AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

vídeo com apoiantes femininas do Euro 2012

digite no seu motor de busca o seguinte :  Making Of... Especial Euro 2012 on Vimeo

O "Fim da História"

ou

 A Ideologia Imperialista da “Nova Ordem Mundial”


Luiz Marcos Gomes

A grande maré capitalista que tomou conta do mundo, particularmente após a derrocada dos regimes estabelecidos nos países do Leste europeu e na extinta União Soviética, não significou somente a explosão das propostas neoliberais nos terrenos econômico e político. Implicou, também, uma ofensiva sem precedente da ideologia burguesa-imperialista visando à conquista dos corações e mentes em escala mundial. Uma das manifestações mais emblemáticas dessa ofensiva foi, primeiramente, o artigo, aparecido ainda em 1989, com o título "O fim da história" e, posteriormente, em 1992, o livro “O fim da história e o último homem”, ambos do norte-americano Francis Fukuyama1.
O esforço principal de Fukuyama, que tem provocado grande repercussão, foi o de tentar elaborar uma linha de abordagem da história, indo de Platão a Nietzsche e passando por Kant e Hegel, a fim de revigorar a tese de que o capitalismo e a democracia burguesa constituem o coroamento da história da humanidade, ou seja, de que a humanidade teria atingido, no final do século XX, o ponto culminante de sua evolução com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes.
Para ele, este século viu, primeiramente, a destruição do fascismo e, em seguida, do socialismo, que fora o grande adversário do capitalismo e do liberalismo no pós-guerra. O mundo teria assistido ao fim e ao descrédito dessas duas alternativas globais, restando apenas, atualmente, em oposição à proposta capitalista liberal, resíduos de nacionalismos, sem possibilidade de significarem um projeto para a humanidade, e o fundamentalismo islâmico, confinado ao Oriente e a países periféricos. Assim, com a derrocada do socialismo, Fukuyama conclui que a democracia liberal ocidental firmou-se como a solução final do governo humano, significando, nesse sentido, o "fim da história" da humanidade.
Fukuyama não contrapõe a chamada democracia liberal somente ao socialismo, mas também a uma miríade de regimes autoritários de direita que entraram em colapso e que, de acordo com ele, acabaram adotando, em maior ou menor grau, o modelo da democracia liberal. Na América Latina, aponta o caso das ditaduras na Argentina, no Brasil e no Chile. Na Ásia, lembra o fim do regime De Ferdinand Marcos, em 1987, e sua substituição peio governo de Corazón Aquino. Na África do Sul, cita a libertação de Nelson Mandela pelo governo de maioria branca de F.W. de Klerk e a busca de um governo de co-participação de brancos e negros. Tudo, segundo ele, com muitas variantes, mas sempre no rumo de um modelo de democracia liberal. Liberalismo, para Fukuyama, e o regime fundado, no terreno político, na democracia burguesa e, no terreno econômico, "no direito de livre atividade econômica e troca econômica, baseado na propriedade privada e nos mercados".
Em suma, ao longo do século a democracia liberal teria superado os "totalitarismos" de direita e esquerda, e também quaisquer outras variantes autoritárias, e triunfado como o regime mais adequado ao progresso e à liberdade humana. As propostas que restam hoje em contraposição à democracia liberal estão na defensiva, e representariam o conservadorismo e o atraso. Veja-se, por exemplo, diz Fukuyama, a situação dos países que permanecem socialistas, como China, Cuba, Coréia do Norte e Vietnã. Para ele, "embora o poder comunista persista no mundo, deixou já de refletir uma idéia dinâmica e atraente. Hoje, os que se dizem comunistas empenham-se numa luta contínua de retaguarda para preservar alguma coisa da sua posição e do seu poder. Os comunistas encontram-se na posição nada invejável de defender uma ordem social ultrapassada e reacionária, como os monarquistas que conseguiram sobreviver até o século XX".
Passando por cima da realidade histórica mais banal, Fukuyamama desconsidera o fato evidente de que o fascismo somente se explica se ligado intimamente ao capitalismo monopolista e às suas crises, da mesma maneira que o surgimento de um conjunto de regimes ditatoriais e fascistas na América Latina, no decorrer dos anos 70, foi a expressão política da forma de desenvolvimento capitalista ocorrida nesses países. (Ou seja, foram regimes que sufocaram a democracia burguesa, reprimiram os movimentos populares, recorreram à tortura como método normal de ação, tudo para garantir a acumulação capitalista num modelo de desenvolvimento associado ao capital financeiro internacional que, por seu lado, garantiu a esses países o apoio político necessário.) O que seria da ditadura militar brasileira, que operou um dos mais famosos ciclos de expansão capitalista na periferia, entre fins da década de 60 e começo dos anos 70, período conhecido como "milagre brasileiro” sem o incentivo e o suporte dos Estados Unidos (inclusive na preparação e desencadeamento do golpe militar)?
No complexo processo de desenvolvimento capitalista, a concorrência se transforma no seu contrário, o monopólio, da mesma forma que a democracia burguesa se transforma na ditadura fascista, num regime policial de terror, onde o capital monopolista finalmente consegue implementar as mudanças a ferro e a fogo para romper a crise e reiniciar um outro ciclo de expansão. Senão, como explicar os regimes fascistas surgidos na Itália, Alemanha e Japão, após um período histórico de crises vivido por todos esses países? Em seguida, essas potências capitalistas "renovadas" aguçam suas contradições com as "antigas" potências dominadoras do cenário mundial, surgindo, então, os conflitos mundiais como a 2a Grande Guerra, que, de início, não foi mais do que uma guerra imperialista pela repartição do mundo, uma guerra pela disputa de mercados, de colônias, de zonas de influências. Fukuyama parece ter tanto receio e dificuldade de encaixar o nazi-fascismo em sua teoria que tenta apresentá-lo como uma espécie de pesadelo característico de uma época específica, que dificilmente se repetirá.
É uma de suas afirmações mais gratuitas e perigosas, pois é como se quisesse se livrar rapidamente do monstro fascista apenas fazendo uma profissão de fé de que se trata de fenômeno histórico isolado e superado, e não de uma ameaça permanente que pode ressurgir das entranhas de seu liberalismo baseado na propriedade privada e nos mercados. Diz ele sobre a Alemanha nazista: "Inclino-me a aceitar o ponto de vista de que o Holocausto foi tanto um mal único quanto o produto de circunstâncias históricas também únicas, que convergiram na Alemanha nas décadas de 1920 e 30. Essas condições não somente não estão latentes na maioria das sociedades desenvolvidas como também seria difícil (embora não impossível) reproduzi-Ias em outras sociedades no futuro".
No fundo, o que Fukuyama quer nos impingir é a idéia de que a humanidade já estaria livre de fenômenos como o nazi-fascismo, uma vez que esse tipo de barbárie não mais seria condizente com o estágio atingido pela humanidade na pós-história. Sua teoria não é mais que uma completa falácia para um mundo dividido entre exploradores e explorados, entre nações super-ricas e superpobres, no qual a massa dos excluídos dos frutos do progresso e da civilização se conta aos bilhões, ou seja, um mundo em que as bases objetivas para o surgimento de regimes terroristas e de guerras interimperialistas continuam dadas. Além disso, basta olhar, por exemplo, o aumento da onda fascista em países como a Alemanha e a França, que enfrentam situações de crise e de desemprego, e onde crescem as agressões e os atentados contra os migrantes pobres, vistos pelos neofascistas como praga perturbadora ao projeto de uma Europa rica e próspera (evidentemente não para todos que hoje vivem lá, mas somente para alguns "escolhidos" em função de sua nacionalidade ou etnia). Para dar consistência filosófica às suas teses, Fukuyama foi buscar em Hegel os fundamentos para sua teoria do "fim da história". Hegel acreditava num direcionamento da história da humanidade no sentido da evolução e do progresso. Para ele, a história humana era a realização progressiva da sua "idéia absoluta". Ao mesmo tempo, Hegel acreditava que haveria um "fim da história" - não no sentido de que, com a construção de uma sociedade superior e livre, a história da humanidade iria terminar, pois ela seria a manifestação da realização plena da "idéia absoluta". Fukuyama se apóia nessa concepção e no fato de Hegel considerar que a "história" havia terminado em 1806, depois da batalha de Iena, com a vitória de Napoleão sobre os prussianos.
Com isso, segundo Fukuyama, "Hegel estava dizendo que os princípios de liberdade e igualdade, bases do Estado liberal moderno, haviam sido descobertos e postos em prática na maioria dos países adiantados, e que não havia princípios ou formas de organização social e política alternativas superiores ao liberalismo".
Pode-se até compreender, do ponto de vista histórico e dentro da tradição dos grandes sistemas da filosofia clássica alemã, a perspectiva de Hegel, que conduziu a filosofia idealista a um de seus ápices. Hegel, como todos os filósofos de seu tempo, recebeu os poderosos influxos da Revolução Francesa de 1789, que efetivamente descortinou novos horizontes para a humanidade, ao derrubar a monarquia e o feudalismo. Napoleão, por seu lado, representou, para a intelectualidade progressista da época, a possibilidade de estender as conquistas da Revolução Francesa aos países da Europa ainda controlados por forças feudais e retrógradas. Assim, ao derrotar, em 14 de outubro de 1806, os prussianos nas batalhas de Iena e Auerstadt, os exércitos napoleônicos destruíram o ancien regime na Alemanha. Repetimos ser compreensível o sentimento de Hegel a respeito desses acontecimentos, que revolucionaram a ordem nacional e mundial da época. A burguesia ainda era uma força revolucionária triunfante e liderava as transformações sociais. O proletariado ainda não havia entrado em cena, não havia ainda elaborado a sua própria concepção política. Era difícil conceber uma igualdade melhor do que a burguesa. O ponto de partida não era o regime capitalista (e sua crítica), mas o regime feudal.
Quase trezentos anos depois, no entanto, é completamente anacrônica a repetição dessas idéias, fenômeno só explicável por esse verdadeiro "porre" de ideologia capitalista que explodiu após a derrocada do Leste europeu. Como apregoar a excelência do capitalismo e da democracia liberal, se deles estão excluídos mais de dois terços da população do globo terrestre? Como tomar como coroamento da história da humanidade um regime que acirra as contradições sociais no interior dos países que mais encarnam o liberalismo, como os Estados Unidos? Como tomar como paradigma para a humanidade um sistema de vida que não pode ser estendido ao conjunto da população mundial?
O padrão de vida vigente nos países capitalistas adiantados só é possível em virtude de estar restrito a uma minoria. Como observa o historiador inglês Perry Anderson3, o privilégio de uns poucos requer a miséria de muitos, para ser sustentável. Segundo ele, "menos de um quarto da população do mundo detém atualmente 85% da renda mundial, e a diferença entre as participações das zonas avançadas e atrasadas ampliou-se ainda mais nos últimos cinqüenta anos". E observa que "nos anos 80, mais de 800 milhões de pessoas - mais do que as populações da Comunidade Européia, Estados Unidos e Japão somadas - tornaram-se ainda mais excruciantemente pobres, e uma em cada três crianças passava fome".
O que se pode ver e que o sistema capitalista - essa fantástica acumulação de riqueza nas mãos de uma parcela cada vez mais reduzida - está levando ao paroxismo a marginalização e as desigualdades sociais. Nos Estados Unidos, as manifestações explícitas de crise social - como os conflitos ocorridos em Los Angeles em abril e maio de 1992 - são de assustar os mais otimistas, exceto Fukuyama, que não entra na análise dessas questões, e prefere repetir a tese fácil de que tudo isso é simples acidente de percurso numa sociedade como a norte-americana. Mas não é o que os fatos revelam. Atualmente, cerca de 36 milhões de pessoas nos EUA (ou 14,7% da população total) vivem na pobreza4. Esse percentual era de 11% em 1970. Esse crescimento é resultado de um conjunto de fenômenos como crise econômica, desemprego, mudança do perfil tecnológico da indústria e anos seguidos de administração republicana (governos Reagan e Bush). Esta, de acordo com o receituário neoliberal, reduziu drasticamente os recursos destinados a programas sociais. O impacto dessa crise sobre a população pobre e negra é impressionante, com suas seqüelas de desagregação familiar, aumento do consumo de drogas, disseminação de doenças como a Aids e aumento da criminalidade.
Esse caldeirão de repente explode, como aconteceu na cidade de Los Angeles em 1992. Os distúrbios sociais se seguiram à absolvição, por um tribunal integrado por brancos, de um grupo de quatro policiais brancos que haviam agredido um negro, em março. Os protestos contra o veredicto se transformaram numa onda de saques e destruição generalizada. Após alguns dias, foram computados os resultados: 58 mortos, mais de mil prédios destruídos, prejuízos de mais de 1 bilhão de dólares. Os analistas procuraram mergulhar nas causas dessa tremenda crise e mostraram um país profundamente dividido entre ricos e pobres, entre brancos e negros, entre os ricos e prósperos subúrbios das grandes cidades e os seus centros miseráveis e deteriorados, entre a abundância e a pobreza. O capitalismo norte-americano há muito deixou de oferecer emprego e renda suficientes para a população. Estudos mostram que, de 1947 a 1973, a renda familiar nos Estados Unidos aumentou em 111%; nos últimos dezesseis anos, ela só cresceu 9%. Em 1970, 40% das famílias mais pobres recebiam 17% da renda nacional, enquanto os 20% mais ricos ficavam com 41%; em 1988, a participação dos estratos mais pobres reduziu-se a 15% da renda nacional, e a dos mais ricos elevou-se a 44%S. Essa face cada vez mais visível do capitalismo (mesmo em países do centro do sistema, como os Estados Unidos), ou seja, a acumulação excludente, que marginaliza parcela cada vez maior da população, para a qual o capitalismo não oferece nenhuma alternativa concreta, não merece a menor consideração por parte de Fukuyama.
Já dissemos que Fukuyama, manipulando idéias sobretudo de Platão, Hegel e Nietzsche, procura elaborar uma base filosófica para a sua tese de que a democracia liberal é o coroamento da história da humanidade. E um dos aspectos de seu livro que merece a maior atenção é aquele em que procura justificar a origem e a manutenção das desigualdades sociais entre os homens e as nações, resgatando idéias que justificam a dominação do homem pelo homem e que estão na essência da ideologia fascista. Mas talvez onde o fascismo de Fukuyama fica mais explícito é na parte em que ele analisa a questão da ordem internacional no mundo contemporâneo.
Segundo sua teoria, hoje o mundo está dividido entre os países capitalistas avançados, que representariam o "Estado universal homogêneo", e os demais países que ainda não atingiram esse estágio e que, na verdade, seriam os representantes da barbárie, significando uma ameaça para os primeiros. Ora, se a "barbárie" ameaça a "civilização", ou, para usar a terminologia mais velada de Fukuyama, se o "mundo histórico" ameaça o "mundo pós-histórico", então está criada a justificativa do uso da força por este último, para se defender legitimamente do primeiro. Ele aponta pelo menos dois terrenos de colisão clara entre esses mundos: o do petróleo e o da imigração. Diz que "a produção de petróleo continua concentrada no mundo histórico e é crucial para o bem-estar econômico do mundo pós-histórico". Por isso, ele prevê e justifica novos conflitos como a intervenção imperialista no Golfo Pérsico. No outro terreno, será necessário "conter a maré" caracterizada pelo enorme fluxo de migrantes que está indo de um mundo para outro.
A conclusão de Fukuyama é a de que a "força" continuará a ser a razão final nas relações entre esses dois mundos, ou, para usar uma de suas expressões, entre "democracias e não-democracias". E para reger essas relações, ele ataca e rechaça organismos como a ONU, que não seria uma sociedade de "nações livres", mas um ajuntamento que mistura estas últimas com ditaduras, que aceitou a "União Soviética de Stalin" inclusive com poder de veto em seu Conselho de Segurança, e aceitou também "Estados novos do Terceiro Mundo que compartilhavam pouco dos princípios liberais"...
Por tudo isso, segundo ele, na nova ordem internacional criada após o fim da guerra fria, uma liga das nações "teria que se parecer mais com a OTAN do que com a ONU (Nações Unidas) - isto é, ser uma liga de Estados realmente livres, unidos pelo compromisso comum com os princípios liberais". E completa: "Essa liga seria muito mais capaz de uma ação decisiva para proteger a segurança coletiva contra as ameaças vindas da parte não-democrática do mundo".
Eis a receita final descarada desse novo doutrinador da ideologia imperialista: quer uma "nova ordem mundial" inteiramente controlada por entidades como a OTAN, organização nascida do agressivo pacto militar firmado pelos países capitalistas avançados após a 2a Guerra Mundial para conter o avanço do socialismo.
Dessa forma, os países que representam e encarnam o "fim da história", os "países democráticos" da "pós-história" - na verdade, as atuais potências imperialistas, com os Estados Unidos à frente - ficariam de mãos livres para agir em defesa de seus interesses e perpetrar barbaridades, tudo em nome da "humanidade" e da "civilização". Onde está a diferença em relação ao fascismo? É um discurso antidemocrático, anti-socialista e agressivo, que, às vezes usando uma linguagem rebuscada, reflete o triunfalismo e a agressividade da ideologia capitalista após a derrocada do Leste europeu e da União Soviética. O livro de Fukuyama, além disso, não analisa e não derruba nenhum ponto essencial do pensamento socialista a respeito do capitalismo e da evolução histórica da humanidade. O ponto de partida do socialismo científico sobre o capitalismo e o de que este último é um regime fundado na exploração do homem pelo homem, da burguesia sobre o proletariado, sob a forma da apropriação da mais-valia, a forma especificamente burguesa de apropriação do trabalho não pago. Enquanto persistir essa relação de dominação, não se pode falar em libertação do homem. Como disse Marx, a produção capitalista significa a dominação do capitalista sobre o operário, a dominação da coisa sobre o homem, do trabalho morto sobre o trabalho vivo, do produto sobre o produtor. "Na produção material, no verdadeiro processo da vida social - pois o processo de produção é isso - dá-se exatamente a mesma relação que, no terreno ideológico, se apresenta na religião: a conversão do sujeito em objeto e vice-versa."
Esse modo de produção, que está condenado a produzir e reproduzir permanentemente tal relação social, não conduz nunca à liberdade, mas à opressão e à alienação. Essa cadeia precisa ser rompida, ou seja, os trabalhadores têm de rompê-la para se após sarem das condições de produção de sua vida material e se libertarem. Sem destruição do capitalismo, não existe o reino da liberdade, que não será o "fim da história", mas o início de uma nova era na história da humanidade. O socialismo significa um primeiro passo na superação do capitalismo e um avanço em direção ao comunismo, a uma sociedade sem classes, uma sociedade altamente desenvolvida e igualitária - não porque os homens estejam formalmente iguais em direitos e deveres, como na sociedade burguesa, persistindo entre eles a desigualdade econômica básica, fruto da exploração de uma classe por outra - mas precisamente porque as classes serão abolidas, restando apenas as diferenças individuais entre as pessoas. Nas palavras de Engels, o homem, ao tornar-se dono e senhor das suas próprias relações sociais, converte-se, pela primeira vez, em senhor consciente e efetivo da natureza. "Os poderes objetivos e estranhos que até aqui vinham imperando na história colocam-se sob o controle do próprio homem. Só a partir de então ele começa a traçar sua história com plena consciência do que faz. E só daí em diante as causas sociais postas em ação por ele começam a produzir, predominantemente, e cada vez em maior medida, os efeitos desejados. É o salto da humanidade do reino da necessidade para o reino da liberdade'." A partir daí, pode-se falar não no "fim da história", mas num verdadeiro "começo da história" para a sociedade humana.
A evolução da humanidade em direção ao reino da liberdade não se interrompeu neste final de século, marcado por tantos acontecimentos trágicos e por um aparente triunfo final do capitalismo. O historiador E. H. Carr faz uma reflexão no sentido de que a história vem sempre avançando, mas o! Prova que ninguém jamais acreditou num tipo de progresso que avançasse numa linha reta contínua, sem reveses ou desvios. Ele diz: "Há, nitidamente, períodos de regressão e períodos de progresso". Assim, este final de século poderia ser descrito como um período de regressão, de desvio, que não deve nos levar a perder o rumo do horizonte histórico da humanidade


Prisão para os políticos vigaristas, já!

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)



A política portuguesa está há demasiado tempo entregue à podridão humana engravatada. 
Descaramento. Falta de vergonha. 
Fomos governados nos últimos anos de forma incompetente com os resultados à vista. 
Tudo com a estranha complacência de quem deveria pôr um travão, com o fechar de olhos de quem supervisiona, 
com a ajuda de quem sabe contornar as leis (são eles que as "fabricam") e com o aval dos centenários poderosos de sempre. 
Banca e não só. Está na altura de limpar este país do lixo que se apoderou de quase tudo o que mexe com a vida, com o dia a dia, 
o futuro e a carteira dos cidadãos. Recomeçar de novo. O polvo é grande mas também se apanha. Doa a quem doer. 
Demagogia? Deixem-me ser demagogo só mais alguns parágrafos.
1 - Parcerias "ruinosas para os cofres do ESTADO" - diz o relatório do Tribunal de Contas sobre 
as engenharias público-privadas que o Sr. José Sócrates, 
o Sr. Paulo Campos, o Sr. Lino e o Sr. Mendonça engendraram. "Agravamento da despesa", "mais riscos", 
"oportunidade de negócios", "omissões", "benefícios sombra" 
e "falta de transparência". Epítetos usados  pelo TC para descrever o rombo que foi feito e que vamos pagar nos próximos 40 anos! 
(2 mil milhões de euros/ano já em 2013). "Contratos que não foram apresentados ao tribunal e 
que custaram mais 700 milhões aos cofres públicos". "Compensações milionárias pagas a empresas privadas". Tudo isto com os nossos impostos.
2 - Quem não quis aprovar a criminalização do enriquecimento ilícito na Assembleia da República? Quem votou contra? 
Por que razão? Qual foi o receio?
3 - Quem são os responsáveis (investigue-se, acuse-se e prenda-se se provados os crimes) pelo conluio mais do que evidente 
e perigoso entre política, banca, empresas de construção, grandes escritórios de advogados e consultoras? 
Quem ganhou/ganha com estas negociatas? 
Nomes? Tudo preso, seja quem for. Abane-se este regime podre.
4 - De que nos serve o Presidente da República? Aníbal Cavaco Silva vive em permanência, e não só quando se encontra em Singapura, 
"a 15 mil quilómetros dos portugueses". 
Pior, vive de olhos vendados em relação a tudo que se passa neste país. A começar nas maluqueiras do amigo e vizinho Oliveira e Costa 
no BPN e a acabar nas pelintrices do defunto governo socialista. Existir um Cavaco Silva ou não nem chega a ser uma questão, é uma inutilidade democrática. 
O senhor é co-responsável nesta situação, assinou as parcerias e fechou os olhos a esta gigantesca loucura.
Está na altura de investigar os meandros do lamaçal, puxar as linhas todas, deitar abaixo o que tem de cair e ajudar a erguer o que sobrar. 
Façam-no agora, porque um dia, em desespero, alguém o fará por vós. E da pior maneira.


Expresso


As autoavaliações dos amigos de Gaspar

 
Troika considera que Portugal está a cumprir o programa de ajustamento. Trata-se, na realidade, de mais umaautoavaliação, já que este é o seu governo. Trata-se de uma autoavaliação que confirma uma das principais missões do programa: consolidar uma economia sem qualquer pressão salarial, uma economia de salários cada vez mais baixos, de empregos cada vez mais precários e de desemprego duradouramente elevado. Um milhão de desempregados e rondas sucessivas de eliminação de direitos laborais consolidarão uma estrutura que diz tudo sobre o euro e o lugar das periferias. O desemprego, que duplicou em resultado da crise e da austeridade, e que já antes tinha duplicado em resultado da estagnação, o preço absurdo a pagar pela adesão a uma moeda demasiado forte, vai chegar aos 16% muito em breve. Éramos menos “rígidos” quando tínhamos, no final da década de noventa, uma taxa de desemprego de 4%? Responder a esta pergunta pressupõe uma avaliação da economia portuguesa e não esta autoavaliação.

Entretanto, o Estado vai injectar cerca de 5 mil milhões de euros de capital no BCP e no BPI, os dois principais e periclitantes bancos ditos privados, mas esforça-se por não ter todo o poder accionista correspondente nas decisões tomadas por estes bancos. É para tentar evitar esse controlo estatal, a única forma de mudar a lógica dos bancos e de garantir financiamento direccionado, que foram mobilizados os “CoCos”, títulos de dívida que só eventualmente serão convertidos em acções, que os bancos preferem. É claro que o Ministério das Finanças diz, num atabalhoadocomunicado, que os bancos vão ser muito responsáveis com este dinheiro e que vão assim poder “continuar a assegurar o financiamento das famílias e das empresas”. Continuar a assegurar, reparem, como têm feito nas condições conhecidas e com os resultados conhecidos. Neste domínio estamos perante outra autoavaliação: a da bancarrotocracia.


Dividir e desgovernar



Seria ingênuo imaginar que a corrupção e as conspirações brotaram de repente dos corredores do Vaticano: elas têm uma longuíssima tradição. A pergunta a ser feita é: por que tanta informação a esse respeito vem à luz ao mesmo tempo agora? Não se trata, decerto, de um esforço de transparência por parte do papado. Também não se trata de um deslize no uso da internet ou do trabalho de hackers, até porque as instituições eclesiásticas são conservadoras demais para fazer uso intensivo dessa ferramenta. Os vazamentos aconteceram à moda antiga, por meio de boatos e documentos em papel, ao velho estilo dos Pentagon Papers, de 1971, e do Caso Watergate, de 1973, que foram publicados em livro pelo jornalista Gianluigi Nuzzi.
Para desvendá-los, Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, nomeou uma comissão de três cardeais presidida pelo espanhol Julian Herranz, que conviveu por 22 anos com Josemaría Escrivá, o fundador da Opus Dei, escreveu um livro a seu respeito e é hoje o integrante da organização com mais alto cargo na hierarquia eclesiástica. O responsável, segundo eles, foi o mordomo do papa, Paolo Gabriele. Apanhado com documentos confidenciais e material para reproduzi-los em casa, foi preso em 24 de maio e pode ser condenado a 30 anos de prisão por “atentado à segurança” do Vaticano.
O culpado é o mordomo? É uma solução tão insatisfatória que bastou ser usada duas vezes por autores menores de ficção policial (Henry Jenkins e Mary Roberts Rinehart, nos anos 1920 e 1930) para virar piada como um dos clichês mais desgastados da história da literatura. Por mais que o Vaticano negue suspeitar de algum cardeal, não há como levar a sério a hipótese de que Gabriele – que, segundo Nuzzi, nada recebeu em troca dos vazamentos – tenha sido mais do que um garoto de recados e um bode expiatório de forças que o Vaticano não quer desafiar, pelo menos por enquanto.
O teor dos vazamentos aponta para uma luta surda entre cardeais. Um artigo de Giuseppe Nardi na revista alemã Katholisches (simpática a Ratzinger) os associa à “velha-guarda” do cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado de João Paulo II, que estaria empenhada em desacreditar a “nova”, do sucessor Tarcisio Bertone, que o substituiu em 2006. Gabriele, funcionário do Vaticano desde o papado anterior, poderia estar ligado a seus interesses.
Sodano fez uma carreira longa e em geral bem-sucedida como diplomata do Vaticano, mas se desacreditou ao aceitar presentes da Legião de Cristo e defender seus interesses. A organização e seu fundador, o padre Marcial Maciel, foram protegidos por ele e João Paulo II da primeira tentativa de investigação em 1998, mas Ratzinger a retomou ao chegar no papado e expôs corrupção, falcatruas financeiras, abuso de menores e amantes clandestinas.
A experiência de Bertone como teólogo, ex-arcebispo de Vercelli e Gênova e ex-dirigente da Congregação para a Doutrina da Fé, sucessora da Inquisição e do Tribunal do Santo Ofício, é a de um defensor da ortodoxia. Salesiano de Dom Bosco, nomeou confrades da ordem para cargos antes ocupados por diplomatas. Enquanto isso, o serviço pessoal do papa, antes prestado por freiras, passou a leigas consagradas à Memores Domini, braço do movimento Comunhão e Libertação (similar e rival da Opus Dei) que apoiou Silvio Berlusconi (Roberto Formigoni, governador berlusconiano da Lombardia, é um de seus integrantes) e milita contra a esquerda, o aborto e o casamento homossexual.

Rebeldes. Italianos vaiam o papa por calar sobre jovem desaparecida. Foto: Filippo Monteforte/AFP
O lema de Bertone é “menos diplomacia e mais Evangelho”, em consonância com a orientação do papa de consolidar um catolicismo minoritário, mas rigoroso, devoto e militante e deixar de lado a ideia (ficção, de seu ponto de vista) de uma Igreja aberta e transigente que não pretende mais que uma influência cultural difusa numa sociedade cada vez mais secularizada.
Inexperiente, a “nova-guarda” tem lidado mal tanto com o mundo laico quanto com as questões internas. Orquestrou o perdão do papa aos ultraconservadores da Sociedade Pio X, fundada pelo arcebispo dissidente Marcel Lefebvre, para ver esses menosprezarem a aproximação e alguns deles embaraçarem o Vaticano reafirmando a negação do Holocausto e a acusação aos judeus de “assassinar Jesus Cristo”.
Mais uma dor de cabeça da “nova-guarda” é a demissão de Ettore Gotti Tedeschi, presidente do Banco do Vaticano (oficialmente IOR, “Instituto para Obras Religiosas”), no mesmo dia da prisão de Gabriele. Tedeschi, ex-presidente da filial italiana do Santander e integrante da Opus Dei, foi nomeado em 2009, com apoio de Bertone, para modernizar o banco e deixá-lo em condições de cumprir os requisitos de transparência da OCDE, mas desde 2010 a Itália o investiga por lavagem de dinheiro, a partir da transferência de 23 milhões de euros do Credito Artigianato para o JP Morgan e Banca del Fucino, com intermediação do IOR e sem a obrigatória declaração de origem.
Em algum momento, as relações entre Tedeschi e Bertone azedaram. Segundo jornalistas italianos, o secretário de Estado teria se oposto a tornar retroativas as normas de transparência. Além de revelar a mediação do banco em subornos de autoridades e desvio de doações à caridade para a especulação financeira, talvez desnudasse as conexões do Vaticano com fraudes mais graves e o crime organizado. Incluindo a “loja” P2, associada ao escândalo financeiro do Banco Ambrosiano nos anos 1980 e ao assassinato do banqueiro Roberto Calvi e a Banda della Magliana, que pode ter executado o jornalista Mino Pecorelli e a adolescente Emanuela Orlandi, cujo chefe, Enrico de Pedis, foi sepultado na histórica basílica de Santo Apolinário. Bertone e Tedeschi também teriam se desentendido sobre a intervenção no falido Hospital San Raffaele, que em 2011 opôs Bertone (e a Opus Dei) a Angelo Scola, arcebispo de Milão e papabile ligado à Comunhão e Libertação, que controlava o hospital e os interesses católicos na região.
A demissão ocorreu, porém, no contexto dos vazamentos, sendo apontados, entre outros motivos, a incapacidade de explicar a revelação de documentos do IOR e o “comportamento errático” de Tedeschi. Este, por sua vez, limitou-se a declarar: “Prefiro não falar, porque diria palavrões. Tenham paciência!”
Segundo Ferruccio Pinotti, autor de livros de jornalismo investigativo sobre o Vaticano, a tática de “dividir e governar” de Karol Wojtila e Ratzinger parece ter-se voltado contra o próprio papado. Ao perseguir os progressistas e incentivar a autonomia eclesial, doutrinária e financeira das correntes conservadoras, o Vaticano parece ter deflagrado uma luta pelo poder entre Opus Dei, Comunhão e Libertação, Caminho Neocatecumenal, Legionários de Cristo e outros grupos aliados a poderosos interesses empresariais e políticos.

Freiras "feministas radicais" dos EUA contestam o Vaticano. Foto: Alex Wong/ Getty Images/ AFP
A luta foi evidenciada ao público externo quando da demissão do arcebispo Carlo Maria Viganò. Homem de Sodano e secretário-geral do Vaticano, visto como bom administrador (converteu um déficit de 10,5 milhões de dólares em um superávit de 44 milhões em seu primeiro ano, 2009) soube que seria destituído por Bertone. Em protesto, escreveu em 2011 cartas a ele e ao papa nas quais se dizia perseguido por agir contra funcionários corruptos próximos do secretário de Estado. As cartas foram vazadas à mídia e administradores atuais e passados do Vaticano convocados a negar as alegações de Viganò.
O arcebispo foi destituído antes do fim de seu mandato e “exilado” como núncio (embaixador) em Washington. Mais um erro, neste momento em que a Igreja precisaria de um defensor ativo de sua imagem nos EUA. Além dos processos por pedofilia e do conflito com Barack Obama – atacado por bispos por defender que planos de saúde, mesmo de organizações católicas, tenham a obrigação de financiar despesas com anticoncepcionais de empregados –, entrou em choque com feministas e defensores da liberdade de pensamento devido à perseguição inquisitória da Leadership Conference of Women Religious (LCWR, Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas), organização que representa 83% das 56 mil freiras do país.
Desde 1979, a LCWR pede que mulheres possam ser ordenadas sacerdotes. Na época de João Paulo II, foi simplesmente ignorada, mas em 2008 a Igreja ameaçou investigar a “vida e vocação” das freiras da organização e em 2009 o ex-Santo Ofício iniciou uma “avaliação doutrinária”, expressão moderna para uma inquisição, de suas assembleias e discussões, liderada pelo bispo estadunidense Leonard Paul Blair. Em abril de 2012, a inquisição concluiu que a LCWR contraria os ensinamentos católicos sobre sexualidade e discute “certos temas feministas radicais incompatíveis com a fé católica” e sofrerá intervenção. Seus estatutos, planos, programas e publicações serão submetidos a censura e (contra) reforma do arcebispo James Peter Sartain, líder da campanha católica contra o casamento homossexual nos EUA e administrador dos fundos da Igreja no país. Seus manuais serão reescritos e suas oradoras terão de ser previamente aprovadas por ele.
O bispo Blair também se fez notar por pedir aos católicos que negassem doações à fundação anticâncer Susan G. Komen por financiar pesquisas com células-tronco embrionárias e mamografias oferecidas pela Planned Parenthood, organização que também promove métodos anticoncepcionais e oferece abortos. A Susan G. Komen negou financiar tais pesquisas (embora não as rejeite em princípio) e chegou a suspender a parceria com a Planned Parenthood, mas voltou atrás depois de a reação negativa do público fazê-la perceber que isso lhe tiraria ainda mais doações e recursos.
Tais posturas divisivas conquistam uma minoria de entusiasmados militantes conservadores, mas aliena uma grande massa de católicos liberais ou progressistas que acreditavam na modernização da Igreja. Nos EUA, os estridentes católicos Rick Santorum e Newt Gingrich conquistaram o aplauso dos setores mais extremistas do Tea Party ao atacar os anticoncepcionais, o aborto e o casamento homossexual, mas ampliaram a rejeição de moderados e independentes ao Partido Republicano e talvez também à própria Igreja. Que, tão ciosa da moral sexual, não se incomoda quando os mesmos conservadores republicanos contrariam frontalmente ensinamentos do Vaticano contra a pena de morte e a favor do salário mínimo, da redistribuição de riqueza, do direito de associação dos trabalhadores e de serviços de saúde pública.
Essa postura rendeu ao Vaticano algumas pequenas vitórias, na forma de retrocessos legais. Quatro países latino-americanos – Chile (1989), El Salvador (1998), Nicarágua (2006) e República Dominicana (2009) – que admitiam o aborto em casos excepcionais passaram a proibi-lo totalmente, ao preço de pôr em risco a vida de mulheres e serem condenados por organizações internacionais de direitos humanos. Também pode retardar avanços em países mais relevantes, inclusive o Brasil, o México e os EUA. As derrotas têm sido, porém, mais comuns. No médio prazo, até as poucas vitórias podem se mostrar pírricas e intensificar a rejeição à Igreja, acelerar o fim dos privilégios com que ainda conta em muitos países e multiplicar suas divisões e lutas internas.
Exagero? Em 2009, a Bélgica censurou formalmente o Vaticano pela condenação do uso de preservativos e a alegação falsa de que agrava a epidemia de Aids. Em 2010, sua polícia buscou provas com uma incursão de surpresa numa reunião de bispos que discutia pedofilia e, em 2011, exigiu a punição de um bispo pedófilo e abriu processo por indenização a várias vítimas. Em novembro, a Irlanda acusou o Vaticano de obstruir as investigações de pedofilia em instituições católicas e fechou a embaixada no Vaticano, oficialmente para “cortar gastos”. Mais recentemente, em maio, um grupo que representa 25% dos padres desse país reuniu-se para pedir o fim do celibato obrigatório, a eleição dos bispos e a ordenação de mulheres. No domingo, 27 de maio, centenas de manifestantes com fotos da desaparecida Emanuela Orlandi entraram na Praça de São Pedro e – cena nunca antes vista – vaiaram o papa por silenciar sobre o caso. Podem ser as primeiras gotas de um dilúvio prestes a desabar sobre Bento XVI ou seu sucessor.
Fonte: Carta Capital
BLOG NOVA CENTELHA


UMA PÁTRIA PARA LÁ DO FUTEBOL

Confesso que me incomoda um pouco a campanha de histerismo criada à volta da Selecção Nacional na contagem decrescente para o Europeu de Futebol. Mais do que na expectativa indígena face ao certame, este barulho tem origem na necessidade imperiosa de compensar os patrocinadores do investimento publicitário investido e tal não era possível sem a adesão incondicional da comunicação social de massas.
Nesse sentido pouco me comovem os veementes e apelos de adesão a esse artificial sentimento de “nacionalismo” verde-rubro. Em pleno processo de enfraquecimento dos valores identitários e atomização social, reabilitar a Pátria para conveniências mercantilistas do jogo da bola é brincar com coisas sérias. Mais a mais sob o significativo risco de não passarmos de uma participação medíocre. Sim; o futebol é um jogo, com o que isso implica de fortuito e emocional. O patriotismo indispensável aos desafios que a Nação enfrenta, jamais poderá ser equívoco, mas sustentado em fundamentos consistentes, que só uma coesa comunidade de homens e mulheres conhecedores e livres garante. Coisa que não temos.
Por tudo isto, pareceu-me de uma assinalável salubridade a derrota ontem da selecção com os turcos, partida que não tive o desprazer de assistir. Um balde de água fria que coloca as coisas nas devidas proporções.
De facto, urge levantar o esplendor de Portugal, inspirar a alma lusitana, coisa que duvido aconteça nos relvados da Polónia e da Ucrânia. Mas se nessa roleta de sortes e azares o destino nos levar às finais, certo é que o meu coração não resistirá a bater acelerado e em uníssono com o País… mesmo que pelo sonho duma fugaz vitória.

PS.: Durante os doze meses de ano, faça sol ou chuva, da janela da minha casa e no fundo do meu coração a bandeira nacional que me inspira está sempre desfraldada. Não é verde e encarnada.
João Távora, corta-fitas


Papa Ratzinger – Estará com um parafuso a menos?



Caridadezinha, sempre! Sobretudo, se muita gente estiver a ver.
Ter muita pena dos “pobrezinhos”, sempre! Sobretudo, se muita gente estiver a ouvir.
Questionar as causas (e os causadores) da existência da fome e da pobreza... nunca! Nem em pensamentos, porque pode até ser pecado!
É esta regra de ouro, esta velhíssima receita cobarde, que tem mantido as religiões de bem com os deuses e os diabos, fazendo exactamente aquilo que dizem não se dever fazer: servir a dois senhores.
Ó Samuel... e a que é que vem esta “homilia”? – perguntam vocês.
É apenas uma forma de estar entretido... sem dizer o que realmente penso de mais uma das ideias “peregrinas” de Herr Ratzinger, o alemão que por estes dias faz de papa católico.
Para evitar, como já disse, adjectivos de que venha a “envergonhar-me”, prefiro deixar apenas quatro notas.
1. Alguém devia dizer ao papa, que a razão da existência de tanta miséria e fome é exactamente a fauna de “padrinhos” que governam e sugam o mundo.
2. Alguém devia gritar aos ouvidos do papa, que os explorados precisam de justiça e não de padrinhos e madrinhas.
3. Alguém devia avisar o papa de que esta sua ideia é uma cópia triste, vergonhosa e humilhante, das campanhas de “apadrinhamento” de animais dos Jardins Zoológicos, por figuras públicas e outros voluntários com uns trocos disponíveis.
4. Por fim, devo dizer que estou bem ciente de que o facto de todos os meses contribuir (via conta da ZON) com alguns euros para a Isabel dos Santos, não conta para esta campanha do papa... ainda que Isabel dos Santos pertença a uma família de um país cheio de seres humanos que vivem na miséria.
Devo acrescentar ainda que estive, estou e estarei disponível para a solidariedade e para o combate contra os “padrinhos” fabricantes de guerras, exploração, fome, miséria e morte... caminho que, estou certo, não farei na companhia deste papa e de muitos dos seus defensores e seguidores, mas que, felizmente, não farei sozinho!



"MARCELO - DEVIA SER MIGUEL RELVAS A DIZER: SAIO EU"

Síntese - A SAÍDA DE RELVAS É DESEJADA (EXIGIDA) pelos mais altos protagonistas do PSD.Agora, o que ele disser as pessoas vão dizer ‘esta é a última versão dele ou daqui a oito dias é outra e daqui a 15 dias é outra’. O primeiro-ministro não tira e em rigor devia ser o próprio Miguel Relvas a tomar a iniciativa de dizer ‘saio eu...“Como é que os portugueses podem acreditar num ministro que não se lembra que esteve sentado numa mesa a discutir negócios com delegações onde estava essa pessoa. Como é que tem duas versões diferentes no espaço de oito dias? Quantas versões mais haverá? Em relação a isto ou em relação ao resto? A QUE "RESTO" SE REFERE MARCELO? HUUMMM?!
-----------------------------------------------------------------
Comentador diz que a partir de agora falta credibilidade a um ministro que no espaço de poucos dias mudou de versão sobre os encontros com Jorge Silva Carvalho. Marcelo Rebelo de Sousa considera que o ministro Miguel Relvas deve sair do Governo pelo seu próprio pé.
No habitual comentário da TVI, o professor universitário afirmou que, depois das contradições em que entrou sobre os encontros com o ex-expião Silva Carvalho, o ministro-adjunto está sem credibilidade.
“Perante um número dois descredibilizado, é evidente que isto significa que é uma carga nos ombros do primeiro-ministro. Agora, o que ele disser as pessoas vão dizer ‘esta é a última versão dele ou daqui a oito dias é outra e daqui a 15 dias é outra’. O primeiro-ministro não tira e em rigor devia ser o próprio Miguel Relvas a tomar a iniciativa de dizer ‘saio eu’”, disse.
Rebelo de Sousa acrescenta que Miguel Relvas está a criar um problema ao primeiro-ministro e que, a partir de agora, não será fácil acreditar no ministro.
“Como é que os portugueses podem acreditar num ministro que não se lembra que esteve sentado numa mesa a discutir negócios com delegações onde estava essa pessoa. Como é que tem duas versões diferentes no espaço de oito dias? Quantas versões mais haverá? Em relação a isto ou em relação ao resto? É um problema de credibilidade”.
Noutro âmbito, Marcelo Rebelo de Sousa considera que António Borges fala demais. Segundo o professor, o conselheiro do Governo para as privatizações deve ser mais recatado.
Neste comentário na TVI, o antigo líder do PSD comentou ainda o relatório do Tribunal de Contas sobre as concessões rodoviárias considerando que o Governo devia tirar consequências do documento


Camilo Torres - O Padre guerrilheiro

"Onde caiu Camilo nasceu uma cruz,
porém não de madeira, e sim de luz".
(Victor Jará)

"Não deporei as armas enquanto o poder
não estiver totalmente nas mãos do povo".
(Camilo Torres)


Jorge Camilo Torres Restrepo nasceu em Bogotá, Colômbia, em 03 de fevereiro de 1929. Sua família pertencia à alta burguesia liberal da Colômbia. Seu pai, Calixto Torres Umaña era um prestigioso professor de medicina na Universidade Nacional da Colômbia, e de 1931 a 1934 representou seu país como Cônsul, em Berlim. Com a separação dos pais, em 1937, Camilo foi morar com sua mãe, Isabel Restrepo Gaviria Torres, e com seu irmão Fernando, em Bogotá. Depois do curso secundário, freqüentou, em 1947, durante um semestre, o Curso de Direito na Universidade Nacional da Colômbia. Em inícios de 1948 resolve entrar no Seminário Conciliar de Bogotá e preparar-se para o sacerdócio. Ali permaneceu durante sete anos, sendo ordenado padre em 1954. Logo em seguida é enviado à Bélgica para estudar sociologia na Universidade Católica de Lovaina. Em 1958 se graduou como sociólogo, apresentando um trabalho que analisava a proletarização de Bogotá.

Voltando a Bogotá em 1959, foi nomeado capelão da Universidade Nacional. Ali, juntamente com outros participantes, fundou a Faculdade de Sociologia, onde, durante algum tempo foi professor. Em 1961, Camilo Torres começou a ter problemas com o Cardeal Luís Concha Córdoba, que não via com bons olhos os seus trabalhos. Foi, então destituído do cargo de capelão, das atividades acadêmicas e das funções administrativas na Universidade Nacional.

Na tentativa de afastá-lo do mundo acadêmico, o cardeal o nomeou administrador paroquial de uma paróquia na periferia de Bogotá. Mas, Camilo não renunciou ao seu engajamento social. Em 1965 foi pressionado, pelo alto clero, a renunciar ao ministério sacerdotal. E em 27 de julho de 1965 celebra a sua última missa. Em sua "Mensagem aos cristãos", pouco tempo depois, já integrado no ELN, declara: "Deixei os privilégios e deveres do clero, porém não deixei de ser sacerdote. Creio que me entreguei à revolução por amor ao próximo. Deixei de rezar missa para realizar este amor ao próximo, no terreno temporal, econômico e social. Quando meu próximo não tiver mais nada contra mim, quando tenha realizado a revolução, voltarei a oferecer missa, se Deus me permitir. Creio que assim sigo o mandamento de Cristo: ‘quando levares tua oferenda ao altar, e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda sobre o altar, e vai reconciliar-te com teu irmão, e então volte e apresente tua oferenda’(Mt 5, 23-24). Depois da revolução, os cristãos teremos a consciência de que estabelecemos um sistema que estará orientado para o amor ao próximo".

Livre das imposições canônicas, Camilo intensificou a sua participação política, criando a "Frente Unida do Povo", como contraponto ao duvidoso "Pacto Nacional", celebrado entre liberais e conservadores. Já em 1964, quando o Governo bombardeou a região de Tolima com napalm, Camilo havia tentado um contato com o grupo de guerrilheiros, que dariam origem, em 1966, às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, (as FARC). Mas o diálogo com este grupo revolucionário comunista não progrediu. Menos complicado foi o contato com o ELN (Exército de Libertação Nacional, criado em 1964). Entretanto, Camilo fortalece a "Frente Unida do Povo" e cria o jornal semanário da "Frente Unida"; convoca o povo para as praças públicas, e prega a abstenção nas próximas eleições, como posicionamento revolucionário.

O sucesso político de Camilo cresce vertiginosamente, e as pressões governamentais aumentam. Acusam-no de subversivo. Assim pressionado, resolve colocar-se a serviço dos comandantes do Exército de Libertação Nacional.



Nos últimos meses de 1965, o padre guerrilheiro Camilo Torres envia mensagens aos cristãos, aos militares, aos camponeses e à Frente Unida do Povo. E em 15 de fevereiro de 1966 Camilo Torres morre em combate. Era a primeira ação guerrilheira armada de que participava. Até hoje não se sabe onde o exército colombiano enterrou seu corpo.

Os ideais de Camilo Torres

Camilo Torres considerava que quem definia o caráter pacífico ou violento da sociedade não era a classe popular, mas, sim, a classe dos governantes. Assim, propôs um "projeto de libertação" no qual podiam participar todos os homens e mulheres da Colômbia, guiados por uma opção chamada, por Torres, de "o amor eficaz para todos". Sua ação e pensamento se converteram num convite permanente para a luta, para que "a próxima geração não fosse mais de escravos, mas de homens livres".

Como Camilo Torres chegou a estas suas conclusões?

Desde cedo, Torres manifestava sua compaixão para com os oprimidos. Ainda criança, e vivendo com seu pai médico, distribuía as amostras grátis dos remédios que o pai recebia entre os trabalhadores de uma cerâmica, não muito distante de sua casa. O dinheiro que recebia para ir ao cinema o dava a crianças pobres das favelas. Quando abandona o curso de Direito, para entrar no seminário, declara que havia compreendido que "a vida, assim como a vivia e entendia, não tinha sentido". Por isto desejava ser padre para se tornar um "servo da humanidade", pois descobrira que "o cristianismo era um caminho totalmente concentrado no amor ao próximo".

Mais tarde, quando lhe perguntaram por que deixara o ministério sacerdotal, respondeu: "Abandonei o ministério sacerdotal (não o sacerdócio, pois este é eterno!) pelas mesmas razões pelas quais me comprometi com ele. Descobri o cristianismo como uma vida centrada totalmente no amor ao próximo; dei-me conta de que valia a pena comprometer-me com este amor nesta vida. Escolhi o sacerdócio para converter-me em um servidor da humanidade. Foi depois disto que compreendi que, na Colômbia, não se pode realizar este amor simplesmente por beneficência, mas que era urgente uma mudança de estruturas políticas, econômicas e sociais, que exigiam uma revolução, à qual este amor estava intimamente ligado. Mas, desgraçadamente, enquanto minha ação revolucionária encontrava uma resposta bastante ampla no povo, a hierarquia eclesiástica, em um determinado momento, tentou calar-me, contra a minha consciência que, por amor à humanidade, me levava a defender tal revolução. Então, para evitar qualquer conflito com a disciplina eclesiástica, solicitei a dispensa da minha sujeição a estas leis. Não obstante, me considero sacerdote até a eternidade, e entendo que meu sacerdócio e seu exercício se cumprem na realização da revolução colombiana, no amor ao próximo e na luta pelo bem-estar das maiorias". Para ele, a pura beneficência, a caridade, as esmolas nada mais são do que "a bebida que se dá ao tuberculoso para que pare de tossir".



Naturalmente, com este apelo revolucionário, surge a pergunta: o que Camilo Torres entende por revolução?

Em diversos momentos ele se explica, e diz: "(Entendo por revolução) uma mudança fundamental (e rápida) das estruturas econômicas, sociais e políticas. Considero essencial a tomada do poder pela classe popular, pois a partir dela surgem as realizações revolucionárias, que devem priorizar a propriedade da terra, a reforma urbana, a planificação integral da economia, o estabelecimento de relações internacionais com todos os países do mundo, a nacionalização de todas as fontes de produção, dos bancos, dos transportes, dos hospitais, dos serviços de saúde, assim como outras reformas que sejam indicadas pela técnica, para favorecer as maiorias, e não as minorias, como acontece hoje em dia".

Camilo Torres considera que, nesta revolução, o fundamental a se conquistar é a mudança da estrutura de poder, retirando o poder das mãos da oligarquia e colocando-o nas mãos do povo. E quem dirá se esta tomada de poder será pacífica ou violenta são as oligarquias. Se as oligarquias quiserem entregar o poder pacificamente, o povo o tomará pacificamente; mas, se apelarem para a violência, terão violência. Mas, antes de apelar para a violência, diz Camilo, devem se esgotar todos os caminhos pacíficos. No entanto, ele não confia muito em que as oligarquias entreguem o poder sem luta. Contudo previne que, antes de se apelar para ações revolucionárias violentas, a doutrina social da Igreja ensina que é necessário verificar quais as conseqüências de tais ações. Evidentemente, os resultados não poderão piorar a situação que se pretende corrigir. Para ele, a mudança das estruturas de poder na Colômbia devem mudar de qualquer forma, pois o perigo de piorar é muito pequeno, observando-se o número de crianças que morrem de fome, as meninas menores na prostituição, os constantes massacres, a violência e a miséria generalizadas em todo país, ao lado de minorias opressoras, coniventes com o imperialismo americano e sempre mais ricas.

Frente aos jornalistas, Camilo Torres, muitas vezes, teve que justificar sua atitude revolucionária, já que era cristão e padre. Dando suas explicações, ele diz: "Sou revolucionário como colombiano, como sociólogo, como cristão e como padre. Como colombiano, porque não quero ficar distante da luta de meu povo. Como sociólogo, porque minhas intuições científicas, em relação à realidade, me convenceram que é impossível chegar a soluções efetivas e adequadas sem uma revolução. Como cristão, porque o amor ao próximo é a essência do ser-cristão, e o bem-estar da maioria não se consegue sem a revolução. Como sacerdote, porque a entrega ao próximo, que exige a revolução, é um requisito da caridade fraterna, indispensável para celebrar a missa, que não é uma oferenda individual, mas de todo o povo de Deus por intermédio de Cristo"

O amor que Camilo pregava devia ser um amor eficaz, pois "a fé sem obras é morta" (Tg 2,17).

O texto que ele, muitas vezes, citava era o do Evangelho segundo Mateus 25,31-46, onde Cristo coloca os critérios de julgamento no juízo final: "Tive fome e me destes de comer...". Para Camilo, este texto somente cria valor se nos perguntarmos, nas circunstâncias concretas de nossa realidade, de que maneira somos capazes de dar de comer à maioria dos famintos, vestir a maioria dos desnudos, a abrigar a maioria dos sem-teto. E isto, segundo sua convicção, na Colômbia não se conseguiria sem reformas estruturais profundas em favor das maiorias. E se a revolução for necessária para realizar o amor ao próximo, o cristão deve ser um revolucionário.

Artigo de 2006, escrito pelo professor Inácio Strieder