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quinta-feira, 22 de março de 2012

HINO DA CGTP INTERSINDICAL NACIONAL



PSP agride jornalista da France Press em Lisboa

NUNO MIGUEL ROPIO
 
 
foto HUGO CORREIA/REUTERS
PSP agride jornalista da France Press em Lisboa
O momento da agressão
 

A PSP agrediu esta tarde a fotojornalista da France Press em Portugal, Patrícia Melo, quando esta cobria a manifestação da Plataforma 15 de Outubro, no Largo do Chiado, em Lisboa, integrada na greve nacional. Como foi captada pelo fotógrafo da Reuters, a agressão está a pulverizar-se pelos sites noticiosos internacionais.
No mesmo local, o fotojornalista da agência Lusa, José Sena Goulão, também acabou por ser alvo de constantes bastonadas por um agente da polícia. Já no chão, mesmo já depois de se ter identificado como jornalista, Goulão continuou a sofrer carga policial, tendo necessitado de intervenção hospitalar.
Os confrontos terão começado, segundo fonte oficial do Comando da PSP de Lisboa, quando alegadamente alguns integrantes da referida plataforma atiraram objetos, como chávenas, junto à esplanada do café Brasileira.  
Um transeunte que se encontrava no Chiado acabou por socorrer a fotojornalista da France Press, mas esta não precisou de recorrer ao Hospital.  
A porta-voz da PSP, subcomissária Carla Duarte, garantiu que houve pelo menos três feridos, entre eles um agente que terá sido atingido com uma chávena na testa, e um manifestante detido, por ter lançado petardos e agredido policiais.  
No Hospital de São José, em Lisboa, encontra-se a receber tratamento o jornalista da Lusa. O cenário de violência policial contra Goulão motivou, ao início da noite, um protesto da Direção de Informação da Lusa junto do diretor nacional da PSP, o superintendente Paulo Valente Gomes.  
Na carta enviada, a Lusa sublinha que José Sena Goulão estava "devidamente identificado como jornalista, estava a acompanhar uma manifestação". E já no chão, perante as bastonadas, "e não obstante gritar aos agressores a sua condição de jornalista, continuou a ser brutalizado pelos mesmos agentes". 

Polícias à paisana responsabilizados por incidentes frente à reitoria do Porto


Polícias à paisana responsabilizados por incidentes frente à reitoria do Porto


Testemunhas responsabilizaram, esta quinta-feira, "agentes à paisana" da polícia pela situação que levou a agressões de várias pessoas por elementos das forças de segurança, na manifestação de protesto frente à Reitoria do Porto , onde se encontra o primeiro-ministro.
foto PEDRO CORREIA/GLOBAL IMAGENS
Polícias à paisana responsabilizados por incidentes frente à reitoria do Porto
Passos Coelho no Porto
Em declarações à Lusa, Carla Silva, empregada de limpeza na Câmara de Matosinhos, diz que o filho foi agredido a pontapé por "um polícia à civil".
"Jovens estavam a protestar e a polícia decidiu virar-se à 'porrada'. Quando eu vinha a fugir com o meu filho, um polícia à civil deu-lhe um pontapé. Conclusão: gerou-se uma confusão outra vez e ainda prenderam um jovem. E a polícia é que tem a razão. No nosso país é assim", acrescentou.
Carla Silva garante que até à intervenção do polícia à paisana estava tudo pacífico.
"Estava a correr tudo muito bem, até o polícia à civil estragar tudo. Eles é que estragaram tudo", acusou.
A empregada de limpeza disse ter decidido juntar-se à manifestação por ganhar 250 euros por mês, lamentando que "uns tenham tudo e outros não tenham nada", mas garantiu nem saber que o primeiro-ministro iria estar à sua frente, dentro da Reitoria.
Carmo Marques, educadora de infância, recordou o momento em que foram chamar a atenção, junto à zona onde se encontrava, de que "andava por ali a polícia à paisana".
"No mesmo momento em que isso foi dito, uns foram agarrados e dirigiram-nos daqui para a carrinha da polícia. Claro que depois foi tudo uma avalanche de situações, o pessoal tentou que eles não levassem as pessoas e ali à frente começaram a cair bastonadas", descreveu.
"Estava uma rapariga no chão e eu meti-me entre ela e a polícia. Entretanto, um colega nosso foi preso e nós estávamos a dizer para o soltarem. A polícia também começa a chegar toda e iniciou-se a confusão. Pedi a identificação a um agente, mas ele não me disse absolutamente nada. Chamei o comissário e ele também não se dirigiu a mim. Agora, no fim, veio pedir desculpa, que ia a cair e por isso é que me tinha mandado um encontrão", acrescentou.
Tal como Carla Silva, Carmo Marques garantiu que até à entrada em cena da polícia à paisana tudo estava a decorrer de forma pacífica.
A mesma garantia foi dada por um estudante da Faculdade de Letras que foi detido pela polícia durante vários minutos.
Estava tudo pacífico até ao momento em que dois polícias à paisana levaram, para a carrinha, um colega nosso. Estávamos a manifestar-nos contra esta celebração hipócrita do primeiro-ministro, que tenta tirar dividendos políticos de um momento social muito grave. E houve um colega nosso que, sem fazer nada, foi metido dentro de uma carrinha. Todos nos indignámos. Fui uma das pessoas que foram algemadas pela polícia na sequência da confusão gerada em torno da detenção, acrescentou.
Para o estudante, "fica patente quem é que lida bem com a democracia e quem são os provocadores".


Tribunais e a crise! - o comentário

Yue-Minjun, (execution)


O tema do Tribunal da Relação em Faro, é um tema recorrente na boca daqueles que nada têm para dizer, mas que têm de estar sempre a dizer alguma coisa por razões políticas e mediáticas. Sobre esta tema são exemplos bem ilustrativos do que digo, o actual Presidente da Câmara, bem como os anteriores, e o ilustre deputado Cristóvão Norte, que também recentemente interpelou o governo sobre o tema da Relação em Faro.

Como políticos, é bem de ver que têm de falar de tudo, como ou sem conhecimento do que estão a dizer. Também se diga que nenhum é advogado ou magistrado e se algum era licenciado em direito, tal não é suficiente habilitação para falar sobre Tribunais, onde porventura terá entrado poucas vezes.
Assim, é no mínimo patético que de tempos em tempos se desenterre o Tribunal da Relação de Faro, como se da sua inexistência resultasse algum défice de administração da Justiça no Distrito ou que os algarvios fossem prejudicados com essa circunstância.
A questão da justiça de proximidade não se coloca ao nível dos tribunais superiores, designadamente ao nível da 2ª. Instância, em que nem as partes, nem as testemunhas, nem mesmo os advogados têm que estar presentes nas diligências. Assim, nenhum prejuízo advém da Relação Competente ser em Évora, porque ninguém lá precisa de ir para ter o seu recurso decidido.
É com tretas destas que os polítivos vêm entretendo os cidadãos, que também por desconhecimento, acham bem e concordam com o que o Sr. Eng ou o Sr. Dr diz, quando estão a reinvidicar alguma coisa para a região, sem preceberem na realidade se isso lhes faz falta.
Ora, a Relação, não faz cá falta nenhuma, o que fazia falta era mais empresas e mais emprego, mas essas não se atraem com discursos saloios.
anónimo

Justiça: Universidade propõe construção da cidade judiciária no terreno

Campus da Penha ‘oferecido’

A Universidade do Algarve (UAlg) propôs que a Cidade Judiciária de Faro venha a ser instalada no Campus da Penha. Como contrapartida, a UAlg pede a ampliação do Campus de Gambelas, que passaria a albergar todas as valências da universidade.

Por:João Mira Godinho com Lusa

A proposta foi apresentada ontem ao secretário de Estado da Justiça, que visitou as instalações da Penha da UAlg, ao final da manhã. Antes, Fernando Santos esteve reunido com o presidente da Câmara de Faro, Macário Correia, com quem não se quis comprometer com um prazo para a construção do Tribunal da Relação na capital algarvia. A decisão fica adiada para a proposta de reorganização do mapa judiciário, a apresentar no parlamento.
"Quando for decidida a proposta da ministra da Justiça na Assembleia da República, relativamente ao mapa judiciário, passaremos da fase de ensaio para a proposta final e, nessa altura, ficar-se-á a saber qual a proposta definitiva", referiu o secretário de Estado.
O Tribunal da Relação de Faro, a incluir na Cidade Judiciária, foi criado por lei em 1999 mas nunca saiu do papel.

  • Militantes falsos no PSD
  • Carlos Ramos, estudante do ISEG: “Pediram-me para votar por outras pessoas”
  • Jorge Ferreira votou com cartão falso: “Pediram-me para votar em Passos Coelho”
  • Gonçalo Almeida denuncia: Já era militante antes de pedir para ser
  • Nuno Firmo defende-se: “Isso dos documentos falsificados não sei o que é”
  • Sérgio Azevedo, ex-líder da secção i: “Não tenho conhecimento de nenhuma queixa”

Notícia SÁBADO

Militantes falsos no PSD

21-03-2012

Por Vítor Matos
O Partido Social Democrata (PSD) aceitou a filiação de militantes falsos em 2009, validados pela secção i, um dos antigos núcleos da distrital de Lisboa. Um grupo de estudantes do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) denuncia o caso à SÁBADO através de depoimentos gravados em vídeo. Os cartões falsos eram depois usados por outras pessoas, que não eram militantes do PSD, nas eleições internas do partido. Nas directas de Março de 2010, o beneficiado com o esquema foi Pedro Passos Coelho, que ganhou a eleição por larga margem contra Paulo Rangel e José Pedro Aguiar-Branco. O processo está a ser apreciado pelo Conselho de Jurisdição da JSD e há uma queixa na polícia.

Gonçalo Almeida, estudante de Economia de 21 anos, pediu para ser militante do PSD em Outubro de 2009 a Nuno Firmo, um colega de faculdade, que era presidente da Mesa da Assembleia da Associação de Estudantes do ISEG e presidente da Juventude Social Democrata (JSD) da secção i de Lisboa. Quando consultou o seu processo na sede nacional do PSD, verificou que todos os dados da sua ficha eram falsos. Até o cartão de estudante era de outra faculdade, de um pólo da Universidade Lusófona, que ficava na área de jurisdição da secção i, que abrangia toda a zona da Baixa de Lisboa. João Matias, estudante de Matemática Aplicada à Gestão também era militante do PSD sem saber. É natural da Marinha Grande e toda a sua família é simpatizante do PCP. Todos os dados da sua ficha, à excepção do nome eram falsos. Os estudantes suspeitam que os seus bilhetes de identidade foram copiados na Associação de Estudantes do ISEG depois de se terem inscrito na equipa de futebol do núcleo de desporto.
(Ver depoimento de Gonçalo Almeida em vídeo nas páginas seguintes).

A morada que constava na ficha a que a SÁBADO teve acesso, na Rua do Sol ao Rato, pertencia a outro colega do ISEG, Diogo Perestrelo, natural da Madeira. Este estudante confirmou à SÁBADO que o dirigente da JSD Nuno Firmo lhe pediu para receber correspondência do partido na sua caixa do correio, embora não tivesse percebido quais eram os objectivos do social-democrata. Era lá que Firmo ia recolher o correio enviado em nome das fichas falsas. Nuno Firmo nega as acusações. (Ouvir depoimento de Nuno Firmo em áudio, nas páginas seguintes)

Os cartões eram depois utilizados por estudantes universitários arregimentados para votar por militantes do PSD que não imaginavam que estavam filiados no partido. Jorge Ferreira, também estudante de Economia do ISEG, assume que votou na secção i com cartões de militantes de outras pessoas e nunca chegou a ser filiado no partido. Acusa o líder da JSD da secção i e o seu braço direito, Carlos Martins (que a SÁBADO não conseguiu contactar), de promoverem as votações fraudulentas. (Ver depoimento de Jorge Ferreira em vídeo nas páginas seguintes)

Carlos Ramos, outro estudante do ISEG, diz que também foi convidado a participar nas votações da secção i, mas recusou sempre participar. (Ver depoimento de Carlos Ramos em vídeo nas páginas seguintes)

O líder da JSD Duarte Marques afasta responsabilidades no alegado comportamento dos jovens sociais-democratas da antiga secção da Baixa de Lisboa. “Tive conhecimento do caso e reenviei-o para os órgãos próprios que devem tomar decisões e analisar as situações menos correctas”, explica à SÁBADO. “Deve-se fazer justiça, doa a quem doer”. Ricardo Sousa, presidente do Conselho de Jurisdição Nacional da JSD, confirma à SÁBADO que “o processo está a ser analisado em sede de primeira instância”. Quanto à demora na apreciação do caso, diz que “o tempo que está a demorar tem a ver com o procedimento que é adoptado para todos os processos”.

Sérgio Azevedo, 30 anos, deputado na Assembleia da República desde as últimas eleições e antigo dirigente da JSD foi presidente da secção i até à extinção das secções de Lisboa no fim de 2010. Contactado pela SÁBADO, Sérgio Azevedo diz que nunca teve conhecimento de um caso de falsificação de militantes e que nunca ouviu falar nisso. “Não tenho conhecimento de nenhuma queixa”, acrescenta. “Tenho muita dificuldade em acreditar nisso”.
(Ouvir depoimento de Sérgio Azevedo em áudio nas páginas seguintes)

O actual secretário-geral do PSD, José Matos Rosa, diz à SÁBADO desconhecer as fichas falsificadas. “Não chegou nada ao nosso conhecimento. Não foi feita queixa nenhuma”. Miguel Relvas, hoje ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, também afirma à SÁBADO: “Nunca ouvi falar disso. Quando fui secretário-geral, fiz a limpeza de todos os militantes que não pagavam quotas há mais de dois anos.” Assume, porém, a dificuldade em identificar os falsos militantes: “É muito difícil detectar. Os processos chegam das secções, com as cópias dos bilhetes de identidade”. Luís Marques Guedes, actual secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros que era o secretário-geral do PSD na época em que as fichas em causa entraram no partido, também não sabia de nada: “Desconheço totalmente”, afirmou.




O sinal


            O que Zulmira não adivinhava, não podia adivinhar, era que nesse mesmo dia, já perto do lusco-fusco, iria entregar à polícia política o seu Tomé, o homem com quem tinha casado havia mais de um ano, a quem, diante do padre e de Deus, havia jurado nunca trair, fossem quais fossem as circunstâncias da vida. O seu Tomé, pai da Margarida, aquele pedaço de céu prestes a ficar sem os seus carinhos. Se Zulmira soubesse o que estava para acontecer, teria preferido que aquele dia nunca tivesse amanhecido.
            Tomé, o do Monte da Luzia, levantou-se de um salto assim que o primeiro raio de sol, morno, tímido, lhe desenhou uma estrada de luz na face há dias por barbear. Não quis acordar a mulher que dormia ao seu lado, nem a filha, deitada num caixote a fazer de berço, aos pés da cama. Abriu a janela do quarto, pôs a cabeça de fora e respirou fundo. No Verão, a manhã é sempre uma festa de luz, à conquista de espaço, por cima daqueles montes nos arredores de Vila Baixa. Recolheu-se, atravessou o quarto pé ante pé, abraçado à roupa e com as botas cardadas presas uma à outra pelos atacadores. Ia vestir-se lá fora. Não as queria acordar. Não dissera à mulher para onde ia. Nem tinha precisado. “Amanhã vou sair cedo. Há uma reunião.” Zulmira não lhe respondera. Para quê? Havia uns cinco ou seis domingos que era sempre aquilo. Não se contava um, em que ele não tivesse saído mais cedo do Monte em direcção à Vila, ou à casa do João Baptista, ou à do Zé Adelino, ou à de outro companheiro qualquer que não tivesse receio de disponibilizar uma mesa e três cadeiras. Uma vez, mostrara-se queixosa, uma lagrimita a assomar-se, envergonhada, que ela não gostava de chorar, fosse em frente de quem fosse. Foi logo a seguir ao nascimento da Margarida. Já nesse tempo Tomé andava metido na política.
      “Nunca passas os domingos em casa. Andas sempre em reuniões, e eu sempre preocupada sem saber se voltas. Pensa em mim. Na tua filha, tão pequenina, a precisar de ti.” “Por causa dela é que eu ando nisto.” Era sempre assim o remate dele. Mas depois continuava: “Zulmira. Isto tem de dar o berro! Isto tem de acabar um dia...” “E pensas que tudo muda, só porque meia-dúzia de loucos como vocês quer mais justiça?” “Não são meia-dúzia, Zulmira. Isto já é o país inteiro. Ninguém está contente com a situação... As prisões estão cada vez mais cheias... As perseguições aumentam todos os dias. Anteontem foram buscar a Ti Maria da Venda lá ao monte dela. Revistaram a casa e deram com dois ou três jornais dos que a gente sabe e… pronto... Os filhos a chorarem... O marido a dizer que ele é que os tinha trazido. Depois, há amigos meus a serem torturados todos os dias...” “É esse o meu maior medo, Tomé... Que tu, um dia, não regresses a casa... E que sofras por uma causa perdida… Eu casei contigo para ser feliz. Para estar contigo e com a nossa filha. Quero dar-lhe uma vida melhor do que a que os meus pais, que Deus tem, me deram... Coitados... Eu não me importo de trabalhar no campo... De tratar dos porcos... De ir fazer as ceifas noutras herdades onde paguem melhor... Não me fazem impressão os ‘ratinhos’ que vêm de tão longe ganhar o pão. Eu quero é ter paz. E queria que tu nunca fosses preso... A nossa vida ia ficar despedaçada…”
            Foi aí que a lágrima se soltara, leve, e se lançara lenta pela face, numa cascata de dor, em direcção ao lábio bem desenhado, fino, não de cruel mas de finura mesmo, que Zulmira até podia ter nascido do outro lado: a tez era clara, os cabelos negros. Negros e longos, caídos até ao meio das costas. Vinte e cinco anos. O corpo magro, esguio, como se cuidasse dele de propósito para agradar a Tomé. Mas não. Ela era assim mesmo: bonita, mulher feita aos quinze, cobiçada pelos rapazes que se juntavam depois do trabalho na venda do Ti Zé da Bica, à saída da Vila, mas que só conheceu homem depois de ter casado com o Tomé da Luzia, Monte afamado pelo morador e pelo pai, o Chico da Luzia, homem chamado a contas ainda Tomé era gaiato pequeno.
            “Não gosto de te ver chorar. Diz o que quiseres, mas a chorar é que não.” “Eu sei que as minhas lágrimas não te aquecem nem arrefecem, mas ando sempre com o credo na boca. Sabes que já andam dois deles a rondar o nosso Monte. Todos os domingos, chegam, estão, e partem antes do fim da tarde… São sempre os mesmos. No dia em que tu faltaste ao trabalho, a uma segunda-feira, para ires ao médico, eles ali estavam, desconfiados… É um suplício. Nesse dia, se não fosse o sinal, tinham-te levado… A minha angústia nasce todos os dias, porque eu sei o que vai na tua cabeça de herói que quer mudar o mundo sem pensar nas consequências para si e para os seus... E tu, sozinho, não consegues nada...” “Não posso sozinho, mas posso contigo. Com a tua ajuda… Queres uma vida melhor para a nossa filha? Então, confia em mim. Protege-a quando eu não estiver. Protege-a. Com a tua própria vida. Com a minha própria vida. Ela é o nosso tesouro mais precioso… Está atenta. À mínima desconfiança, já sabes: descontraidamente sais de casa e fazes o sinal.” Zulmira lançou-lhe um olhar nervoso que disfarçou com um sorriso triste mas que o deixou mais sossegado.
                                   …………………………………….
Saiu do Monte já o sol tinha aberto os olhos, dando ao olival um aspecto esguio, de sombras alongadas a baterem-lhe nas botas. Havia uma ligeira aragem mas já se sentia que o dia ia ser quente. Como todos os dias de Verão no Alentejo. Domingo é campo parado. As searas ali à volta estavam quase prontas para o corte. Mais um mês de espera... Para trás, a casa, o poço, a pocilga, feita por ele, o alpendre, o tanque onde Zulmira lavava à estorrina e um terreiro grande, largo, limpo de ervas e de pedras, onde a roupa era estendida, de frente para a Vila, virada ao vento, que lhe desalinhava os cabelos de azeviche, sempre que ali ficava à espera de Tomé. 
 “Quanto menos a família souber da nossa vida, melhor”, dissera-lhe uma tarde João Baptista, com ar grave, quase ameaçador. “Não podemos pôr em risco as nossas mulheres porque, se não regressarmos a casa, são elas que ficarão a tomar conta dos nossos filhos...” “Mas a minha mulher apoia a nossa causa. Não a posso deixar de fora… Ela sabe o que eu ando a fazer. Só desconhece é os sítios onde nos juntamos. Uma semana em casa de um... Outra em casa de outro. Eu sei que somos vigiados. Na vila, há gente que manda um telegrama para Lisboa todas as segundas-feiras a contar quem estava na reunião... Mas a mim nunca me apanham. Eu tenho um sinal com a minha Zulmira.” “Um sinal?”. “Temos um sinal. Um sinal, é só isso. Um dia conto-te, João. Um dia!”
Dali a Vila Baixa era um saltinho. Pouco mais de meia légua. A reunião começava às oito em ponto. E hoje iam tomar-se decisões importantes.
Se Tomé da Luzia adivinhasse quem estava à espreita atrás da oliveira velha, a uns duzentos metros do monte, não teria mantido a sua postura decidida, nem se teria dirigido para a Vila, onde era esperado na casa do Zé Adelino. Se tivesse o poder de ver através das coisas, teria vislumbrado, de forma clara, não um homem mas dois. Daqueles que basta olhar para eles para se ficar a saber, lidos à primeira vista, quem são, o que querem e quem os mandou. Quando Zulmira os viu, já Tomé ia longe… Para não correr riscos, era melhor pôr o sinal de alerta a funcionar…
            Passou o tempo, mas não passou o medo. Zulmira andou quase sempre com a filha ao colo, nervosa, com vontade de ir ter com Tomé, ou de mandar um recado por alguém… mas por quem? Sabia, contudo, o que lhe dava um certo alívio, que o marido não se aproximava do Monte enquanto lá estivesse o sinal… Mal almoçou, tal era a agonia.
            Entraram em casa como uma sombra, os dois homens. Margarida dormia descansada e ausente, no caixote, no quarto, aos pés da cama. Pouco passava das seis da tarde e Zulmira, que estava na cozinha, não os viu. Subitamente, um choro assustado encheu-lhe a alma e quando se dirigiu, a correr, para o quarto, já um deles vinha a sair com Margarida ao colo. Zulmira soltou um grito e atirou-se ao desconhecido… Este, bastante mais alto que ela, ergueu o bebé acima da cabeça, enquanto a mãe era brutalmente agarrada pelo braço esquerdo do segundo homem enquanto que, com o direito, fechava as portadas da janela da cozinha.
            “Acalma-te, mulher”, disse o primeiro. “Fica sossegada que tudo se resolve… Não grites, não estrebuches que ainda assustas a criança…” “Quero a minha filha”, gritou ela, não acreditando no que lhe estava a acontecer… “E vais tê-la. Mas, para isso, tens de nos fazer um pequeno favor…” E o primeiro, o que segurava Margarida, fez um gesto ao segundo para que afrouxasse o abraço e a deixasse mais folgada. “O que querem, então?”, perguntou num misto de medo e de fúria. “Vais começar por nos dizer onde está o teu marido”, replicou o primeiro que, pelos ares, parecia o chefe do outro. “O meu marido foi ver a mãe ao monte. Anda adoentada e a idade já é muita e…” Não acabou a frase. A mão do segundo homem voou, furiosa, em direcção à face direita de Zulmira que não soltou um grito mas que sentiu a raiva a descer com as lágrimas. “Não sejas mentirosa. O teu marido está em Vila Baixa, numa reunião. Nós sabemos de tudo. Não tentes mentir. Não vale a pena. E podes piorar as coisas.” Sorriu para o chefe que batia suavemente com a mão direita nas costas de Margarida… “Podes piorar muito as coisas.” E prolongou o “muito”, com um esgar animalesco. “Se sabem tudo, por que perguntam? Vão buscá-lo! …”, gritou. Ela sabia que não iam. E se fossem não o encontrariam, porque era regra sagrada acabar as reuniões sempre antes das seis da tarde, mesmo que as discussões estivessem a meio… “Não é preciso ir buscá-lo. Vamos esperar aqui por ele”, respondeu o que segurava em Margarida que, apesar das vozes e dos gestos, tinha parado de chorar. “Dê-me a minha filha. Ela está assustada… Não tem o direito de fazer isso…” “Eu dou, eu dou… Mas a seu tempo. Ainda não nos fizeste o tal favor…” “Mas que favor?” “Quero que vás apanhar a roupa que está lá fora no estendal…”
            Zulmira sentiu um estremeção no baixo-ventre e ficou com a cabeça às voltas. Encostou-se ao guarda-louça para não cair.
            “Faz o que te mando e nada acontecerá à tua filha. Ficará contigo depois de tudo terminado”, insistiu.
            Muda de medo, em luta profunda consigo, numa agonia interminável, Zulmira olhou para aquele homem e os lábios finos quase desapareceram, tal a força e a raiva que se queriam soltar. Este, percebendo que as ordens corriam o risco de não serem executadas, acrescentou num tom de voz mais duro:
            “Não resistas, mulher! Vai apanhar a roupa e sem pressas…”
            Secretamente, Zulmira ainda julgava dominar toda a situação. Se eles queriam que ela apanhasse a roupa, muito bem, ela não tinha qualquer problema em fazê-lo.
            Pegou num alguidar vazio e encaminhou-se para a porta. Lá fora, meia-dúzia de peças tinha secado ao sol e ao vento. Zulmira esticou-se e, tirando as molas uma por uma, foi desnudando o arame, deixando lá à ponta, ainda a esvoaçar, uma camisa de cor vermelha. Entrou em casa e viu o segundo homem a espreitar o terreiro pela janela da cozinha. Olhou para o chefe e fez um gesto de desagrado. O primeiro, sem nunca largar Margarida, revolveu o alguidar e zuniu-lhe com uma voz lenta mas furiosa:
            “Voltas lá fora a apanhas também a camisa!”
            Tomé tinha chegado antes das seis. Como viu o sinal, ficou-se por ali, à distância, a espreitar, atento a qualquer ruído ou movimento. Já estava a ficar impaciente quando, ao longe, viu a mulher, em bico de pés, a apanhar aquela bendita camisa vermelha. “Já não há perigo. Posso ir…”, pensou. Na cabeça dela ecoava uma voz que lhe fazia correr a água cara abaixo: “Protege-a quando eu não estiver. Protege-a. Com a tua própria vida. Com a minha própria vida. Ela é o nosso tesouro mais precioso…”
            Num andar calmo, Tomé dirigiu-se para casa onde, julgava ele, o esperavam, como habitualmente, Margarida, Zulmira, a ceia e umas boas horas de sono.
                                                                                              João Luís Nabo 
(in Outros Contos de Vilas Nova, Ed. Tágide, Lisboa, 2010)

Economia da Irlanda entrou em recessão no quarto trimestre de 2011
I
A economia irlandesa entrou em recessão no último trimestre de 2011, penalizada pela diminuição das exportações e dos gastos do Estado.
A economia da Irlanda contraiu, inesperadamente, no quarto trimestre de 2011, empurrando o país de novo para uma recessão, determinada pela queda das exportações e dos gastos do governo.

O produto interno bruto (PIB) da Irlanda caiu 0,2% no quarto trimestre face ao trimestre anterior, quando cedeu 1,1%, de acordo com os dados divulgados pelo Gabinete Central de Estatística da Irlanda.

Os economistas consultados pela Bloomberg tinham estimado um aumento de 1%. A economia irlandesa cresceu 0,7% em 2011 face ao ano anterior.

O Ministro das Finanças irlandês, Michael Noonan (na foto), disse na semana passada que previa cortar as previsões de crescimento do governo para este ano, dado que as exportações abrandaram e os consumidores continuam a reduzir o consumo.

A Irlanda está a ter dificuldades em reactivar a sua economia doméstica dado que as medidas de austeridade estão a prejudicar a procura da famílias e o desemprego permanece acima dos 14%.

“Estamos à mercê de factores externos”, disse Alan McQuaid, economista do Bloxham Stockbrokers, à Bloomberg. “O lado doméstico da economia não irá melhorar tão cedo com a austeridade fiscal e o que temos no terreno”, acrescentou o economista.

(37) IMAGENS - FOTOGALERIA DA GREVE GERAL - PIQUETES, DIRIGENTES - TRABALHADORES






































fonte TVI