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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012





Corrupção: Inspector-director do Alentejo suspeito de peculato

Chefe da ASAE sob investigação

Conheça os motivos das buscas da PJ em Évora e Lisboa

Por:Eduardo Dâmaso/Tânia Laranjo/Ana Isabel Fonseca com M.C./P.G.



Francisco Fernandes, director regional do Alentejo da ASAE, foi ontem alvo de buscas numa investigação por suspeitas do crime de peculato de uso. Este director da ASAE terá usado indevidamente o carro de serviço, bem como o cartão frota para abastecer de combustível viaturas particulares. Estão em causa, entre outros factos, as viagens diárias entre a Quinta do Conde, no distrito de Setúbal, e Évora, a cidade onde está instalada a direcção regional da ASAE. O inquérito é da Unidade Nacional Contra a Corrupção da PJ e foram realizadas buscas às instalações de Évora e Lisboa.
O CM sabe que as acções de ontem são apenas o início de uma investigação mais ampla. A PJ está a investigar outras denúncias que visam a gestão de António Nunes, director nacional. Existem suspeitas de favorecimento nas nomeações feitas por Nunes, bem como entrega indevida de viaturas a chefias administrativas. As autoridades tiveram também conhecimento de que cerca de 1000 amostras de produtos alimentares, que tinham sido apreendidas em operações, desapareceram das instalações da polícia. Na ASAE, não foi levantado qualquer inquérito nem realizadas diligências para apurar o que aconteceu.
Ontem, a PJ apreendeu documentos e computadores, cujos ficheiros serão analisados. Francisco Fernandes, de 43 anos, é subintendente da PSP. Em 2006, liderou a Divisão do Barreiro, onde esteve até 2009, quando saiu para uma comissão de serviço na ASAE. Em Diário da República, foi classificado como um bom profissional, cuja carreira prometia dignificar a ASAE. 
Ministério não comenta
O ‘CM' entrou ontem em contacto com o Ministério da Economia no sentido de obter um comentário à investigação da PJ que atinge a ASAE. O assessor Nuno Vinha disse que o ministério não iria tomar uma posição oficial. "Soubemos da investigação, mas não vamos comentar. A ASAE irá em breve colocar um comunicado no site, onde dará esclarecimentos", explicou o assessor. Até ao fecho desta edição, não foi feito qualquer comunicado.


imagens de humor - António Garrochinho



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imagens de António Garrochinho



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Jogadora



Jogo-me em seus braços
tal qual se lançam os dados
Sobre a mesa
lanço a sorte, arrisco
Essa é minha natureza
Contestadora
No jogo da vida
não há que se ter medo
Negar é ilusão,
os dois lados da moeda
teimando em se equilibrar
Corda bamba de emoções
Risos, alegrias
corações partidos
Dias de inverno, verões
que sempre vão chegar.

Jogo-me na vida
de braços abertos
e sonhos prementes
Coração que não se lança,
também não sente.


Joice Furtado - 01/02/2012
blog Mergulhei em seus olhos



Soldados dos EUA exibem bandeira nazista

 FEVEREIRO 2012 
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Uma unidade de atiradores do Exército dos Estados Unidos no Afeganistão tirou uma foto com uma bandeira com o símbolo da SS, a tropa de elite nazista criada por Adolf Hitler, e provocou duras reações do comando militar americano. Um porta-voz dos Fuzileiros Navais afirmou que o uso do símbolo da SS é "inaceitável" e medidas a respeito já foram tomadas, mas não deu detalhes sobre a identidade dos soldados ou punições às quais eles estariam sujeitos.
Tirada em Sanin, no Afeganistão, em setembro de 2010, a fotografia foi descoberta pelo inspetor geral dos Fuzileiros Navais em novembro do ano passado. Segundo ele, os militares não tiveram a intenção de aludir à SS nazista, mas de se identificar como scout snipers ("atiradores batedores", em português). Ainda assim, o uso do símbolo foi considerado inapropriado e os soldados advertidos.

Formada originalmente em 1923 com apenas oito integrantes, a SS (Schutzstaffel, "Tropa de Proteção" em português) foi abolida no memso ano e recriada em 1925 para ser encarregada da proteção pessoal de Hitler e de eventos dos Partido Nazista. Em 1939, a organização cresceu e passou a contar com um exército próprio. Logo depois absorveu a Gestapo, a polícia secreta nazista, e assumiu o comando dos campos de concentração.
Tribuna de Petrópolis



A bela comunista chilena Camila Vallejo""A militância é um compromisso para a vida"





Camila Vallejo, a bela comunista chillena


"A militância é um compromisso para a vida" 

BELEZA E CONTEÚDO.Camila Antonia Amaranta Vallejo Dowling ou simplesmente Camila Vallejo [Santiago, 28 de abril de 1988] é uma estudante de Geografia e dirigente estudantil chilena. Militante da Juventude Comunista do Chile, é a atual vice-presidente da Federação de Estudantes da Universidad do Chile (FECh), sendo a segunda mulher a ocupar o cargo. 

















O site oficial da UNE dá as boas vindas à Camila e deseja vida longa à luta dos estudantes chilenos. Abaixo, confira o bate papo com a líder estudantil. Vale a pena conhecer um pouco mais dessa menina de 23 anos que tem mudado o rumo da política no Chile. 
Entrevista concedida em agosto de 2011
UNE: Como foi sua aproximação com a política? Como passou a militar no movimento estudantil? 
Camila Vallejo: Desde muito jovem, minha família me formou com valores políticos de esquerda, como democracia e justiça social. Com esta sensibilidade à esquerda é difícil manter-se fora da política e dos espaços que permitem fazer a mudança, especialmente em uma sociedade tão desigual e injusta como a do Chile. Foi assim que me interessei em fazer parte da política, desde muito jovem. Tal vontade se acentuou com a entrada na faculdade, de onde, finalmente, veio a adesão à juventude comunista. A partir deste momento, comecei a ser uma parte ativa de um movimento que tem sido gestado com trabalho, empenho e companheirismo.

UNE: O movimento que se fortaleceu este ano é herdeiro da Revolução dos Pingüins em 2006? Quais são os elementos de continuidade e diferença?
CV: Eu não o chamaria de um herdeiro, mas, certamente, possuem uma relação. Em 2006, quando eu era caloura na Universidade do Chile, estudantes do ensino médio foram capazes de instalar na agenda política de Bachelet a questão da educação, com demandas que acabaram sendo tão profundas como mudar o modelo educacional que nos foi dado desde a ditadura militar. A principal diferença entre este movimento, é que, agora, podemos ver todos os setores sociais mobilizados. No começo, o movimento surge essencialmente nos setores universitários, depois vai tomando conta e se espalhando por todo país se transformando em uma das maiores mobilizações desde o retorno à democracia no Chile.

UNE: Qual é o balanço que você pode fazer como presidente da Fech (Federação dos Estudantes da Universidade do Chile), especialmente, nos últimos meses? Qual foi o estopim dessa nova onda?
CV: Faria um balanço muito positivo. Por um lado, esta intensa mobilização nos impediu de avançarmos em alguns aspectos do nosso programa interno. Mas, os avanços que tivemos com a Fech são qualitativamente muito superiores ao ano anterior. Retomamos um papel importante para que os estudantes – e nossa Federação – voltassem a ser novamente atores políticos de importância nacional, cujas opiniões têm um impacto real nos debates históricos sobre a sociedade. Desta forma, temos reavaliado o valor da organização dentro de nossa própria universidade, transcendendo as barreiras estudantis e nos permitindo avançar e nos envolver ativamente nos debates. É preciso deixar para trás a ideia de que a política pertence a poucos, e se aproximar rapidamente de um cenário mais democrático a partir do qual poderemos construir e defender propostas pelas transformações que o Chile precisa.

UNE: A principal bandeira de luta é a educação de qualidade e gratuita para os jovens, certo? Como você enxerga o cenário ideal, levando em consideração a realidade de hoje no Chile?
CV: É claro que a educação gratuita é uma ideia política que queremos instalar, mas sabemos que não será uma realidade em curto prazo. Antes de tal transformação, é necessário promover uma reforma tributária que impeça que a diferença socioeconômica entre ricos e pobres, que há hoje no Chile. No entanto, lutamos contra um modelo essencialmente neoliberal, que vê a educação como um bem de mercado – como diz o próprio presidente do Chile – e não como um direito, visão intransigentemente defendida pela direita que chegou ao governo através de [Sebastian] Piñera. Esperamos mudar as raízes de um modelo educacional que nos mantém no subdesenvolvimento.

UNE: Neste momento, como estão as negociações com o governo, e quais são as principais conquistas do movimento?
CV: Este governo tem se mostrado intransigente na hora de negociar sobre o modelo educacional que instalaram desde a ditadura militar. Não é só isso, tem se demonstrado disposto a levantar a face mais repressiva, não ouvindo as demandas legitimas e respaldadas por um movimento que as próprias pesquisas mostram ter uma aprovação superior a 80%. Até agora uma das grandes conquistas do movimento tem sido consolidar uma aprovação transversal e unificada na sociedade. Agora, depois de muitas pressões da nossa parte, estamos próximos de sentar à mesa e enfrentar cara a cara um diálogo com o presidente. Esperamos que neste espaço possamos avançar em questões concretas sobre nossas reivindicações. E que não voltem a faltar com respeito ao movimento, com uma soma de dinheiro cheia de ambiguidades, que não nos garante nenhum dos princípios que já defendemos nas ruas há três meses. 

UNE: Há quanto tempo a Universidade não é mais gratuita no Chile? Explique melhor a questão do endividamento dos alunos.
CV: Desde a ditadura militar, que foi quando mudou o modelo educacional no Chile. O Estado deixou de ser responsável pela educação em todos os níveis e tem um papel meramente subsidiário, deixando o trabalho para o ensino privado, a quem também é concedido o direito de lucrar o dinheiro de todos os chilenos, sob o pretexto de garantir a "liberdade de ensino". Como hoje a educação não é concebida como direito, mas sim como um bem de consumo, para obtê-la é preciso pagar. E como as universidades públicas não recebem aportes do Estado para a altura dos seus orçamentos, elas têm sido forçadas a se envolver em auto-financiamento, o que significa em palavras simples, que o seu faturamento vem principalmente das taxas pagas pelas famílias. Neste contexto, as quantias necessárias para que as universidades possam realizar seu trabalho é muito mais alta em comparação aos rendimentos recebidos por famílias chilenas. Por isso hoje, basicamente, quem quer estudar tem que se endividar, porque somente uma pequena porcentagem da sociedade tem condições de pagar altos preços pelos estudos.

UNE: Quais são as outras questões do debate? Dentro do movimento estudantil estas questões já ultrapassaram a questão educacional?
CV: Um movimento social desta magnitude exige ao governo e ao parlamento governar de acordo com as demandas que estão se defendendo nas ruas. Pode-se notar que a democracia no Chile não dá a possibilidade de se fazer uma sociedade verdadeiramente participativa. Desta maneira, surgem automaticamente demandas por mais democracia e reformas constitucionais relevantes para atingir esse objetivo, por exemplo, que nos permitam deliberar como nação por meio de um plebiscito vinculativo. Lembramos que a Constituição chilena foi feita durante a ditadura e sem o apoio da nação. Uma situação terrível para um país que se diz passar vinte anos vivendo em uma democracia.

UNE: Ocorreu no começo de agosto, no Uruguai, o 16 º CLAE, com a participação de milhares de estudantes de todo o Continente. Qual a sua opinião sobre um intercâmbio político mais eficaz entre os estudantes da América Latina?
CV: Entendo que é absolutamente necessário. Os estudantes são atores políticos presentes na América Latina. Por isso, é claro que a nossa política deve convergir no mesmo sentido de que os diferentes países deveriam se alinhar em torno de demandas que, evidentemente, nos convocam por igual, dada as semelhanças de uma região em subdesenvolvimento, produto do capitalismo e da opressão que os EUA geram sobre nós até hoje. Instâncias como OCLAE devem ser muito mais presentes, tanto para estudantes como para todos os tipos de organizações latino-americanas. 

UNE: A UNE convidou você para a “Marcha dos Estudantes” brasileiros, que irá encerrar o "Agosto Verde e Amarelo", série de manifestações que defendem que 10% do PIB e 50% do fundo social do Pré-sal do Brasil sejam destinados para a educação. Vocês estão defendendo no Chile algo parecido com isso em relação ao cobre, não é?
CV: De fato, há semelhanças nas reivindicações. O Chile é um país muito rico em recursos naturais, o que não condiz com os baixos níveis de habitação, saúde e educação, entre outros. Isso se deve, principalmente, à privatização dos recursos naturais, e a enorme condescendência que se tem este setor. Trata-se de compensação tributária. Quando exigimos um aumento substancial dos recursos públicos na educação, nos perguntam frequentemente “e onde obteremos esses recursos?” Do cobre, respondemos. Da nacionalização de nossos recursos naturais.

UNE: Sabemos que estuda Geografia. Em que período da formação você está? Você consegue conciliar os estudos e a militância?
CV: Já sou graduada em Geografia e sem dúvida ser presidente da Fech significou um custo acadêmico que, desde a minha nomeação para o cargo, estive disposta a assumir. O trabalho político exige bastante tempo e dedicação, mas não inviabiliza o trabalho acadêmico na medida em que você se organiza. No entanto, a militância é algo que vai muito além do meu tempo na universidade, é um compromisso para a vida, que sempre significará sacrifícios de toda espécie. Obviamente, nem todo mundo está disposto a assumir isso, mas de minha perspectiva comunista, creio que não só vale a pena, como é imprescindível na luta por um país mais justo.

UNE: Após os primeiros protestos, a mídia manifestou com mais frequência ou com maior ênfase, a questão da sua beleza física, em detrimento de suas qualidades e habilidades intelectuais. Isso te incomoda?
CV: Esses tipos de ataques vieram principalmente dos setores de direita, que têm o domínio da grande maioria dos meios de comunicação e, em minha opinião, representam uma estratégia bastante covarde, baixa e, sobretudo, fracassada, para desacreditar um movimento que hoje está mais forte do que nunca. Me parece que ainda há meios essencialmente machistas e misóginos que tentam fazer disto um tema. O movimento, a sociedade e o Chile têm sido capazes de avançar, valorizando muito mais a clareza de conteúdo e a transversalidade do apoio, do que aquilo que eles chamam de "um rostinho bonito". Como disse, parece-me um despropósito argumentar que, com os níveis de organização, solidez e transversalidade do debate sobre educação e democratização no Chile, a aparência física ainda seja assunto.


Fonte: UNE 

Alain Badiou: "O comunismo é a ideia da emancipação de toda humanidade"


Do Blog do André Lux


O filósofo francês Alain Badiou é um homem que não teme riscos: 
nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter
 sido queimado pela história: o comunismo. Em entrevista à Carta
 Maior, Badiou fala da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista”.
 Segundo ele, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária
 do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado em um mundo 
onde tudo passou a ter um valor mercantil. Pensador crítico da 
modernidade, Badiou define o processo político atual como uma
“guerra das democracias contra os pobres”.

- por Eduardo Febbro, Direto de Paris
Paris - Alain Badiou não tem fronteiras. Este filósofo original é o pensador francês mais conhecido fora de seu país e autor de uma obra extensa e sem concessões. Filosofia, matemática, política, literatura e até o amor circulam em seu catálogo de produções e reflexões. Sua obra, de caráter multidisciplinar, traz uma crítica férrea ao que Alain Badiou chama de “materialismo democrático”, ou seja, um sistema humano onde tudo tem um valor mercantil.

Este filósofo insubmisso é também um homem de riscos: nunca renunciou a
defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história:
 o comunismo. Em sua pena, Badiou fala mais da “ideia comunista” ou da
“hipótese comunista” do que do sistema comunista em si. Segundo o filósofo
francês, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser
humano e da sociedade, merece ser resgatado.

Defensor incondicional de Marx e da ideia de uma internacionalização positiva
 da revolta, o horizonte de sua filosofia é polifônico: seus componente não são
 a exposição de um sistema fechado, mas sim um sistema metafísico exigente
 que inclui as teorias matemáticas modernas – Gödel – e quatro dimensões da
existência: o amor, a arte, a política e a ciência. Pensador crítico da modernidade
 numérica, Badiou definiu os processos políticos atuais como uma “guerra das
 democracias contra os pobres”.

O filósofo francês é um teórico dos processos de ruptura e não um mero panfletário.

Ele convoca com método a repensar o mundo, a redefinir o papel do Estado, traça
 os limites da “perfeição democrática”, reinterpreta a ideia de República, reatualiza
as formas possíveis e não aceitas de oposição e coloca no centro da evolução
social a relegitimação das lutas sociais.

Alain Badiou propõe um princípio de ação sem o qual, sugere, nenhuma vida tem
sentido: a ideia. Sem ela toda existência é vazia. Com mais de 70 anos, Badiou
introduziu em sua reflexão o tema do amor em um livro brilhante e comovedor,
no qual o autor de “O ser e o acontecimento” define o amor como uma categoria
da verdade e o sentimento amoroso como o pacto mais elevado que os indivíduos
 podem firmar para viver. Sua lucidez analítica o conduz inclusive a dizer que o
amor, porque grátis e total, está ameaçado pelo mundo contemporâneo.

Revoluções árabes, movimento dos indignados, mobilização crescente dos 


grupos que estão contra a globalização, a luta ou a oposição contra as 
modalidades do sistema atual se multiplicaram e sofisticaram. Analisando 
o que ocorreu, o que você diria hoje a todos esses rebeldes do mundo para 



Eu diria a eles que, para mim, mais importante que a consigna da anti-globalização,
a qual parece sugerir que, por meio de várias medidas, pode-se re-humanizar a s
ituação, incluindo a re-humanização do capitalismo, é a globalização da vontade popular. Globalização quer dizer vigor internacional. Mas essa globalização internacional
necessita de uma ideia positiva para uni-la e não só a ideia crítica ou a combinação
de desacordos e protestos. Trata-se de um ponto muito importante. Passar da
revolta à ideia é passar da negação á afirmação. Somente no plano afirmativo
poderemos nos unir de forma duradoura.

Um dos princípios de sua filosofia consiste em dizer que uma vida que não 
está regida pelo signo da ideia não é uma vida verdadeira. Agora, como 
defender hoje essa ideia sob a ameaça do hiper-consumo, das falsidades
 e injustiças da democracia parlamentar e em um mundo onde nossa relação
 com o outro passa pela relação com o objeto e não com as ideias ou com os
 indivíduos? No mundo contemporâneo, a ideia é o produto e não a relação 
humana.

A verdadeira vida é uma vida que aceita estar sob o signo da ideia. Dito de outro
modo, uma vida que aceita ser outra coisa do que uma vida animal. Alguns dirão
que há valores transcendentes, religiosos, e que é preciso submeter o animal;
outros dirão, ao contrário, que devemos nos libertar desses valores transcendentes,
que Deus está morto, que viva os apetites selvagens. Mas, entre ambas, há
uma solução intermediária, dialética, que consiste em dizer que, na vida, através
de encontros e metamorfoses, pode haver um trajeto que nos liga à universalidade.
 Isso é o que eu chamo “uma vida verdadeira”, ou seja, uma vida que encontrou ao
menos algumas verdades.

Chamo "ideia" esse intermediário entre as verdades universais, digamos eternas
 para provocar um pouco os contemporâneos, e o indivíduo. Que é então uma
vida sob o signo da ideia em um mundo como este? Faz falta uma distância com
 a circulação geral. Mas essa distância não pode ser criada só com a vontade,
faz falta algo que nos ocorra, um acontecimento que nos leve a tomar posição
frente ao que se passou. Pode ser um amor, um levante político, uma decepção,
 enfim, muitas coisas. Aí se põe em jogo a vontade para criar um mundo novo
que não estará baseado na ordem do mundo tal como é, com sua lei de circulação
mercantil, mas sim em um elemento novo de minha experiência.

O mundo moderno se caracteriza pela soberania das opiniões. E a opinião é algo
contrário à ideia. A opinião não pretende ser universal, é minha opinião e vale
tanto quanto a opinião de qualquer outra pessoa. A opinião se relaciona com a
distribuição de objetos e a satisfação pessoal. Há um mercado das opiniões assim
 como há um mercado das ações financeiras. Há momentos em que uma opinião
 vale mais do que outra; mais tarde essa opinião quebra como um país. Estamos
no regime geral do comércio da comunicação no qual a ideia não existe. Inclusive
se suspeita da ideia e se dirá que ela é opressiva, totalitária, que se trata de uma
 alienação. E por que isso ocorre? Simplesmente porque a ideia é grátis. Ao
contrário da opinião, a ideia não entra em nenhum mercado. Se defendemos
nossa convicção, o fazemos com a ideia de que é universal. Essa ideia é, então,
uma proposta compartilhada, não se pode colocá-la à venda no mercado. Mas
como tudo o que é grátis, a ideia está sob suspeita.

Pergunta-se: qual é o valor do que é grátis? Justamente, o valor do grátis é que
não tem valor no sentido das trocas. Seu valor é intrínseco. E como não se pode
 distinguir a ideia do preço do objeto a única existência da ideia está em um tipo
de fidelidade existencial e vital para a ideia. A melhor metáfora para isso é
encontrada no amor. Se queremos profundamente a alguém, esse amor não tem
preço. É preciso aceitar os sofrimentos, as dificuldades, o fato de que sempre há
uma tensão entre o que desejamos imediatamente e a resposta do outro. É
preciso atravessar tudo isso.

Quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a
continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar
 na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar
profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo. Esse é o principal problema da vida contemporânea. Estabeleceu-se
 um regime de existência no qual tudo deve ser transformado em produto, em
mercadoria, inclusive os textos, as ideias, os pensamentos. Marx havia antecipado
isso muito bem: tudo pode ser medido segundo seu valor monetário.

Você é um dos poucos filósofos que defende o que você mesmo chama 
“a ideia comunista”. Como é possível defender a ideia comunista quando
 seu conteúdo histórico foi desastroso.

Penso que o conteúdo histórico das ideias sempre pode ser declarado desastroso.
Os democratas nos falam da democracia, mas se olhamos de perto a história das
 democracias, ela está cheia de desastres. Para tomar o exemplo mais elementar,
 se tomamos a Primeira Guerra Mundial, ela foi lançada por democratas,
democratas alemães, ingleses e franceses. Foi um massacre inimaginável,
o qual já se demonstrou esteve ligado a apetites financeiros nas colônias africanas,
 apetites que não diziam respeito aqueles que seriam massacrados mais tarde.
Houve milhões de mortos e de sacrificados em condições espantosas e, aceite-se
ou não, isso é parte da história das democracias. Se interrogamos o conjunto das
 experiências históricas veremos que todo o mundo tem sangue até as orelhas.

No que se refere à palavra “comunista” em si, da mesma maneira que ocorre com
 a palavra “democracia”, sempre se pode argumentar que ambas tem sangue
 até as orelhas. Mas, por acaso, é preciso sempre inventar outra palavra?
Tomemos, por exemplo, o cristianismo. O cristianismo é São Francisco de Assis,
 a santidade verdadeira, o advento da ideia de uma verdadeira generosidade para
 com os pobres, a caridade, etc.,etc. Mas, do outro lado, também é a inquisição,
o terror, a tortura e o suplício. Por acaso vamos dizer que é um crime alguém
 se chamar de cristão? Ninguém diz isso. Eu defendo uma espécie de absolvição
 dos vocábulos. Eles têm o sentido dado pela sequência histórica da qual falamos.

De fato, o comunismo conheceu duas sequências histórias. A sequência histórica
 do século XIX, quando a palavra foi inventada e propagada para designar uma
esperança histórica humana fundamental, a esperança da igualdade, da
emancipação das classes oprimidas, de uma organização social igualitária e coletiva.
Depois há outra sequência muito diferente onde se experimentou o comunismo,
ou seja, se construiu uma forma de poder particular que buscou coletivizar a
indústria e essas coisas, mas que, no final, se tornou uma forma de Estado despótico.

Eu proponho que não se sacrifique a palavra “comunismo” por causa desta segunda
 sequência, mas sim que ela seja resgatada com base na primeira sequência,
possibilitando assim a abertura de uma terceira sequência.

Nesta terceira sequência, a palavra “comunismo” significaria o que sempre
significou: a ideia de uma organização social totalmente distinta da que
conhecemos e que já sabemos que está dominada por uma oligarquia financeira
 e econômica absolutamente feroz e indiferente aos interesses gerais da
humanidade. Eu proponho então voltar ao comunismo sob a forma da ideia
comunista: a ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade,
 é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando
diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade
 entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da
segregação e também é a ideia do fim das fronteiras.

Não esqueçamos que as fronteiras são uma grande característica do mundo
 contemporâneo. O comunismo é tudo isso. Se alguém inventar uma palavra
formidável para designar tudo isso, que não seja a palavra comunismo, eu aceito.
Mas a história da política não é a história das palavras, mas sim a história dos
novos significados que podem ter as palavras. Em geral se opõe a palavra
 “democracia” à palavra “comunismo”. Eu digo que uma palavra não é mais
 inocente do que a outra. Não lutemos pela inocência das palavras.
Discutamos sobre o que significam e o que significa aquilo que eu digo.

Agora chegamos a Marx, ou melhor dizendo, aos dois Marx: o Marx 
marxista e o Marx de antes do marxismo. Qual dos dois você reivindica?

Marx e marxismo têm significados muito distintos. Marx pode significar a
tentativa de uma análise científica da história humana com base nos conceitos
 fundamentais de classe e de luta de classe, e também a ideia de que a base
das diferentes formas que a organização da humanidade adquiriu no curso da
história é a organização da economia. Nesta parte da obra de Marx há coisas
muito interessantes como, por exemplo, a crítica da economia política. Mas
também há outro Marx que é um Marx filósofo, que vem depois de Engels e que
 tenta mostrar que a lei das coisas deve ser buscada nas contradições principais
que podem ser percebidas dentro das coisas. É o pensamento dialético, o
materialismo dialético. No concreto, há uma base material de todo pensamento
 e este se desenvolve através de sistemas de contradição, de negação.
Este é o segundo Marx. Mas também há um terceiro Marx que é o militante
 político. É um Marx que, em nome da ideia comunista, indica o que fazer:
é o Marx fundador da Primeira Internacional, é o Marx que escreve textos
 admiráveis sobre a Comuna de Paris ou sobre a luta de classes na França.

Há pelo menos três Marx e o que mais me interessa, reconhecendo o mérito
imenso de todos eles, é o Marx que tenta ligar a ideia comunista em sua pureza
 ideológica e filosófica às circunstâncias concretas. É o Marx que se pergunta
pelo caminho para organizar as pessoas politicamente na direção da ideia
 comunista. Há ideias fundamentais que foram experimentadas e que ainda
 permanecem e, em cujo centro, encontramos a convicção segundo a qual
nada ocorrerá enquanto uma fração significativa dos intelectuais não aceite
 estar organicamente ligada às grandes massas populares. Esse ponto está
totalmente ausente hoje em várias regiões do mundo. Em maio de 68 e nos
anos 70, este ponto foi abandonado. Hoje pagamos o preço desse abandono
que significou a vitória completa e provisória do capitalismo mais brutal.

A vida concreta de Marx e Engels consistiu em participar nas manifestações na Alemanha e em tentar criar uma Internacional. E o que era a Internacional? A aliança dos intelectuais com os operários. É sempre por aí que se começa. Eu chamo então a que comecemos de novo: por um lado com a ideia comunista e, por outro, com um processo de organização sob esta ideia que, evidentemente, levará em conta o conjunto do balanço histórico, mas que, em certo sentido, terá que começar de novo.

Caído, derrotado no abismo ou simplesmente ferido? Na sua avaliação, em que fase se encontra o capitalismo: em seu ocaso, como acreditam alguns, ou somente vivendo um recesso devido a suas enormes contradições internas?

O capitalismo é um sistema de roubo planetário exacerbado. Pode-se dizer que o capitalismo é uma ordem democrática e pacífica, mas é um regime de depredadores, é um regime de banditismo universal. E digo banditismo de maneira objetiva: chamo bandido a qualquer um que considere que a única lei de sua atividade é seu próprio proveito. Mas um sistema como este que, por um lado, tem a capacidade de se estender e, por outro, de deslocar seu centro de gravidade é um sistema que está longe de estar moribundo.

Não é o caso de acreditar que, pelo fato de estarmos em uma crise sistêmica, nos encontramos à beira do colapso do capitalismo mundializado. Acreditar nisso seria ver as coisas através da pequena janela da Europa. Creio que há dois fenômenos que estão entrelaçados. O primeiro é a derrocada da segunda etapa da experiência comunista, a falência dos Estados socialistas. Essa falência abriu uma enorme brecha para o outro termo da contradição planetária que é o capitalismo mundializado. Mas também abriu novos espaços de tensões materiais. O desenvolvimento capitalista de países do porte da China e da Índia, assim como a recapitalização da ex-União Soviética tem o mesmo papel que o colonialismo no século XIX. Abriu espaços gigantes de manobra, de clientela de novos mercados.

Estamos vivendo agora esse fenômeno: a mundialização do capitalismo que se fez potente e se multiplicou pelo enfraquecimento de seu adversário histórico do período precedente. Esse fenômeno faz com que, pela primeira vez na história da humanidade, se possa falar realmente de um mercado mundial. Esse é um primeiro fenômeno. O segundo é o deslocamento do centro de gravidade. Estou convencido de que as antigas figuras imperiais, a velha Europa, por exemplo, a qual apesar de sua arrogância tem uma quantidade considerável de crimes que ainda aguardam perdão, e os Estados Unidos, apesar do fato de ainda ocupar um lugar muito importante, são na verdade entidades capitalistas progressivamente decadentes e até um pouco crepusculares. Na Ásia, na América Latina, com a dinâmica brasileira, e inclusive em algumas regiões do Oriente Médio, vemos aparecer novas potências. O sistema da expansão capitalista chegou a uma escala mundial, mas o sistema das contradições internas do capitalismo modifica sua geopolítica. As crises sistêmicas do capitalismo – hoje estamos em uma grave crise sistêmica – não têm o mesmo impacto segundo a região. Temos assim um sistema expansivo com dificuldades internas.

Mas esses novos polos se desenvolvem segundo o mesmo modelo.

Sim, e não creio que esses novos polos introduzam uma diferenciação qualitativa. É um deslocamento interno ao sistema que dá a ele margem de manobra.

Há duas versões de um de seus livros mais importantes: trata-se do Manifesto para a Filosofia. O primeiro Manifesto foi publicado há vinte anos, o segundo há dois. Se levamos em conta as revoluções árabes e as crises do sistema financeiro internacional, o que mudou fundamentalmente no mundo e no ser humano entre os dois manifestos?

O que mudou mais profundamente é a divisão subjetiva. As escolhas fundamentais às quais estiveram confrontados os indivíduos durante o primeiro período estavam ainda dominadas pela ideia da alternativa entre orientação revolucionária e democracia e economia de mercado. Dito de outro modo, estávamos na constituição do debate entre totalitarismo e democracia. Isso exige dizer quer todo o mundo estava sob o influxo do balanço da experiência histórica do século XX. O primeiro Manifesto foi publicado em 1989, quase ao final do século XX. Em escala mundial, esta discussão, que adquiriu formas distintas segundo os lugares, se focalizou em qual poderia ser o balanço deste século XX. Por acaso, temos que condenar definitivamente as experiências revolucionárias? É preciso abandoná-las porque foram despóticas, violentas? Neste sentido, a pergunta era: devemos ou não nos unir à corrente democrática e entrar na aceitação do capitalismo como um mal menor?

A eficácia do sistema não consistiu em dizer que o capitalismo era magnífico, mas sim que era o mal menor. Na verdade, tirando um punhado de pessoas ninguém pensa que o capitalismo é magnífico. Mas o que se disse nesse período foi que a alternativa era desastrosa. Há 20 anos estávamos neste contexto, ou seja, a reativação da filosofia inspirada pela moral de Kant. Ou seja, não é o caso de ter grandes ideias de transformação política voluntaristas porque isso conduz ao terror e ao crime, mas sim velar por uma democracia pacificada dentro da qual os direitos humanos estarão protegidos. Hoje esta discussão está terminada e está terminada porque todo mundo vê que o preço pago por essa democracia pacificada é muito elevado. Todo mundo toma consciência que se trata de um mundo violento, com outras violências, que a guerra segue rondando todo o tempo, que as catástrofes ecológicas e econômicas estão na ordem do dia e que, além disso, ninguém sabe para onde vamos.

Podemos imaginar que esta ferocidade da concorrência e esta constante submissão à economia de mercado durem ainda vários séculos? Todo mundo sente que não, que se trata de um sistema patrológico. Foi revelado que este sistema, que nos foi apresentado como um sistema moderado, sem dúvida em nada formidável, mas melhor que todos os demais, é um sistema patológico e extremamente perigoso. Essa é a novidade. Não podemos mais ter confiança no futuro desta visão das coisas. Estamos em uma fase de transição e incerteza. Introduziu-se a hipótese de uma espécie de humanismo renovado que poderíamos chamar de humanismo de mercado, o mercado, mas humano. Creio que essa figura, que segue vigente graças aos políticos e aos meios de comunicação, está morta. É como a União Soviética: estava morta antes de morrer. Creio que, em condições diferentes e em um universo de guerra, de catástrofes, de competição e de crise, esta ideia do capitalismo com rosto humano e da democracia moderada está morta. Agora será preciso não mais escolher entre duas visões constituídas, mas sim inventar uma.

Dessa ambivalência provém talvez a sensação de que as jovens gerações estão perdidas, sem confiança em nada?

Isso é o que sinto na juventude de hoje. Sinto que a juventude está completamente imersa no mundo tal como é, não tem ideia de outra alternativa, mas, ao mesmo tempo, está perdendo confiança neste mundo, está vendo que, na verdade, este mundo não tem futuro, carece de toda significação para o futuro. Creio que estamos em um período onde as propostas de ideias novas estão na ordem do dia, mesmo que uma boa parte da opinião não saiba disso. E não sabe porque ainda não chegamos ao final deste esgotamento interno da promessa democrática. É o que eu chamo de período intervalo: sabemos que as velhas escolhas estão acabadas, mas não sabemos ainda muito bem quais são as novas escolhas.

Vários filósofos apontam o fato de que os valores capitalistas destruíram a dimensão humana. Você acredita, ao contrário, que ainda persiste uma potência altruísta no ser humano.

Devemos olhar o que ocorreu nas manifestações dos países árabes. Nunca acreditei que essas manifestações iam inventar um novo mundo de um dia para o outro, nem pensei que essas revoltas apresentavam soluções novas para os problemas planetários. Mas o que me assombrou foi a reaparição da generosidade do movimento de passa, quer dizer, a possibilidade de agir, de sair, de protestar, de pronunciar-se independentemente do limite dos interesses imediatos e fazê-lo junto a pessoas que, sabemos, não compartilham nossos interesses. Aí encontramos a generosidade da ação, a generosidade do movimento de massa, temos a prova de que esse movimento ainda é capaz de reaparecer e reconstituir-se. Com todos os seus limites, também temos um exemplo semelhante com o movimento dos indignados.

O que fica evidente em tudo isso é que estão aí em nome de uma série de princípios, de ideias, de representações. Esse processo, obviamente, será longo. O movimento da primavera árabe me parece mais interessante que o dos indignados porque tem objetivos precisos, ou seja, a desaparição de um regime autocrático e o tema fundamental que é o horror diante da corrupção. A luta contra a corrupção é um problema capital do mundo contemporâneo. Nos indignados vimos a nostalgia do velho Estado providência. Mas volto a reiterar que o interessante em tudo isso é a capacidade de fazer algo em nome de uma ideia, mesmo que essa ideia tenha acentos nostálgicos. O que me interessa saber é se ainda temos a capacidade histórica de agir no regime da ideia e não simplesmente segundo o regime da concorrência ou da conservação. Isso para mim é fundamental. A reaparição de uma subjetividade dissidente, seja quais forem suas formas e suas referências, isso me parece muito importante.

Você publicou um livro sobre o amor, que é de uma sabedoria comovedora. Para um filósofo comprometido com a ação política e cujo pensamento integra as matemáticas, a aparição do tema do amor é pouco comum.

O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. No amor, o fundamental está em que nos aproximamos do outro com a condição de aceita-lo em minha existência de forma completa, inteira. Isso é o que diferencia o amor do interesse sexual. Este se fixa sobre o que os psicanalistas chamaram de “objetos parciais”, ou seja, eu extraio do outro alguns emblemas fetiches que me interessam e que suscitam minha excitação desejante. Não nego a sexualidade, pelo contrário. Ela é um componente do amor. Mas o amor não é isso. O amor é quando estou em estado de amar, de estar satisfeito e de sofrer e de esperar tudo o que vem do outro: a maneira como viaja, sua ausência, sua chegada, sua presença, o calor de seu corpo, minhas conversas com ele, os gostos compartilhados. Pouco a pouco, a totalidade do que o outro é torna-se um componente de minha própria existência. Isso é muito mais radical que a vaga ideia de preocupar-me com o outro. É o outro com a totalidade infinita que representa e com o qual me relaciono em um movimento subjetivo extraordinariamente profundo.

Em que sentido o amor está ameaçado pelos valores contemporâneos?

Está ameaçado porque o amor é gratuito e, desde o ponto de vista do materialismo democrático, injustificado. Por que deveria me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro? O melhor seria extrair dele o que melhor corresponde aos meus interesses imediatos e aos meus gostos e descartar o resto. O amor está ameaçado hoje porque é distribuído em fatias. Observemos como se organizam as relações nestes portais de internet onde as pessoas entram em contato: o outro já vem fatiado em fatias, um pouco como a vaca nos açougues. Seus gostos, seus interesses, a cor dos olhos, o corte dos cabelos, se é grande ou pequeno, loiro ou moreno. Vamos ter uns 40 critérios e, ao final, vamos nos dizer: vou comprar este. É exatamente o contrário do amor. O amor é justamente quando, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que estou comprando.

E frente a essa modalidade competitiva das relações, você proclama que o amor deve ser reinventado para nos defendermos, que o amor deve reafirmar seu valor de ruptura e de loucura.

O amor deve reafirmar o fato de que está em ruptura com o conjunto das leis ordinárias do mundo contemporâneo. O amor deve ser reinventado como valor universal, como relação em direção da alteridade, daquilo que não sou eu e onde a generosidade é obrigatória. Se não aceito a generosidade, tampouco aceito o amor. Há uma generosidade amorosa que é inevitável. Sou obrigado a ir na direção do outro para que a aceitação do outro em sua totalidade possa funcionar. Essa é uma excelente escola para romper com o mundo tal como é. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvageria; uma vez que, em sua intimidade mais poderosa, o amor exige uma espécie de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que este outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que tudo descrito acima é possível isso prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo.

A política não está muito afastada de tudo isso. Para você, há uma dimensão do amor na ação política?

Sim, inclusive pode resultar perigoso. Se buscamos uma analogia política do amor eu diria que, assim como no amor onde a relação com uma pessoa tem que constituir sua totalidade existencial como um componente de minha própria existência, na política autêntica é preciso que haja uma representação inteira da humanidade. Na política verdadeira, que também é um componente da vida verdadeira, há necessariamente essa preocupação, essa convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente de toda a humanidade. Do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua totalidade.

O que pode fazer um casal jovem e enamorado neste mundo violento, competitivo, onde o projeto do casal já está ameaçado pela própria dinâmica do consumo e da competição?

Creio que o projeto de um casal pode ser uma rama se não se dissolve, se não se metamorfoseia em um projeto que acabe se transformando, no fundo, na acumulação de interesses particulares. Na situação de crise e de desorientação atual o mais importante é segurar as mãos no timão da experiência pela qual estamos passando, seja no amor, na arte, na organização coletiva, no combate político. Hoje, o mais importante é a fidelidade: em um ponto, ainda que seja em apenas um, é preciso não ceder. E para não ceder devemos ser fieis ao que ocorreu, ao acontecimento. No amor, é preciso ser fiel ao encontro com o outro porque vamos criar um mundo a partir desse encontro. Claro, o mundo exerce uma pressão contrária e nos diz: “cuidado, defenda-se, não deixe que o outro abuse de ti”. Com isso está dizendo: “voltem ao comércio ordinário”.

Então, como essa pressão é muito forte, o fato de manter o timão no rumo certo, de manter vivo um elemento de exceção, já é extraordinário. É preciso lutar para conservar o excepcional que ocorre em nossas vidas. Depois veremos. Dessa forma salvaremos a ideia e saberemos o que é exatamente a felicidade. Não sou um asceta, não sou a favor do sacrifício. Estou convencido de que se conseguimos organizar uma reunião com trabalhadores e colocamos em marcha uma dinâmica, se conseguimos superar uma dificuldade no amor e nos reencontramos com a pessoa que amamos, se fazemos uma descoberta científica, então começamos a compreender o que é a felicidade. A felicidade é uma ideia fundamental. A construção amorosa é a aceitação conjunta de um sistema de riscos e de invenções.

Você também introduz uma ideia peculiar e maravilhosa: devemos fazer tudo para preservar o que nos ocorre de excepcional.

Aí está o sentido completo da vida verdadeira. Uma vida verdadeira se configura quando aceitamos os presentes perigosos que a vida nos oferece. A existência nos traz riscos, mas, na maioria das vezes, estamos mais espantados que felizes por esses presentes. Creio que aceitar isso que nos ocorre e que parece raro, estranho, imprevisível, excepcional, que seja o encontro com uma mulher ou o maio de 68, aceitar isso e suas consequências, isso é a vida, a verdadeira vida.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
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