AVISO

O administrador deste blogue
não é responsável pelas opiniões
veiculadas por terceiros
nem a sua publicação quer dizer
que delas partilhe, apenas as
publica como reflexo da
sociedade em que se inserem
dando-lhes visibilidade
mas nunca fazendo delas opinião própria.
Ao desenvolturasedesacatos reserva-se ainda o direito
de eliminar qualquer comentário anónimo ou não identificado, que contenha ataques
deliberadamente pessoais, que em nada contribuampara o debate de ideias ou para a denúncia
de situações menos claras do ponto de vista ético.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

CHAPÉUS HÁ MUITOS SEU PALERMA (parte 2)


ESPERA - CHEGOU - POEMAS ILUSTRADOS DE ANTÓNIO GARROCHINHO




Tal foi o medo que teve de arriar o calhau......

O Presidente da República, Cavaco Silva, reiterou hoje o «impedimento de última hora» para justificar o cancelamento de uma visita a uma escola, lembrando a sua «experiência muito acumulada» ao longo dos anos em que desempenhou cargos públicos.
No arranque da sexta jornada do Roteiro da Juventude, Cavaco Silva foi questionado pelos jornalistas sobre o motivo que o fez cancelar, à última da hora, uma visita à Escola António Arroio, em Lisboa, onde dezenas de alunos estavam concentrados em frente ao portão.
«O meu gabinete, no dia próprio, teve o cuidado de informar a direcção da escola de que um impedimento de última hora me impediu de concretizar a visita»,
blog D"SUL

Casamentos para todos os gostos..

Tradição está de regresso depois de ter sido praticamente exterminada a partir de 1949
Um grupo criminoso do norte da China foi apanhado a tentar revender e recasar uma mulher que já tinha sido vendida e casada alguns dias antes, apesar de se encontrar morta nas duas ocasiões. Apesar da falta de pulso, o primeiro noivo não se preocupou, pois também estava morto, cumprindo a superstição chinesa de casar dois cadáveres tendo em vista uma vida depois da morte.
blog D"SUL

chapéus há muitos seu palerma !!!




A Hungria no laboratório do neoliberalismo


Fundação Maurício Grabois - [Milton Pinheiro] A Hungria é um importante país do leste europeu. Sempre foi da tradição magyar a luta pela liberdade, pela autodeterminação e por uma perspectiva progressista para humanidade.

No século XIX ocorreram lutas por emancipação política, a exemplo da revolução de 1848/49 que lutava contra o império Habsburgo. O povo húngaro conseguiu a sua autonomia dentro daquele império em 15 de março de 1848 e, em abril de 1849, a sua independência.

Já no século XX, uma revolução de caráter socialista, comandada pelos comunistas, sob a liderança de Béla Kun, se estabeleceu. Era o começo de 1919 e o país fervilhava com grandes movimentações sociais. Os trabalhadores organizados em conselhos marcharam para conquistar o poder e, em março de 1919, foi criada a República Soviética da Hungria. Era a segunda revolução com esse caráter no começo do século XX, pois a primeira havia acontecido na Rússia em 1917, sob a vanguarda dos bolcheviques.

A República Soviética da Hungria durou apenas alguns meses, exatamente de 21 de março de 1919 a 06 de agosto do mesmo ano. As tropas do obscurantismo, a serviço da reação conservadoras, conseguiram cercar o governo dos sovietes e o embrionário poder socialista dos trabalhadores húngaros foi derrotado.

O governo comunista de Béla Kun, que teve como comissário (ministro) de cultura aquele que viria a se transformar no filósofo marxista mais importante do século XX, Giörgy Lukács, não teve tempo histórico para aprofundar a socialização da política e da economia.

A repressão se abateu mais uma vez sobre os trabalhadores, e a Hungria viveu uma longa noite de trevas, com perseguição política, terror étnico, manifestação do fascismo e colaboração com o nazismo.

Mas como nos afirmou o dramaturgo William Shakespeare, "não tem longa noite que não encontre o dia". E assim aconteceu. Após movimentações sociais contra o atraso conservador, as lutas contra o nazismo no campo de batalha, os trabalhadores húngaros com a revolucionária solidariedade do Exército Vermelho conquistaram o poder no pós segunda guerra, e fizeram uma revolução socialista com ampla participação popular.

A experiência do socialismo realmente existente na Hungria foi marcada por avanços na socialização da política (decisões coletivas) e da economia (gestão dos trabalhadores). O povo húngaro conquistou um grande padrão de vida nas questões essenciais ao desenvolvimento humano, a exemplo da educação, transporte, saúde, moradia, lazer, pleno emprego e participação nas decisões. Todavia, contradições e equívocos se apresentaram no processo que funcionaram para emperrar a socialização da democracia popular e dos seus pressupostos socialistas. Diante desse quadro tivemos na Hungria episódios de complexa análise e saídas não convencionais para o cabedal clássico do socialismo revolucionário. Estou referindo-me aos acontecimentos de 1956, que até hoje demandam uma interpretação mais profunda, com estudos mais elaborados, no sentido de tirarmos lições desses atos, que nos ajudem, enquanto revolucionários, a não mais incorrer nesses erros. Essa análise não pode ser pautada, portanto, na sanha ideológica da imprensa burguesa.

A derrota dos trabalhadores

A Hungria é um país de constante movimentação política. Os acontecimentos que começaram a trazer para a cena política debates sobre o socialismo realmente existente no leste europeu e na URSS, a partir da chegada de Mikhail. Gorbachev ao poder em 1985, não deixaram a Hungria de fora. Ao final da década de 80 do século XX, um processo de contrarrevolução capitalista tomou conta desse país e o fez caminhar celeremente para o passado das privações sociais e políticas.

Em 1987, o próprio Partido Comunista Húngaro, a partir de decisões do seu Comitê Central, aprovou medidas que institucionalizam regras formais da democracia burguesa de características liberais. Prosseguindo nesse roteiro, em 1988 János Kádár é afastado e substituído por Imre Pozsgay, confirmando assim, o entranhamento das posições pró-capitalistas na nova ordem política da Hungria. Como coroamento desse processo, em 23 de outubro de 1989 é aprovado essa república do capital.

A partir desse novo quadro político são realizadas as eleições de maio de 1990, quando os populistas e a direita (como o partido dos proprietários de terras) chegaram ao governo e fizeram contra-reformas que instituíram a ruptura, pelo alto, com a ordem anterior. A Hungria começou a ser invadida pela lógica da barbárie e virou um laboratório para um novo ciclo do capital, com requinte de crueldade absurda. Logo, ela entra para a OTAN, em 1999, e para a União Européia em 2004. Confirmando-se assim, a cada medida confeccionada no laboratório do capital, como um país pensado de fora para dentro. O livro do histórico dirigente político e pesquisador social, Gyula Thümer, Az elsikkasztott ország, ainda sem tradução para o português, discorre sobre o que ele chama de processo de venda da Hungria. Esse livro obteve uma grande repercussão entre os movimentos sociais e trabalhadores húngaros, saindo uma segunda edição com grande tiragem.

A realidade atual da terra magyar

A Hungria é hoje um país de 10 milhões de habitantes, com um desemprego que alcança mais de um milhão de trabalhadores, com mais de dois milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, o que equivale dizer, que vivem com menos de 250 euros por mês. O salário mínimo é algo em torno de 250 euros (um dos mais baixos da União Européia), grande parte dos trabalhadores ativos (três milhões) recebe nessa faixa salarial. A carestia toma conta do país, chegando ao ponto de circular no meio sindical que, na Hungria, se tem salários da África e custo de vida da Áustria.

Após a contrarrevolução capitalista, o capital destruiu o parque industrial num processo de privatização que tem como característica uma conduta típica da máfia russa. Efetivou-se um grande movimento da direita governista, com o apoio da social democracia trânsfuga, no sentido de medidas que internacionalizaram a economia, sendo hoje, essa internacionalização em torno de 75% do geral da economia. Com 100% do setor bancário, 85% na indústria e agricultura. O processo de privatização em massa atingiu o setor de energia, sendo hoje 100% privado e internacionalizado, gerando uma grave distorção, pois o povo paga um preço muito alto pelo consumo. As privatizações também alcançaram os serviços, onde os preços também são extorsivos.

As grandes plantas industriais da economia planificada foram substituídas por empresas de no máximo 300 trabalhadores, quando antes eram de Cinco mil. Hoje, 58% dos operários húngaros laboram em empresas de no máximo 50 trabalhadores.

O que chama à atenção nesse amplo processo de empobrecimento do país, é que a classe operária já destruiu a poupança que tinha e, já vendeu a sua moradia (ambas conquistada no período do socialismo realmente existente), vivendo de aluguel. Mas, ainda dois fatores sobressaem na realidade da Hungria: a alta concentração de renda (um milhão de pessoas com alto padrão de vida e consumo) e a corrupção governamental.

Aqui na Hungria, aprofundamos e mantivemos contato com vanguardas políticas, movimentos sociais, movimento sindical combativo. Pesquisamos no Arquivo Nacional e mantivemos contato com o ambiente acadêmico e cultural, sempre na perspectiva de extrair dados e informações que nos permitisse construir uma acurada análise sobre o que está ocorrendo nesse país, a partir do laboratório de maldades que foi efetivado pelo capital. Fica claro que, se a crise da União Européia se agravar, a Hungria como uma economia completamente dependente, será fortemente abalada.

As frações de classe da burguesia disputam entre si a possibilidade de aplicar o seu choque de capitalismo. O governo entreguista e reacionário do FIDESZ (União Cívica Húngara), a espelho do receituário neoliberal, conseguiu implementar golpes nos direitos sociais dos trabalhadores. Tendo como exemplo dessa lógica, o pacote com leis que mudam a legislação trabalhista.

Reflexão para um grande passo na história

Os trabalhadores do mundo que acreditam no progresso social e na emancipação humana têm que voltar o seu olhar, internacionalista, para o que está acontecendo na Hungria. É um momento de acirramento das contradições de classe. Nesse contexto, sindicatos e confederações dominados pela social democracia e pela direita, a serviço do capital, conciliaram com a burguesia e concordaram com a flexibilização das relações de trabalho, tendo como contrapartida a manutenção da representação sindical no local de trabalho. É importante registrar que, sempre na história contemporânea desse país, existiu a presença da representação da classe dentro da empresa, ou seja, no tradicional local de trabalho. Foi uma troca de Pirro!

Pelo que se percebe, os trabalhadores vivem um momento de reflexão política, mas também de luta aberta. O comando do processo está nas mãos da burguesia. São poucos sindicatos que tem uma prática revolucionária e os movimentos sociais ainda não encontraram uma perspectiva classista. As bandeiras e palavras de ordem que podem movimentar o bloco histórico ainda estão em fermentação. Todavia, desse estágio de reflexão política e ação aberta existem possibilidades de combates.

Compreendemos que há forças em movimentação social, a exemplo do MUNKÁSPÁRT. Essa possibilidade de luta faz com que o governo de direita, que emergiu do desatino social democrata, tente, através de uma legislação fascista, esmagar as alternativas de avanço nas lutas progressistas.

A cena política na Hungria, em termos gerais, não é diferente dos processos históricos quando, da mais profunda opressão, os trabalhadores encontraram formas e forças para defender a humanidade da barbárie. Nesse contexto, existe a possibilidade dos trabalhadores, dos movimentos sociais e dos operadores políticos, a exemplo do MUNKÁSPÁRT, encontrarem o elo que os ligará a experiência de 1919. Sabendo retirar ensinamentos do período do pós segunda guerra, para fazer a Hungria se reencontrar com a sua história de lutas em defesa da humanidade. Afinal, como aprendemos numa canção galega, "apenas o socialismo abre as portas para construir a democracia real".

Milton Pinheiro é professor de Ciência Política da Universidade do Estado da Bahia – UNEB e diretor do Instituto Caio Prado Jr (ICP).

Fonte: Diário Liberdade




Social-democracia europeia x socialismo latino-americano?


Le Monde Diplomatique - [Maurice Lemoine] Vinculados às suas antigas alianças, os social-democratas europeus, com notável exceção dos portugueses, não entendem nada dessa nova América Latina, que ousa evocar o "socialismo do século XXI", busca uma democracia "participativa", engana-se às vezes, avança, recua, mas que, em matéria social, obtém avanços notáveis.

Em 15 de novembro de 2010, em uma reunião do conselho da Internacional Socialista (IS) que teve lugar na sede da OCDE − Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (uma organização muito liberal!), a primeira secretária do Partido Socialista Francês, Martine Aubry, no discurso de abertura, não escondeu sua alegria: "Quero saudar em particular nosso presidente, George Papandreou, e felicitá-lo pelos resultados das eleições locais na Grécia [com uma abstenção de 53%!]. Num contexto difícil, essa vitória vem recompensar uma coragem política que provoca admiração".

Sabemos o que aconteceu com o dirigente do Movimento Socialista Pan-Helênico (Pasok) e com a "austeridade justa" que ele tentou impor a seu país. Conhecemos também o destino reservado pelo povo a inúmeros outros membros eminentes da organização social-democrata, como Laurent Gbagbo, Zine al-Abidine ben Ali ou Hosni Mubarak, para citar só alguns.

Em 7 de dezembro desse mesmo ano de 2010, em Bruxelas, num anfiteatro do Parlamento Europeu se reuniu, sem nenhuma publicidade, uma dezena de eurodeputados e de assistentes parlamentares que recolheram depoimentos de sindicalistas e defensores dos direitos humanos vindos da Colômbia.

Os testemunhos são de dar frio na espinha: 39 sindicalistas e doze militantes do Polo Democrático Alternativo (PDA) haviam sido assassinados desde a chegada ao poder, quatro meses antes, de Juan Manuel Santos (que foi ministro da Defesa de seu predecessor, Álvaro Uribe).

O social-democrata dinamarquês Ole Christensen trouxe uma informação complementar: em julho de 2010, juntamente com o trabalhista britânico Richard Howitt, também presente, ele acompanhou a organização Justice for Colombia num local tristemente célebre, La Macarena. Seu depoimento relata que mais de 2 mil pessoas foram assassinadas e enterradas em valas comuns no local, vítimas do Exército e dos paramilitares. Em sua opinião, "devemos dizer não ao Tratado de Livre Comércio [TLC] que a União Europeia (UE) está negociando com a Colômbia".

Uma única voz se levantará para defender Bogotá − a do representante do Partido Socialista Operário Espanhol (Psoe), Emilio Menéndez del Valle, que questiona: "O senhor acha que em três meses um governo pode resolver todos os problemas? Se um país inteiro votou maciçamente [55,59% de abstenção] em Santos, ele deve ser respeitado!".

Pertencentes a partidos que são membros da Internacional Socialista, esses três eurodeputados claramente não estão tocando a mesma música.

Conselheiro da Esquerda Unida Europeia/Esquerda Nórdica Verde (GUE/NGL), o belga Paul-Émile Dupret declarou: "No grupo parlamentar deles [o Partido Socialista Europeu, PSE], Christensen e Howitt estão na contracorrente. Não tenho certeza de que uma maioria se pronunciaria contra a assinatura de um TLC. O presidente do grupo, o alemão Martin Schulz [Partido Social Democrata, SPD], é favorável ao tratado. O Psoe, ainda mais, incondicionalmente!".

Na verdade, a Internacional Socialista não se aventurava na América Latina, considerada por ela o quintal dos Estados Unidos. "Não me recordo de textos condenando a deposição de Jacobo Arbenz na Guatemala, em 1954", afirma Antoine Blanca, na época membro da Secretaria de Relações Exteriores da Seção Francesa da Internacional Operária (Sfio). "Dez anos depois, quando pedi a palavra para denunciar a intervenção da Marinha norte-americana em Santo Domingo, Guy Mollet esbugalhou os olhos!"

Sem voltar demais no tempo, lembramos que, fundado em 1933 por Salvador Allende, o Partido Socialista (PS) chileno recusou-se a se filiar à IS, criticando suas "posições conformistas no seio do sistema democrático burguês capitalista".1

Já em 1959, a Revolução Cubana tinha colocado o anti-imperialismo no centro dos debates. Mas isso sem grandes consequências para a IS, que deu uma olhada interessada, mas ao mesmo tempo muito distante.

Ditaduras na América Latina

Foi com a deposição e a morte de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, que teve início uma "solidariedade emocional e a descoberta de um mundo desconhecido" para os socialistas europeus, lembra Antoine Blanca. "Foi o primeiro desafio digno do nome, diante de Washington, para uma Internacional que até então fazia tudo para aparentar submissão à estratégia norte-americana e à Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]."

O apoio dos Estados Unidos às ditaduras constituiu, a partir daí, um ponto de discórdia maior entre toda uma geração social-democrata – Willy Brandt (Alemanha), Olof Palme (Suécia), François Mitterrand (França), Bruno Kreisky (Áustria), mas também Mario Soares (Portugal) ou Felipe González (Espanha) – e o aliado norte-americano.

Os partidos reformistas latino-americanos, vítimas desses regimes autoritários, procuraram aliados entre os países desenvolvidos. Os contatos se multiplicaram. Uma primeira reunião formal aconteceu em 1976, em Caracas, a convite do presidente venezuelano Carlos Andrés Pérez e de seu partido, a Ação Democrática (AD).

A 1ª Conferência Regional da IS para a América Latina e o Caribe, em Santo Domingo, ocorreu em março de 1980 e marcou o início da atuação dessa corrente política na região. Entre as 29 organizações locais presentes nessa primeira conferência, figurava a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), da Nicarágua, admitida desde 1978, quando ainda lutava com armas para expulsar Anastasio Somoza. Fidel Castro foi convidado na condição de presidente em exercício do Movimento de Países Não Alinhados.

E os europeus ficaram com medo: a presença de partidos "irmãos" no seio da Frente Democrática Revolucionária (FDR), em El Salvador; da Frente Democrática contra a Repressão (FDCR), na Guatemala; e de organizações que comportavam um braço político e uma ala insurgida os levaram a apoiar, de fato, a luta armada.

Na França, com a eleição de Mitterrand em 1981 e sob a influência de Lionel Jospin, Régis Debray (encarregado de missão na Presidência da República) e Antoine Blanca (que seria nomeado em 1982 embaixador itinerante na América Latina), Paris desafiou os Estados Unidos em uma região muito sensível para eles.

Em 28 de agosto de 1981, a declaração franco-mexicana sobre a representatividade da oposição salvadorenha – incluindo seu braço armado −2 teve um impacto considerável. Mitterrand não escondia sua simpatia pelos sandinistas; as relações com Cuba iam bem. "Em nome da IS e pelas costas de Washington", jubila-se Blanca, "consegui dar uns 'golpes', como impedir uma briga entre a Costa Rica e a Nicarágua!"

Apesar da irritação de Ronald Reagan, as teses da Internacional, ou seja, a resolução política dos conflitos armados, prevaleceram. O presidente da Costa Rica, Oscar Arias, propôs o plano de paz para a América Central, que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 1987.

O antigo guerrilheiro Miguel Ángel Sandoval, membro da comissão político-diplomática da União Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG), se lembra: "Nosso movimento sempre viu na IS um espaço passível de servir a seus objetivos: a negociação e a busca pela paz. Nosso primeiro encontro com o governo e o Exército aconteceu em Madri, graças à mediação do Psoe. Mas sempre tivemos consciência das profundas diferenças que existiam então entre partidos como o sueco, o francês, o espanhol, e outros mais reformistas ou claramente de direita".

Desde Santo Domingo, fissuras foram aparecendo na IS. O Partido de Libertação Nacional (PLN, da Costa Rica), a AD (Venezuela) e o Partido Revolucionário Dominicano (PRD) se separaram dos europeus. Diferentemente destes últimos, eles não questionaram o capitalismo e se mostraram em diversos casos vigorosamente anticomunistas. "O próprio conceito de classe social é muito discutível na América Latina", ousou dizer o dirigente da Esquerda Democrática (ID) equatoriana, Rodrigo Borja.3

Vagamente reformistas, eles utilizaram a IS para buscar ultrapassar a democracia cristã quando as ditaduras caíssem e porque, levando em conta o poder econômico dos países que governaram ou governariam em breve seus amigos do outro lado do Atlântico, calcularam as vantagens que poderiam tirar disso.

No Comitê da IS para a América Latina e o Caribe (Siclac), criado em 1980, conviviam tanto o FSLN quanto a muito centrista União Cívica Radical (UCR) argentina; o PS chileno (retomado em 1996!), que cogovernava com a democracia cristã, e o Partido Revolucionário Institucional (PRI) mexicano, no poder havia setenta anos. Aí também se encontra o Partido Liberal (PL) colombiano, que introduziu o modelo neoliberal (1990-1994) e sob cujos governos foi exterminada a formação de esquerda União Patriótica (1986-1990).4

Pé direito e esquerdo

Pouco importa. Multiplicando as adesões à Internacional, os socialistas do Velho Continente "estendem sua influência". Como bons administradores moldados no quadro liberal e tentando melhorá-lo pelas beiradas, eles promovem os interesses dos grupos financeiros e do capital europeu.

Na reunião do Conselho da IS em Buenos Aires, em junho de 1999, Felipe González declarou que "o socialismo democrático sempre aceitou o mercado que, de fato, anda junto com a democracia".5 Se ele condenou "as desigualdades trágicas que existem no mundo", o documento final da reunião exortava "a aproveitar a globalização" para eliminar o desemprego, a fome e a indigência.6 Passando despercebido (?), um curto parágrafo mencionava a preocupação da IS diante da "evolução do processo político na Venezuela e a política de confrontação permanente do governo com as autoridades estabelecidas". O presidente Hugo Chávez estava no poder havia apenas seis meses. Enfim, comentou o brasileiro Leonel Brizola (Partido Democrático Trabalhista, PDT): o texto "é tão geral que pode servir tanto para o pé direito quanto para o pé esquerdo".7

Os dirigentes dos partidos "latinos" membros da IS que chegaram ao poder nos anos 1980-1990 – Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, México, Panamá, Venezuela etc. – tinham uma verdadeira política social: eles governaram para os bem vestidos e bem alimentados. Desregulamentando e privatizando a torto e a direito, em conluio com Washington, o Banco Mundial e o FMI, eles acabaram perdendo a credibilidade, ou até sendo destituídos. Oriundos de lutas ou levados por movimentos populares, novos líderes apareceram: Chávez (Venezuela), Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador).

Nos dias 19 e 20 de julho de 2002, o Siclac se reuniu em Caracas com os venezuelanos Rafael Ángel Marín, dirigente da AD, Antonio Ledezma (Aliança do Povo Bravo, ABP) e Miguel Henrique Otero, diretor do periódico El Nacional. Em níveis diversos, todos participaram da tentativa de golpe de Estado contra Chávez, no dia 11 de abril precedente. Ao final da reunião, o Siclac emitiu um comunicado anunciando que decidia "apoiar a Ação Democrática e a Coordenação Democrática na mobilização e na defesa do sistema democrático e de suas instituições" – ou seja, os putschistas!

"A Internacional Socialista?" Ex-conselheiro da Embaixada da Bolívia em Paris, Alfonso Dorado fez uma careta ostensiva. "Paz Zamora foi o vice-presidente. Conta muito na memória coletiva..." Dirigindo o Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), este último fez um acordo em 1989 com o ex-ditador Hugo Banzer a fim de ascender à Presidência. Em 2002, para se opor ao forte crescimento de Morales e de seu Movimento para o Socialismo (MAS) – que não deve ser confundido com o partido venezuelano –, ele se aliou ao multimilionário Gonzalo Sánchez de Lozada, que, eleito, foi chutado para fora do poder por uma explosão social em outubro de 2003.

O MAS boliviano não pertence à IS, assim como o Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv), a Aliança País de Correa, o FMLN salvadorenho, a URNG guatemalteca; aliás, ninguém os convidou.

A Internacional só tem um sonho: conseguir a adesão do Partido dos Trabalhadores (PT) do poderoso Brasil e do ícone da esquerda latina, Lula da Silva. Mas o PT colocou seus ovos em outro cesto. Em 1990, com Fidel Castro, ele fundou o Fórum de São Paulo, que acolhe tanto os partidos moderados (também membros da IS) quanto os de formação forjada na luta armada, partidos comunistas (incluindo o cubano) e suas diferentes cisões. "Enfrentar o neoliberalismo na América Latina", explica Valter Pomar, membro da direção nacional do PT, "exigia uma atitude aberta e plural, levando em conta tanto a crise atravessada pelo comunismo quanto a que atingia a social-democracia. Isso posto, mantemos boas relações com a IS...". Mas de longe.

Vinculados às suas antigas alianças, os social-democratas europeus, com notável exceção dos portugueses, não entendem nada dessa nova América Latina, que ousa evocar o "socialismo do século XXI", busca a via de uma democracia "participativa", engana-se às vezes, avança, recua, mas que, em matéria social, obtém avanços notáveis.

No Parlamento Europeu, "onde há muitos anos os acordos de livre troca são o principal tema abordado, o grupo socialista, em sua maioria, não é muito progressista", constata Dupret.

De sua experiência na Embaixada da Bolívia, Dorado tira uma conclusão desabusada: "Tivemos contatos anedóticos com Ségolène Royal e Martine Aubry, mas o PS nunca manifestou um interesse particular em conhecer o que acontece em nosso país. Tentamos aprofundar a relação, sem resultado; nunca tivemos a oportunidade de conversar sobre o socialismo do século XXI ou sobre essa experiência de integração que é a Alba [Aliança Bolivariana das Américas]".8 É verdade que esta última, de um ponto de vista neoliberal, está em contradição total com os interesses econômicos e geopolíticos tanto dos europeus quanto dos norte-americanos.

Maurice Lemoine é jornalista e autor de "Cinco cubanos em Miami", Dom Quichotte, Paris , 2010.

Ilustração da imagem: Rodrigo Leão

1 Declaração de princípio aprovada durante o segundo congresso do partido, em 1935.

2 O FDR-FMLN agrupa uma ala política, o FDR, dirigido pelo social-democrata Guillermo Ungo, e a guerrilha da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN).

3 Nueva Sociedad, n.48, Caracas, maio-jun. 1980.

4 Entre membros de "pleno direito", "consultivos" e "observadores", o Siclac conta atualmente com 39 partidos.

5 Página 12, 26 jun. 1999.

6 "Conseil de Buenos Aires: façonner le changement" [Conselho de Buenos Aires: moldar a mudança], site da Internacional Socialista, 25 e 26 jun. 1999. Disponível em: www.internationalesocialiste.org.

7 La Nación, Buenos Aires, 28 jun. 1999.

8 Cuba, Bolívia, Equador, Honduras (antes do golpe de Estado de 2009), Venezuela, São Vicente, Granadinas, Antígua e Barbuda.

Fonte: Diário Liberdade
blog Nova Centelha


QUALQUER DIA QUALQUER HORA




Bicha enorme no Banco de Potugal

Moeda de 2 euro comemorativa dos 10 anos do Euro provoca «enchente» no Banco de Portugal
O início da venda da moeda comemorativa dos 10 anos do euro provocou esta sexta-feira de manhã uma «enchente» no Banco de Portugal, onde ainda se encontra uma fila invulgar de compradores, confirmou à Lusa fonte oficial do banco central.
Segundo explicou a mesma fonte, o interesse em moedas comemorativas é comum «sobretudo porque depois são transaccionadas por valores superiores no mercado numismático».
No entanto, adiantou, a presença no Banco de Portugal, em Lisboa, de um número invulgar de coleccionadores e adeptos da nova moeda de euro deve-se ao facto de a moeda não estar a ser disponibilizada na Casa da Imprensa.
Nota: O D"SUL esteve lá também para comprar umas modas e foi uma loucura a quantidade de pessoas que estiveram presentes para ganharem algum, pois estavam presentes os investidores do costume e a pagar 10 Euros por rolo de 25 moedas, dizia-se baixinho que um deles iria investir 70 mil euros ou mais, para as ir vender na Alemanha..... Negócios lucrativos.
blog D"SUL

CARLOS MARIGELLA, O GRANDE GUERRILHEIRO - IMAGENS E CLIPS - SUA VIDA - SUA LUTA - SUA HISTÓRIA - A GUERRILHA - AS PRISÕES, O ASSASSINATO - A FAMÍLIA


Pólvora
De Carlos Pronzato, do livro "Poemas sem licença para Carlos Marighella"

Carlos
Poderias ter sulcado
O céu
Com tuas asas
Tocar cúpulas
Sinos
Voar intensamente
Com poesias
Sambas
Ser tão baiano
Como Dorival
Caetano
Amado
Ou o mais velho
Dos Novos Baianos
Ou talvez
Irreverente
Como um Glauber
Desarmado
Ou até um grito renovado
Do Poeta dos Escravos
Mas o espelho
Devolve-te
Como um punho
Clandestino
E apertado

Pólvora
De um sonho
Deslizando
Entre as tuas mãos
Que guarda ainda
Seu último disparo

















Mariguella2.jpg (14145 bytes)Sua vidaCarlos Marighella nasceu em Salvador, Bahia, em 5 de dezembro de 1911. Era filho de imigrante italiano com uma negra descendente dos haussás, conhecidos pela combatividade nas sublevações contra a escravidão.
De origem humilde, ainda adolescente despertou para as lutas sociais. Aos 18 anos iniciou curso de Engenharia na Escola Politécnica da Bahia e tornou-se militante do Partido Comunista, dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.
Conheceu a prisão pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, prosseguiria na militância política, interrompendo os estudos universitários no 3o ano, em 1932, quando deslocou-se para o Rio de Janeiro.
            Em 1o de maio de 1936 Marighella foi novamente preso e enfrentou, durante 23 dias, as terríveis torturas da polícia de Filinto Müller. Permaneceu encarcerado por um ano e, quando solto pela “macedada” – nome da medida que libertou os presos políticos sem condenação -- deixou o exemplo de uma tenacidade impressionante.
Transferindo-se para São Paulo, Marighella passou a agir em torno de dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas, duramente atingidos pela repressão, e o combate ao terror imposto pela ditadura de Getúlio Vargas.
Voltaria aos cárceres em 1939, sendo mais uma vez torturado de forma brutal na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, mas se negando a fornecer qualquer informação à polícia. Na CPI que investigaria os crimes do Estado Novo o médico Dr. Nilo Rodrigues deporia que, com referência a Marighella, nunca vira tamanha resistência a maus tratos nem tanta bravura.
Recolhido aos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, ele dirigiria sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia.
Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista na legalidade. Deposto o ditador Vargas e convocadas eleições gerais, foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Seria apontado como um dos mais aguerridos parlamentares de todas as bancadas, proferindo, em menos de dois anos, cerca de duzentos discursos em que tomou, invariavelmente, a defesa das aspirações operárias, denunciando as péssimas condições de vida do povo brasileiro e a crescente penetração imperialista no país.
Com o mandato cassado pela repressão que o governo Dutra desencadeou contra o comunistas, Marighella foi obrigado a retornar à clandestinidade em 1948, condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu assassinato.
Nos anos 50, exercendo novamente a militância em São Paulo, tomaria parte ativa nas lutas populares do período, em defesa do monopólio estatal do petróleo e contra o envio de soldados brasileiros à Coréia e a desnacionalização da economia. Cada vez mais, Carlos Marighella voltaria suas reflexões em direção do problema agrário, redigindo, em 1958, o ensaio “Alguns aspectos da renda da terra no Brasil”, o primeiro de uma série de análises teórico-políticas que elaborou até 1969. Nesta fase visitaria a China Popular e a União Soviética, e anos depois, conheceria Cuba. Em suas viagens pôde examinar de perto as experiências revolucionárias vitoriosas daqueles países.
Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a queima-roupa no peito. Descrevendo o episódio no livro “Por que resisti à prisão”, ele afirmaria: “Minha força vinha mesmo era da convicção política, da certeza (...) de que a liberdade não se defende senão resistindo”.
Repetindo a postura de altivez das prisões anteriores, Marighella fez de sua defesa um ataque aos crimes e ao obscurantismo que imperava desde 1o de abril. Conseguiu, com isso, catalisar um movimento de solidariedade que forçou os militares a aceitar um habeas-corpus e sua libertação imediata. Desse momento em diante, intensificou o combate à ditadura utilizando todos os meios de luta na tentativa de impedir a consolidação de um regime ilegal e ilegítimo. Mas, mantendo o país sob terror policial, o governo sufocou os sindicatos e suspendeu as garantias constitucionais dos cidadãos, enquanto estrangulava o parlamento. Na ocasião, Carlos Marighella aprofundou as divergências com o Partido Comunista, criticando seu imobilismo.
Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, requereu seu desligamento da mesma, explicitando a disposição de lutar revolucionariamente junto às massas, em vez de ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que, segundo entendia, imperava na liderança. E quando já não havia outra solução, conforme suas próprias palavras, fundou a ALN – Ação Libertadora Nacional para, de armas em punho,  enfrentar a ditadura.
O endurecimento do regime militar, a partir do final de 1968, culminou numa repressão sem precedentes. Marighella passou a ser apontado como Inimigo Público Número Um, transformando-se em alvo de uma caçada que envolveu, a nível nacional, toda a estrutura da polícia política.
Na noite de 4 de novembro de 1969 – há exatos 30 anos -- surpreendido por uma emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista, Carlos Marighella tombou varado pelas balas dos agentes do DOPS sob a chefia do delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Resumo biográfico

1911 - No dia 5 de dezembro, Carlos Marighella nasce na Rua do Desterro número 9, na cidade de São Salvador, Estado da Bahia. Seus pais são o casal Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos, e o imigrante italiano, o operário Augusto Marighella. Carlos teve sete irmãos e irmãs.

1929 - Marighella começa a cursar engenharia civil na antiga Escola Politécnica da Bahia, depois de haver estudado no Ginásio da Bahia, hoje Colégio Central. Numa e noutra escola, destaca-se como aluno, pela alegria e criatividade. São famosas suas diversas provas em versos.

1932 - Ingressa na Juventude Comunista. O Partido Comunista havia sido criado em 1922. Com a revolução de 30 uma grande efervescência política varria o Brasil. Marighella participa de manifestações contra o regime autoritário e o interventor Juracy Magalhães. Inconformado com versos de Marighella que o ridicularizavam, Juracy manda prendê-lo e espancá-lo.

1936 - Abandona o curso de engenharia e vai para São Paulo a mando da direção, reorganizar o Partido Comunista, que havia sido gravemente reprimido após o levange de 1935. É, porém, novamente preso e torturado durante 23 dias pela Polícia Especial de Felinto Muller.

1937 - Marighella é libertado pela anistia assinada pelo ministro Macedo Soares e, quatro meses depois, Getúlio dá o golpe e instaura o Estado Novo. Na clandestinidade, Marighella é encarregado da difícil tarefa de combater as tendências internas dissidentes da linha oficial do PCB em São Paulo.

1939 - Preso pela terceira vez, é confinado em Fernando de Noronha. Na cadeia, os revolucionários presos organizam uma universidade popular e Marighella dá aulas de matemática e filosofia.

1942 - Os presos políticos vão para a Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro, porque Fernando de Noronha passa a ser usada como base de apoio das operações militares dos aliados no Atlântico Sul.

1943 - Na Conferência da Mantiqueira, Marighella, mesmo preso, é eleito para o Comitê Central. O Partido Comunista adota linha de apoio ao governo Vargas em razão da entrada do Brasil na guerra, posição de que ele discorda, embora a cumpra, por dever de militância.

1945 - Anistia, em abril, devolve à liberdade os presos políticos. Com a vitória das forças antifascistas, o PCB vai à legalidade e participa da eleição para a Constituinte. Marighella é eleito como um dos deputados constituintes mais votados da bancada..

1946 - Apesar do apoio de Prestes, o general Dutra, eleito Presidente da República, desencadeia repressão aos comunistas. Marighella participa ativamente da Constituinte com um dos redatores do organismo parlamentar. Conhece Clara Charf.

1947 -Ainda no primeiro semestre é fechada a União da Juventude Comunista. Depois, é o próprio Partido que é posto na ilegalidade. Marighela coordena a edição da revista teórica do PCB, Problemas e vive um relacionamento com dona Elza Sento Sé, que resulta no nascimento, em maio de 1948, de seu filho Carlos.

1948 - No início do ano são cassados os mandatos dos parlamentares comunistas. Marighella volta à clandestinidade. Data desse ano seu romance com Clara Charf, sua companheira até o fim da vida.

1949/1954 - Em São Paulo, Marighella cuida da ação sindical do PCB. Sob sua direção o PC se vincula aos operários, participa da campanha "O Petróleo é nosso" e organiza a greve geral conhecida como "dos cem mil" em 1953. Considerado esquerdista pela direção do Partido, é mandado em viagem à China. Lá é internado em razão de uma pneumonia. Depois, vai à União Soviética e volta ao Brasil em 1954.

1955 - A morte de Getúlio Vargas e o início do governo de Juscelino Kubistchek permitem que os comunistas, embora na ilegalidade, atuem de modo mais visível.

1956/1959 - O XX Congresso do PC da União Soviética inicia a desestalinização. O PCB adota a linha da "coexistência pacífica" pregada pela União Soviética. A vitória da Revolução Cubana, porém, contraria frontalmente as posições do movimento comunista internacional.

1960/1964 - A renúncia de Jânio gera uma crise política. Jango toma posse e Marighella passa a divergir da linha oficial do PC, principalmente de sua política de moderação e subordinação à burguesia. Em 1962, divisão do PC dá origem ao Partido Comunista do Brasil - PC do B.

1964 - Com o golpe de abril, instaura-se a ditadura militar. Perseguido pela polícia, Marighella entra num cinema do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, e lá resiste aos policiais até ser diversas vezes baleado, espancado e finalmente preso. Sua resistência transformou sua prisão em um ato político que teve repercussão nacional. É solto depois de 80 dias, depois de um habeas corpus pedido pelo advogado Sobral Pinto.

1965 - Escreve e publica o livro "Por que resisti à prisão", em que aponta sua opção por organizar a resistência dos trabalhadores brasileiros contra a ditadura e pela libertação nacional e o socialismo.

1966 - Publica "A Crise Brasileira", onde aprofunda suas posições críticas à linha do PCB, prega a adoção da luta armada contra a ditadura, fundada na aliança dos operários com os camponeses.

1967 - Na Conferência Estadual de São Paulo as idéias de Marighella saem vitoriosas por ampla maioria - 33 a 3 -, apesar da participação pessoal e contrária de Luiz Carlos Prestes. Vendo que a derrota no VI Congresso era iminente, Prestes inicia um processo de intervenções nos Estados, para impedir a participação de delegados ligados à corrente de esquerda. Marighella viaja a Cuba para participar da conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade-OLAS. O PCB envia telegrama desautorizando sua participação e ameaçando-o de expulsão. Disso resulta uma carta dele rompendo com o Comitê Central do PCB e afirmando que ninguém precisa pedir licença para praticar atos revolucionários. Como represália, é expulso do Partido Comunista. Retorna ao Brasil e funda a Ação Libertadora Nacional-ALN e dá início à luta armada contra a ditadura militar.

1968 - Marighella participa diretamente de diversas ações armadas recuperando fundos para a construção da ALN. No primeiro de maio, em São Paulo, os operários tomam o palanque de assalto, expulsam o governador Sodrée realizam comemorações combativas do dia internacional dos trabalhadores. O Movimento estudantil toma conta das ruas em manifestações contra a ditadura que chegaram a mobilizar cem mil pessoas. Em outubro, porém, o Congresso da UNE é descoberto pela polícia e os estudantes sofrem grave derrota. Também no final do ano, torna-se conhecido o fato de que Marighella comandava parte das ações guerrilheiras.

1969 - No início do ano, a descoberta de planos da Vanguarda Popular Revolucionária - VPR pela polícia antecipa a saída do capitão Carlos Lamarca de um quartel do exército em Osasco, levando um caminhão carregado com armamento para a guerrilha. Em setembro o embaixador norte-americano é feito prisioneiro por um destacamento unificado com integrantes da ALN e do MR-8 e trocado por quinze presos políticos. No dia 4 de novembro, às oito horas da noite, Carlos Marighella caiu numa emboscada armada pelos inimigos do povo brasileiro em frente ao número 800 da alameda Casa Branca, em São Paulo, e foi assassinado. Sua organização, a ALN sobreviveu até 1974.









Resistência













Guerrilha





Pertencemos à Ação Libertadora Nacional e o que propomos é derrubar pela violência a ditadura militar, anular todos os seus atos desde 1964, formar um governo revolucionário do povo; expulsar os norte-americanos, confiscar suas firmas e propriedades e as firmas e propriedades dos que com eles colaborarem; transformar a estrutura agrária do país, expropriando e extinguindo o latifúndio, dando terra ao camponês, valorizando o homem do campo; transformar as condições de vida dos trabalhadores, assegurando salários condignos, melhorando a situação das classes médias; assegurar a liberdade em qualquer terreno, do campo político ao campo cultural ou religioso; retirar o Brasil da condição de satélite da política externa dos Estados Unidos, colocá-lo no plano mundial como nação independente, reatar relações com Cuba e todos os demais países socialistas.Carta a D. Hérder Câmara - Agosto de 1969
“Em nome da Ação Libertadora Nacional envio esta saudação aos 15 patriotas resgatados em troca do embaixador norte americano Charles Elbrick seqüestrado em setembro no Rio de Janeiro (...) Foi esta uma das maneiras que os revolucionários brasileiros encontraram para libertar um punhado de patriotas que sofriam nas prisões do país os mais brutais castigos impostos pelos fascistas militares”.
Na foto, treze dos quinze presos libertados. Outubro de 1969

Em maio de 1964 Marighella enfrenta agentes do DOPS no cine Esky, no Rio de Janeiro. Foi ferido no peito com um tiro a queima-ropa. Em seguida ele escreveu o livro "Por que resisti à prisão", onde diz:
"Minha força vinha mesmo era da convicção política, da cerrteza (...) de que a liberdade não se defende senão resistindo"' .
Na foto, Marighella é transferido do Hospital Souza Aguiar para a enfermaria da Penitenciária Lemos Brito.








Bravura




Presos políticos em Fernando de Noronha.
Marighella é o quarto, em pé, da esquerda para a direita. Gregório Bezerra e Agildo Barata, 1942.
Presos políticos na Ilha Grande: Entre eles estão Diogo Soares Cardoso, Juvenal de Brito, Arlindo Pinho, Antonio Bento Monteiro Tourinho, Marighella, Agliberto Vieira de Azevedo, David Capistrano, 8. Antonio Gouveia, Cesar Gonçalves da Silva, Joaquim Câmara Ferreira




Cassado




Com a adesão do governo Dutra aos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria, o registro do PCB e o mandato dos parlamentares eleitos sob sua legenda são cassados na virada para o ano de 1948. A polícia empastela seus jornais e os dirigentes comunistas passam a ser perseguidos e processados. Os avanços democráticos alcançados na Constituição promulgada em setembro de 1946 sofrem um retrocesso. Para Carlos Marighella tem início mais um período de clandestinidade que se estenderia por quase uma década.
À direita, empastelamento da Tribuna Popular, jornal diário do PCB. Rio de Janeiro, outubro de 1947.




Flagrante raro do cotidiano de Marighella:
à esquerda, com Clara
Charf, sua
companheira desde 1948, e a sobrinha
Esther Grinspum,
São Paulo, 1963;
Às vésperas do
 golpe militar,
o comício pelas
Reformas de Base
na Central do Brasil,
Rio de Janeiro,
13 de março de 1964
(à direita).







Militante




Marighella abandona o curso de engenharia, transfere-se para o Rio de Janeiro e vai trabalhar na reorganização do Partido Comunista, esfacelado pela repressão desencadeada com o levante de 1935. Preso em 1o de maio de 1936, seria barbaramente torturado. Solto em julho do ano seguinte, cai na clandestinidade, sendo incumbido de reestruturar o partido em São Paulo. Novamente capturado pela polícia em maio de 1939 e condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional, permanece seis anos nos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande. A foto é do prontuário de Marighella no DOPS.





Juventude





Carlos Marighella ingressa no curso de engenharia da Escola Politécnica da Bahia em 1931. Datam desse período suas provas  escritas em verso. No ano seguinte, envolvido nas manifestações dos estudantes baianos em apoio ao movimento constitucionalista desencadeado a partir de São Paulo, é preso pela primeira vez. Libertado, participa das articulações da Juventude Comunista em Salvador
Foto do Quadro de Formandos do Ginário da Bahia, 1929Alunos da 5ª série do  Ginásio da Bahia. Ao centro, olhando para cima, Marighella.






família




"Minha avó era negra haussá,
ela veio   foi da África,
num navio negreiro.
Meu pai veio foi da Itália,
operário imigrante.
O Brasil  é mestiço,
mistura de índio,
de negro, de branco".
Carlos Marighella
Augusto Marighella, o paiMaria Rita Marighella, a mãe
Carlos Marighella,  ou simplesmente Carlinhos, como o chamavam na época em que foi feita a fotografia ao lado, em 1927.  nasceu na em Salvador, na Bahia, em 5 de dezembro de 1911.








Assassinado




Quatro de novembro de 1969, terça-feira. Como de outras vezes, Marighella marcara um ponto com os freis dominicanos Ivo e Fernando na altura do número 806 da Alameda Casa Branca. Passava um pouco das oito da noite e os frades, que haviam sido presos e torturados, estavam lá, levados pela polícia. Naquele momento Marighella não poderia supor que ia cair numa emboscada. Sob o comando do delegado Sérgio Fleury, 29 agentes fortemente armados haviam cercado o local e aguardavam sua chegada.




“Para Marighella, tudo parecia normal enquanto caminhava lentamente em direção ao carro – até estourar a fuzilaria. O primeiro tiro que o atingiu atravessou as suas nádegas; o segundo, acertou-lhe a virilha; o terceiro, feriu de raspão o seu rosto. Caído no meio da rua, imobilizado pelos ferimentos, foi cercado e executado às queima-roupa com um quarto tiro. Em um reflexo defensivo, elevou a mão e teve um dos dedos estraçalhado pela bala que lhe perfurou o pulmão e a aorta, provocando-lhe hemorragia interna e morte instantânea.”  Dos filhos deste solo, de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio
 O ESTADO RECONHECE O CRIMEEm 11 de setembro de 1996, por 5 votos a 2, a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça condenou a ditadura militar pela morte covarde de Carlos Marighella. Concluiu que ele foi assassinado por um tiro a curta distância, depois de imobilizado por três disparos não fatais. Além disso, a polícia tinha controle absoluto sobre a área onde foi morto, caracterizando-a como uma dependência do Estado, o qual deve zelar por quem se encontra sob sua responsabilidade.








Ruptura




O golpe militar de 1964 significou para as esquerdas a derrota do seu projeto político. A instalação de um regime ditatorial no país desmoralizou a perspectiva da conquista do poder pela via pacífica, desencadeando no PCB uma acirrada luta interna. Em carta de 10 de dezembro de 1966, Marighella requer seu desligamento da Comissão Executiva do partido: 
O contraste das nossas posições políticas e ideológicas é demasiado grande e existe entre nós uma situação insustentável (...) Solicitando demissão da atual Executiva desejo tornar público que minha disposição é lutar revolucionariamente junto com as massas, e jamais ficar à espera das regras do jogo político e burocrático convencional que impera na liderança ...

Entre 31 de julho e 10 de agosto de 1967, realizou-se em Havana a Conferência da Organização Latino-Americana de Solidariedade – OLAS. Marighella, que se encontrava na capital cubana, participa do encontro e declara a opção pela guerrilha, a seu ver, caminho fundamental – mas não exclusivo – da revolução no continente.De volta ao Brasil, lança O Guerrilheiro, jornal do agrupamento comunista de São Paulo, grupo dissidente do PCB que deu origem à Ação Libertadora Nacional -  ALN - organização que irá desencadear ações armadas a partir de 1968,





Anistia




Libertado do presídio de Ilha Grande pela anistia de abril de 1945, Marighella desembarca no Rio de Janeiro. Atrás, à esquerda, Antonio Bento Monteiro Tourinho, tenente do 3o RI.
Homenagem aos pracinhas da FEB por ocasião da chegada de um de seus contingentes da Itália. Aparecem, da esquerda para a direita, Marighella, Maurício Grabois (1), Luis Carlos Prestes (2) e Diógenes Arruda Câmara (3). Rio de Janeiro, 1945.






Resgatado




Após a autópsia realizada em sigilo, o corpo de Carlos Marighella foi levado para o cemitério de Vila Formosa escoltado por duas viaturas do DOPS. Além dos quinze agentes armados de metralhadoras impedindo que alguém se aproximasse do local, somente os coveiros que realizaram o sepultamento puderam presenciá-lo.




Dez anos depois do assassinato, a chegada no cemitério das Quintas, em Salvador. À esquerda, carregando a urna, Carlos Augusto, o filho, e à direita, Caetano, irmão de Marighella.
Na foto à direita, o túmulo de Carlos Marighella projetado pelo arquiteto Oscar Niemmeyer












Constituinte




Eleito deputado federal constituinte pela Bahia em dezembro de 1945, Marighella seria o autor de grande parte das emendas apresentadas pela bancada do PCB. Com atuação marcada pela combatividade, fez do plenário uma tribuna de denúncias da injustiça social e da violência contra os trabalhadores. A situação dos operários e camponeses de todo o país - em especial os de sua terra natal – e a luta contra os baixos salários, eram os alvos preferenciais do parlamentar comunista.




Bancada comunista em 1946: na fila superior, da esquerda para a direita: Claudino Silva, Osvaldo Pacheco, Batista Neto, Gregório Bezerra, Alcedo Coutinho, Carlos Marighella, Alcides Sabença; em primeiro plano: Jorge Amado, Abílio Fernandes, João Amazonas, Luís Carlos Prestes, Milton Caires de Brito, Agostinho Dias e José Maria Crispim. 




“Democracia é assegurar todos os direitos a que o povo faz jus;
democracia não é dizer, apenas,
que se trata do presidente de todos os brasileiros. Demagogia,
 sim, é declarar-se presidente de todos os brasileiros, mas não lhes manter os direitos. Se o Parlamento não se  revoltar, não mostrar que tem fibra para se opor a todos e quaisquer atos do Executivo que visem anular
os sagrados direitos do povo, não
evidenciar o seu desejo de garantir a democracia, para que o Brasil possa tornar-se independente – então poderemos dizer que teremos fracassado”.
2/11/1946     
“Sabemos, e o povo sabe perfeitamente, que nada se pode esperar dos ‘salvadores’; o povo tem de agir por si mesmo, precisa organizar-se e colaborar com aqueles que estão, realmente, com ele, com aqueles que pretendem resolver seus problemas e que, na prática, são a seu favor, a fim de que sejam os mesmos solucionados”.  18/2/1946