Vou dividir esta crónica em duas partes: o que sei e o que leio, vejo e ouço.

  1. 1.    O que sei.

Gosto de polvo. Salada de polvo, arroz de polvo, polvo cozido com coentros e cebola, polvo guizado, filetes de polvo com arroz de feijão, polvo à lagareiro (peço desculpa mas já me está a crescer água na boca). Venha polvo, desde que esteja fresco, marcha. Vivo numa cidade adoptiva e adoptada que felizmente sabe fazer honras ao polvo  (ao polvo, ao choco e ao peixe assado no carvão, mas isso ficará para outras calendas).

  1. 2.    O que leio, vejo e ouço
Das novas apresentadas, sei que um sem-abrigo dessa bela cidade do Porto, foi condenado a pagar 250€ de multa ou a fazer trabalho cívico ou a ir parar à prisão por ter roubado um polvo congelado e uma embalagem de shampô.
Estranha combinação essa de shampô e polvo. Seria um shampô amaciador? Todos sabemos que o polvo é rijo: não se deve primeiro congelar antes de cozinhar como é tradição? A ser assim tem  lógica ter furtado um shampô inteiro já que o polvo, para além da carola tem oito tentáculos e pode ser volumoso, portanto não chegava ter posto um pouco de shampô na mão, acção que talvez lhe reduzisse a pena para metade, mais o equivalente aos mililitros de shampô que a mão transportaria, que no entanto, seriam insuficientes para amaciar o polvo.
Aqui penso que o sem-abrigo pode ter cometido um erro por falta de conhecimentos culinários. Se era para lavar o polvo deveria ter subtraido um frasco de vinagre, já que este extrai facilmente aquela “nhanha” pegajosa que o polvo transporta e que devido à diferença de preço em relação ao shampô lhe poderia reduzir substancialmente a pena, digamos para 195€, mais de 20% de abatimento, o que para os tempos que correm, mesmo para quem não tem dinheiro … é dinheiro.
Quais seriam as suas motivações? Quereria ganhar um pouco de dinheiro com o shampô e comer o polvo? Mas então porque não roubou também os coentros, a cebola, as batatas, a água, o sal e a panela de pressão? Quereria vender o polvo para poder ganhar uns cêntimos para ter água quente para poder lavar o cabelo? Pensando bem, a quantidade de motivações possíveis para o acto cometido por esse sem-abrigo quase que igualam as possibilidades de combinações existentes para ganhar o totoloto.
Pelo que li, o autor deste tenebroso crime foi condenado a pagar 250€ de multa a uma qualquer superfície comercial que talvez até pague impostos noutro país ou a fazer trabalho comunitário ou a ir parar à prisão onde, bem vistas as coisas, pode talvez comer uma refeição de polvo, tomar banho regularmente, lavar os cabelos e até perfumar-se, quem sabe?
Mas -  porque é que existe sempre um mas nas histórias que envolvem a justiça em Portugal, a acreditar nos meios de comunicação social –  o sem- abrigo não foi localizado para poder pagar por esse horrendo crime que penalizou profundamente a um ponto nunca visto a sociedade portuguesa em geral e a cidade do Porto em particular.
Se não fosse a desgraça do(s) sem abrigo(s) poderiamos dizer que perante esta decisão da justiça estávamos em face de uma situação cómica, mas que, à boa maneira grega, é trágica.
Afinal nada de novo no extremo sudoeste da Europa se pensarmos que outros polvos de águas mais profundas e que, esses sim, causam danos graves à sociedade, continuam impunes mesmo depois de serem condenados.
Esses, graças aos inúmeros 250€  que podem dispôr para levar a justiça a prolongar-se no tempo de forma a caducar os processos em que estão envolvidos, sabedores dos expedientes  processuais para poderem escapar ilesos mas não inocentes, apenas nos fazem crer a nós, cidadãos comuns, que os tribunais não existem para averiguar a verdade mas sim para condenarem quem estão à vontade para condenar e absolverem, nem que seja pela prescrição dos processos, quem sabem que devem absolver.
Praça do Bocage