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quarta-feira, 28 de março de 2012


BEM VINDO À ALDEIA DE GRALHAS!... CONHEÇA A SUA HISTÓRIA E TRADIÇÕES...

27 de Janeiro de 2007

– LOCALIZAÇÃO E ESTRUTURA SOCIAL DA ALDEIA

Terra de montanha, muito gado caprino e ovino e de gente dura, a aldeia de GRALHAS, está situada no norte de Portugal, na base sul da Serra do Larouco e ocupa uma área calculada em cerca de 1082 ha. Dista 9 Kms da vila de Montalegre, sede do concelho, 5 Kms da fronteira com a Galiza e 25 Kms da cidade de Chaves.O seu povoamento é concentrado. A aldeia encontra-se rodeada de nabais, hortas e lameiros de rega. Neste perimetro, é propriedade exclusivamente privada. Depois segue-se-lhe todo um conjunto de terrenos, também privados, mas misturados com outros de dominio público. Esses terrenos, são chamados de duas folhas (a de baixo e a de cima), uma de batata, outra de centeio, com cultivo alternado. Antes da intensificação da cultura da batata, uma das folhas, ficava em grande parte, de poulo (pousio). Quase todos os terrenos, envolventes deste segundo perimetro, são de pastoreio colectivo até às sementeiras e posteriores colheitas. Os lameiros são propriedade privada, excepto as «lamas do povo» ou do «boi», como também são conhecidas e que outrora se destinaram à pastagem dos bois do povo. O monte (baldios) é de pastoreio livre, quer para gado de particulares, quer para os rebanhos comunitários. 
A povoação, apresenta um modelo consistente, depurado ao longo dos séculos, através de uma economia de subsistência, onde entroncam admiravelmente o privado e o colectivo. Cultiva-se pouco de cada coisa e hoje praticamente, em função das necessidades do agregado familiar. A terra, não é apenas a propriedade, é mais a extensão vital da corrente sanguínea. Nos dias que correm, a vida da aldeia não é o quadro de felicidade, que ocorre e pode ser apreciado em certas épocas. Ao lado da artura, que alguns chegam a ostentar, moram ainda muitas dificuldades, quantas vezes encapotadas, designadamente, durante o rigoroso inverno, quando o trabalho escasseia.
A partir dos anos sessenta, muitos jovens descontentes e ambiciosos, largaram tudo, e meteram os pés a caminho, deslocando-se para as grandes cidades do litoral e mais tarde em muito maior número, para outros países da Europa, designadamente para França.
 Quatro décadas depois, muitos regressaram e continuaram com a mesma vida. Envelhecidos pelo tempo e pela vida, atravessam ainda hoje a aldeia, atrás das suas vacas, revivendo o passado.
A estrutura social, o papel da propriedade da terra, as casas, as ruas, as fachadas, o modo de vida, o sistema de entreajuda, a noção de tempo, os ritmos da vida, os mitos e os ritos, tudo parece pertencer já a um paraíso perdido. 
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente)

- CLIMA

Em termos climáticos, poder-se-à dizer, que Gralhas, se situa na zona climática do nordeste ou terra fria.
É uma aldeia de temperaturas extremas, que vão de vários graus negativos no Inverno a mais de 30 graus positivos no Verão, devido à sua localização continental.
Os ventos, irregulares e variáveis, conforme a época do ano, constituem elemento muito influente no clima. Tem índices pluviométricos elevados com uma média de 100 dias de chuva por ano.
A altitude oscila entre os 700 e os 1.525 metros, no topo da Serra do Larouco.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

– GRALHAS, MINHA TERRA, MINHA GENTE...

Quando se pretende elaborar a monografia de uma localidade, o primeiro assunto a tratar, é o da sua origem, data da fundação, local onde se levantaram as primeiras casas e fundamentalmente os motivos e circunstâncias, que determinaram o seu aparecimento.
Tratando-se de povoações «perdidas no tempo», sobretudo se forem anteriores à fundação da nacionalidade, a falta de documentos que autorizem a historiar com precisão, aquilo que se pretende, é um facto, e a história de Gralhas não foge à regra. 

Existem todavia, documentos que falam de diversas regiões de Barroso, designadamente desde a época da ocupação romana. Em meados do século VI, durante o domínio dos Suevos, um dos concilios de Lugo, fala de Salto, uma freguesia do concelho de Montalegre, ao qual Gralhas pertence. Seis séculos mais tarde, um manuscrito de 1145, dá noticia da existência do Arcediagado de Barroso. Por volta de 1147, um documento existente no Arquivo Provincial de Orense (Galiza), fala da fundação do Mosteiro de Santa Maria das Júnias, próximo de Pitões, outra aldeia, que integra o mesmo municipio.
Em 1208, uma Bula do Papa Inocêncio III, refere-se a Vilar de Perdizes e ao Couto de Dornelas. Pela mesma data, Tourém recebeu foral do rei D. Sancho I. De 1248, existem dois documentos, referentes ao Mosteiro de Pitões e ao Couto de Vilaça. As Inquirições de 1258, falam de novo em Salto. A partir do século XIII, a documentação é mais abundante.
Mas sobre Gralhas, para além de alguma informação dispersa e na maioria dos casos, proveniente da Galiza (Aula Galicia), o primeiro diploma legal que se conhece, é o foral concedido, pelo rei D. Dinis, em 20-09-1310, ano de epidemias e muita fome na região, através do qual se ordenava a partilha das terras, o seu cultivo, o pagamento do dízimo a Deus e a proibição de atentar na parte ou no todo contra os usos e costumes da povoação.
Assim, com base na documentação disponível, em achados diversos, nas tradições, nos costumes locais e nos testemunhos dos mais antigos, procurarei na medida do possível, responder à pergunta: Como nasceu Gralhas!...
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

– ENQUADRAMENTO HISTÓRICO-NATURAL

Não se conhece de fonte segura, a origem do nome que fez jus à terra. Não se conhecem igualmente, registos que retratem de forma fidedigna a sua origem. O que se sabe isso sim, é que o termo GRALHAS, deriva do latim -gracula-, ave conirrostra da familia dos corvos, que abundou na zona onde hoje se situa a aldeia.
Segundo relatos de alguns estudiosos, as comunidades que viviam próximo do aglomerado, que é hoje, toda a àrea circundante da freguesia de GRALHAS, perdem-se na bruma dos tempos. Essas comunidades, parecem ter habitado, desde os longínquos tempos da pré-história, em zonas, como Soutelo (ou «Crasto» como ainda hoje é conhecido) e Ciada, pouco se sabendo dos seus primitivos habitantes, da sua cultura, dos seus hábitos, das suas 
actividades de caçadores e pastores, designadamente durante os periodos leptolítico e mesolítico.
 
Há cerca de 3 000 anos, a cultura castreja, representada supostamente pelos Equésios, teve nessas regiões, larga difusão e grande prosperidade, supondo-se que como consequência de uma epidemia que terá grassado nos ditos CASTROS DE SOUTELO e da CIADA, o primeiro situado a nascente do lameiro do Artur Roscas e a poente do Rio das Forcadas, que ainda hoje apresenta vestigios de uma muralha de terra e pedra miúda, e de um fosso do lado nascente do mesmo rio, e o segundo na encosta a caminho de Solveira, pela estrada velha, numa zona próxima do actual campo da bola, as respectivas populações, se tenham deslocado para zonas, que apelidaram de Cima de Villa, muito próxima da actual Calhelha do Lameiro e Bárrio, algures da Santa, as quais muito mais tarde e por influência da civilização romana, se viriam a unificar e dar origem à actual aldeia de GRALHAS.
Por aqui passaram e deixaram igualmente marcas, diversas civilizações, entre as quais, a Ibero-Céltica - cujos vestigios nos são transmitidos, pelas suas preocupações com o que haverá para além da morte, e se traduziram na edificação de monumentos funerários, existentes na região - e a Romana, sendo aqui de salientar, a via romana Braga-Chaves, que há cerca de 2 000 anos, passava pela Ciada/Caladuno, o que prova inequivocamente, que os romanos, chegaram a esta zona, passaram e deixaram rasto.  
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

– VIDA E COSTUMES DOS CASTRENSES

Como já foi dito, Gralhas, sempre foi uma zona de temperaturas extremas, que se traduzemem muita chuva e neve no inverno e elevado calor no verão. 
Sabe-se hoje, que na época dos Castros e no periodo que se lhe seguiu, os habitantes das zonas, que hoje envolvem a freguesia, vestiam uma túnica de lã ou de linho, conforme a época de Verão ou Inverno, a qual descia do pescoço, até um pouco acima do joelho, ou ainda um saião curto, por alturas em que o calor apertava mais.
Da chuva e da neve, protegiam-se com uma capa negra de lã, algo semelhante ao sagum celtibérico - sendo provável e pacífico, que mais tarde lhe fosse adaptado um capuz, da qual resultou a ainda existente «capa» ou «capucha» de borel, que todos nós conhecemos – e com vestimentas, feitas com jungos, a que mais tarde se veio dar o nome de «crossas» ou «crôssos».


Em termos de alimentação e antes do centeio ter sido aqui introduzido pelos Celtas, os nossos antepassados consumiam, pão de landras (bolotas) dos carvalhos, que eram tostadas, moídas e posteriormente cozidas através de processos desconhecidos, leite, carne proveniente da caça e ainda a conseguida, através do abate de gado ovino ou caprino que possuíam, milho e peixe. As populações agrupavam-se em comunidades ligadas por laços sanguíneos, ou em tribos, quando as desavenças assim o determinavam.Viviam em regime comunitário, perfeitamente harmonizado e em perfeita sintonia com os direitos e obrigações, que a própria comunidade impunha a si mesma e que o respectivo chefe geria. 
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

– A PASSAGEM POR GRALHAS DOS ROMANOS...

Como é sabido, quando a conquista romana da Peninsula Ibérica se inicia, em 218 A.C., com o desembarque das tropas de Cneu Cipião em Ampúrias, na actual região de Barcelona, já a Peninsula era habitada por diversos povos. E naquele que viria a ser território português, a norte do Rio Douro e nas imediações da zona, onde hoje se situa a freguesia, encontravam-se os Calécios, que haviam resultado da fusão de alguns nomadas que por ali passaram e se viriam a fixar, com as populações locais.Deve dizer-se inclusivé, que aquele território – ao tempo parte integrante da Callaecia -, conjuntamente com a Asturia e a Cantabria, foi a última zona do actual território português, a ser conquistado por Roma, nas campanhas de 26 e 25 A.C., isto é, cerca de duzentos anos após o inicio da ocupação romana da Peninsula Ibérica.
A cultura Ibero-Céltica dos Castros, após cerca de um milénio de existência, cedia então lugar ao domínio romano. Todo o periodo que se seguiu, trouxe consigo, além das transformações politicas, administrativas e culturais, uma profunda modificação no regime de propriedade. De facto, com o deslocamento das populações castrejas, onde dominava a propriedade comunitária, para as terras mais férteis dos vales, ocorreu uma ocupação individualista do solo, bem típica aliás, da civilização romana, presumindo-se ser este o momento, que como consequência de tal, os aglomerados populacionais de Cimo de Villa e Bárrio, se tenham fundido, naquela que hoje é a Aldeia de Gralhas.
A língua, as letras e os costumes, foram outras das heranças que a civilização romana deixou por toda a região de barroso e consequentemente por Gralhas, aos quais se pode juntar, a actual estrutura paisagistica, assente numa economia de subsistência, designadamente no que diz respeito às culturas agricolas, em que o gado, é a principal fonte de riqueza da população residente.
Estes factos, tiveram como consequência, uma radical transformação na economia local, até então essencialmente pastoril, transformando-a numa economia predominantemente agrícola. A principal consequência desta transformação, resultou num progressivo enfraquecimento do regime comunitário, que até então vigorou, o qual apenas viria a ser restabelecido, a partir dos princípios do século V da nossa era, quando das invasões dos povos germanos, constituídos por Vândalos, Suevos e Alanos, no ano de 409.
Para além do que já foi referido, da cidade romana de Grou, que constitui um autêntico cartão de visita desta zona, e se situa, algures entre a actual aldeia de Gralhas e de Santo André, e da via romana de ligação entre Braga e Chaves, que saindo daquela cidade bracarense, passava por diversas povoações dos actuais concelhos de Vieira do Minho e Montalegre, designadamente, Codeçoso do Arco, Porto dos Carros, Lama do Carvalhal, Currais, Subila, Breia Gia a sul de Ladrugães, Friães, Pisões, Cruz do Leiranco, Penedones, Travassos da Chã, S. Vicente, Peireses, Codeçoso, CIADA (ao tempo conhecida por Caladuno e actualmente situada na zona envolvente de GRALHAS), Solveira, Soutelinho, Castelões, Seara Velha, Pastoria, Casas dos Montes, até atingir a cidade flaviense, pouco mais se conhece da herança deixada pelos romanos, por estas paragens.
Restam nas redondezas, alguns Marcos Miliários – os chamados monólitos cilindricos -, que assinalavam de mil em mil metros, as respectivas distâncias, indicando alguns deles, os nomes, a filiação, os cargos exercidos e os títulos honoríficos dos imperadores de Roma. Sabe-se, que a introdução dos marcos miliários, nas vias romanas,datam do ano de 183 antes da era Cristã. Que são do tempo de Caio Graco e que em zonas próximas de Codeçoso do Arco, Pisões, Antigo de Arcos e Cervos, foram encontrados alguns exemplares, constando num dos existentes nesta última freguesia a inscrição: «Tibério César, filho do Divo Augusto, neto do Divo Júlio, Augusto, Sumo Pontífice, 8 anos imperador, 5 anos cônsul, 34 anos do poder tribunício. A Braga, 59 000 passos», facto que prova de forma inequívoca e à distância de mais de 2 000 anos, a forte presença da civilização romana, nesta zona. Os ditos marcos, quase todos desapareceram. Alguns, como os acima referidos, foram levados para Braga onde se encontram, outros, foram destruídos pelo passar impiedoso do tempo, e outros ainda, foram até utilizados na construção de casas ou de muros de propriedades rurais, como é o caso de dois exemplares, do tempo do imperador César Augusto, já do ano 44 da era cristã, que «enfeitam» a parede do forno do povo de Sanguinhedo.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

... E DOS SUEVOS E VISIGODOS

A todas as acções levadas a efeito pela romanização, foi dada continuidade pelos cenóbios cristãos, que cimentaram a cultura romana, com a influência germânica que se lhe seguiu, de Suevos e Godos.
O reino Suevo, esteve implantado em toda a Galécia, durante 176 anos, isto é, no periodo compreendido entre 409 e 585, altura em que foi conquistado pelos visigodos. Acresce aqui referir, que as populações da região, passavam praticamente imunes a todas as transformações, relacionadas com problemas de identidade, a tal ponto que os próprios reis vencedores, se intitularam, Reis dos Visigodos e dos Suevos, até à conquista muçulmana, no sécul VIII, a que se sucedeu a reconquista cristã, que havia de conduzir, à criação do Reino de Portugal, no século XII.
É sob esta influência dos povos germanos na zona, e em particular no que aos Suevos diz respeito, que no século V se presume ter sido introduzido na região da Gallecia e por consequência também na zona que hoje é Gralhas, um tipo de arado muito mais possante que
o utilizado pelos indígenas, algo semelhante até, ao utilizado pelos lavradores da terra, já nos séculos XIX e XX, e se inicia o gosto de montar nos «burricus», não de forma tão elegante como faziam os cavaleiros romanos, nos seus cavalos, mas de uma forma, muito mais adaptada, quer à rudeza dos montes e montanhas, quer às próprias possibilidades dos residentes.
Desse «burricus», ficou o hábito, até há relativamente poucos anos atrás, das deslocações da nossa gente, por montes e vales, feiras e romarias e até no transporte de todo o tipo de cargas, que íam desde o simples «molho» do milho, até ao transporte de carvão, ou dos «odres» com vinho, que muita gente da terra, adquiria nas proximidades de Chaves.
Com a chegada dos Suevos e como já foi dito, radica-se de novo o comunitarismo na nossa terra. É que ao contrário dos romanos, exímios defensores da propriedade privada, os germanos valorizavam sobretudo a propriedade colectiva, donde resultou o sistema de vida comunitária, que ainda hoje mantém alguns dos seus traços característicos, na nossa comunidade.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente)

– OS MOUROS EM BARROSO

Os Mouros entraram na Península em 710. No ano seguinte, vencendo os cristãos na batalha de Guadalete, deram o golpe final, na monarquia visigótica.
A campanha de ocupação, durou cerca de 7 anos e a região de Barroso, presume-se ter caído em seu poder, por volta do ano de 716.
À semelhança do que aconteceu noutras localidades da região, os habitantes de Gralhas, sofreram o ódio e a perseguição mourisca। Uma vez submetidos aos invasores, julga-se terem vivido em relativa paz com eles, pese embora, tenham sido tratados quase como escravos. Todo o labor do seu trabalho revertia para o senhor da terra, a quem pagavam pesados tributos.
Qualquer dos naturais, estava impedido do exercício de chefia de grupo e o lucro era proibido. Desconhece-se, se poderiam praticar livremente a sua religião. O que se sabe isso sim, é que determinados lugares da aldeia, como «Fental», «Queirogal», «Espinheiral» e tantos outros semelhantes, se encontram ligados à passagem dos Mouros, por Gralhas.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

- A RECONQUISTA CRISTÃ

Durante a reconquista cristã da península, Gralhas, tal como toda a região de Barroso, manteve-se integrada na Galécia. 
A Galécia, como já foi dito, fora uma provincia romana, situada na esquina norte-ocidental da Peninsula Ibérica, correspondendo nos dias que correm, à actual Galiza e norte de Portugal, e a sua cidade mais importante e capital histórica, era Bracara Augusta, a actual cidade dos arcebispos.
A Galécia, dividia-se administrativamente em três «conventus»: Conventus asturiense, Conventus Lucense e Conventus bracarense, este último, onde o «povo» de Gralhas se integrava. De 716, a 753, nada se sabe àcerca de Barroso e muito particularmente da Aldeia de Gralhas. O que reza a história, é que em 753, o rei Afonso I de Oviedo, genro de Pelágio, organiza uma grande expedição contra os Mouros e para além de outras cidades, toma-lhes Chaves e toda a região de Barroso.Após um cativeiro de 37 anos, os nossos antepassados do século VIII, respiravam de novo o ar da liberdade e dos seus hábitos, postos em causa pelos invasores muçulmanos.
No meio de todas estas lutas, é bem provável, que mais uma vez, os nossos conterrâneos, tenham sofrido devastações e assaltos da moirama, designadamente durante o estranho regime de correrias e incursões mútuas entre cristãos e árabes.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente)

- GRALHAS NA IDADE MÉDIA

Depois de tudo quanto ficou escrito, é pacífico, que a aldeia de Gralhas, dentro do actual contexto e com a ressalva do Bairro das Cruzes (ou de São Sebastião), que é contemporâneo, já existia, quando do reconhecimento do Reino, em 1143.
Sabe-se que administrativamente dependia do Alcaide de Montalegre, a quem pagava, tal como outras aldeias das redondezas, parte dos tributos da terra, que era pertença da corôa. Tais tributos, eram devidos, pelo facto, daquela que hoje é sede de concelho, ser ao tempo e no seguimento da organização administrativa, que vinha do Reino de Leão, aquilo a que se chamava «Cabeça da Terra de Barroso», onde funcionava e era organizada toda a administração civil, judicial e militar.
A partir de 1273, as regras tributárias dos habitantes de Barroso e por consequência dos de Gralhas, foram significativamente alteradas. Através de uma carta de foral, datada de 9 de Junho de 1273, atribuída a Montalegre, como «Cabeça das Terras de Barroso», mas cuja motivação principal, era a intensificação do povoamento e desenvolvimento agricola da região, o Rei D. Afonso III, concedeu às populações «todos os direitos e rendas reais, com excepção dos direitos de hoste, moeda e padroado das igrejas, que reservava para a corôa». Impunha ao Alcaide, «...o tributo anual de 3.500 morabitinos», que este deveria cobrar, junto das populações das diversas aldeias que tutelava e pagar à corôa, em três prestações: 1 de Outubro, 1 de Fevereiro e 1 de Junho. A falta de pontualidade deste pagamento, seria penalizada com uma «multa» de 10 morabitinos, por cada dia de atraso.

Com a dita carta de foral, foram ainda proíbidos todos os abusos que alguns fidalgos da «Cabeça», exerciam sobre os aldeões, designadamente, o uso da força que muitas vezes utilizavam para extorquir determinados bens de que necessitavam, bem como a sua aquisição sem a necessária contrapartida de pagamento. Só que tal «politica» não resultou!... A intensificação do povoamento e o desenvolvimento agrícola pretendidos, não tiveram sucesso; muita gente morreu, em consequência da fome e de uma grave epidemia que na época por ali passou; procurando fugir à doença e à fome, alguns povoadores saíram das suas terras e procuraram novas paragens, em busca de melhores meios de subsistência; outros ainda, fugiram às acções de violência e extorção de bens, de que eram vitimas, por parte de alguns fidalgos da «Cabeça»; a mão- de-obra era diminuta e o desenvolvimento agricola, regrediu de forma significativa.
Mais tarde, após tomar conhecimento de todos estes factos, o rei D. Dinis, encarregou então, o clérigo Pedro Anes, de proceder ao estudo da situação e encontrar as necessárias soluções, que permitissem inverter os dados referidos. Assim e à semelhança de outras aldeias das «Terras de Barroso», foi Gralhas contemplada, com uma Carta de Foral, datada de 20-09-1310, a qual era dirigida aos moradores que se haviam mantido na povoação. Na dita Carta, se estabelecia uma nova divisão dos terrenos, para serem entregues aos povoadores, cada um dos quais, ficaria obrigado a pagar 1 maravedi de foro. Se para a divisão efectuada, não houvesse os necessários povoadores, cada um poderia adquirir mais de um terreno, pagando 1 maravedi, por cada unidade a mais que possuísse.
O periodo mínimo de aforamento era de 3 anos e ao fim deste tempo, o foreiro poderia continuar na posse das terras, aliená-las, dá-las ou vendê-las, mas sempre com a condição, de que o novo possuidor, pagasse o respectivo «imposto». Nos casos de venda, alienação ou doação das terras, os agricultores, só seriam obrigados a entregá-las aos novos proprietários, depois de efectuadas as colheitas, pagando-lhes no entanto as rendas, que os «homens bons» da povoação, julgassem ser justas.
A partir daqui e tendo em conta o número de forais ou cartas reais de foro, referentes à região do Alto- Barroso, poder-se-à concluir, que como consequência das medidas levadas a cabo, pelo rei D. Dinis, ali tenha ocorrido um significativo desenvolvimento agricola. Os forais falam frequentemente em «casais» (bens), que se desdobram em dois, três ou mais, e terras incultas, transformadas em propriedades produtivas.
A multiplicação de terras cultivadas, aumentando a rentabilidade agricola para as populações foreiras, constituía assim, apreciável fonte de receita para os Alcaides, que na ausência de moeda, viam muitas vezes os seus tributos serem pagos em géneros. Gralhas não foi excepção à regra. No tempo em que reinou D. Dinis, existiam já, vinte e três das actuais trinta e cinco freguesias do concelho de Montalegre, entre as quais Gralhas. 

No âmbito eclesiástico, como no administrativo, estava esta região perfeitamente organizada. Os rendimentos dos povoados no século XIV, comparados com o estado actual das paróquias de Barroso, leva-nos a concluir, que algumas das actuais freguesias, progrediram com o tempo, enquanto que relativamente a outras, se deu precisamente o inverso.
A título de exemplo veja-se o caso de Montalegre :Apesar de administrativa e militarmente ser «Cabeça da Terra de Barroso», no aspecto económico, era inferior a Mourilhe, Viade, Salto, Cervos e Mosteiro das Júnias, estando ao nível de Cabril, Cambeses e Ponteira. Neste âmbito, não se conhece qualquer referência à aldeia de Gralhas, sobre a qual aparecem novos dados, no reinado de D. João III, quando este monarca determina, através de carta datada de 17 de Julho de 1527 o recenseamento da freguesia.
Tal recenseamento viria a ser feito três anos mais tarde, isto é, no ano de 1530, após nova insistência do rei, tendo estado a cargo, dos juízes de Montalegre, Pero Gil e João do Rego, dos tabeliães Lisuarte Gonçalves e Pero Álvares, do Alcaide João Pequeno e de 2 «homens bons» da aldeia, não identificados, os quais, antes de empreenderem tão importante tarefa, juraram aos Santos Evangelhos, que seriam diligentes e verdadeiros no desempenho daquela missão.
O resultado do seu trabalho, cifrou-se no registo de 44 fogos. Após este, há apenas registo de novo censo na freguesia, já em pleno século XIX, mais concretamente no ano de 1836, constando do mesmo, o registo de 66 fogos, neles habitando 162 homens e 148 mulheres. GRALHAS, é hoje uma aldeia igual a tantas outras do interior. Embora com muito bons acessos, encontra-se marcada por uma forte depauperação económica e um quase abandono, das suas actividades tradicionais de outrora, designadamente no que diz respeito à agricultura e à criação de gado bovino, a que apenas vão resistindo alguns «teimosos» da terra. O aglomerado populacional está concentrado e organizado em diversos arruamentos. Caracteriza-a ainda, o imponente relevo que a envolve. A paisagem à sua volta, merece especial atenção, em particular os imponentes picos rochosos, como o Castelo do Romão, o Cabreiro, o Caldeirão, as Barreiras Brancas, o Corisco, e mais a sul a não menos importante Serra da Lagoa, hoje recheada de caminhos pedonais, que em conjunto formam autênticas barreiras naturais.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente)

26 de Janeiro de 2007

– AS CASAS

Até há cerca de 40/50 anos atrás, regra geral, as casas dos lavradores estavam perfeitamente adaptadas às actividades agrícolas e pastoris.
Sobre o mesmo tecto, abrigavam-se muitas vezes, animais e os produtos que a terra dava. O rés-do-chão era reservado para a loija (adega), cortes dos porcos, tudo paredes meias com a corte da rês (ovelhas) e côrtes do gado. Os estábulos davam normalmente para um pátio, e se o recinto fosse adequado, podia até servir de eira, com o palheiro a fechar o círculo.
Noutros casos porém, a eira, o palheiro e as cortes de gado eram um conjunto independente e até distante da casa de habitação. A escada exterior em pedra levava à cozinha e a varanda corria toda a fachada, dando acesso ao sobrado de limpo e compartimentos para dormir.A par das casas dos lavradores existiam ainda e em determinadas situações, as casas dos cabaneiros (pessoas de poucas posses), estas muito mais modestas e apertadas, mas não raramente com mais família para abrigar.
Nas casas, cabiam o lar, onde durante os meses frios era acesa a lareira, e à sua volta via-se normalmente, um escano, uma masseira, as camas, uma pequena mesa, uma toucinheira pendurada da trave, uma caixa de madeira de carvalho e vários molhos de lenha ao lado, que uma dúzia de galinhas usava como capoeira.
A cobertura de colmo ajudava a conservar o calor noite dentro, o que era fundamental particularmente em noites de frio e neve.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente)

- A FAUNA

Quando se fala em fauna, tem obrigatoriamente de se falar da Serra do Larouco, dos montes e vales que a circundam e da própria Serra da Lagoa, situada na vertente sul da aldeia.
Na realidade, devido ao relativo isolamento de parte importante da sua superfície, sabe-se hoje, que por aí se mantiveram até muito mais tarde ou ainda persistem, algumas das espécies que mais nos atraem, como é o caso da águia-real, do lobo e até de alguns corços. Sabe-se também, que a cabra-brava, passou por aqui. A última referência referente à mesma, data de 1892, época em que frequentava, a vasta zona para além do Picoto (Marco Geodésico) ao longo da raia com a Galiza.
Porém, o já referido isolamento, que caracteriza toda a zona serrana e a protecção acrescida que deriva da própria natureza do terreno, permitiu a permanência de toda uma variedade de animais, com especial referência para as aves, destacando-se por estas paragens, para além da águia-real, os milhafres, a águia-de-asa-redonda, as corujas-do-mato, os mochos, os gaios, os melros, as pegas, as perdizes e tantas outras.
Quanto a répteis, é comum ver-se por aqui a víbora-negra, a cobra-d'água, o liscranço e o lagarto. Na parte que diz respeito aos mamíferos, predominam ainda no Larouco, alguns lobos e corços, lontras, fuinhas, coelhos-bravos, texugos, lebres, e javalis com fartura.
 

De entre as espécies referidas, existem algumas, que pela sua importância em termos estritamente conservacionistas - trata-se de espécies em perigo de extinção ou muito ameaçados -, pelas profundas relações que desde há muito mantêm com o quotidiano local e pelo modo como nós próprios as encaramos, merecem ser realçadas. Quantas histórias e quantas lendas se poderão contar, acerca do lobo, animal que desde logo se associa ao agreste da paisagem?...
Perseguido por todo lado e dado como extinto em grande parte do continente europeu, esta espécie, ainda vinga por estas paragens. Abatido como predador de gado, sobretudo ovino e caprino, sobrevivendo com dificuldade devido ao desaparecimento da caça maior, outra fonte importante da sua alimentação, e profundamente afectado pelas alterações ocorridas no seu habitat natural, o lobo é de facto uma espécie ameaçada. À fauna selvagem, há hoje também, que acrescentar uma espécie doméstica de elevado valor e que já faz parte da paisagem do Larouco: trata-se do gado barrosão, galego, penato, mirandês e ultimamente alentejano, que ali se encontra, designadamente durante os meses de verão, em regime livre
.

- FLORA

De natureza granítica e beneficiando de um clima agreste e húmido, as serras plenas de água, desde logo surpreendem pelo vigor e carácter da vegetação que as cobre. A Serra do Larouco, situada a norte da aldeia, forma gigantescos anfiteatros, destacando-se de entre os demais, o Caldeirão, o Castelo do Romão, o Corisco e as Barreiras Brancas.
Estes cumes encontram-se muito escalvados, de tal forma, que acima dos 1400 m de altitude, subsistem apenas
diversificados arbustos rasteiros, tais como, carquejas, sargaços, tojos, pequenas urzes e fetos.
Entre os 1400 e os 1200 m verifica-se já a existência de alguns carvalhos de pequeno porte, alguns vidoeiros, giestas, urzes e mato das mais diversas origens.
Até aos 1200 m a arborização é já mais densa, apresentando exemplares de grande porte, espécies arbóreas como o carvalho, o castanheiro, o vidoeiro e o salgueiro, entre muitas outras. 
Muito mais diverso e menos arborizado, é o revestimento vegetal da Serra da Lagoa, a qual junto ao Rio de Meixedo, nos apresenta uma extensa área de matagal - urze, tojos, giestas, sargaços, carquejas, muitos jungos e um carácter árido, que demonstra a ausência de povoamento humano.
Finalmente, não se pode esquecer que a flora do Larouco, alberga espécies botânicas do maior interesse e que são objecto de acesa discussão, nos vários congressos de medicina popular, organizados na região, com particular realce, para o realizado anualmente no mês de Setembro, em Vilar de Perdizes. Aí se recomendam para o «tratamento» de diversas doenças, os chás de Alecrim, para o combate à asma, falta de apetite, gota, amigdalites e obstrução nasal, de Barba de Milho, para as inflamações e infecções da bexiga, da Flôr de Carqueja, para a tensão arterial alta, pedra nos rins, tosse, diabetes, rouquidão e bronquite, da Erva Cidreira, para os nervos, dores de cabeça e cólicas, do Fel da Terra, para os diabetes, das Folhas de Freixo, para o àcido úrico, colesterol, má circulação e reumatismo, da Flôr da Giesta-Branca, para os diabetes altos, ureia e Infecções da bexiga, das Malvas, para as inflamações da pele e mucosas, infecções e irritações de todo o tipo, da Tília, para o coração, sistema nervoso e insónias, da Flôr da Urze, para a próstata, bexiga e rins e da Uva-do-Monte, para o colesterol «sangue gordo», trigliceridos, diabetes e inflamação da bexiga, entre tantos outras.
(Extracto do Livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente)

- ORGANIZAÇÃO SOCIAL E COMUNITARISMO

A organização social, o clima e a morfologia do solo, condicionaram claramente e desde sempre, as actividades rurais da população de Gralhas, que viveu durante anos, entregue às suas tradições mais antigas, algumas das quais perduraram até hoje.
A base dessa organização, até meados do século XIX, assentou na «assembleia» dos representantes das várias famílias da povoação, que reúnia com uma certa periodicidade, junto à Capela de Santa Rufina, quando tal era necessário.
Essa assembleia, chamava-se Junta, Acordo, ou Conselho e foi herdeira do antigo conventus publicus vicinorum (assembleia pública dos vizinhos) do reino visigótico. Era nessa «assembleia» que se analisavam até à exaustão, os problemas que a todos diziam respeito, e se decidia, por vontade expressa da maioria, as soluções a adoptar.
A Junta era a mais perfeita expressão da Democracia Popular. Essa assembleia, foi dirigida até aos primeiros anos do século XX, por um «Juiz», «Zelador», «Juiz de Vintena», «Procurador», «Mardomo» ou «Chamador», e a partir daí, até meados dos anos setenta da mesma era, pelo Regedor ou Presidente, o primeiro escolhido pelo povo da aldeia e o segundo pelas corporações concelhias, afectas ao regimo tatalitário da II República.
Os Regedores nomeados, eram pessoas respeitadas da aldeia e totalmente independentes das autoridades administrativas oficiais e quando da escolha, tinham a obrigatoriedade de permanecer no cargo, por um periodo minimo de 6 meses. Não eram remunerados, nem tinham qualquer tipo de previlégios pelo seu desempenho. O último Regedor da freguesia, foi António Fernandes Chaves, mais conhecido pelo «Pistão».
A estes homens, competia convocar a «assembleia», o que era feito normalmente, através do toque do sino da Capela (Santa Rufina), e verificar as presenças e as ausências, dos cabeças-de-casal. Aquele que sem justificação, não estivesse presente, era como que «excomungado» pela população, já que a todos era exigida a presença, fosse para o bom ou o mau. 
Após a verificação das presenças, apresentavam-se então os assuntos a tratar. Todos em conjunto, ou individualmente. Eram calorosamente discutidos, chegando-se sempre a uma solução prática, de acordo com a vontade expressa da maioria. Em caso de empate, cabia ao «Juiz» tomar a decisão.
Eram muitos e variados os assuntos que se apresentavam à «assembleia» e esta tinha obrigatoriamente de encontrar soluções, para cada caso concreto, designadamente, no que dizia respeito à reparação e abertura de caminhos, organização da vida pastoril, distribuição das águas de rega, locais de roça, limpeza das igrejas e das poças, carretos para o povo e tantos outros trabalhos necessários à comunidade.
Esta tipo de organização durou séculos e passou de geração em geração através dos usos e costumes da terra.

A partir dos finais da década de setenta, do século passado, este tipo de organização social, foi substituída por uma espécie de «Conselho Dominical», cujos moldes de funcionamento eram muito semelhantes, senão vejamos: No final das missas de domingo, era recomendado a todos os aldeões presentes nas mesmas, de que deverim «esperar» (aguardar), normalmente no largo fronteiriço à igreja e às cortes do boi, onde teria lugar uma «reunião», para decidir sobre determinado assunto.
Estas reuniões, eram «presididas» pelo Presidente ou Secretário da Junta, a quem competia colocar as questões em discussão e avaliar as respectivas votações. À semelhança do que acontecia no passado, nada ficava escrito e o registo das decisões tomadas, ficava no subconsciente de cada um, que as acatava.
Actualmente, este método caíu quase em desuso. O Conselho Dominical, poucas vezes vai a votos e foi substituído pela moderna Assembleia de Freguesia. A coberto de tal modernidade e amiudadas vezes, os senhores Presidentes cedem à tentação fácil de decidir, sem ouvir o povo e de o informar, preferindo afixar papéis em determinados locais, que poucos se dão ao trabalho de ler.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

- PATRIMÓNIO CULTURAL

As «segadas», as «malhadas», os «carretos», as «vezeiras», os «motes», o cantar dos «reis», as «chegas de bois», entre outros, são exemplos de misturas exóticas entre o religioso e o pagão, que evocaram no passado os deuses, em favor de colheitas fartas e que é preciso não deixar esquecer. O comunitarismo tradicional ,resultou assim, da necessidade de conjugar esforços, para mais facilmente se atingirem os fins desejados. E não apenas em termos laborais, ou de preparação de festas.
O povo de Gralhas, impunha igualmente as suas regras, através do seu «Conselho Dominical», reunido aos domingos após a respectiva Eucaristia. Aí, onde eram transmitidas as «ordes» (ordens), aprovavam-se posturas, para garantir o respeito pelos bens e direitos comuns e pela propriedade privada, para permitir ou não, a seiva dos gados nos terrenos abertos que estavam de restolho, para arrendar os baldios, as côrtes e os palheiros, para impôr a realização de determinados trabalhos, para restaurar, limpar e pôr em funcionamento as infra-estruturas para uso da comunidade, designadamente, caminhos, represas, forno do povo, moinhos, lama-do-boi, igreja, cemitério, poças e regos-da-água entre outras. 
Toda a gente era solidária. Com a mesma facilidade, com que cumpriam as regras, pediam e emprestavam o fermento, o pão, a ferramenta, o burro ou a junta de vacas. Pediam e davam apoio na «segada», na «carrada», no «meter do feno», na «arranca da batata», na «matança do porco» ou na feitura do fumeiro; socorriam os vizinhos na hora da «desgraça», do incêncio, da inundação, das geadas que tudo queimavam e da doença de pessoas e animais, ao mesmo tempo, que com eles choravam, nos momentos de luto e de desastre.
Hoje, as novas técnicas simplificaram a satisfação das necessidades de cada agregado familiar e por isso, a necessidade de entreajuda e de partilha de recursos, foi-se diluindo progressivamente. Praticamente, tudo é feito de forma mecanizada e comercializada, e o comunitarismo, apenas resiste em pequenas franjas da população da aldeia, muito embora muitos dos «rituais», se mantenham vivos.

- OS MOTES

Como já foi referido, em finais do mês de Dezembro ou princípios de Janeiro, já em pleno e rigoroso Inverno, que por estas paragens, é ainda hoje conhecido e de que maneira pela sua longa «duração», tinha lugar a primeira sementeira da época agrícola que se avizinhava: a sementeira do centeio. Era um corropio de carros atrelados às juntas de vacas, chiando rua abaixo, rua acima, num corropio, cujo lema final era o transporte do esterco (estrume dos currais do gado), para as leiras (terrenos), que depois de podre e bem curtido, servia para adubar as respectivas terras. Daí até à proxima etapa – a segada -, era tudo uma questão de paciência e fé em Deus. Por um lado, porque desde que as sementes eram lançadas a terra, até ao momento de colher os frutos, «nada mais» era necessário fazer, pelo outro, porque se rezava aos Santos, para que o as neves ou as geadas, muito comuns por estas bandas, não fossem tão abundantes, que viessem pôr em causa o sustento de muitas familias.
OS MOTES Neste periodo de maior lazer, em parte provocado pelo frio, pelas chuvas e pelas neves, era então chegado o Entrudo, época de Caretos e de Motes, que a juventude muito apreciava.Mas se os primeiros não constituem qualquer novidade, o que eram efectivamente os Motes?... De que tratavam?... Os Motes, eram quadras de louvor, escárnio ou maldizer, de origem pagã, nascidas nos alvores da nacionalidade, e um tipo de poesia, galaico-portuguesa, que constituíu sem qualquer dúvida, um dos fenómenos culturais mais ricos da Idade Média e se prolongou na aldeia de Gralhas, até aos finais dos anos sessenta do passado século. Eram enfim, um momento único de louvor ou de critica aos aldeões, tendo sempre como pano de fundo, a satirização da sua conduta, das boas ou das más acções praticadas, durante o ano que os antecediam.
Os textos das quadras, que poderão eventualmente ser chamados de intervenção, eram lidos por dois «trovadores» previamente escolhidos, pela juventude da aldeia, que em conjunto com os anotadores (autores), as escreviam antecipadamente e em total segredo, durante os serões das longas noites do inverno, de modo a que no momento certo, constituíssem autêntica novidade. O texto no seu todo, contemplava, uma a uma, todas as familias da aldeia, e em geral, cada duas ou três quadras, eram dirigidas em exclusivo e em forma de louvor ou critica, a determinada familia ou membro da mesma. O amor, a vaidade, a ganância, a inveja, a falta de solidariedade, a critica pessoal, as «casamenteiras» e os «compadres», aliados à veia cómica, lirica ou satírica estavam sempre presentes. 
Por vezes, determinadas criticas, não eram muito do agrado de quem as ouvia, designadamente, quando as mesmas lhe «batiam à porta», ou mesmo, quando através da sua leitura, se punham a descoberto, «amores proibidos», «negócios fraudulentos», «comportamentos hereges», «falta de dignidade e honradez» ou se ridicularizavam os comportamentos menos abonatórios das pessoas visadas.
Mas como é que tudo isto funcionava: No dia aprazado para a leitura dos ditos Motes e ao toque do sino da Capela (de Santa Rufina), o povo juntava-se no largo hoje apelidado de Cruzeiro. Um dos trovadores, subia para a varanda do Zé Rato, segurando o seu caderno de leitura e o melhor galo da freguesia, devidamente decorado com todo o tipo de adornos, e que para o efeito, era oferecido ou comprado. Para a varanda fronteiriça, subia o segundo trovador, munido tal como o primeiro, do seu caderno, onde previamente haviam sido escritas as quadras, que iriam fazer as delicias dos presentes, tanto mais que cada lavrador, suas mulheres, filhos, filhas, namorados, namoradas, velhos, velhas e até os solteirões e solteironas da terra, não escapavam à ridicularização.
Uma vez instalados e em jeito de leitura feita ao desafio, os trovadores, só interrompidos pelas palmas dos presentes, faziam a apologia do galo. Realçavam as sua cores, o seu tamanho, o tamanho da sua crista e dos seus «tomates», a sua elegância e altivez, o modo como cantava, tudo isto intercalado com comparações satiricas, a determinadas pessoas presentes na concentração. Aqueles que não resistiam, abandonavam o local a resmungar, em sinal de protesto, mas tudo isto fazia parte da «festa»... Após atingidos os primeiros objectivos, o galo era então simbolicamente morto e esquartejado. Logo após, procedia-se à distribuição de todas as componentes do seu corpo!... Sempre de forma simbólica, aos aldeões alvos de maiores criticas, eram atribuídas as penas. A outros, cuja conduta não era tão censurável, saíam-lhe em sorte as patas ou a cabeça. Para outros, dado o seu melhor relacionamento e disponibilidade, ficavam reservadas, as asas ou o pescoço e para os aldeões exemplares, para aqueles que mais contribuíam para a boa harmonia e para o progresso da terra e respectiva população, ficavam as cochas e o peito, que eram as partes mais apreciadas.
No final da sessão, surgiam os comentários de concordância ou discordância, com o desfolhar das criticas. Discutia-se, a «qualidade» dos Motes, se tinham sido bons ou maus, se tinham sido melhores ou piores que os do ano anterior!... Discutia-se o «ataque» que fora feito ao fulano A, quando quem tinha a ver com o assunto, era o B. Discutia-se a inoportunidade de desvendar determinado segredo, quando outros, deviam vir para a praça pública, enfim... todo um rol de questões, que eram tema de conversa, nos três ou quatro dias que se seguiam.
Quanto ao galo, agora sim... via chegada a sua hora, de fazer as delicias de quantos tinham contribuído para a festa. Anotadores e trovadores, reúniam-se em casa de um deles e após a respectiva «janta», comemoravam pela noite dentro... 

(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

- TRÊS MESES DE INFERNO

Após as matanças dos porcos, as comemorações natalícias, por estas bandas carregadas de significado, a passagem do Carnaval, a época da Quaresma e da Páscoa, cuja efeméride e tudo quanta a envolvia era igualmente muito respeitada, aproximava-se a grande labuta, que envolvia toda a comunidade da aldeia e até em muitos casos de familiares de outras freguesias próximas, que não se escusavam de dar o seu contributo. se que muitas vezes constituía verdadeira festa.
A dita labuta, que em muitos casos constituía uma verdadeira festa, tinha inicio em meados do mês mês de Junho e prolongava-se  até aos últimos dias de Setembro, principios de Outubro, motivo pelo qual, muitos apelidavam este periodo, de «três meses de inferno», assim conhecido, pela abundância de trabalho, que havia nesse espaço de tempo. 

Era o corte do feno nos lameiros, o seu tratamento e respectivo transporte para os palheiros, a segada, a carrada, o preparar das eiras para malhada, que até há quatro/cinco décadas, era feita com os malhos e posteriormente a arranca da batata, entre outros que amiudades vezes íam surgindo e que era necessário ultrapassar.
Extracto do livro Gralhas-Minha Terra Minha Gente

- AS SEGADAS

A «segada», era um dos ditos trabalhos, que marcava particular relevo na mente dos meus conterrâneos. Como todos os outros, era tudo feito manualmente, o que obrigava, a que fosse preparada e anunciada quase ao milimetro e com a devida antecedência.
Os convidados, constituídos normalmente por familiares e amigos próximos, precaviam-se com gadanhos (foices) novos, que adquiriam normalmente em Espanha e apresentavam como autênticos troféus. Face ao previsível número de «pousadas (número de molhos) a colher», era necessário calcular o número de pessoas necessárias, de entre seitoiras (segadores) e atadores, para que tudo decorresse, entre um, dois ou o máximo, três dias, tanto mais que havia outros vizinhos em «fila» de espera.


Chegado o dia, era um «ver se te avias»!... Desde o nascer ao pôr do sol, apenas com interrupções para o mata-bicho (pequeno-almoço) e jantar (almoço), os quais tinham lugar em determinada leira (terreno) previamente definida, os segadores, percorrendo fazenda a fazenda, erradiavam uma alegria constante!... Faziam-se «apostas», discutia-se o número de regos (sulcos) que cada um segava, quem era o melhor segador, quem atava melhor, «arranjavam-se» namoricos e no final, o momento esperado:
 
o recolher dos molhos para a roda (circulo) - feita normalmente no meio da fazenda -, onde ficavam sobrepostos uns sobre
os outros, com as espigas de fora e ao sol, para uma melhor maturação e a feitura do ramo (arranjo feito em cruz) da segada, que depois era transportado por um dos segadores, que em conjunto com todos os demais, entoavam cânticos, até à porta do «patrão», a quem o entregavam para exposição pública (normalmente feita nas varandas das habitações) e protecção divina. Como agradecimento pelos cânticos e pelo terminar do trabalho, era então dado de beber (vinho) aos segadores, através de um pipo (barril em miniatura), que circulava de boca em boca.
Seguia-se a ceia (jantar), que normalmente se prolongava até altas horas!... Aí esgrima-se de tudo um pouco... Se a leira «A», dera muito pão (centeio) ou pouco; se a leira «B», tinha dado mais pousadas ou menos, que o ano passado; se determinada leira do fulano «A», é melhor que a do fulano «B», enfim... todo um corropio de assuntos, cujo pano de fundo, era sempre o mesmo... a competição entre lavradores.
Finalmente e após mais alguns «copos» para retemperar as energias, era chegada a hora da deita...É que no dia seguinte, repetindo-se o figurino, o «patrão» dava em «empregado»... e havia que levantar cedo.
Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente"

- A CARRADA

O passo seguinte nesta desenfreada labuta, dava pelo nome de «Carrada» e consistia no transporte do centeio, segado nos diversos terrenos, para as eiras, que eram propriedade de determinado grupo de pessoas, sendo aí depositado em enormes medas, que chegavam em muitos casos a atingir, os quinze metros de altura, por outros tantos de diâmetro.
Todo esse transporte, era efectuado em carros puxados por vacas ou bois e tal como na «segada», também a «carrada», obedecia a certos rituais. Os cornos do gado, eram lavados a preceito, o seu pêlo tratado como nunca, as campaínhas para o enfeitar, tinham que ser sempre as melhores da casa, isto para já não falar, dos melhores jugos, das melhores molhelhas (cangas) e dos melhores estadulhos, que nesta altura, saíam das «loijas» (adegas) e substituíam os de uso corrente. Durante a carrada, a jugada (junta de vacas ou bois) de cada lavrador, era sempre apresentada, numa atmosfera de competição. Era preciso dar o «risco» (ser o melhor).
Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente"

- AS MALHADAS

Até meados do século XX e tal como na sega do feno, do centeio, nas carradas ou nas malhadas, tudo era feito manualmente. Neste caso concreto, eram necessários para malhar, pelo menos oito homens, quatro de cada lado e cada qual utilizando o seu malho (mangualde). Depois do centeio malhado, era levantada a palha com uma forquilha e atada em molhos, que posteriormente eram guardados nos palheiros. O centeio que ficava no chão, era tirado pelas mulheres, com uma vassoura, normalmente feita com ramos de giesta, até ficar limpo. Além disso, era ainda ajoeirado ao vento e só depois transportado em sacos, para as caixas (arcas). Não se pense contudo, que este era um trabalho fácil!... Apesar de não parecer, era tão árduo como a própria sega do feno, ou a segada do centeio. É que antes da malhada propriamente dita, havia todo um conjunto de afazeres, que não sendo fáceis eram de todo em todo bastante desagradáveis, senão vejamos: A eira, era devidamente varrida, e mais que uma vez. Posteriormente, era recolhida na aldeia e zonas limitrofes, bosta (fezes) do gado, com a qual era barrado o recinto, até agarrar bem. Esperava-se que a dita bosta secasse, e só então, estavam reunidos os requisitos necessários, para dar inicio à malhada propriamente dita. A partir dos anos 60, do mesmo século XX, este método foi-se alterando progressivamente e as malhadas, apesar de continuarem a fazer-se nas eiras, tal como no passado, eram já feitas, com o auxilio de «malhadeiras» (máquinas), que com o decorrer do tempo, se foram tornando mais sofisticadas.

– EXEMPLOS QUE RESISTEM

A VEZEIRA OU GÁDINHO 


Todas as manhãs e em regra, a um sinal dado através do toque de um sino, cada proprietário, tem a preocupação, de fazer sair dos seus currais (côrtes) os seus animais e juntá-los aos demais, para que em conjunto e normalmente guiados por um ou dois pastores, subam as encostas da serra, na procura da sua subsistência. A todo esse conjunto de cabeças de gado, se dá o nome de Vezeira ou Gadinho e é um dos exemplos vivos de vida comunitária, que nesta aldeia vai perdurando no tempo.

Os pastores, são os próprios proprietários dos animais, que se revezam na sua guarda. A regra é simples: por cada 10 animais ou menos, que possuam, terão de dar um dia de trabalho à comunidade. Se o número de animais ultrapassar a casa das dezenas em 5 ou mais, até aos 9, a esse dia ou dias de trabalho, é acrescentado mais meio dia, o qual é normalmente prestado, quando a soma dos meios dias, perfizer 1.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra, Minha Gente")

- AS CHEGAS OU LIADAS

As «Chegas» ou «Liadas» de bois, são uma antiga tradição das terras de Barroso e em particular da aldeia de Gralhas, por onde passaram muitos campeões e onde nos dias de hoje, pese embora as mudanças ocorridas, são ainda levadas muito a sério.
Num passado não muito distante, cada «Chega», era um dia de festa, ou de tremenda amargura e tristeza, para os habitantes da aldeia. O principal protagonista, era sempre o «boi do povo». O «boi do povo» era um bem comunal e alimentava-se normalmente nas lamas (pastos), que pertencem ainda hoje a toda a comunidade. Cerca de meio ano, antes da participar em qualquer duelo, recebia ainda, feno, centeio, batatas, nabos, beterrabes e todo um conjunto de géneros, que eram oferecidos por todos os aldeões, para complemento da sua alimentação e respectiva engorda. Pernoitava numa casa (corte), que fazia parte igualmente, do património de todos. Anualmente e por uns tantos alqueires de centeio, um pastor «arrematava» a guarda e o tratamento do animal, de quem passaria a cuidar. Quando o animal chegava à idade adulta (cinco ou seis anos) tornava-se no orgulho da aldeia, sendo por isso, motivo de acesas discussões entre os habitantes de povoações vizinhas, com cada um a defender a maior pujança do seu animal. 

Estas discussões, terminavam irremediavelmente numa luta entre os animais - as chamadas «Chegas» ou «Liadas» - que visavam distinguir o campeão. Por vezes, fazia-se alguma batota!... Como funcionava? Antes da «Chega» aprazada, promovia-se um confronto preliminar entre os dois contendores, feito sempre às escondidas e normalmente em noites de luar. Para que isso acontecesse, o «boi do povo» de uma aldeia, era raptado, uma tarefa nem sempre fácil, quer pelos cuidados que cada pastor e a respectiva comunidade colocava na sua guarda, quer pela bravura do próprio animal, que geralmente se tornava agressivo face a desconhecidos, quer ainda, porque perante uma situação desse tipo e caso o raptor ou raptores fossem detectados, se sujeitavam a ser severamente maltratados, ou mesmo mortos, já que era colocada em causa, a honra e a dignidade dos intervenientes.
Há mesmo exemplos, cujas marcas deixadas, são profundas. Em alguns casos porém, havia conivência entre os tratadores das duas aldeias, que decidiam confrontar os animais para atestarem se estavam prontos para poderem realizar a «Chega» pública, de forma a que esta não resultasse num fiasco. Caso o resultado fosse positivo, estavam então reunidas as condições para a realização do confronto, o qual devia ser acordado seguindo um certo ritual: os «rapazes» - mais maduros e badolas - de uma aldeia dirigiam-se, geralmente ao domingo, à aldeia que pretendiam desafiar. As regras do jogo exigiam que o desafio não fosse directo. Os visitantes deviam referir, de uma forma evasiva à juventude visitada, a possibilidade da «Chega», ao que os estes deveriam responder da mesma forma, mesmo que o seu «boi do povo» fosse o campeão coroado em outros confrontos.
O passo seguinte dependia da aldeia desafiada, tanto mais, que a decisão a tomar, fazia parte da tradição comunitária, o que significa, que dependia da realização de um escrutínio, normalmente feito de braço no ar, no domingo seguinte, à saída da missa e após a comunicação do desafio, feita pelo Presidente da Junta. Neste escrutinio, era sempre exigida uma maioria absoluta, caso contrário, gorava-se a hipótese da realização da «Chega». Se o desafio fosse aceite, os responsáveis das duas aldeias, iniciavam então os planos para a realização da festa, que devia acontecer em data aprazada, passado que fosse um periodo, que oscilava entre os quatro e os seis meses e a meio caminho entre as duas povoações.
A escolha do terreno, era também motivo de discussão, já que apesar da «Chega» ter obrigatoriamente de se realizar em terreno neutro, o tipo de piso era muito importante para o desenrolar do confronto. As técnicas eram as seguintes: Os proprietários de um animal jovem, tentavam que a escolha recaísse sobre um piso duro, enquanto que os donos de um animal mais velho tentavam assegurar um piso mole, menos desgastante para o seu boi, que geralmente era mais pesado.O meio termo, acabava quase sempre por prevalecer. Outro dos assuntos a negociar, prendia-se com os cornos do boi!... Havia que se decidir, se as suas pontas se afiavam ou não, se podiam ser introduzidas pontas de aço, ou até o enxerto de pontas de cornos, quando o animal estava mal servido delas. Posteriormente e após  «celebração do acordo» ocorriam ainda muitos outros rituais, tais como rezas, superstições, saberes ocultos e mezinhas, que poderiam contribuir para um desfecho favorável. Até as mulheres levantavam saias e saiotes vermelhos, para incitar o boi.
Definido então o local da «Chega» e as condições em que a mesma iria decorrer, era então necessário, tratar da respectiva autorização junto das autoridades concelhias, bem como da presença de alguns Guardas no local da contenda, como forma de prevenir potenciais desacatos, o que nem sempre era conseguido, face à emoção gerada em torno de cada um dos animais. Quanto às despesas, que daí resultavam, eram normalmente suportadas, em partes iguais, pelas partes envolvidas.
Chegado então o dia aprazado, os dois bois, são conduzidos ao local do «combate», pelos seus tratadores munidos de varapaus, onde são colocados frente a frente. Invariavelmente, o campo de «batalha» está a abarrotar de gente, quer se trate de pessoas oriundas das aldeias dos bois em presença, quer de curiosos de outros lugares das cercanias, que vibrando com acontecientos deste tipo, acorrem ao chamamento de uma festa ímpar na região e que toca no subconsciente de homens, mulheres, jovens e menos jovens. Uma vez na presença um do outro, os animais «medem-se», sob o olhar atento do público presente, que de imediato toma partido, apoiando o seu favorito. Este é o momento em que se destacam os incitamentos das duas comunidades em confronto, que se revêem nos seus «bois do povo». Os dois possantes machos rapidamente se enfrentam.
Segue-se uma luta indescritível de jogos de cornos e marradas, corpos a vibrar até ao extremo, luta sangrenta de carreiros de sangue na disputa, que vai marcar a distinção entre vencido e vencedor. Por alguns momentos descansam, voltam a investir, afastam-se, voltam a lutar, entrelaçam de novo os seus cornos uns nos outros e empurram-se mutuamente e com violência, mostrando cada qual a sua força e a sua bravura.
A «Chega» pode ser rápida ou prolongada, dependendo essencialmente do gabarito dos contendores. Em qualquer dos casos, o entusiasmo dos assistentes é indiscritível. O seu final pode acontecer quando um dos bois abandona o «combate» fugindo em debandada, o que significa o assumir da derrota, ou quando um dos animais é irreversivelmente ferido pelas investidas do seu opositor. Para os habitantes da aldeia vencedora, os momentos que se seguem são de euforia, quase de glória. O seu boi passa a ser quase venerado. O vencido segue em silêncio, a caminho do talho.
Dos tratadores e de quem os acompanha ouvem-se, por vezes, vozes roucas a desabafar, numa raiva incontida: «o boi perdeu, os homens ...veremos». As cenas de violência nem sempre são evitadas, mas felizmente são cada vez mais raras.

Esta tradição, já não é hoje o que era dantes. Apesar dos habitantes destas Terras do Barroso continuarem a vibrar e a manifestar grande entusiasmo com as «Chegas», o boi do povo, já não existe mais, e aquilo que resta, são as «Liadas», comercializadas a troco de alguns euros, levadas a efeito por alguns proprietários individualmente considerados, que fazem desta actividade, o seu «ganha-pão». Dos tempos de outrora, resta a nostalgia.
(Extracto do livro "Gralhas-Minha Terra Minha Gente"
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