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segunda-feira, 23 de julho de 2012



Isaltino e Cavaco – A mesma lata, perdão... luta!







- Já viste a última do Isaltino? – atirou-me um amigo.
- A última?!!! – perguntei eu, esperançado...
- Diz aqui que ele não descarta a hipótese de se recandidatar à Câmara Municipal de Oeiras!
De facto, lá estava escarrapachada na capa do jornal a notícia (sem link) de que o descaradão admite recandidatar-se...
E depois? – perguntei eu. Até podia candidatar-se a Presidente da República... pelo menos, depois de o actual morador de Belém ter colocado a fasquia tão em baixo... tão rente ao chão. 

Na verdade, basta dar uma vista de olhos a esta notícia do lançamento de um livro sobre a cavacal figura e lembrar alguns “pormaiores” do seu percurso político, esse sim, verdadeiramente isaltinante, para perceber que o pobre do Isaltino original pode perfeitamente entrar para a galeria de “anjos” do bispo Januário Torgal Ferreira.


Partilhando mais alguns segredos do Algarve...







O Algarve tem dois parques naturais, que não podiam ser mais diferentes um do outro. O parque natural do sudoeste alentejano e costa vincentina, correspondente às três primeiras fotos, está localizado na costa ocidental do Algarve, e é composto, sobretudo, por enormes falésias de rocha negra, águas em tons de azul escuro e um pouco mais frias do que a costa sul, onde se localiza o segundo parque natural, o da Ria Formosa.
As praias da Ria Formosa caracterizam-se por dezenas de quilómetros de areias finas, e muitas conchas, onde as águas cor de esmeralda são mais quentes e o mar assemelha-se a um enorme lago com pequenas ondas. 
Hoje foi interessante verificar que muitas das plantas que compõem as dunas da Ria Formosa estão em flor,  como é o caso, por exemplo, do belo narciso das areias (Pancratium maritimum).
As primeiras três fotos foram tiradas a norte da praia da Arrifana, e as três últimas na praia da ilha deserta, em Faro. 
Dois destinos agradáveis para férias longe das multidões e em perfeita comunhão com a natureza.


ANTIGUIDADES

DIÁRIO DE LISBOA 27-1-81
(Clicar no texto para ampliar)

The Pink Panther-Arvark Show (Pt.1)


O Palácio Industrial do dr. Kahn.

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Fritz Kahn (1888-1962)

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Antes do 25 de Abril, muitos lares portugueses tinham nas suas estantesNossa Vida Sexual, do dr. Fritz Kahn, em edição brasileira. Talvez seja essa a razão pela qual ainda alguns se lembram do seu nome. De certeza que a sua reputação em Portugal não se deveu às 64 páginas de O Mundo Maravilhoso dos Insectos, saído entre nós na década de cinquenta, na colecção “Biblioteca Mocho” da Editorial Organizações.
Médico ginecologista, de origem judaica, Fritz Kahn (1888-1962) notabilizou-se pela forma absolutamente inovadora e desarmante como apresentava o corpo humano. Em 2009, saiu um livro sobre ele, creio que o primeiro – e único – grande trabalho sobre Kahn. Fritz Kahn – Man Machine, de Uta von Debschitz e Thilo von Debschitz, publicado com a chancela da Springer, em edição bílingue (inglês-alemão). O livro, fascinante, mostra-nos o universo de Kahn em todo o seu esplendor mecanicista. Uma outra análise da sua obra pode encontrar-se neste artigo,aqui.
Sempre existiram metáforas antropomórficas, bastando recordar o celebérrimo frontispício de Leviathan de Hobbes (para não buscar exemplos mais remotos). Por outro lado, o organicismo foi uma doutrina política e jurídica que marcou a Europa, em especial a Alemanha. O que maravilha em Fritz Kahn é o modo como este explora o paralelismo entre o corpo humano e as máquinas, fazendo-o não com um propósito primordialmente estético mas didáctico. É óbvio que as suas imagens buscam a beleza, sofrem influências do surrealismo e de uma estética industrialista muito típica dos anos 20 e 30, estética que encontramos nos Estados Unidos ou na União Soviética ( onome que me ocorre de imediato é o de Viktor Koretski). Há também marcas de Art déco, do fotorrealismo documental em voga na época e do movimento Neue Sachlichkeit ("Nova Objectividade"). Simplesmente, a estética de Kahn, a maravilhosa estética de Kahn, fruto de uma imaginação prodigiosa e de uma inventividade desconcertante, não se esgotava em si mesma, visando antes ilustrar pedagogicamente, através da analogia corpo/máquina, o modo de funcionamento do corpo humano. Não hesitava em recorrer ao humor e à ironia, como os caricaturistas e os cartoonistas. Um dos exemplos mais curiosos é uma ilustração chamada “O médico do futuro”, de 1925. Um doutorado em Medicina a fazer desenhos assim? A sua obra mais conhecida foi.. um poster, “O Homem como Palácio Industrial”, de 1927.
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O Médico do Futuro, 1925. A fumar...

O Homem como Palácio Industrial, 1927


Não surpreende, pois, que milhares e milhares de pessoas tenham ficado de imediato seduzidas pelos seus livros, de uma tremenda originalidade e absolutamente fora dos padrões "normais" que caracterizavam as obras de divulgação científica da época. Imagens sobre imagens, todas diferentes; em cada uma delas, uma surpresa de inteligência e de inigualável talento narrativo. 
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A carta de Einstein para o cônsul dos Estados Unidos em Lisboa



Durante a República de Weimar, os cinco volumes de Das Leben des Menschen, que começaram a ser publicados em 1922, tiveram um sucesso estrondoso. Judeu, os nazis perseguiram-no. Expulso da Alemanha, fugiu para a Palestina e depois para França. Conseguiu finalmente escapar para Lisboa, graças a uma carta que Albert Einstein enviou ao cônsul norte-americano na capital portuguesa. Tendo-se fixado nos Estados Unidos, onde continuou a ser admirado e a ter êxito (inclusivamente, comercial), viu as suas criações serem plagiadas em livros de médicos e cientistas nazis. Primeiro, queimaram os seus livros; depois, copiaram-nos descaradamente. Com uma pérfida nuance: aditavam capítulos demonstrativos da superioridade da raça ariana e da inferioridade do povo judeu. No livro Der Mensch und sein Leben, Gerhard Venzmer copiou com despudor a obra de Kahn, acrescentando um capítulo intitulado “Ciência Racial e Pureza Racial”, em que fustigava sem piedade os “povos estrangeiros, particularmente os ciganos e os judeus”. 














         

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Pessoalmente, ao que parece, Kahn era um ser complexo, como as máquinas que desenhava. Sempre que se via acossado ou em perigo, fechava-se e escrevia, escrevia. Escrevia sem parar, horas a fio. Fê-lo nas trincheiras da Grande Guerra, para onde foi como médico; na casa de banho do seu gigantesco apartamento de Berlim, quando os nazis o começaram a rondar, ameaçadoramente; no campo de concentração em França, onde foi detido sob a acusação de espionagem. Um ser complexo e até desprezível. Senhor de um enorme magnetismo pessoal, era cheio de si, um exímio contador de histórias efabuladas, um sedutor e mulherengo que tratava as mulheres como objectos, exactamente como as máquinas que desenhava. Para ele, uma mulher deveria funcionar com uma precisão mecânica: servir-lhe de assistente, fazer investigação em bibliotecas, secretariá-lo, tratar-lhe das finanças e, se possível, cuidar da casa e do jantar. De igual modo, não ligava aos que não lhe interessavam para a concretização dos seus projectos, sendo muito pouco atento a filhos e netos. Mesmo do ponto de vista científico, não primava pelo rigor. O que lhe interessava, acima de tudo, era a popularidade – o que só seria alcançado se as pessoas gostassem e compreendessem os seus desenhos educativos, ao mesmo tempo complexos e simples. Uma vez, quando lhe apontaram erros nos seus trabalhos, respondeu: “Está bem, podem estar errados, mas as pessoas percebem-nos!”. Era só isso o que importava. Entrementes, interessou-se pela teoria da relatividade e pela filosofia oriental, não sendo por acaso que valorizava nesta a ideia de unidade entre todas as formas de vida. Mas, paradoxalmente, defendia o uso da Medicina como arma de guerra e fez a apologia da terapêutica hormonal como forma de a Humanidade alcançar a felicidade e a perfeição eternas. Em vida, teve grande sucesso, com uma bela casa em Long Island e nome a figurar na lista do Who’s Who. Em 1956, decide regressar à Europa, fixando-se na Suíça. Mas, de quando em quando, fazia périplos pelo solarengo Mediterrâneo. Em 1960, em Agadir, passou por uma estranha e horripilante peripécia: ao que parece, caiu num sarcófago, onde ficou encerrado horas a fio, no iminente risco de a tampa se fechar a todo o instante. Causou sensação por isso, sendo entrevistado para a televisão norte-americana. O cônsul da Dinamarca encaminhou-o, e à mulher Ellen, para esse país, onde residiu durante uns tempos. Entrou no ocaso. Na Dinamarca, os seus livros foram arrasados pela crítica, sendo objecto de escárnio. Com 79 anos, muito debilitado, decidiu viajara até Ticino, onde morreu contemplando um esplendoroso cenário alpino. “Rodeia-te de beleza…”, era a máxima de vida de Fritz Kahn. Morreu fiel a ela. 
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Fritz Lang, Metropolis, 1927

Kraftwerk, The Man-Machine/Die Mensch-Maschine, 1978
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Apesar de ter sido esquecido durante muitos anos, a influência de Fritz Kahn é imensa e tem sido objecto de crescente interesse. Não terá sido o primeiro a retratar daquele modo o corpo humano, mas fê-lo de uma forma extremamente cativante, imediatamente apreensível para o cidadão comum e simultaneamente sedutora para os criadores artísticos. Fritz Lang inspirou-se nele quando realizou Metropolis e os Kraftwerk produziram em 1978 o álbum The Man-Machine. Mais recentemente, um trailer da MTV-Brasil, de Vinicius Costa, realizado em 2007, segue de perto a obra de Kahn. E, em 2009, Henning Lederer homenageou-o, neste vídeo:
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Vídeo de H. Lederer, 2009



Ilustrações de Fernando Vicente


Nos nossos dias, o ilustrador espanhol Fernando Vicente segue de perto, em muitas das suas criações, a abordagem de Fritz Kahn. E não só a analogia corpo/máquina é explorada em vários domínios, como se encontra perfeitamente instaurada uma cultura visual do corpo, em que aspectos relacionados com a Saúde, a História da Medicina ou outros servem de modelo e fonte de inspiração. Fala-se em "corporeidade"... Até Damien Hirst foi contaminado por esta pandemia estética e académica. Sem ofensa para ninguém, talvez a versão contemporânea mais acabada de Fritz Kahn seja a obra de Gunther von Hagens (n. 1945), o controverso mestre da plastinação de cadáveres importados da China. Agora, todas as máquinas, até as humanas, vêm da China. Sinais dos tempos.


 António Araújo
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Viagem ao passado desconhecido
Arrumando papéis, encontro um artigo de 2009, publicado no Notícias Magazine, e que acho interessante partilhar. A visita ao antigo Couto Misto será, com certeza, uma aventura maravilhosa. E um motivo para reflectir nas "tolices" que se fazem e nas opções que, ainda podemos fazer, para valorizar o nosso património.



COUTO MISTO
Durante séculos, existiu uma pequena república na fronteira dos reinos de Portugal e Espanha. O Couto Misto foi, até há 135 anos, um Estado autónomo que é hoje uma parte de Trás-os-Montes e outra de Galiza. Podia ter sido uma Andorra, ou um Mónaco, ou um San Marino mas, por estes dias, não é mais do que um vale desolado onde cabe um punhado de aldeias, duzentas almas e um segredo fechado a três chaves. Agora, há um empresário português que quer resgatá-lo do abandono. E transformá-lo em zona franca.

A República Adormecida

Texto: Ricardo J. Rodrigues
Fotografia: Hordl Burch/Kameraphoto
Notícias Magazine, 13 de Setembro de 2009


O vale do rio Salas é profundo, tão sulcado nos montes que, mesmo no Verão, aceita poucas horas de sol. É daquelas paisagens agrestes e ao mesmo tempo húmidas, impenetráveis, íngremes ao ponto de os únicos passos que pisam as suas encostas serem os dos lobos, das cabras selvagens, de um ou outro garrano fugido da manada.
Estamos no Couto Misto, 27 quilómetros quadrados de lameiros e matos bravos entre Portugal e Espanha. O melhor sítio para observá-lo é deste lado da fronteira, numas escarpas a meio caminho entre Tourém e Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre. Está-se em Portugal e o que se avista é sobretudo chão galego. Mas, na verdade, até 1864, esta terra não era nem de uns nem de outros.
Três aldeias da Galiza – Rubiás, Santiago e Meaus. Duzentos e poucos habitantes. Um café. Quatro igrejas. Há um pedacinho de solo português, que não é mais do que um declive da serra do Gerês, no alto do qual foi instalado um parque eólico. O Couto Misto é basicamente isto e no entanto foi durante séculos uma república de pastores e rebanhos livres. As coroas portuguesa e espanhola admitiram desde a Idade Média privilégios excepcionais aos mistos até que, no século XIX, as populações votaram em referendo o reino que queriam integrar. Desde então, ovale do Salas foi-se esvaziando e hoje é uma terra envelhecida, comercialmente irrelevante, com muitas casas em degradação e uma infinidade de pastos abandonados. Aníbal Rodriguez Alvarez, 79 anos passados em Rubiás, explica tudo com um exemplo simples: “Desde miúdo até ter barba, a aldeia sempre teve mais de trezentas vacas. Pois bem, hoje são sete.”
Na raia, ainda há velhos que ouviram contar da boca dos avós as histórias do Couto Misto. Dos criminosos que enchiam aquele pedaço de mapa, escondidos da justiça peninsular. Dos terrenos arados em conjunto e de o gado de vários vizinhos sair junto para o monte, pastoreado por uma casa à vez. Dos Conselhos de homens e das eleições dos três juízes, um por aldeia. Do castelo que esteve na origem do Couto e que desapareceu para sempre, sem que ninguém se atreva a adivinhar-lhe a arcaica localização. Dos homens que vinham de fora procurar as noivas mistas, para poderem firmar raízes no terreno. Da arca fechada a três chaves onde se depositavam as leis da república.


A memória do Couto Misto foi investigada pelas universidades de La Coruña e de Trás-os-Montes e Alto Douro. Graças ao esforço dos historiadores, os limites do terreno estão demarcados, há placas sinaléticas a orientar o percurso do caminho privilegiado – por onde os comerciantes e contrabandistas podiam passar sem ser incomodados por nenhum dos dois reinos -, existe até uma estátua do último juiz de Santiago junto à igreja da terra. Mas muitas placas estão caídas ou em estado de ruína. Os placards informativos estão, na sua maioria, carcomidos pela inclemência climática do vale. O Couto Misto é uma memória cada vez mais perdida na bruma. E é precisamente contra isso que Joaquim Almeida quer lutar.
O director do principal hotel de Montalegre tem duas ideias para o Couto Misto: tornar o território uma zona autónoma em termos energéticos e ambientais e criar uma zona franca, com isenção de impostos para as empresas que aí criassem as suas sedes. “O Estado faz isso com os bancos e
com as grandes empresas. Por que não fazer o mesmo numa região que tem um argumento histórico para que tal aconteça?” Constata que o vale do Salas está cada vez mais desolado e que não seria difícil inverter a tendência. “Já discuti o meu projecto com os autarcas dos dois lados da fronteira e toda a gente acha que pode ser uma boa ideia.” Mas este, sabe-o Joaquim Almeida muito bem, não é um caso de poder local e que esperar pela intervenção de dois Estados pode demorar tempo. Mais uma vez, o futuro do Couto Misto está encaixado entre as vontades de Portugal e Espanha.

Na arca, que só abre com as três chaves dos trêsjuízes, guardavam-se as actas dos Conselhos,
 as resoluções unânimes e os documentos históricos


A arca era a lei

Uma imponência de pedra. A igreja paroquial de Santiago tem paredes lisas, com excepção dos vitrais que enrubescem um altar opulento, talhado do chão ao tecto em dourado. Tem um enorme crucifixo ao centro, uma figura de São Tiago à direita e uma Senhora do Pilar à esquerda. Mas o que é verdadeiramente surpreendente é que, galgando o púlpito e contornando o altar, se encontra uma escadaria, invisível aos olhos dos fiéis, que desce até uma câmara escondida no subsolo. Nessa cave, um espaço bafiento e mal iluminado, existe uma relíquia, uma arca antiga, de madeira de carvalho e com três fechaduras.
Dentro dessa arca estão reunidos os principais documentos que garantiram durante séculos a autonomia ao Couto Misto. Cartas dos reis de Portugal e Espanha. Mas também as actas de todas as resoluções tomadas pelos juízes da lei, os representantes eleitos de cada aldeia e governadores do Couto Misto. Esse cargo continua a existir, embora hoje tenha um papel meramente simbólico. Mas, tal como no passado, cada um dos três homens tem em seu poder uma das chaves que abrem a arca. Só as três chaves conseguem abrir o baú. O mesmo é dizer que nenhuma resolução era tomada se não fosse por unanimidade.
Cesário Gonzáles anda de roda de um tractor, nuns terrenos a norte de Santiago, a pôr estrume no pasto. É domingo e o juiz da lei da terra tem de se despachar, porque depois do almoço tem encontro marcado com José Pérez, seu homólogo em Rubiás. Sérgio Alvárez, o de Meaus, anda por Madrid a visitar os filhos e vai ter de faltar à reunião, o que significa que nenhuma decisão será por ora definitiva. Mas, na verdade, os homens não têm assuntos urgentes para debater. A única novidade é que a mulher de Cesário anda a costurar uma nova bandeira do Couto Misto, que a actual está mais podre do que uma árvore morta. O desenho é o mesmo de sempre: três estrelas dispostas em triângulo e no centro um brasão com três fechaduras.
“Trouxeste a capa, José?”, pergunta Cesário mal estaciona à porta de casa do amigo. O outro acena que sim – um cancro na laringe roubou-lhe a fala, mas estes homens conhecem-se tão bem que não precisam de palavras para conversar. Rumam a Santiago, a antiga capital do Couto Misto. “Além de estar no centro das três aldeias, é a que tem a maior igreja”, explica o juiz do pueblo enquanto desembrulha uma capa preta e a coloca sobre os
ombros. Na lapela, estão bordadas a vermelho as três chaves. “Meaus era a aldeia mais comercial, e hoje ainda é, porque tem um café. E Rubiás era a porta de entrada no Couto, porque está muito perto de Tourém, que é de Portugal, e de Randim, que sempre foi espanhola.”
Nas aldeias ainda há várias casas com um P, um E ou um X, esculpido na pedra, por cima da porta. As famílias decidiam se queriam ter nacionalidade portuguesa, espanhola ou mista (mixta, em galego) de uma maneira muito simples: no dia do casamento, o homem tinha de fazer um
brinde a um dos reis, diante de todos os vizinhos. A maioria, no entanto, não brindava e marcava o X na parede porque, em caso de delito, seriam julgados pelos três juízes do Couto. “A prisão era aqui, no forno do povo”, e Cesário aponta uma ruína de pedra invadida pelas silvas. “Os ciganos eram logo detidos, sem acusação nenhuma. Por isso é que existia um vigário de mês, que era um cargo de rotatividade mensal entre os homens do Couto, com função de vigiar o caminho privilegiado.”Siga-se então pelo caminho privilegiado. Parte de Tourém, atravessa Randim e cruza todo o Couto Misto. Apesar de percorrer os três territórios, as autoridades portuguesas e espanholas não podiam intervir
no trilho, mesmo que o viajante fosse perseguido por algum crime ou levasse contrabando. São seis quilómetros de liberdade, ladeados por carvalhos e
atravessados pelos pequenos afluentes do Salas. Alguns cruzeiros marcam-lhe a passagem. Joaquim Almeida, o empresário que quer tornar o Couto Misto uma zona franca, brinca dizendo que é uma espécie de via-sacra, “mas para o livre comércio e circulação”. Os mistos eram europeus antes de existir uma União. Em suma, uns visionários.


O país da memória

Entre Meaus e Santiago há um enorme lameiro, a que toda a gente chama “a veiga”. Foi ali que o povo do Couto Misto votou a integração na coroa espanhola, em 1864. O referendo foi cumprido segundo as leis do Couto. Um voto por família, de cajado no ar. Muitos queriam ficar do lado português mas “desde logo ficou decidido que as três aldeias haveriam de permanecer juntas, para preservar a identidade”, conta Cesário. Outras aldeias da raia passaram pelo mesmo processo, já que as linhas de demarcação fronteiriças eram ténues até ao século XIX. E, na verdade, só uma povoação escolheu ficar do lado de Portugal. É por isso que, olhando para o mapa, Tourém parece ficar na ponta de um dedo, rodeado de Galiza. Os mistos, esses, optaram por Espanha. Mas uma parte do antigo território, a encosta do Gerês, passou para as mãos de Lisboa.
“Os lameiros na zona de fronteira sempre foram pastados por vacas galegas e barrosãs”, garante Bento Barroso que, aos 87 anos, puxa dos galões de uma vida inteira passada em Tourém, a traficar contrabando entre Portugal e Espanha. “Ninguém conhece aquela zona tão bem como eu.” Seja. Durante décadas, o homem usou o caminho privilegiado (que já não oferecia outro privilégio senão o de um certo recato e do difícil acesso às autoridades) e os terrenos do que um dia foi o Couto Misto para carregar volfrâmio, azeite, bacalhau. A encosta do Gerês, que foi mista e hoje é portuguesa, nunca deixou de ser usada pelos rebanhos de Rubiás e Santiago. “Os de Meaus não, que esses estão mais longe.”
Na aldeia de Rubiás estão três velhos a imitar os lagartos. O sol presta-se a desaparecer, mas eles resistem até cair o fresco e a noite. Pastores durante
toda a vida, sempre levaram as vacas para Portugal e, garantem, aos olhos dos mistos a fronteira nunca deixou de ser um marco pouco natural. “Há quantos anos ninguém me perguntava pelo Couto Misto”, constata Enrique Veloso. “Sabe, o meu avô falava desses tempos, mas a partir dos anos 1930 foi uma conversa proibida, porque havia a Guerra Civil e esse assunto ia contra a unidade nacional.” “Ia contra o cabrão do Franco, essa é que é essa”, riposta logo Aníbal Alvárez, sentado num caixote e apoiado numa bengala, boina galega a cobrir a cabeça calva. “Em minha casa sempre me disseram que eu era misto, que o meu pai era revolucionário.”
E o pai dizia-lhe que, mesmo não sendo do seu tempo, ouvira as histórias dos homens que vinham de fora casar e estabelecer-se. “O meu avô falou de muitos assassinos espanhóis que vieram para aqui esconder-se, a pensar que não lhes acontecia nada”, começa José Rodríguez. “Mas vinham todos enganados, porque com um crime desses aos ombros eram logo recambiados para Espanha. Ou para Portugal, se fossem portugueses.” E gostariam de voltar a ser mistos, como antigamente. “Rapaz, nós somos mistos, sempre fomos”, Aníbal outra vez. “Na nossa terra, mandamos nós.”

Bento Barroso usou durante décadas o que um dia foi o caminho privilegiado para traficar contrabando

O terramoto de Lisboa destruiu os arquivos da fundação do Couto Misto e os primeiros relatos escritos datam do século XIII. Estas eram as terras da
Piconha, incluíam as três aldeias do Couto, mais Tourém e um castelo construído no Gerês, cuja localização exacta permanece uma incógnita. É certo que D. Manuel I mandou reconstruir a fortaleza em 1515 e que, três anos mais tarde, as populações de Rubiás, Santiago e Meaus se sublevaram contra o governador local, António Araújo, por causa da imposição de imposto no caminho privilegiado. O corregedor de Riba Côa, António Correia, e o alcaide-mor da Galiza, José Escalante, condenaram o governador português do castelo da Piconha e também o espanhol do vale do Salas, e acordaram que, a partir desse momento, o povo misto teria o direito a privilégios de autonomia para não ser vítima de novos abusos.
Até ao século XIX, a pequena república de pastores manteria as suas regras medievais inalteradas. Em 1810, a Junta de Armamento do Reino da Galiza recebeu uma carta do prior de Celanova, que está guardada no Arquivo Histórico da Província de Ourense, acusando o território do Couto Misto de acolher um “número infindável de moços fugidos à tropa e de criminosos de toda a espécie”. E essa queixa desencadeou o processo que levaria ao fim do Couto Misto, com a assinatura do Tratado de Lisboa em 1864.

Joaquim Almeida quer um estatuto de excepção fiscal no Couto Misto

 Hoje, o vale do Salas esqueceu a história dos homens e regressou ao seu estado primitivo, o de uma criação esmerada da natureza. É uma república esquecida, uma Andorra que nunca o chegou a ser. E, no entanto, ao falar com um grupo de velhos, homens nomeados juízes, contrabandistas ou empresários, percebe-se que a mística dos mistos ainda não sucumbiu totalmente. É o fim da tarde, o sol presta-se à despedida e inunda agora o vale do Salas de um tom dourado. Escalam-se as fragas a meio caminho entre Tourém e Pitões das Júnias, aquelas que garantem a melhor vista do Couto. E nessa altura, no exacto momento em que uma águia plana majestosamente ao longo do rio, percebe-se que a fúria de fronteiras e a cobiça territorial acabaram com um país para construir, no lugar dele, coisa nenhuma.

blog Baralha e volta a dar


UM EPÍGONO DO FASCISMO

Os Editores de ODIARIO.INFO

Um coro de elogios envolveu nos últimos dias o nome de José Hermano Saraiva. Da sua morte se falou e escreveu como se fora um exemplar herói nacional.

O Presidente da Republica, o primeiro ministro, membros do governo, professores universitários, dirigentes do PS, do PSD e do CDS, emissoras de televisão e rádio participaram no hino fúnebre, afirmando que o seu desaparecimento era uma «perda irreparável» para a cultura portuguesa. O morto foi apresentado como «notável historiador» e «grande comunicador e patriota».

O massacre mediático dissimulou a verdade sobre o homem e a obra.

Ao longo de décadas, José Hermano Saraiva nos seus programas de televisão agiu como um falsificador da História real, divulgou a versão da Historia de Portugal forjada pelo fascismo. Os seus heróis foram reis, rainhas, príncipes, fidalgos e conquistadores cuja intervenção na História foi por ele magnificada, frequentemente deformada. O sujeito real da História profunda, o Povo português, mereceu-lhe atenção menor, apareceu nos seus programas sobretudo como figurante.

José Hermano Saraiva foi um fascista convicto. Ministro da Educação de Salazar e Caetano, desempenhou um papel decisivo na repressão do movimento de contestação estudantil em 1969. E enquanto embaixador no Brasil foi ali um defensor apaixonado do colonialismo e hostilizou de múltiplas maneiras os exilados portugueses antifascistas.

Manteve até ao fim a sua opção ideológica. Numa das suas ultimas entrevistas à televisão afirmou identificar em Salazar o maior europeu da sua época.

Enganou muita gente. Mas não há floridas apologias que possam inverter a realidade: José Hermano Saraiva foi um epígono do fascismo.
 

UFF !




“FARO PERDE MILHÕES” OU "MACÁRIO DESVIA ATENÇÕES"? – COMUNICADO





Um comunicado assinado pelo Macário com o título “Faro perde milhões”, sobre um alegado “procedimento mal lançado em 2004 para o parqueamento tarifado na baixa da cidade”, foi hoje colocado no site autárquico, canal cada vez mais transformado em veículo da propaganda política do atual executivo.

Numa altura em que o Macário vem publicamente queixar-se de ter má imprensa (“Assim vai o rigor e a objetividade das notícias a meu respeito”, escreveu ontem no mesmo site), já há antigos autarcas de Faro a duvidar da oportunidade deste seu novo comunicado, que poderá servir apenas para desviar dele o holofote mediático e a atenção da opinião pública.

Seja ou não uma cortina de fumo a querer fazer esquecer os recentes acontecimentos que envolvem o exercício executivo do Macário em Faro e Tavira, aguarda-se a pronta resposta do visado pelo comunicado: José Vitorino, ex-presidente da Câmara de Faro eleito pelo PSD em 2001.

Segundo o jornal online Sulinformação, “este concurso foi lançado durante o mandato de José Vitorino e até foi um dos assuntos que aqueceu a pré-campanha das autárquicas que tiveram lugar em 2005, mas devido a discrepâncias quanto às tarifas aprovadas pela Assembleia Municipal e as que constavam do Caderno de Encargos do concurso público então lançado”.


O conto do Macário






  • PARTILHEM, discutam, debatam, ataquem, defendam…, o que quiserem!
    Concordem ou discordem, não fiquem INDIFERENTES, não deixem passar em branco sem fazer ouvir a VOSSA OPINIÃO.

    Como este texto vai ser longo (e poucos terão paciência para o ler até ao fim), começo pela conclusão:
    - No dia 21 de Julho de 2012 assistimos ao MAIOR e mais sério ATAQUE, pensado, estruturado e assumido ao FUTURO da SEGURANÇA SOCIAL em Portugal;
    - Quer concordem com a ideia de ACABAR com o modelo, quer prefiram a ideia de DEFENDER o modelo, MANIFESTEM-SE;
    - O tema é DEMASIADO SÉRIO para ser deixado a cargo dos POLÍTICOS Portugueses e dos TECNOCRATAS Europeus;
    - Quer estes senhores queiram ou não, o ESTADO é NOSSO, o PAÍS é NOSSO, a SEGURANÇA SOCIAL é NOSSA, o FUTURO é o NOSSO… de NÓS TODOS;
    - Estamos no NOSSO DIREITO de sermos NÓS a DECIDIR!

    Agora a história (vou SIMPLIFICAR os pormenores técnicos propositadamente, para que TODOS possam perceber não só o tema em questão, mas, principalmente, as consequências das acções – ou da falta delas):

    1) Começando pelo início: em Portugal existe um documento fundamental de definição da estratégia de actuação do Governo – O Orçamento do Estado.
    Este documento pode ser construído e analisado sob diversas perspectivas, quer do ponto de vista político, quer do ponto de vista económico.
    No entanto, ATÉ ONTEM (21 de Julho de 2012), existiu uma ideia ACEITE por todos os que pensaram e trabalharam este assunto: Há uma parte ESPECÍFICA do Orçamento do Estado que deve ser ISOLADA e compartimentada – O Orçamento da SEGURANÇA SOCIAL.
    Assim, as receitas do Estado (Impostos – IVA, IRS, IRC, etc… - Taxas, Coimas, etc…) são compartimentadas das receitas da Segurança Social (contribuições dos Trabalhadores e dos Empregadores – esta última designada por TSU, Taxa Social Única).
    Do mesmo modo, as despesas do Estado (Salários, Juros da Dívida, Custos de Funcionamento – rendas, viaturas, consultorias, assessorias, comunicações, equipamento militar, etc…) são compartimentadas das despesas da Segurança Social (Reformas, Pensões, Subsídio de Desemprego, Abonos, etc…).
    A razão desta separação prende-se com a necessidade de assegurar a SUSTENTABILIDADE da SEGURANÇA SOCIAL: As despesas do Estado podem (e deveriam) ser equacionadas e pensadas numa base “ano a ano” de forma a serem ajustadas aos Ciclos Económicos, e, ao contrário, uma parte significativa das despesas da Segurança Social tendem a ser perpétuas (como é o caso das Reformas: cada vez que um cidadão se reforma, a Segurança Social fica com um encargo – a pensão de reforma – que continuará a existir enquanto o cidadão for vivo, independentemente do ciclo económico ser positivo, ou negativo como o actual).
    O nosso sistema de Segurança Social (ao contrário dos sistemas de SS PRIVADA) não se baseia num modelo de capitalização (em que cada pessoa desconta para a SEU plano de reforma, para o SEU seguro de saúde, ou para o SEU seguro de desemprego). Baseia-se, sim, num modelo de distribuição, também conhecido como de “solidariedade inter-geracional” (em cada instante, TODOS os activos – trabalhadores e empregadores – contribuem para TODOS os dependentes – crianças, desempregados, reformados, pensionistas e incapacitados). Assim, há necessidade de assegurar que as contribuições dos “activos” são as necessárias e suficientes para garantir o apoio aos “dependentes”.
    Quando os ciclos económicos são positivos (muito emprego e crescimento económico) sobram verbas à Segurança Social (o contributo dos “activos” é maior que as necessidades dos “dependentes”). Neste caso o Estado não pode (E NÃO DEVE) utilizar esses recursos excedentários, mas, ao contrário, geri-los como forma de “poupança” para o futuro.
    Por outro lado, quando os ciclos económicos são negativos (muito desemprego e retracção económica) faltam verbas à Segurança Social (o contributo dos “activos” é mais pequeno que as necessidades dos “dependentes”). Neste caso as contas devem ser equilibradas por recurso à “poupança dos anos bons” e às “transferências do OE”.
    Para evitar a TENTAÇÃO de Políticos e/ou Tecnocratas pouco escrupulosos há alguns limites que têm sido aceites de não “misturar” as contas dos “impostos” com as da “segurança social”. Assim, IMPEDE-SE que, para aparentar um bom desempenho das contas públicas (nomeadamente o “famoso” deficit) se destrua o futuro da Segurança Social.
    Já agora, mesmo no seio do OE há uma regra, da União Europeia, para “travar” ímpetos aos mais “criativos no mau sentido do termo” (e não destruir o futuro para “mostrar serviço” no presente). É um exemplo disso a PROIBIÇÃO da Consignação de Impostos: é proibido criar ou modificar “um imposto especial” para uma “despesa especial”.

    2) Agora, a notícia de 21 de Julho de 2012: “A TROIKA quer obrigar o Governo a baixar a TSU e compensar (o impacto no deficit) com um aumento das Taxas mais baixas do IVA”.

    Primeiro:
    Não é obrigar o Governo, é obrigar Portugal (TODOS nós). O Governo não é uma entidade abstracta. É um conjunto de pessoas a quem os cidadãos do País atribuíram o DEVER de zelar pelos interesses, presentes e futuros, da comunidade.

    Segundo:
    Não se podem consignar Impostos. Quer concordemos ou não com a baixa da TSU, generalizada ou pontual, com ou sem regras de impacto nos preços, não se pode “atribuir uma parte do IVA” para “compensar a baixa da TSU”.

    Terceiro (e MAIS IMPORTANTE):
    Viola-se, pela primeira vez, a “regra fundamental” de não “misturar” as contas da SEGURANÇA SOCIAL (com características de perpetuidade) com as contas do Orçamento do Estado (com características pontuais – anuais).
    E aqui reside o principal problema: As contas do OE e, principalmente, o seu controlo e correcta gestão (previsão, monitorização e reacção) são um instrumento do Governo e, principalmente, uma forma de aferição da qualidade da governação (NUM SÓ ANO).
    Ao contrário, as contas da Segurança Social, são NOSSAS, do NOSSO FUTURO, não podem estar “à disposição” de cada um dos Governos.
    Quando isto acontecer, a Segurança Social, como a conhecemos, deixa de ter capacidade para subsistir e está pronta para PRIVATIZAR.

    3) Conclusão:
    Duvido que alguém tenha tido a paciência de ler este “texto de explosão de alma” até ao fim.
    Termino da mesma maneira que comecei: Estamos perante uma DECISÃO encapotada, que está a ser imposta: PRIVATIZAÇÃO da SEGURANÇA SOCIAL.

    Que ao menos tenham a coragem de a ASSUMIR e DEBATER publicamente. Se ficarmos calados, o DEBATE nunca acontecerá
    Carlos Paz