que sustente e que se siga adiante o processo ético de igualdade e justiça.
Não há nenhuma intenção de regressar ao capitalismo. O povo, nos debates, nunca critica o socialismo. Critica os erros que se cometem na construção do socialismo.

Como membro da Comissão de Relações Internacionais do parlamento cubano, como o senhor avalia o atual momento da América Latina? Depois de um período de surgimento de governos mais à esquerda, parece que há uma interrupção dessa tendência, com o golpe de Estado no Paraguai, a eleição de Piñera no Chile e a volta do PRI ao poder no México...
O governo de Bush foi bruto, torpe. Com os problemas internos e as guerras, deu pouca importância para a situação da América Latina. Mas Obama é um presidente astuto e inteligente. É um filho do sistema. Mudou o motorista, mas o carro segue sendo o mesmo. Continua sob o controle da indústria bélica e das grandes transnacionais. Continuam as demandas de construção de bases militares em regiões estratégicas de fonte de água e petróleo.
Iniciaram, em Honduras, uma nova maneira de retomar a América Latina como quintal dos Estados Unidos. Tentaram dar um aspecto legal ao golpe. Agora, no caso do Paraguai, está comprovado que militares dos EUA conversaram com políticos paraguaios sobre a possibilidade de se instalar uma base militar na região do Chaco, uma região miserável, mas estratégica.
Há uma política imperialista que visa impor eleitoralmente, com fraudes ou sem fraudes, governos de direita.

Nova Centelha

Suécia se recusa a interrogar Assange na embaixada do Equador em Londres

Fundador do Wikileaks aguarda a decisão equatoriana sobre pedido de asilo político







A Promotoria da Suécia rejeitou a possibilidade de interrogar Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres, onde o fundador do Wikileaks está refugiado desde junho para evitar sua extradição ao país escandinavo, informou nesta quarta-feira (01/08) a agência britânica PA.
Agência Efe

O fundador do Wikileaks teme que possa ser extraditado ao Estados Unidos.

Segundo a agência, as autoridades suecas, que querem interrogar Assange por supostos crimes sexuais cometidos em 2010, recusaram o convite do Equador "sem oferecer nenhuma explicação". A informação foi confirmada também por uma das advogadas do ativista, Jennifer Robinson, em declarações à emissora de televisão russa Russia Today - onde o próprio Assange apresenta um programa.
A advogada lamentou que a Suécia "tenha se negado a usar os sistemas legais mútuos" que havia permitido interrogar o jornalista no Reino Unido. Assange está refugiado na embaixada do Equador em Londres desde o dia 19 de junho, à espera da decisão do governo equatoriano sobre seu asilo político.

O processado pediu asilo ao Equador após perder no Reino Unido todos os recursos legais contra sua extradição para a Suécia, país que lhe reivindica para interrogatório por quatro crimes de agressão sexual supostamente cometidos contra duas mulheres suecas em agosto de 2010, fato que ele nega.

Assange foi detido em Londres em dezembro de 2010 sob uma ordem de detenção emitida pela Suécia, dias depois de o Wikileaks publicar milhares de telegramas diplomáticos confidenciais dos Estados Unidos que foram revelados a governos do mundo todo.

A equipe de defesa do ativista, liderada pelo ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, teme que seu cliente possa ser extraditado da Suécia aos EUA, onde poderia enfrentar duras penas caso fosse acusado de traição, por causa da publicação dos documentos secretos.

Jennifer confirmou nesta quarta à Russia Today que o governo equatoriano solicitou garantias aos governos britânico e sueco para que não autorizem uma eventual extradição aos EUA, mas ainda não obteve resposta.

Também foi perguntado aos EUA se há algum processo aberto contra Assange, mas também nenhuma resposta foi dada até o momento. A advogada lamentou que o governo da Austrália, país natal de Assange, não tenha feito essas gestões, apesar dos insistentes pedidos de pessoas próximas do ativista.

Enquanto isso, Julian Assange, de 41 anos, segue recluso na embaixada do Equador em Londres, pois corre risco de ser detido pela polícia britânica, por violação das condições de sua liberdade condicional, caso saia na rua. 

Nova centelha

A NORA



Nora é um engenho ou aparelho para tirar água de poços ou cisternas. É constituído por uma roda com pequenos reservatórios ou alcatruzes.

Possui uma haste horizontal acoplada a um eixo vertical que por sua vez está ligado a um sistema
de rodas dentadas. Este sistema faz circular um conjunto de alcatruzes entre o fundo do poço e a superfície exterior. Os alcatruzes descem vazios, são enchidos... no fundo do poço, regressam e quando atingem a posição mais elevada começam a verter a água numa calha que a conduz ao seu destino. O ciclo de ida e volta dos alcatruzes ao fim do poço para tirar água mantém-se enquanto se fizer rodar a haste vertical e o poço tiver água.

Tradicionalmente as noras são engenhos de tracção animal. Estes engenhos vieram em muitos casos substituir a picota ou cegonha anteriormente utilizados como engenhos principais para tirar água na Península Ibérica onde se pensa que tenham sido introduzidos pelos árabes.

LÁ POR ME VERES EM BAIXO AGORA
NÃO ME NEGUES A TUA ESTIMA
OS ALCATRUZES DA NORA
NEM SEMPRE ANDAM POR CIMA

Quadra de Francisco Bexiga - poeta popular da minha aldeia - Santa Bárbara de Nexe
texto e foto do album de Maria Martins Martins



Bom povo português - Rui Simões


Ser feliz? A outra interpretação (a que faltou, por parte de quem comentou)


Se  ninguém se deu conta da foto a sépia, falemos então do seu negativo...

Saramago (não esqueçam que sendo saramaguiano, o cito de vez em quando) escreveu "Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui", terá morrido na tranquilidade de pensar ter conseguido o resultado desse desiderato. E, se assim foi, diria que partiu feliz. Evito, na minha escrita, seguir-lhe formulas e estilo, mas dou comigo (tantas vezes) a copiar-lhe o pensamento, coisa que, como sabemos, é mais fácil de defender de eventual acusação de plágio. Quando escrevi que ser feliz "é saber olhar para trás e saborear a memória" estava tentando dizer isso mesmo. Queria dizer, ou deixar passar esse mensagem subliminar e de orgulho mal escondido, de não ter feito nada que nem me envergonhasse a mim, nem a criança que fui. Outra referência dessa felicidade sentida, mas que me é servida nos seus serviços mínimos, é o ter alguém (ah, este maldito sentido de posse) a quem não gosto de fazer esperar. É que em troca ela me conforta e dá alento. Alento para em cada dia poder encarar, com a força necessária, este mundo. E qual mundo? Este, que você vê e eu vejo. Vejo sem olhar para o lado, nem que seja por um bocado e que está sempre à minha frente...


Video "roubado" a Manuela Araújo, do "Sustentabilidade é acção"
blog Conversa avinagrada 

O Alentejo é um Jardim - GAC Vozes na Luta.wmv

GAC - Herdade do ValFanado


GAC - Herdade do Val Fanado

Na Herdade do Val Fanado
terra rica em trigo e gado
Freguesia de Albernoa!
O povo era explorado
por Mariana Vilhena
burguesa, vil e patroa!

Nas terras que ela dizia
serem suas por herança
do nascer ao pôr do sol!
Homens, mulheres e crianças
anos e anos a fio
passaram miséria e fome!

Até que um dia o povo
de foice e punho no ar
num só grito disse não!
Quarenta e um trabalhadores
homens do campo e mulheres
fizeram a ocupação!

Ocuparam a Herdade 
com as máquinas e o gado
mostrando a essa malvada!
Que só tem direito à terra
quem com a enxada trabalha,
quem a sua, quem a lavra!

Agora os camponeses
da Herdade do Val Fanado
trabalham com alegria!
Nas terras que já são suas
pois o fruto do seu trabalho
já não vai para a burguesia!

As dificuldades virão
porque os ocupantes sabem
que o governo é dos burgueses!
Por isso pedem apoio
a todos os seus irmãos, 
operários e camponeses!

A Herdade do Val Fanado
pede a todos os soldados
operários e camponeses
que se unam e organizem
com o povo de Albernoa
para tirar o poder aos burgueses!

Agora os camponeses
da Herdade do Val Fanado
trabalham com alegria!
Nas terras que já são suas
pois o fruto do seu trabalho
já não vai para a burguesia!

O QUE É SER COMUNISTA



Atuação consciente e organizada 


A ação consciente para a mudança e melhoria das condições de vida e trabalho é premissa fundamental do marxismo. A essência da teoria fundada por Marx e Engels é a transformação do mundo, buscando vida harmônica na sociedade e na natureza, a práxis.
Nas condições do capitalismo, essa atuação, para ser conseqüente e eficaz, tem que ser social, tem que envolver a ação conjunta das classes sociais interessadas na transformação da sociedade. Tem que ser partidária. Foi essa compreensão que levou o proletariado a organizar-se em partido político e desenvolver alianças com outras classes e setores sociais descontentes com o capitalismo.


Em longa trajetória histórica, o proletariado organizou-se no Partido Comunista, buscando a conquista do poder político em aliança com o campesinato, e colocando o socialismo como a tarefa fundamental para levar a sociedade a um estágio superior de organização e convivência, sem exploração do homem pelo homem e sem classes sociais: o comunismo. O Partido Comunista é um instrumento de transformação da sociedade. Expressa a vontade coletiva dos proletários no seu projeto revolucionário. É a atuação consciente dos que compreendem que, sozinhas, as pessoas são impotentes para transformações de grande magnitude nas relações econômicas, culturais, sociais etc.


Militar no Partido Comunista significa atuar organizadamente com outras pessoas que objetivam a transformação revolucionária da sociedade. Hoje significa retomar o processo revolucionário, inaugurado pela Comuna de Paris em 1871 e iniciado pela Revolução Russa de 1917 visando a superação sa sociedade capitalista. Significa, na atuação cotidiana, ter a perspectiva programática do socialismo - envolver o encadeamento de um conjunto de lutas políticas, econômicas e sociais que objetivam a substituição do capitalismo por uma forma superior de organização social.


A militância comunista  dá-se  através da participação numa organização do Partido - e desenvolvemos hoje um empenho especial para que todos os comunistas façam parte de um organismo partidário. Coletivamente, os comunistas, tendo como referência seus objetivos, analisam a sua área de atuação, estabelecem planos e metas a serem alcançadas. Buscam resposta para a solução dos problemas do dia-a-dia do povo, vinculando esses problemas com a perspectiva de mudança da sociedade. Fazem o elo entre a luta específica e o objetivo programático, o socialismo.

Extrato do próximo romance A IMENSA SOLIDÃO DO PROLETARIADO


Uma vez esteve tentado à desintegração total do seu corpo, o suicídio. Foi numa noite de intenso desespero e da lembrança de um episódio passado na guerra colonial.
Com ele foi para essa guerra um soldado, um belo e estranho rapaz. Não sabia o seu nome verdadeiro. Todos lhe chamavam Anjo. Mas, coisa rara, e ao contrário do que sucedia com todos os elementos efeminizados da tropa, os soldados não
perturbavam a vida do Anjo. Havia um recato que os afastava de penetrarem na vida íntima do estranho soldado. Nunca ninguém o viu nu porque ele sempre se desencontrava dos outros nos banhos ou na toilette mais íntima, e dormia sempre com um largo pijama. Mas ali havia um mistério. E o mistério ainda era maior porque a turba, ao contrário do que sucedia a tudo que lhe cheirasse desvio sexual, mantinha em relação a ele um estranho respeito.
Uma noite a verdade foi revelada a Luís.
Tinha ficado de serviço nesse fim-de-semana, no RI20, o maior quartel de Luanda da época colonial. Quase todos os soldados tinham partido para os bares da cidade onde iriam tentar abafar a sua imensa infelicidade.
Luís, no fim do turno, dirigiu-se à camarata para descansar. Antes, e porque o calor tropical o fazia suar abundantemente, decidiu tomar um duche. Dirigiu-se para os balneários e ouviu o ruído da água que saía das torneiras, sinal de que alguém tivera a mesma ideia.
E viu o Anjo nu. O Anjo num corpo belo e estranho. Não podia afirmar que aquele corpo era de um homem ou de uma mulher. Porque era comum aos dois géneros. Os seios eram pequenos e ligeiramente pontiagudos. O sexo era minúsculo e quase desaparecia pela sobreposição das pernas. Mas não era um sexo; eram dois. Um feminino e outro masculino, em miniatura.
Luís tentou lembrar-se de onde conhecia aquele corpo. Ah, sim, de Chelas, do tecto da velha igreja. Lá estava a imagem de um anjo que era em tudo idêntica à do corpo que contemplava. E da mesma forma este Anjo soldado parecia levitar enquanto a água lhe acariciava o corpo.
Luís ajoelhou e o Anjo sorriu, sem vergonha da sua nudez e da forma hermafrodita do seu corpo.
-É neste lugar de homens rudes que mais respeitado sou – disse o Anjo, enquanto levantava Luís da posição de adoração.
Luís estava atarantado e nada dizia. O Anjo continuou:
-Lá na minha terra chamam-me tudo: paneleiro, florzinha, brochista…
Luís ganhou coragem e perguntou:
-Mas, se és um anjo, como podem as pessoas ofender-te?
-Não te esqueças de que sou um anjo terreno. As pessoas adoram os anjos –menos o mais importante deles todos, o anjo da luz, só porque se rebelou… -,aceitam a sua indefinição sexual – as discussões que não fazem sobre o sexo dos anjos!? -, mas desde que eles continuem nesse limbo da memória. Porque, quando um anjo desce à terra e vem viver com os humanos, aí tudo o que era aceite como belo é encarado como deformação…
O Anjo ajudou Luís a despir-se e deu-lhe banho. Depois agarrou-o pela mão e levou-o para a sua cama. Quando a soldadesca regressou das putas, pela madrugada, encontrou-os nus e abraçados, dormindo.
Ao contrário da gritaria que sucedia quando um acto homossexual era presenciado nas casernas, todos guardaram o maior silêncio e um soldado tapou os dois corpos nus com um lençol.
Passados dias formaram companhia e partiram para operações no Norte de Angola, para proteger os bailundos que apanhavam o pouco café das fazendas abandonadas.
A guerrilha esperava por eles e, passados meses, armou-lhes uma emboscada. Luís não se encontrava nesse grupo de combate que foi armadilhado. Mas foi o seu grupo que foi levantar os mortos dessa emboscada, doze.
E ali estava o Anjo caído, retalhado à catanada. Quando Luís lhe tocou sorriu tristemente:
-É hora de partir…
Com lágrimas nos olhos, Luís correu a buscar plasma, sangue artificial, para tentar salvar o amigo, mas quando voltou ao local apenas viu a forma de um corpo no capim. Olhou para o céu e pareceu-lhe ver, numa nuvem, o corpo esplendoroso do Anjo.
Quando foram procurar na secretaria do quartel a documentação do Anjo, para informar a família da sua morte, não havia documentação nenhuma.
Para aguentar o horror daquela imagem dos doze camaradas retalhados pelas catanas da guerrilha andou oito dias seguidos bêbado, e até dormia com uma garrafa de brande para que as recordações o não atormentassem até à loucura. Por isso não podia garantir que o que relembrava do Anjo se passara de verdade, ou se não era um delírio desses oito dias em que, por acção do brande, esteve ausente da vida.
Na hora de tomar uma decisão de partir ou de ficar batalharam na sua mente os dois pilares da sua formação ideológica: o materialismo marxista e o idealismo cristão.
“Não, ficarei; beberei o meu cálice até ao fim.”
E assim fez a síntese das duas teorias.


Extrato do próximo romance A IMENSA SOLIDÃO DO PROLETARIADO


destemidos - poema de António Garrochinho


NO TEJO COM O PROFESSOR, DOUTOR, NADADOR MARCELO