( em memória do general Vasco Gonçalves)
Há 37 anos, em 1975, eclodiu um golpe que dava expressão militar ao que, desde a hora seguinte à proclamação da Revolução do 25 de Abril, se desenhava com as mais variadas formas e usando os mais variados meios. A contra revolução tentava, destruir o 25 de Abril na pior das hipóteses, metê-lo nos carris estreitos de uma democracia formal muito controlada, mantivesse no essencial o domínio do capital, na melhor das hipóteses.
Depois do 25 de Abril, a celebrada aliança Povo-MFA, impulsionou a Revolução Portuguesa sem que de facto existisse um poder revolucionário e sem que o Estado se tivesse transformado em correlação com o processo revolucionário em curso. A grande particularidade dessa situação era coexistirem, tanto no MFA como no Estado, forças revolucionárias e forças contra-revolucionárias.
Apesar de o 1º Governo Provisório ter dentro de si, sempre activa e efervescente a conspiração reaccionária, que desembocaria na tentativa de golpe Palma Carlos-Sá Carneiro, pressionada pelo Presidente da República, general Spínola, havia evidentes medidas de democratização do regime. Extinguiram-se a PIDE-DGS, a Legião, a Mocidade Portuguesa, exoneraram-se muitos notórios fascistas na Função Pública, nas Forças Armadas, substituíram-se nas autarquias locais os dirigentes nomeados pelo fascismo, as mulheres tiveram acesso à magistratura, acabou-se com a censura e a gestão da televisão e da rádio foram entregues a comissões administrativas. No plano económico fixou-se o salário mínimo nacional, actualizaram-se reformas, estabeleceram-se medidas que protegiam as pequenas e médias empresas, procurou-se evitar as fugas de capital e controlaram-se os levantamentos bancários. No plano simbólico com alto significado para os trabalhadores, o 1º de Maio foi instituído como feriado nacional. Mas, no seu essencial, o Estado fascista, oleado por mais de quarenta anos de ditadura, mantinha estruturas, hábitos e mesmo dirigentes. O poder económico continuava praticamente intacto.
Derrotada a primeira conspiração visível contra a Revolução de Abril, o já referido golpe Palma Carlos-Sá Carneiro, continuando Spínola, os governos provisórios seguintes empreenderam reformas importantes, desde principiar o processo de descolonização à regulamentação dos direitos de associação e de actividade dos partidos, o direito de greve. Nacionalizou os bancos emissores, Banco de Portugal, Banco Nacional Ultramarino e Banco de Angola, reviu-se o estatuto remuneratório e as carreiras dos funcionários públicos, etc.
A revolução, sobretudo impulsionada pela luta das massas populares, obrigava a que se tomassem medidas positivas isto enquanto o poder político era muito fraccionado, multiplicando-se os órgãos de decisão com composições instáveis e mesmo contraditórias, a todos os níveis. No terreno e no poder a revolução e a contra-revolução confrontavam-se, numa luta cada vez mais áspera. Enquanto se avançava decididamente na conquista das liberdades e da melhoria das condições de vida, o poder económico, a banca, as grandes companhias monopolistas, os latifundiários mantinham uma gigantesca base de apoio que continuava a lutar contra a Revolução usando a figura de Spínola. O 25 de Abril tinha liquidado o capitalismo monopolista de estado e o poder político dos monopólios mas não o seu poder económico. Essa era a via por onde o grande capital actuava, tentando sabotar a Revolução, nunca perdendo de vista o objectivo de recuperar o poder político. Falhada a primeira tentativa logo outra, mais cuidada e muito melhor preparada, se seguiu, o golpe da Maioria Silenciosa em 28 de Setembro de 1974.A marcha sobre Lisboa de uma suposta Maioria Silenciosa foi impedida, por acção dos trabalhadores, dos democratas e do MFA. Spínola foi obrigado a demitir-se acompanhado por três membros da Junta de Salvação Nacional, decididamente alinhados com a direita mais reaccionária.
Era uma luta com poucas tréguas num ambiente político muito efervescente, em que as forças reaccionárias e contra revolucionárias se multiplicavam. Formações políticas, á esquerda e à direita, surgiam como cogumelos. Aparentemente o leque político tinha uma amplitude inusitada. A provocação de crises tinha origem tanto na direita mais ultra montana como nos grupos esquerdistas mais radicais, de facto conluiados no objectivo de destruir a Revolução de Abril, com o beneplácito de outros partidos ávidos de tirarem bónus dessas situações de instabilidade em seu próprio benefício, prevendo liquidarem ou absorverem gente desses grupos.
Continuando a deter um imenso poder económico, a sabotagem continuava e intensificou-se em paralelo com o aumento de manifestações provocatórias, golpes de mão contra estruturas eleitas democraticamente, nas autarquias, escolas, sindicatos. Aceleravam-se conflitos sociais. A violência cresce e é de referir a sucedida em Setúbal em que o PPD provoca, os esquerdistas colaboram actuando irresponsavelmente arrastando consigo muita gente séria e justamente indignada, as forças militarizadas metralham. O que se pretendia com estas e outras acções era demonstrar que o caos e a desordem varriam o país e que era necessário por ordem numa situação que eles queriam fazer crer que não tinha rei e estava a perder o roque. Os boatos zunzunavam a toda a hora. A intriga contra o MFA tinha proporções alarmantes. A direita e os seus aliados naturais e os conjunturais, com notoriedade para os que se sentam à sua esquerda, difundia que aquele estado de coisas era favorável às forças revolucionárias, para quem uma situação de quanto pior melhor, seria favorável. É uma mentira de antanho. Uma situação de quanto pior melhor, de facto, puxa as pessoas para fora de branduras, empurrando-as para actuar e reflectir, mas a primeira reacção, a mais natural e também a mais induzida é de amedrontamento, o que só beneficia a contra-revolução e as ideias contra-revolucionárias.
O golpe militar de 11 de Março, a sua preparação, é um magnífico exemplo, falhado, dessa teoria. Preparado em pormenor. Criando-se uma agitação artificial que se misturava em doses anormais com as agitações sustentadas por reivindicações justas, gerou-se um ambiente aparentemente insustentável que o Estado democrático não conseguiria controlar. O golpe foi rapidamente dominado pela acção conjunta das forças armadas comprometidas com o 25 de Abril e a povo que acorreu em seu apoio.
Foi dominado rapidamente, mas não foi fácil como agora se pretende fazer acreditar e muito de nós, civis que acorremos ao RAL-1, interpondo-nos entre sitiados e sitiantes, ainda temos bem presente os momentos de tensão vividos, até os militares, de um e outro lado, desmobilizarem e confraternizarem.
Uma página, e que página foi virada na Revolução de Abril. Finalmente o poder económico que desde a primeiro hora, desde o primeiro cravo, tinha minado a Revolução ia ser atingido no seu cerne com o inicio do processo de Nacionalizações e a Reforma Agrária,
A história do 11 de Março ainda está por fazer, se é que algum dia se venha a fazer em toda a sua dimensão e verdade. Negando mesmo as próprias evidências, os fascistas, a direita, chegam ao descaro de afirmar que o 11 de Março foi um “golpe de esquerda, uma farsa, uma miserável inventona organizada criminosamente pela loucura e baixeza de carácter do governo gonçalvista”. Sá Carneiro escreve no Povo Livre que o 11 de Março foi “uma inventona fomentada por oficiais e forças ligadas ao PCP”. Dessa gente, entalados e enredados, directa e indirectamente, desde o primeiro momento, nos golpes contra-revolucionários outra coisa não seria de esperar. Como falharam, mentem com todo o descaramento. Todos os golpes tentados e falhados, são dadas como manobras das forças revolucionárias. Se tivessem triunfado haveríamos de vê-los impantes e capazes de rivalizarem com os torcionários que, em qualquer parte do mundo, não olham a meios para mudarem e atrasarem o curso não inexorável da história. Não há mentiras, das mais grosseiras às mais sofisticadas, seja uma ou mil e uma, que desmintam a realidade dos três golpes directos, visíveis que se fizeram contra o 25 de Abril, que emergiram do pântano de pequenos golpes e rasteiras com que o continuam a afundar, desde o primeiro segundo.
Mais complexa e dúbia é a atitude do PS. Nesse ano, no Portugal Socialista, orgão oficial do PS, põe-se em dúvida que o 11 de Março tenha sido um golpe contra-revolucionário, classifica-se o 28 de Setembro de intentona. Mário Soares diz sobre o 11 de Março “ que ainda não foi dada ao país explicação total”. Manuel Alegre acrescenta “que para uns foi um golpe da extrema-direita, para outros do KGB” e que ele “não está em condições de dizer ao certo o que foi”. Seria bom que participassem no esclarecimento do golpe do 11 de Março. Provavelmente até dispõem de preciosa informação. Porque o que não é crível e ninguém acredita, é que Spínola tinha ido instalar-se em Tancos com grande aparato, se não tivesse enormes cumplicidades políticas, vastos comprometimentos militares que ele somava à prosápia pessoal de supor ter maior influência nesses meios do que realmente tinha. Ninguém acredita que tudo acabasse por se resumir a umas tantas granadas largadas sobre o RAL-1 e ao cerco do quartel realizado por uma companhia de paraquedistas, pra mais sabendo-se que havia uma proclamação escrita por Spínola que iria ser lida na rádio e na televisão. De quem seria a voz? Deveria ser alguém habituada aos microfones. De preferência uma voz tonitruante quanto baste para actuar eficazmente sobre os ouvintes. Aqui está mais uma divulgação interessante que ajudaria a clarificar o que de facto se passou e a extensão dos implicados.
A história é sempre a história feita pelos vencedores. Os vencedores do 11 de Março, são muitos e não são os que venceram aquela batalha. Sentem e sabem que as suas repercussões são tão fortes que, ainda hoje, os vemos insinuar as hipóteses mais malévolas e de todo improváveis, para tornar o 11 de Março, numa cabala impossível, numa aventura militar quase inexplicável, para travestir e ocultar as suas cumplicidades, maiores ou menores, com os golpistas. Outros, num arco que engloba alguns dos que participaram por convicção aos que foram circunstancialmente empurrados, apressam-se a demarcar-se  e/ou fazer sibilinas observações do que posteriormente se passou, particularmente no Movimento das Forças Armadas no aproveitamento espúrio de todas as contradições que aí sempre existiram. O alvo dessa gente, além de exibirem fotografias de bom comportamento para ser ou continuar a ser recompensados, é sempre o mesmo. Lançar suspeições sobre o processo revolucionário.  Uns nunca se limparão das nódoas que se espalham inapagáveis nos seus percursos oportunistas. Outros, com pequenas nódoas sem interesse de maior, correm mesmo assim para a praça pública para, com pusilanimidade, as esfregarem com benzina, para que se espalhe o cheiro do seu arrependimento ou para que o seu discernimento na altura seja agora reconhecido. Tudo isto é bastante fedorento, mas não se deve menorizar porque objectivamente, estão todos dentro do mesmo saco a contribuir, ainda que de forma diversa,  para a lavagem da história.
A verdade histórica é contingente. A revolução, os revolucionários nunca estarão fora do alvo, mesmo dos mais bem-intencionados os que, como dizia Robespierre, querem fazer revoluções sem revolução. São bastante raros, embora existam.
Das três tentativas de grandes golpes contra revolucionários em que a Revolução de Abril saiu triunfante, o 11 de Março, por ter tido uma componente militar visível, o golpe Palma Carlos-Sá Carneiro foi um golpe palaciano, o 28 de Setembro organizava-se como um movimento popular, é o mais e denegrido e vítima das maiores falsificações dos que estão sempre prontos a reescrever e a branquear a história.
O 11 de Marco, depois do 25 de Abril foi a maior vitória da aliança do Povo-MFA. na defesa da Revolução dos Cravos.
Hoje, decorridos 37 anos, celebremos essa vitória, num momento em procuram atirar o que ainda subsiste das conquistas de Abril para o caixote de lixo.
Hoje, não é demais repetir que UNIDOS, VENCEREMOS! como gritámos nesse dia, mesmo quando as derrotas são maiores que as vitórias.
Praça do Bocage