«…Hoje foi a abertura da caça (…) durante o dia se deu uma verdadeira ofensiva aos coelhos, lebres e perdizes, que, como inimigos foram abatidos impiedosamente (…) No caminho da Comenda e do Outão tudo hoje foi batido numa ânsia sôfrega de caçar (…) Amanhã o mercado municipal já terá coelhos em abundância, lebres em número sofrível e perdizes à mão cheia. Permita a Providência que os caçadores usem da maior cautela, para que não se registem desastres lamentáveis». (In Jornal “O Setubalense” de 15-9-1943).
Provavelmente já aqui existiram cabras e cavalos, auroques e veados, ursos e leões das cavernas, focas e pinguins. Junto a Sesimbra e ao Cabo Espichel, enxergam-se pegadas de dinossáurios, que salientam a importância paleontológica do parque.
Na época dos Filipes – «…segundo uma história colhida na região, um dos filhos do Duque de Aveiro, que viveu em Setúbal na época da dominação espanhola, teria morrido na Serra da Arrábida vitimado por uma insolação quando perseguia gamos e veados…». (Carqueijeiro, O Desafio da Arrábida, 1996) – ainda ali existiriam javalis, veados e gamos, também já extintos, vítimas do homem ou de acidentes naturais. Felizmente encontramos ainda algumas espécies raras, salvas do Homem pelo Homem…
Falar da fauna da Arrábida pode ser um exercício de economia. Vejamos duas populações não únicas nem raras, mas fundamentais para se provar que o equilíbrio do ecossistema pode ser aproveitado pelo Homem para fins económicos, e neste caso de lucro elevado. São elas as ovelhas e as abelhas. Bastante conhecido é o queijo de Azeitão. Só que muitos não sabem que aquele sabor único se deve à composição florística das pastagens do parque e das quais se alimentam as ovelhas. Servirá este exemplo para se reflectir numa ecologia económica?
Pelo menos data dos finais dos anos vinte do século passado uma preocupação com este problema e a forma de rentabilizar um produto que já se adivinhava ter um potencial de sucesso muito grande.
Vejamos a seguinte notícia do jornal “Semanário”, de 15-2-1929, com o título: «Queijos da Quinta do Anjo e de Azeitão». Constava esta: «Estão à venda estes saborosos queijos que se apresentam carimbados. A tinta do carimbo repassa-lhes a crosta e dá também um aspecto detestável àquela massa de leite coalhado que tão apreciado é por toda a gente. Parece-nos haver falta de higiene com esta obrigatoriedade de carimbo no queijo (…) Pedimos a quem competir que se digne providenciar para que se modifique esse sistema que estraga os belos queijos da Quinta do Anjo e de Azeitão». Em linguagem actual, digamos que se estava a falar de um certificado de qualidade e da forma como ele devia ser usado.
A actividade apícola (abelhas) também encontra nesta área, condições muito favoráveis, devido à floração prematura de algumas espécies e à extensa área de vegetação natural, permitindo assim o fortalecimento dos enxames e… o bom mel de Azeitão.
A própria caça regulamentada é um factor de desenvolvimento económico, que a par da vinha são os sustentáculos da antiga actividade económica tradicional e de grande importância neste início de século XXI. De salientar negativamente a caça que é praticada de forma ilegal e sem ter em consideração a espécie a abater. No Sado, junta-se à caça o problema da pesca ilegal.
Alguns destes animais encontram-se protegidos por leis nacionais e internacionais, uma vez que são raros à escala do planeta. Já no ano de 1967, essa necessidade de protecção das espécies em perigo, aliada à caça sem limites, impunha discussões na então Assembleia Nacional. O jornal “Notícias de Setúbal” em 1-4-1967, com o título “A caça também tem problemas – a fauna cinegética corre o grave risco de desaparecer”, dá conta da intervenção do deputado por Setúbal, Dr. Peres Claro, acerca da caça na zona da Arrábida, que alerta da necessidade de: «…uma legislação adequada à conservação da natureza…».
Aqui reside um grande problema, o da caça clandestina. Problema tão grave que levou já à extinção de algumas espécies, seja pelo seu extermínio seja pela destruição do seu habitat. Com a publicação da portaria n.º 997/89 de 17 de Novembro, ficou regulamentado a actividade cinegética no parque, construindo-se zonas especiais de caça e zonas de interdição. No entanto, este é um problema que está longe de ser resolvido devido aos caçadores clandestinos.
Hans Christian Andersen, célebre escritor dinamarquês visitou a Arrábida em 1866 e dele retiramos as seguintes palavras, como forma de introdução aos próximos parágrafos: «Nuvens solitárias pairavam, carregadas, sobre a Serra da Arrábida, lançando sombras em baixo, no vale fundo. Quanto mais alto subíamos, mais alto se elevava no horizonte o vasto mar. Toda a natureza era de uma gravidade, de uma tranquilidade, imperturbada por qualquer ave. Como antes da criação».
Se Hans Andersen não viu nesse dia nenhuma ave, perdeu o espectáculo do exímio caçador que dá pelo nome de Falcão–Peregrino, ave de rapina que atinge grandes velocidades. Ela é, no entanto, apenas uma das espécies do parque, rara e protegida; podia ter visto outras espécies raras como a Águia de Bonelli, a Águia de Asa Redonda, o Peneireiro, o Melro-azul.
Com um pouco de sorte, poderia observar algumas das cerca de 300 espécies de Lepidópteros (borboletas), inúmeras espécies de Insectos e 450 espécies de Coleópteros, como Escaravelhos. Ou talvez uma das 94 espécies de Aracnídeos (aranhas), que formam 27 famílias. Poderia talvez encontrar algum Lobo, extinto no início do século XX, mas para nos assustarmos ainda hoje podemos ver o Gato Bravo, o Geneto, o Saca Rabos, o Texugo, o Toirão, a Doninha e a Raposa. Comuns são a Lebre, o Coelho e colónias de Morcegos.
Se decidisse fazer um passeio nocturno, poderia encontrar o Bufo Real, a Coruja das Torres, o Andorinhão Real, o Abelharuco, a Perdiz, entre outras espécies mais comuns. Indo até às falésias sobranceiras ao mar, fronteira entre o meio terrestre e marinho, locais de difícil acesso, poderia observar zonas de nidificação para andorinhões e aves de rapina, entre outras.
Indo em direcção ao rio, poderia encontrar algumas espécies atualmente protegidas, nalguns casos em vias de extinção ou perto disso: a Águia Sapeira, a Lontra europeia que tanto gosta, a coberto da noite, de “roubar” peixe nas pisciculturas, complemento da sua dieta à base de moluscos e crustáceos, a Cegonha Branca, a Garça Branca, o Perna Longa, o Flamingo, mais os Borrelhos, os Pilritos, as Gaivotas, os Patos, os Mersangos, os Corvos Marinhos, os Rouxinóis, os Patos-reais e as Galinhas de Água. No rio encontraria Sável, Linguado, Corvina, Robalo, Charroco, Salmonete, Choco, Lula, Ostra, Amêijoa, e mariscos como Caranguejos, Sapateiras e Camarões.
Não poderia deixar o Sado sem avistar os Roazes, mais propriamente o Roaz Corvineiro, também chamado golfinho do Sado. Atualmente não é difícil do cais ou do barco observarmos estes mamíferos que desde sempre fascinaram o Homem, com os seus saltos e piruetas, sempre com ar brincalhão, sentindo nós talvez inveja do seu tempo livre, da sua integração, paz e harmonia com a natureza. Estes animais, últimos da espécie em Portugal a fazerem da costa sua morada, passam grande parte do seu tempo na baía de Setúbal e no estuário do Sado.
Da fauna como da flora podemos dizer que são fruto de uma falta de tolerância do Homem para com a Natureza, mais propriamente para com espécies que, num determinado momento, são lucrativas. Essa falta de tolerância pode levar à extinção e ao desaparecimento de algumas delas.
Também neste aspecto, não nos devemos esquecer da dupla face do Homem. O que cria e o que destrói. Os avisos, os debates, as chamadas de atenção não são totalmente em vão. Algo tem sido feito para atenuar a poluição existente e permitir que algumas técnicas tradicionais relacionadas com a economia marítima regressem a este ecossistema.
No jornal “Expresso” de 31-1-2004, com o título”Ostras voltam ao Sado”, surge-nos um exemplo do que atrás ficou registado: «Bancos de ostras estão a voltar ao estuário do Sado, desde os esteiros da Gambia até às praias próximas de Setúbal, um fenómeno de reabilitação que os técnicos associam à paragem de algumas indústrias poluentes, à alteração de procedimentos dos estaleiros da Lisnave, que deixam de descarregar os efluentes directamente para o rio, e, também à entrada em funcionamento da Estação de Tratamento de Águas Residuais de Setúbal…».
Praça do Bocage