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segunda-feira, 18 de junho de 2012

BEAUTIFUL BLUE DANUBE!.avi -A Primeira execução pública da valsa "Danúbio Azul" obra-prima de Johan Straus filho estreou em 15 de fevereiro de 1867, num baile de Carnaval no salão de uma piscina pública.O Compositor não compareceu à apresentação. Muitos consideram a famosa valsa o hino nacional da Áustria.

Richard Clayderman - Ballade pour Adeline 1997 live

Manuel Alegre – Mais uma declaração “póstuma”




Manuel Alegre diz que a moção de censura do PCP é mais contra o PS do que contra o governo. Na verdade, o seu Seguro secretário geral também já tinha feito queixinhas da moção, porque vem na “pior altura”, porque a importância da “estabilidade política”, porque o “sentido de estado”... e mais algumas das “violentas” nulidades que costuma produzir.
Este PS de António José Seguro deveria ter vergonha de assumir tão claramente que a política do governo lacaio da troika lhe convém... mas isso seria pedir muito.
Fico preocupado. O facto de o PCP, querendo censurar o PSD/CDS ter, afinal, dirigido a moção “mais ao PS”, deve querer dizer que, muito provavelmente, sempre que apresentou moções de censura a governos do PS, acertou, sem querer, no PSD ou no CDS... uma falta de “pontaria” que ainda pode muito bem acabar numa moção de censura teoricamente contra o PS/PSD/CDS... que acerte inadvertidamente na velha Banda de Quadrazais do velho "senhor Messias"... o que seria uma enorme e injusta tragédia para uma das minhas mais remotas memórias musicais, para o património histórico dos Parodiantes de Lisboa... e para a comédia em geral.

Carminho- Escrevi Teu Nome no Vento


Uma corridinha em N.Y.


Pedro Mota Soares foi este domingo em Central Park em Nova Iorque correr, para«ajudar a promover a imagem do nosso país». O ministro percorreu os 8 quilómetros da corrida em 40 minutos e ainda subiu ao palco para entregar os prémios aos vencedores. Organizada pelo colectivo Portuguese Circle e possibilitada por patrocínios do Turismo de Portugal e algumas empresas, terminou com uma mostra de produtos, desde os pastéis de nata à bica e ao atum, ao som da tuna do Instituto Superior Técnico e da fadista luso-americana Nathalie Pires.

Antes tínhamos o Sócrates a fazer jogguings na Praça Vermelha ou na de Tiananmen sempre que saía de Portugal, agora temos o Ministro do Audi que vai a Nova Iorque. Nada tenho a opor que se apoiem as iniciativas dos emigrantes portugueses por esse mundo fora, mas faz-me alguma confusão que se continue a ver os nossos governantes a gastar dinheiro em viagens como neste caso ou quando o António Costa foi a Miami só para dar a partida da Corrida de Barcos que estacionou em Lisboa. Podem dizer que são trocos e que valem pela promoção do país, mas para quem vive com duzentos ou trezentos euros por mês é uma pequena fortuna.

Canção do Ceguinho: a lengalenga lusitana

Canção do Ceguinho: a lengalenga lusitana


Picasso - O velho guitarrista cego, 1903 
No meu quarto
Janelas semicerradas
Ouço um longínquo canto popular
Escutai agora senhores
Histórias de pasmar
No meu país há tal desalento!
Tanta dor! Tanto tormento!
Tanta falta de talento!
Tanta história sem tento!
O pai viola a nina
Doze meses menina
O galho está no acto
A viola no saco
A morrinha no sapato
Eis casos de espantar
Aqui vos estou a narrar
A filha mata o pai
Ossos de carne parca
Pra quê ambrósia
Com lixo de mal andar
Só feito pra estorvar
E a herança cansada
De tanto esperar
Uma esposa mata o esposo
Outro esposo a esposa
Tanto tédio no lar
Esgazeados de tanto estar
Anda bolor no ar
E o dinheiro a azedar
Gira a roda! Gira! Gira!
Gira a roda a arfar
Gira o caos
Gira o mundo
Modos de mal-estar
Tal inferno em vida
E o vento a rufar
Tudo a molestar
O futebol está a dar
Vacinas pró mal-estar
Mas já nem os três efes nos salvam
Deste lusitano prantear
É o fado! É o fado!
Deste povo mal-amado
O pedófilo fila o pénis
No dar a dar
De cu no ar
Dos anjinhos azuis
De mau fadar
Barrocos
Secos e molhados
A coxear
Sodoma
De pé no ar
Sodomizados de todo o mundo uni-vos
A vitória será vossa
Nesta casa pia da vida
A justiça há-de triunfar
Diz um optimista a alar
Questão a ponderar
Murmura o juiz de pau no ar
Tal o poder de mandar
Ou dos que em mim mandam mandar
Gira a roda! Gira o caos!
Gira o mundo! Tudo gira!
Giração de nervuras
E nervosos
E nevroses
E neuroses
E artroses
Não pode mais meu coração!
O aluno bate na professora
Não o ensina a voar
Nem telemóvel tocar
Um bulício no ar
Três dias de castigo
Um tempo pra vadiar
O rapaz de mau-humor
Nunca conheceu o amor
Mas na vingança do olhar
Capta maligno
A violação da vizinha do andar
Num vídeo de alarmar
As pombas do lar
No meu país há tal desalento!
Tanta dor! Tanto tormento!
Tanta falta de talento!
Nas procissões a Maria
É vê-los anjinhos a voar
Chagas mil a florir
Parecem ossadas a chorar
O Ministro palra palra
Charla charla a oposição
Todos querem domesticar o ar
Pac pec pic poc puc
Da sagrada economia
Mas a Troika veio finalmente atinar
Os novelos no ar
Dos luxos desmedidos
Das indolências do Sul
Vizinhas das Áfricas do inato preguiçar
Vem dar o que tira
Mais tira do que dá
É a crise dos mercados
É a bolha imobiliária a arrasar
Os mais pobres dos pobres
Os pobres e os menos pobres
E veio pra ficar
Até o sangue se sugar
Ou a bolha rebentar
Ou o povo se acabar
Henri Cartier-Bresson, Madrid, 1933
E as finanças dos pobres
Que têm de ser infinitamente pobres
Como ditam as escrituras dos camelos e das agulhas
Meus filhos!
A fome dos tubarões é infinda
Sede pacientes
Deixai cair os dentes
O céu com juros pagará tão penosa travessia
Que a morte vos seja bem-vinda
Já que à vida vos troikaram as voltas
Tanta dor! Tanto tormento!
Tanto plano de fomento!
A fomentar o engodo
Em Domingo Gordo
Rostos lívidos a mascarar
No logro deste Carnaval
Caretas das flores do mal
Tanta dor! Tanto desalento!
E a TV a dar a dar
Nem sim nem não antes pelo contrário
Os prós e os contras
E os politólogos
E os economistas
E os fiscalistas
E os comentadores
Todos ecos dos ecos dos ecos
Em uníssona voz coral
A encenarem com as virtudes do mercado
A expiação colectiva nas vozes e no olhar
É a vida! É a vida!
E a internet a fornicar
Transparências no teclar
É a aldeia global
E o grande olho dum novo deus
Guardião desta ordem universal
Há palavras heréticas a punir
Imagens de revolta a reprimir
Mas ninguém leva a mal
Até ao dia do Juízo Final
É entrar! É entrar!
Os bilhetes estão a acabar!
Anda euro no ar
Prós doutos no tragar
No meu país há tal desencanto
Cantos e descantes
Cantochão dos vermes da corrupção
Venham ver o sangue a escorrer
Seco do canto
Venham ver a liberdade de morrer
Por encanto
Assim de fome
Na escassez de ser ou ter
Venham turistas e diplomatas
Animais neanderthais e outros mais
Venham ver!
Esta outrora
Aldeia imperial
De papelão marcial
A arder
Antes que as cinzas
Vos ocultem o olhar 
Venham ver
Com a urgência de não
Haver mais
Nas trevas deste fado
Mais-valias a haver
Ventres fartos de as lamber
Carne vermelha branca azul negra mestiça
Arco-íris deste pedestal
Vende-se a quem der mais
Desempregados aos ais
Abutres asados
Outros mesmo desasados
Esvoaçam todos na gula
Dos saldos da carne de trabucar
Praças de jorna na moda
São os mercados neoliberais
Picasso - Os pobres à beira do mar, 1903
A fome é tanta
É comer e chorar por mais
Caviar e peixe cru
Champanhe e pitéus de truz
Lagostas e avestruz
Sempre os mesmos a enfardar
Aos outros o fardo da morte em vida
Severa e Severina
Venham ver
A esfíngica face a olhar
As ocidentais borras de maresia
Cruzes doridas tal o vergar
Na névoa
A diluir
A rebeldia do olhar
Resignado rebanho à beira-mar
Ao ritmo dos queixumes
Quem manda em tal demanda?
Quem manda é o pastor das almas mortas!
Turner - Mar encrespado com naufrágio, 1840-1845
  
Venham ver!
Venham ver!
Melhor que pão e circo
Que odor a mirto
O escarro ocidental
Último poiso neanderthal
Na indecisão da merda e do mar
Tágides mungindo nosso destino
Todos filhos da mesma mátria
Da mesma pútria
Que tais filhos pariu
Madrasta madre de todos nós
Não há mama pra ninguém
Salvo seja!
Salvo seja!
Menos para alguns
O leite derrama-se todo prá bocarra
Dos infantes eleitos
Preclaros artífices do golpe de mão
Familiares antigos desta nova inquirição
Volta Nobre
Estás perdoado
Que desgraça nascer em Portugal!
O pior está ainda pra vir
No barranco pior que os cegos de além-mar
Bem agoiravas Camilo Pessanha
Eu vi a luz em um país perdido!
Perdidos para sempre
Pior que nas turbulências do mar
Pior que o escorbuto ou comer as solas do andar
Nas Naus Catrinetas do nosso marear
Victor Hugo -  Ma Destiné, 1857

País à vela panda
Anda ver isto ó Miranda!
Que as nações tolas são mistérios
E nós rumamos para o infinito do nada
O mar morto de ver tal odor
Empesta o ar
Com tal fulgor
Casinos bordéis e greens à beira-mar
Até D. Sebastião estonteia
Com a heroína
À porta da nossa Hora
E as violas tangem Quibires a golfar
Foi-se a paz
Foi-se a guerra
Foi-se o sangue a terra e a guelra
Foi-se Santiago e São Jorge
Heróis do mar
Foi-se o Botas e o Demótico
Foram-se as jóias do mar
E as do futuro do nosso passado
Efémeras miragens do nosso navegar
Só os mortos e os loucos ficaram a boiar
Orientes nas órbitas vazias do olhar
Nem rei nem roca pra fiar
Tudo disperso nada inteiro
A não ser a bola de pilhar
Os destroços dos desejos
Destas almas a piar
Águas bentas
Na poluição do desalento
Courbet -  A onda, 1869

Um profeta ainda clama
É a hora de segar e martelar
O salso fundo do luso ar!
Mas o nevoeiro é tão denso que cega até os olhos do mar!
E aqui se encerra esta história de pasmar!
Annie Leibovitz -  The Wizard of Oz, 2005
PS - Este cantor popular, em andanças pelas ruas da cidade, apesar da cegueira e da sua cultura rudimentar, manifesta nos seus versos alguns ecos das vozes de António Nobre, Camilo Pessanha e Fernando Pessoa. Certamente escutou nas noites de vagabundagem alguém que solidariamente lhe leu alguns versos destes poetas. Na sua genuína inocência transfigurou-os de acordo com o seu jeito peculiar de cantar os males deste mundo.




Faça o teste: O REI VAI NU?

Teste os seus conhecimentos sobre os reizinhos que nos controlam, contra nossa vontade. Se não souber nenhuma resposta, parabéns. Candidate-se a comentador televisivo, ou mesmo deputado de um dos partidos que nos submetem à “troika”. Não fará pior figura que os srs. Coelho, Portas ou Seguro. Basta repetir de forma assertiva o que dizem os do grande capital, considerar as questões que se seguem ou verdades absolutas ou inquestionáveis mistérios da teologia.
Se souber as respostas – pode encontra-las neste blog, por ex. – paciência, os “tachos” não são para si. Integre-se na próxima manifestação de repúdio pelos “reizinhos que nos querem controlar e lembre-se de António Gedeão : “Não há machado que corte a raiz ao pensamento / porque é livre, livre como o vento".

1 – Por que será um tragédia para a “Europa” a Grécia sair da zona euro, se o seu PIB representa apenas 2% dessa zona?
2 – Por que é que países que não adoptaram o euro, como a Dinamarca e a Suécia, estão bem melhor que os países da zona euro?
3 – Por que é que a Noruega, que não faz parte da UE está bem melhor que os países da UE?
4 – Por que é que a Islândia que decidiu não resgatar bancos falidos, nem pedir empréstimos a nenhuma “troika”, mas sim prender e julgar políticos e banqueiros responsáveis, tem crescimento económico triplo da média da zona euro?
5– Por que é que Portugal desde que adoptou o euro, tem de média anual do crescimento económico entre 2000 e 2012 menos de 0,2% , absoluta estagnação?
6 – Por que é que é necessário os povos fazerem sacrifícios para dar “confiança aos mercados”?
7 – Qual a vantagem dos mercados financeiros controlarem os governos em vez dos governos controlarem os mercados financeiros?
8– Por que é que quando os mercados foram desregulados os países entraram numa crise sem fim à vista, se isso conduziria à máxima eficiência económica?
9– Por que é que dizendo que as privatizações e as exportações são a salvação da economia, quanto mais se privatiza e mais se exporta maior o endividamento e o desemprego?
10– Que espécie de ajuda trazem as medidas da troika se o país ficou ainda pior do que já estava?
11– Por que é que quanto mais se alterou a legislação laboral para reduzir salários e facilitar despedimentos, com o argumento de promover a criação de emprego, mais aumentou o desemprego?
12– Por que é que ter emprego com salários abaixo do nível de pobreza e sem direitos é considerado – pelo sr. António Borges, por ex. – um progresso?
E agora a pergunta que é moda designar como a “million dollar question”:
14– Por que é que o BCE não financia os Estados, empresta aos bancos a 1% (juro negativo em termos reais) , e estes emprestam aos Estados 5, 6, 7, 8%, como melhor acham?

Génio de capitalistas espreme trabalhadores portugueses


Não, o título deste post não é uma tentativa de fazer um trocadilho com os chorudos ordenados dos jogadores de futebol, já que estes, ao que me dizem, dependem exclusivamente do “mercado”... e eu, como vai sendo sabido, não entendo bulhufas deste tipo de “mercadorias”.
Sendo assim, o meu título não é um trocadilho, ou uma piada, mas sim o melhor comentário ao título do CM que vem logo abaixo da festa da bola, dando-nos conta dos 605 mil portugueses que sobrevivem com o Ordenado Mínimo Nacional. Sobretudo, com a parte da capa que, em letras mais pequenas, nos diz ter esse número de portugueses ainda mais violentamente explorados do que a média aumentado para o dobro (*), em apenas quatro anos.
Haveria muito para dizer sobre esta realidade... mas nunca um trocadilho ou uma piada!
* Notícia um pouco mais desenvolvida na "Agência Financeira", já que a notícia do "Correio da Manhã" é exclusiva da edição em papel, pelo menos até ao fim do dia.


Posted: 18 Jun 2012 07:07 AM PDT
O prémio Nobel da morte 
por José Miguel Arrugaeta [*] 

O prestigioso diario New York Times costuma verificar minuciosamente suas fontes e contrastar por várias vias as informações que lhe transmitem, assim como não torná-las públicas até demonstrar que são efectivamente verídicas. Contudo, a grave acusação a que me refiro não recebeu desmentido por parte da Casa Branca nem suscitou ameaças de litígio legal e só provocou um embaraçoso silêncio confirmatório, bem como o desinteresse cúmplice de numerosos media internacionais.

A reportagem jornalística assegura que Barack Obama aprova directamente os nomes das pessoas que devem ser "neutralizadas", por constituírem um perigo para a segurança nacional do seu país, em qualquer parte do mundo. Estas sentenças extrajudiciais letais, e não recorríveis, são tomadas pelo presidente, mediante video-conferências, depois de ouvir as recomendações de um painal de uma centena de especialistas que analisam as biografias dos objectivos vivos. A tarefa de seleccionar as vítimas, e executá-las em caso positivo, cabe, segundo a informação, à CIA nos casos do Afeganistão e Paquistão, e ao Pentágono quando se trata do Iémen e zonas vizinhas.

Este poder sobre a vida e a morte, reservado aos antigos deuses e imperadores, foi dado ao líder norte-americano em virtude, se é que se pode usar esta palavra, de várias ordens presidenciais emitidas pelo seu antecessor George W. Bush, em plena histeria pós 11 de Setembro. Estas autorizavam a utilização de execuções extrajudiciais, a tortura e os maus-tratos em interrogatórios e o sequestro de pessoas na luta contra o "terrorismo internacional". E é a partir desta aberrante cobertura legal, totalmente unilateral e incontrolável, que se armou esta espécie de
"Operação Condor" actualizada (e os latino-americanos sabem bem, à força de desaparecidos, a que me refiro) que deu lugar a uma longa lista de assassinatos ou a uma extensa e mundial rede criminosa de sequestros com os seus consequente centros clandestinos de detenção e tortura – da qual Guantánamo é apenas a ponta do icebergue. O actual presidente norte-americano, pelo que se vê, não só não aboliu as citadas resoluções como também, como se fosse O Padrinho, de Coppola, ocupa-se pessoalmente de dirigir esta espécie de sindicato do crime. Trata-se na realidade de uma verdadeira organização terrorista internacional, terrorismo de estado no seu conceito mais puro e autêntico.

Não sei se depois de tomar decisões tão mortais e tão sérias este homem, evidentemente afável, de palavra fácil e sorriso agradável, ungido, pelo que se lê, com o poder sobrenatural de conceder o direito à vida ou à morte, pensará, ainda que por um breve e efémero instante, nas consequências mais que previsíveis das suas decisões. Refiro-me ao que cinicamente os seus porta-vozes oficiais denominam "danos colaterais", ou seja, que para abater um suposto inimigo haja que bombardear, ponhamos como exemplo, uma festa de casamento, uma aldeia ou um mercado, e que em reiteradas ocasiões a longa lista de vítimas inclua crianças, mulheres, anciãos. O já bem conhecido e constante reconhecimento por parte do exército dos EUA de "erros" em bombardeamentos com aviões não tripulados, conhecidos como drones, e os consequentes pedidos de desculpas revelam portanto, neste contexto, a sua verdadeira natureza. Simplesmente não há erros, matam-se civis e inocentes conscientemente e isto é só a parte suja e desagradável de uma "política". Uma política dirigida e verificada directamente pelo presidente dos estado-unidenses.

É de supor, pelas referências publicadas no New York Times, que os objectivos humanos perseguidos são pessoas de organizações ligadas a essa nebulosa que se conhece como Al Qaeda, ou de grupos afins a esse mundo. Neste sentido, torna-se mais que oportuna sublinhar que numerosas provas e documentos demonstram que estas organizações e personagens foram apoiados, financiados e armados, durante as décadas de 70 e 80 do século passado, pelos próprios norte-americanos e seus aliados, as monarquias autocráticas do Golfo Pérsico, como ferramentas da guerra fria anti-soviética no mundo muçulmano. O resultado foi algo assim como os corvos que acabam por bicar as mãos que lhes deram de comer.

Contudo, pressupor limites, regras e zonas territoriais nesta política criminosa, ou que todos são da Al Qaeda, pode resultar tão escorregadio e equívoco como tentar entender os arrevesados caminhos pelos quais muitas vezes transitam os chamados serviços de inteligência e seus sórdidos argumentos de segurança nacional ou assuntos de estado. Para além de constatar que o governo estado-unidense, sob a plena responsabilidade do seu presidente de turno, viola constantemente a soberania de países com os quais mantém relações, inclusive relações boas, como o Paquistão, Iémen ou Afeganistão (e quem sabe quantos mais), ou que comete crimes de lesa humanidade contrariando normas e tratados internacionais, com a anuência (e certamente com a necessária participação) de uma boa parte dos seus aliados europeus e organismos internacionais, a responsabilidade pessoal do sr. Obama sugere-me muito mais dúvidas do que certeza. Na minha mente, adestrada em questionamentos, acumulam-se muitas perguntas até agora sem respostas. Contudo, estou certo de que os documentos, que desclassificarão dentro de alguns anos, nos esclarecerão adequadamente todas as incógnitas – ainda que nessa altura já será demasiado tarde para todos. Para amostra, bem valem as revelações a posteriori de que a CIA praticou profusamente o magnicídio, leia-se o assassinato de dirigentes e líderes internacionais, supostamente inimigos dos EUA, nos anos 60 e 70 do século XX por ordem das suas autoridades máximas.

As atribuições (i)legais de Barack Obama referem-se só ao sistema planetário da Al Qaeda ou incluem outras organizações e pessoas que nada têm a ver com esse mundo? Os inimigos a abater também podem ser autoridades e sistemas políticos de países e nações? Mais concretamente, Barack Obama autorizou pessoalmente o derrube e assassinato de Muammad Al Kadafi? O presidente deu sinal verde para abrissem a caixa de Pandora (aquela que contem todos os males) na Síria? Autorizou ou deu aprovação aos seus eficientes serviços para que organizem planos de magnicídio ou derrube de regime contra dignitários latino-americanos inamistosos, incómodos ou indomáveis, como por exemplo o presidente venezuelano Hugo Chávez ou o equatoriano Rafael Correa (que diversos meios de inteligência estado-unidenses consideram o cérebro – velado – da rebelião latino-americana)? Este Nobel da Paz deu sua anuência a Israel (ainda que tenha sido com um ligeiro gesto de cabeça) para o assassinato selectivo e contínuo de cientistas iranianos vinculados ao programa de desenvolvimento civil da energia nuclear...? Perguntas e mais perguntas, dúvidas, interrogações com respostas certamente comprometedoras, questionamentos todos muito legítimos à luz das revelações do New York Times e do que a história contemporânea dos EUA nos ensina.

Finalmente, não sei o que admirar mais neste concurso de cínicos e malditos amparados no seu poder absoluto e portanto na impunidade: se a íntima foto familiar que se tira a Barack Obama depois de mandar "matar", a "sempre sincera" preocupação de Hillary Clinton pelos direitos humanos, dos humanos que vivem em lugares contrários e sempre distantes como China, Irão, Rússia, Síria, Cuba... ou as últimas desculpas dos porta-voz militar gringo de turno pelas crianças e mulheres mortas "acidentalmente" em alguns desses escuros e remotos lugares do mundo, onde segundo eles residem os maus deste filme.

Proponho muito sinceramente que a Academia sueca institua o Nobel da Morte e do Cinismo. Candidatos é que não faltam nestes tempos e já tenho uma lista de propostas encabeçada muito (in)dignamente por Barack Obama.



[*] Historiador



O original encontra-se em


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