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domingo, 26 de fevereiro de 2012



A atinência do neorealismo e a quebra da douta literatura em Portugal


A Comuna - [Ana Bárbara Pedrosa] Ao longo dos anos, o realismo sofreu diversas críticas por ser, em grande parte, e apesar das suas descrições minuciosas de espaços físicos, incapaz de reproduzir os assuntos económicos e a interacção entre os pequenos mundos abrangidos e descritos nos romances e os mundos maiores em que eles se inseriam.

A recriação do realismo, trazendo as preocupações quotidianas e deixando a perspectiva conservadora da literatura pela literatura, resultou numa corrente artística que, a partir de meados do século XX, marcou vincadamente gerações e apresentou uma ideologia patentemente marxista. Embora esta visão da literatura pela literatura muito longe esteja de merecer ser vilipendiada, a vanguarda marxista tem-na remetido para segundo plano e procurado uma literatura interventiva, expressiva das lutas de classes e comprometida com a mudança social.

Esta quebra com a literatura pela literatura terá talvez atingido o seu cume em termos de reconhecimento com George Orwell (1903-1950), de seu nome Eric Arthur Blair, para quem a intenção de mudar o mundo fazia parte da natureza de quem escreve. De acordo com ele, negá-la é também uma posição políca: "The opinion that art should have nothing to do with politics is itself a political attitude." O autor, utilizando uma expressão de Gensane, "ne fit pas de littérature politique mais il fit politiquement de la littérature", o que exige uma leitura consciente de quem o lê, comprometida com o peso de cada palavra, crítica e não inocente, ainda que Orwell entendesse por "político" um modo de persuadir: "Political purpose. — Using the word 'political' in the widest possible sense. Desire to push the world in a certain direction, to alter other peoples' idea of the kind of society that they should strive after."

A literatura neo-realista em Portugal foi obviamente resgatar características do realismo e do naturalismo – bem mais do realismo do que do naturalismo, diria -, mas desenvolveu-se a partir deles de forma a criar um estilo de fácil identificação autoral.

Alves Redol (1911-1969) e Manuel da Fonseca (1911-1993), cujos centenários são agora lembrados, são dois dos nomes incontornáveis desta corrente literária em Portugal, em muito abafando o nome de Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), militante comunista que não se estendeu para a posterioridade da mesma forma que os dois primeiros, eternamente falados pela lembrança.

Talvez tenha sido pela quebra da literatura pela literatura que mencionei que a literatura de Alves Redol foi muito criticada. Meros anos após a literatura portuguesa ter sentido o bálsamo dos livros palavrosos de Eça de Queirós (1945-1900), escritor de sintaxe aprimorada, variação lexical, requintada semântica e retórica eloquente, e enquanto ainda o mundo vivia o temor assombroso, delicioso, das obras de Balzac (1799-1850) e de Flaubert (1821-1880), realistas franceses, surgiu-nos em Portugal um escritor vilafranquense, de seu nome Alves Redol, que desde cedo se mostrou apto a mudar as noções da literatura tal como nos meios mais eruditos era conhecida. Este ímpeto violento nas noções estéticas literárias, tantas vezes criticado, muito mais tarde celebrado, deveu-se à menção de personagens, temas e situações que não eram expectáveis na literatura, tão tida como privilégio das classes instruídas. A linguagem simples de Redol, contudo, que se limitava a descrever o que acontecia entre o povo, que usava as palavras do povo e que reproduzia os diálogos do povo, veio altercar o espólio literário do século XX e impor-se no panorama cultural de então. Se, por um lado, podemos ter a certeza de que estas afirmações chocariam e irritariam Harold Bloom (1930-), por outro, não podemos jamais esquecer-nos de que Redol jamais foi dado a pretensões. Aliás, ele mesmo diz na epígrafe de Gaibéus (1939), o seu primeiro romance, que inaugura o neo-realismo em Portugal, e certamente o que de forma mais evidente o catapultou para a fama, que o "romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem".

Esta visão da literatura como meio de propagação de mensagem, ao invés da concentração na beleza fonética das palavras ou na perfeição exímia linguística portentosa - passe o pleonasmo, aqui como enfatização ornamental -, tem irritado muitos críticos literários, mas Redol jamais escondeu que o seu principal intento era denunciar as desigualdades sociais e que as palavras eram um mero veículo que o possibilitava. No entanto, a visão da literatura de Redol não era tão empírica quanto possa parecer. Ainda que possa assemelhar-se muito menos fogosa e passional que a que Gabriel García Márquez descreveu no seu Vivir para contarla (2002), o certo é que Redol também não se absteve de descrever o prazer que retirava da escrita, também na epígrafe de Gaibéus: "Se algum dia alguém me perguntasse que aprendizagem deveria um jovem fazer para chegar a romancista, se o ofício se ensinasse, eu diria que enquanto a vida lhe não desse todas as voltas e reviravoltas, amores, sofrimentos, repúdios, sonhos, frustrações, equívocos, etc., etc., (...) seria avisado que o mandasse ensinar a sapateiro, não para saber deitar tombas e meias solas, porque nem para tanto ele usufruirá, às vezes, com a escrita, mas para que ganhasse o hábito de padecer bem, amarrado ao assunto durante largos anos, antes que provasse o paladar gostoso de algumas horas de pleno prazer."

Manuel da Fonseca, autor de obras como Aldeia Nova (1942), Cerromaior (1943), O Fogo e as Cinzas (1953) e Seara de Vento (1958), foi outro dos grandes vultos destacados do neo-realismo literário português. Membro do Partido Comunista Português, os seus relatos ímpares da dura realidade laboral alentejana ficaram para a posterioridade, através do cunho político que o neo-realismo teve, da forma como foi exercido e da forma patente como se pôs e expôs contra o totalitarismo, funcionando como uma corrente transmissora de consciencialização. Este cunho político deu, por isso, um novo papel a quem escrevia, que tendia para a transformação da realidade.

A literatura de Manuel da Fonseca foi evoluindo para um regionalismo crescente, muito descritiva do Alentejo que o autor via, muito descritiva das pessoas e das misérias que as assolavam. Estas descrições fiéis do ambiente circundante concederam às obras de Manuel da Fonseca um cariz autobiográfico, que se estendia até à interpenetração entre ficção e realidade. Talvez possamos dizer que essa interpenetração era também visível entre poesia e prosa, contínuas e intertextuais no autor.

O cariz contestatário da literatura que Fonseca criava fez com que a censura jamais deixasse de o seguir com relativa proximidade. O mesmo acontecia, de resto, com a maioria dos escritores neo-realistas, já que o seu cunho político não era deturpado ou escondido.

Reactivando mecanismos de representação narrativa, o neo-realismo, descrevendo as vivências de operários e patrões, camponeses e senhores, evidenciando as suas discrepâncias, principalmente materiais, usando a consciência de classe e as lutas entre classes, foi acutilante no seu cariz transformador, servindo de ferramenta para muitas e muitos marxistas, testemunhando as profundezas hórridas das privações materiais, não de uma forma meramente histórica, mas de uma forma literária, o que o torna mais tocante e mais portentoso, como toda a literatura deve ser. É por ser atinente que é hoje lembrado por inúmeras/os leitoras/es, historiadoras/es e marxistas e que é hoje lembrado neste espaço, sendo intemporal a marca que deixou no tempo, destruindo barreiras a marca que deixou no espaço. "Et tout le rest est littérature" (Verlaine).

Fonte: Diário Liberdade




Cyril Mokaiesh - Não é lá muito “chic”... mas sou comunista


“Não é lá muito “chic”... mas sou comunista
Nada de muito heróico... mas ainda assim...”

É, salvo melhor e mais aturada tradução, o que diz este jovem artista francês, de seu nome, Cyril Mokaiesh. Depois vai por aí fora, desfiando uma letra poderosa que vale a pena ler.
Decididamente... não é lá muito normal nos dias que correm. Dizem-nos experiências bem recentes que aquilo que mais se vê é os “xutos” e as “deolindas” deste mundo, ousarem umas cantigas ao sabor da corrente contestatária... e logo a seguir, provavelmente aterrorizados com as resmas de contratos que viriam a perder de norte a sul (muito mais a norte!), darem praticamente o dito por não dito, pedirem calma a toda a gente, que aquilo não é bem “canção de intervenção”, que “não senhor, nós não fazemos canções políticas”, “deixem-nos lá ir à nossa vidinha”... sendo que no caso dos tais “xutos”, não demorou muito até um deles estar na mesa dos apoiantes do mesmíssimo “sr. engenheiro” a quem tinha dedicado a tão aclamada cantiga. Já da cantiga dos outros... praticamente nunca mais se ouviu falar.
Portanto, como ia dizendo, não é lá muito normal aparecer assim do nada um rapagão como este Cyril Mokaiesh, cantando (muito) alto e bom som que é comunista, indo explicar a coisa a tudo o que é lugar, pronunciar-se nas colunas do jornal “L’Humanité” e ir cantar à famosa Festa do dito... tudo quase de um fôlego e perante o espanto generalizado.
O nome deste jovem foi-me soprado por um comentador aqui mesmo, na semana passada. Em boa hora!
Lá na terra dele, já dizem que ele mistura elementos de Brel com Léo Ferré, que as suas canções são assim e assado... confesso que me falta ouvir mais para saber se é assim. Por agora, sei que gosto de o ouvir dizer que é comunista. Assim tão alto. Assim tão bem. Assim tão contra a corrente.
E vocês... o que acham?
Bom domingo!
Communiste” – Cyril Mokaiesh
(Cyril Mokaiesh)



E... assim estamos passados 140 anos...



João Black (Feijó, 28 de Setembro de 1872; Lisboa, 18 de Dezembro de 1955) foi um dos fadistas mais comprometidos ideologicamente com valores do anarquismo, socialismo e republicanismo. 

João Salustiano Monteiro tornou-se João Black por homenagem ao seu protector, o inglês Alexander Black, patrão do pai radicado em Almada que lhe pa-gou os estudos. Black foi o que se poderia chamar de fadista de intervenção: as suas letras versavam sempre propósitos ideológicos da República. Andar nos jornais deu-lhe essa consciência.

Ciência humanitária
Um símbolo de altruísmo
Tem como fim condenar
Deus, pátria e militarismo


O mundo há-de assitir
Aos pobres livres do jugo
Espezinhar é o futuro
Da burguesia a surgir


E depois quando existir,
O ideal...
Esplendor e bem-estar
Incitar o patriotismo


A miséria, o anarquismo tem por base condenar
Mas o povo subjugado
Esfacela-se sob a tortura
Quando o seu mal tinha cura


O ideal desejado
Viver na prisão
Nas garras dos inimigos
Ai ela bem cai no abismo


A fanática humanidade
Pois fia-se nesta trindade
Deus, pátria e militarismo
E… Agora mais difícil com ESTA DESHUMANIDADE ;'(

Retirado ( em parte ) de: TODOS TEMOS O NOSSO FADO

POEMA: PÁSSARO DE FOGO


PÁSSARO DE FOGO…

Nas árvores, logo que chega o calor,
formam-se verdadeiros estendais de cheiro e cor,
com flores
ansiosas por se entregarem aos insectos,
e neles viverem novos amores.
A neve derreteu… e escorrem lágrimas, pelas encostas das colinas,
a reforçar a vida.
Nos campos silvestres, sibilam de calor as flores agrestes
que rejubilam do fogo-rei que as abraça…
Urzes, giestas e amoreiras bravas abrem os braços às abelhas
esvoaçantes, que dançam a alegria dos sucos-néctares-cantantes…

O Mundo é um jardim-ave-do-paraíso!

Um ÉDEN celestial protege-se das ventanias furiosas
que ameaçam, invernosas, o Cosmos -ponto-de-nós-primordial!
Com a tua na minha mão, percorremos a colina…
Nesse passeio-peregrino-em-rota-de-amor,
tufos de ramos de flores garridas vão enfeitando vidas
em toalhas de linho verde-solo/erva, banhadas pela luz
suave que desponta da relva. Dos nossos olhos brota o calor do sol…

Na planície órfã de nós, crepitam jogos de luzes entre as colmeias e as figueiras.
O mel surge!
O vento, desabitado de navios a florescer
das eras de um OUTRO acontecer,
expele rajadas sobre os cabelos da Terra e abre meus lábios
aos soluços do teu olhar, que urge…refulge…

Renasci, dentro de mim, por força do paraíso ali,
e contigo descobri a tecelagem dos momentos da vida.

Pássaros de fogo visitaram as tessituras do meu renascer
abrindo-fendas-de –passagens-de-encantar…

.usas o meu plâncton-vida para o teu reviver.
.e lava de um vulcão, a arder, resvala pelas colinas
de um outro –mar.
.é veemente o grito que chama teu nome.
.como águias vorazes voamos em espasmos.
.mergulhamos nas ameias de um castelo, tomado por armas-carícia.
.o telúrico solo acalmou no seio das ervas-florestais-
-dos graníticos-terrenos-tornados-leito-macio.
.a água do ribeiro da vida balbucia dores dos seixos lisos
no tálamo de amor ,húmido rio.

Aguaceiros famintos anunciam a hora do escorrer-orvalho!
Pássaros de fogo, pintores de telas a arder que
pincelam de orgástica coloração- paisagens –da- hora-floração!

Rochedo de proporções safíricas-em-solidões –oníricas-
-vivas -na -só-imaginação…
Beijo o teu contorno de mítico pássaro de fogo, fumegante de roxos-
-violeta e vermelhos escarlate…
Exausto tu…exausta eu…do NADA que Aconteceu…
dormimos , então, numa almofada de céu.


R-C13N-32- (ERT) -2011
Marilisa Ribeiro
blog Lusibero

A VIDA QUE NOS IMPÔEM SEM NOS OUVIR - BAPTISTA BASTOS



Uma sondagem da Universidade Católica informa que 62% dos portugueses acha o Governo "mau" ou "muito mau."
Uma sondagem da Universidade Católica informa que 62% dos portugueses acha o Governo "mau" ou "muito mau." Era de esperar, e o próprio Passos Coelho sabia que isso iria acontecer. A verdade é que ele pouco mais pode fazer do que seguir as "instruções" da troika. Ou talvez pudesse; mas não quer. Aliás, tem tomado decisões muito para lá daquilo que a troika recomenda. E, manifestamente, está muito contente com isso, e com os aplausos que recebe.

O mal-estar acentua-se com o cortejo de infortúnios que nos impõem. Nunca será demais insistir nessa verdade, para que a memória se desvaneça, como é habitual nestes casos. O Executivo é permanentemente exautorado. A última desfaçatez popular foi com o Carnaval: não se acatou as decisões governamentais sobre a não-tolerância de ponto, e o ministro Miguel Relvas, muito desenvolto, veio para os jornais dizer que, para o ano, Carnaval nem vê-lo.

Na sequência destes factos, emergiu o folclore da ausência do dr. Cavaco a uma recepção na Escola Secundária António Arroyo. O homem ficou apavorado com a informação de que o aguardavam umas centenas de estudantes. E, à última hora, não apareceu, alegando um "imprevisto." A Imprensa saltou-lhe em cima. Ele perde "popularidade" a olhos vistos e as sondagens no-lo dizem. A António Arroyo, outrora chamada Escola de Artes Decorativas António Arroyo, é um alfobre de grandes figuras das artes e das letras portuguesas. De lá saíram, entre outros, Júlio Pomar, Vespeira, Costa Pinheiro, Mário Cesariny, uma lista muito apreciável de talentos.

Salazar e os seus áulicos desconfiavam do ensino que ali se ministrava. Um número importante de professores, provindo dos ideais republicanos e com a vocação pedagógica de não se limitar à normalização, formou, naquela Escola, não apenas grandes artistas, mas, também, cidadãos empenhados. A continuidade dessa tradição tem-se mantido, e o espírito de liberdade e de rebeldia não esmoreceu. O dr. Cavaco deve ter sido avisado de que os miúdos não eram de fiar. E não apareceu. Fique com quem praticou o ónus da culpa. Mas estas pequenas pusilanimidades pagam-se caro, e o dr. Cavaco tem sido fértil em dar razão a quem o detesta. Foi mais uma.

A Imprensa precipitou-se sobre o caso. E comparou-o ao "destemor" de Pedro Passos Coelho, que enfrentou uma multidão de protestatários, que o aguardava em Gouveia, durante uma visita à Festa do Queijo. Passos que, como se sabe, não morre de amores pelo dr. Cavaco, sentimento, aliás, correspondido, abichou o incidente para que se estabelecessem comparações. Porém, não é com "faits divers" desta natureza que se ganham as sondagens.

A troika continua a mandar em Portugal, a fazer conferências de Imprensa como pró-cônsules, a instalar-se em magníficos hotéis, a comer do bom e do melhor, a auferir balúrdios, e a tratar-nos como beócios. O extraordinariamente inesquecível Miguel Relvas continua dizer coisas absurdas e a demonstrar um contentamento infinito por ser ministro e tudo. E assim vai o País.


Um livro indispensável

No meio destas vergonhas, um espaço de felicidade e de prazer, com a leitura de "Largada das Naus", terceiro tomo da História de Portugal, de António Borges Coelho. Já neste jornal o ensaísta António Rego Chaves, meu amigo e camarada, se referiu, com minúcia e cuidado, a este trabalho exemplar. Mas nunca é demais voltar a falar no livro, tanto mais que há forças cada vez mais empenhadas em nos martirizar com inépcias e traições. "Largada das Naus" é um texto extraordinário, pelo rigor da investigação e pela beleza da forma. Sentimos o cheiro do povo, a coragem do seu empreendimento, soberano entre os outros; ouvimos os seus falares; sabemos da grandeza das suas próprias misérias. De repente, António Borges Coelho coloca o leitor nas naus, estamos todos com aquela gente suada e denodada, afinal gente vulgar que apenas quer fugir da pobreza e tentar, jogando a vida, melhorias e talvez fortuna. Dividido em pequenos capítulos, "Largada das Naus" é uma leitura fascinante, com a marca de um grande historiador e, por igual, de um grande prosador. Li, e estou a reler, com emoção e orgulho, este belíssimo texto, que resgata os meus desgostos e tristezas, e me dá ânimo para enfrentar os reveses actuais. Leitor dilecto: acompanhe António Borges Coelho neste empreendimento incomum. 



b.bastos@netcabo.pt




Dança com os gregos, segundo Pacheco Pereira

«Liberty for wolves is death to the lambs» disse Isaiah Berlin.
É o pensamento que suscita o artigo "Dançar com os gregos", do José Pacheco Pereira.
«Dancem, dancem… que isto um dia acorda muito torto. Muito torto mesmo.
Os gregos vão ter mais um plano irrealista de “ajustamento”. Se fosse apenas um plano de “ajustamento”, vá que não vá. Mas é um plano irrealista, por isso é uma receita para o desastre, ou melhor, para a continuação do desastre. Obrigar os gregos a destruirem parte da sua economia que, mal ou bem ainda funciona, para baixar a dívida de 160% para 120,5% até 2020, é uma impossibilidade que pode atrair os partidários do “economês”, mas põe os cabelos no ar do cidadão “senso-comunês”. Diga-se de passagem, que nós não podemos falar muito porque vamos assinar um “pacto orçamental” com idênticas medidas irrealistas.
Vão ter uma variante do gauleiter, ou seja, no eufemismo tecnocrático, vão ter uma “presença permanente" para os vigiar. São eles que vão governar a Grécia em nome dos credores, o povo grego passa a sujeito e súbdito. Há quem diga “é bem feito” porque andaram a viver à custa do que não tinham. Diga-se, mais uma vez, de passagem que o mesmo se diz de nós, lá fora e cá dentro. Mas quem diz que “é bem feito” devia ser declarado inimputável, porque não sabe o que diz e em que caldeirão de feitiços está a meter a colher.
Vão ter que mudar a Constituição á força, o que é o supremo vexame para quem acha que as Constituições são mais do que um textozinho precário e que mexer nelas é intrinsecamente um elemento de soberania nacional. Nós também não podemos falar muito porque aceitámos o mesmo diktat. O objectivo é incluir na Constituição uma “regra da prioridade absoluta ao pagamento da dívida”, um absurdo constitucional, uma maneira de afixar na porta da Grécia que esta já teve a visita do cobrador de fraque e este obrigou-a, por escárnio, a anunciar isso numa tabuleta.»

E A VERDADE QUANDO VEM AO DE CIMA !? - Provedor da Misericórdia de Portimão “suspende funções se for pronunciado pelo Tribunal”



 Provedor da Misericórdia de Portimão “suspende funções se for pronunciado pelo Tribunal” 25-02-2012 

A Diocese do Algarve considera que “a suspensão do exercício das funções de Provedor da Irmandade (Misericórdia de Portimão) no caso e no momento em que eventualmente venha a ser proferido despacho de pronúncia por um Juiz de Instrução, constitui um compromisso aceitável”.    
A Diocese do Algarve, como “entidade de tutela eclesiástica da Irmandade da Misericórdia de Portimão, como enquanto Associação canónica de fiéis” esclarece, em comunicado, que “não obstante o Inquérito judicial em curso remontar ao ano de 2008, nunca os órgãos sociais da Misericórdia de Portimão dele deram qualquer notícia à Diocese”.
A Diocese reagindo a notícias que davam conta do atual e o anterior Provedores da Santa Casa da Misericórdia de Portimão terem sido constituídos arguidos e acusados pela prática de vários ilícitos de natureza criminal num processo instaurado no Tribunal Judicial de Portimão, explica que o Bispo Dom Manuel Quintas convocou o atual Provedor daquela Misericórdia para uma reunião que teve lugar a 22 de fevereiro, na Casa Episcopal de Faro.
Considerando que o provedor “prestou os pertinentes esclarecimentos” ao Bispo, reiterando que “suspenderá funções caso venha a ser pronunciado pelo Juiz de Instrução”, a Diocese adianta que tal compromisso fora já assumido pelo provedor perante “a Assembleia Geral da Irmandade”, prevendo-se que venha a iniciar-se muito em breve a fase de Instrução do processo.
Assim e face aos elementos disponíveis, a Diocese do Algarve, considera que “a suspensão do exercício das funções de Provedor da Irmandade no caso e no momento em que eventualmente venha a ser proferido despacho de Pronúncia por um Juiz de Instrução constitui um compromisso aceitável”.
Isto porque “compatibiliza o respeito pelo principio da presunção de inocência a que todo o arguido tem direito e salvaguarda o prestígio, bom nome e normal continuidade das a atividades de solidariedade social desenvolvidas pela Misericórdia de Portimão”.
MP acusa provedores da Misericórdia de Portimão de vários crimes
Embora o antigo tesoureiro e atual provedor da Misericórdia de Portimão, José Correia, assim como o anterior provedor, José Serralha, sejam acusados pelo Ministério Público, em abril de 2011 pela prática de vários crimes, os arguidos já contestaram o despacho, segundo noticiou o Jornal Público.O MP atribui a prática de vários crimes de infidelidade e participação económica em negócio aos dois arguidos e de peculato e falsificação a José Correia.
Em causa está o alegado aproveitamento dos seus cargos para enriquecimento pessoal, acusação que os visados refutam. O processo está em fase de instrução, não tendo até ao momento o Tribunal decidido se os arguidos vão ou não a julgamento.A investigação iniciou-se após uma denúncia em 2008, ao MP e à Segurança Social, por uma médica que integrava os órgãos sociais da Casa de Nossa Senhora da Conceição, uma outra instituição particular de solidariedade social (IPSS) a que José Correia presidira em Portimão até 2007.
Ordenados superiores a cinco mil euros
José Correia que é técnico oficial de contas presidia ainda a uma outra instituição o Lar da Criança de Portimão. Também a sua mulher era vogal do conselho fiscal da Misericórdia, além de diretora de serviços e técnica de contas do Lar da Criança.
Por sua vez, seus filhos integravam vários cargos nas diversas instituições, a filha como funcionária (técnica de contas) da Misericórdia e ainda da Casa de Nossa Senhora da Conceição, enquanto o filho também trabalhava para a Misericórdia como secretário da direção.Já José Correia como tesoureiro e o então provedor José Serralha ocuparam, entre 2003 e 2007, lugares de administradores únicos de duas empresas, a Saudecórdia e a Servicórdia, criadas em 2003 pela Misericórdia, como sócia única, para gerir o seu hospital.
Os dois juntos receberam, a esse título, cerca de 591 mil euros (mais de cinco mil euros mensais cada um). Após a investigação da Polícia Judiciária e segundo a acusação do MP, estas duas empresas contrataram, por iniciativa "exclusiva" dos administradores, a empresa de contabilidade Rufalgarve, propriedade de José Correia e da mulher, empresa que estava igualmente encarregue da contabilidade da Misericórdia, da Casa de Nossa Senhora da Conceição e do Lar da Criança.
No total, entre as duas empresas da Misericórdia e as três instituições de solidariedade social a Rufalgarve recebeu, entre 2004 e 2009, o valor de 129 mil euros.
Segundo o Ministério Público os serviços não teriam sido realizados por aquela empresa mas sim por técnicas de contas funcionárias ou contratadas pelas empresas e as 3 IPSS, que eram a mulher e filha de José Correia.
Misericórdia assume dívidas das empresas de 2,3 milhões
O processo refere ainda que a Saudecórdia fechou em 2008, com um prejuízo de 1,9 milhões de euros, enquanto a Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) encerrou a Servicórdia em 2007, por falta de alvará para fornecimento de refeições ao hospital, apresentando um prejuízo de 430 mil euros.
Os resultados negativos de ambas as empresas atingiram cerca de 2,3 milhões de euros e estão a ser assumidos pela Misericórdia, em custos anuais de 229 mil euros até 2019."No âmbito das três IPSS e das duas empresas da Misericórdia, o arguido José Correia sabia que ao contratar os serviços da Rufalgarve - da qual era sócio-gerente - lesava os interesses de tais pessoas colectivas, na medida em que elas tinham pessoas competentes para executar os serviços contratados, tendo-o feito com o propósito de obter ganhos patrimoniais ilegítimos", acusa o MP.
"Prática reiterada de gestão danosa" diz a Segurança Social
Por sua vez a Segurança Social ordenou uma auditoria concluída em 2009 onde se referencia que os seguros do Lar da Criança de Portimão foram efetuados na seguradora ‘Seguros do Século XXI’, uma mediadora de que José Correia era sócio-gerente.
O presidente do Instituto da Segurança Social, Edmundo Martinho, considerou que se estava perante uma "prática reiterada de gestão danosa" de entidades que recebiam importantes apoios do Estado, pelo que comunicou o caso ao Ministério Público.
Na sua investigação, a PJ aponta a criação da Saudecórdia e da Servicórdia como o ponto fulcral da estratégia dos arguidos para "obterem ganhos ilegítimos".
José Correia e José Serralha promoveram a alteração dos estatutos da instituição, de forma a que esta pudesse entrar no capital das duas empresas e o primeiro promoveu junto das outras instituições, a que presidia igualmente, a alteração dos estatutos, levando-as a participar no capital daquelas empresas, alegando junto dos sócios e trabalhadores que assim teriam "largos benefícios na prestação de cuidados de saúde" por parte do Hospital da Misericórdia. Embora as duas IPSS nunca chegassem participar no capital das empresas dos seus cofres saíram, entre 2004 e 2007, cerca de 830 mil euros para a Misericórdia.
Segundo a acusação, José Correia utilizou os cargos que exercia para transferir essas verbas, através de cheques que assinava, "a fim de cobrir as dificuldades financeiras das empresas Saudecórdia e Servicórdia e de suportar os ganhos" que nelas obtinha.
Casa da Criança exige indemnização de 100 mil euros
Os montantes em causa foram mais tarde devolvidos pela Santa Casa, mas sem que fossem pagos juros mas, segundo a acusação, para dar uma aparência legal a essas transferências, José Correia terá forjado e falsificado diversas actas.
O Lar da Criança de Portimão, em que a mulher de José Correia é atualmente da direção e diretora de serviços, perdoou os juros, porém a Casa da Criança não só os exige, como se constituiu assistente no processo, pedindo ao seu antigo presidente uma indemnização valor de 101 mil euros.
Face aos resultados da investigação da PJ, o MP acusou José Correia pela prática, em co-autoria com José Serralha, de dois crimes de participação económica em negócio e dois de infidelidade.
José Correia foi igualmente acusado da autoria material de 2 crimes de peculato, 5 de participação económica em negócio e 6 de falsificação, tendo o MP pedido a sua suspensão das funções de provedor da Misericórdia.
O juiz de instrução, no entanto, rejeitou esse pedido, atendendo a que os factos são anteriores ao início desse mandato (2008) e que o arguido foi eleito por unanimidade tendo a sua eleição sido homologada pelo Bispo. José Correia voltou a ser eleito provedor no ano passado.
Arguidos refutam acusações e pediram abertura de instrução
Na sequência da acusação do MP, José Correia e José Serralha pediram a instrução do processo, alegando, designadamente que os ganhos obtidos na Saudecórdia e na Servicórdia "mais não são do que as contrapartidas decorrentes do trabalho que prestaram às sociedades", enquanto gerentes.
Correia sustenta também que quando a Rufalgarve foi contratada ainda não era membro dos órgãos sociais das instituições. Quanto à contratação da sua empresa pela Saudecórdia e pela Servicórdia, afirma que "não teve qualquer intervenção" no caso.
A instrução foi aberta em dezembro de 2011, devendo agora ser ouvidas testemunhas indicadas pelos arguidos, tendo José Correia arrolado o autarca de Portimão, Manuel da Luz, e o vice-presidente, Luis Carito.
O presidente da Câmara foi presidente da Assembleia Geral da Misericórdia entre 2008 e 2011 enquanto Carito como sócio-gerente de uma empresa de serviços médicos, negociou em 2004 a sua entrada, que não se concretizou, na administração do Hospital da Misericórdia.
Observatorio do Algarve

ACONTECIMENTOS DA SEMANA - SEMANADA - O JUMENTO


domingo, fevereiro 26, 2012

Semanada

Esta semana o país ficou a saber que apesar de ter um Presidente que foge de putos pode dormir tranquilo, tem um primeiro-ministro corajoso, já o tínhamos visto enfrentar as perigosas ondas da Manta Rota, agora vimo-lo a enfrentar manifestantes irados, não o fez durante muito tempo mas fê-lo. O que os portugueses não viram foram a meia dúzia de metralhadoras Uzi escondidas debaixo das abas do casaco dos muitos seguranças que cercavam Passos Coelho.

Passos Coelho acaba a semana dizendo que não está jogando pingue-pongue com Cavaco Silva, isto porque o Presidente discordou desta política que parece um mil-folhas de austeridade. Passos Coelho tem razão, no pingue-pongue os adversários estão longe um do outro e não se atingem no rosto.

Onde parece que se está a jogar pingue-pongue é no terreno das previsões económicas com a bola da contracção da economia portuguesa a ir cada vez mais alta, mais um pouco de realismo e de menos optimismo nessas previsões e estaremos ao nível da Grécia. Com um orçamento falhado em 2012 os mesmos que ridicularizaram o Álvaro quando o Batanete da Rua da Horta Seca disse que 2012 seria o ano da mudança, dizem agora que 2013 será o ano do crescimento económico. Ainda não se percebeu se estão mesmo convencidos disso ou se estão a rezar.

Quem assume que está mesmo a rezar é a rapariga que é ministra e quem os agricultores calharam em sortes, a senhora parece especialista em rezas e pedinchice. Depois de meses de seca na agricultura a senhora veio a público com as suas propostas para o sector, com aquele ar competente que todos lhe conhecemos veio tranquilizar os agricultores, assegurou-lhes que ia pedinchar a Bruxelas e que sendo ela crente em Deus acredita que brevemente vai chover. Ainda não se sabe o resultado das preces e da pedincha, mas quanto a pedincha é certo que a rapariga é eficaz, tão eficaz que deu para arranjar um tacho para a mana arquitecta da ministra da Justiça, mas teve azar, a ministerial mana acabou por se demitir depois de lhe terem descoberto a careca.

Depois de o Gaspar o ter mandado calar em pleno Conselho de Ministros o Álvaro parece estar a vingar-se, com o Gasparoika escondido atrás do batalhão de soldados da GNR fortemente armados que lhe dão protecção contra algum português mais irritado, o Álvaro é agora a vedeta do governo, o homem do crescimento e da criação de 100 empregos por dia. Se considerarmos que a única proposta de investimento imaginada pelo Álvaro foi no sector do pastel de nata, é caso para dizer que vamos ter de comer muitos pastéis.


Turismo diplomático


A representação dos Estados Unidos em Portugal anunciou que, a partir de Março, a embaixada em Lisboa e o consulado geral em Ponta Delgada (Açores) vão deixar de emitir vistos de imigração para portugueses, passando o processo a ser assegurado pela representação norte-americana em Paris (França) - deslocação que terá de ser custeada pelo próprio candidato.

«Antecipando «um impacto muito grande na comunidade» com esta alteração da política de concessão de vistos, que entra em vigor em marco, José João Morais lamentou: «Nós aqui fazemos tanto pelos americanos, pelo Governo americano e depois tratam-nos desta maneira». Mas as culpas, frisou, são mais dos diplomatas portugueses que não têm «capacidade» para lidar com um país «muito difícil» como os Estados Unidos, que dos políticos americanos. E as mesmas culpas estendem-se a figuras como o Presidente da República e o ministro dos Negócios Estrangeiros, que «a única coisa que vêm cá [aos Estados Unidos] fazer é gastar dinheiro e passear», criticou.»

AURORAS BOREAIS E FENÓNEMOS DA NATUREZA - 1ª PARTE