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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

EM ROTA DE DESPEDIDA COM UM POEMA DE FERNANDO PESSOA




3 quadras populares algarvias


Do céu caíu um suspiro
No ar se desfarinhou;
Quem neste mundo não ama
No outro não se salvou.

Se fores no domingo à missa
Põe-te em lugar que te veja,
Não faças andar meus olhos
Em leilão pela igreja.

Lindos olhos tem a cobra
Quando olha de repente;
Mais vale um bom desengano
Que andar enganado sempre.



Até bater na rocha, não há crise

«Se soubessem que corriam risco de vida, os passageiros do Concordia teriam seguramente tentado impedir a decisão do comandante de aproximar demasiado o barco da costa para saudar os nativos.

Entre líderes europeus isso não seria garantido. Com uma recessão à porta na zona euro, os ‘ratings' em queda, um ano carregado de emissões soberanas que são roletas russas para muitas economias, com os credores a manter a Grécia à beira do ‘default' e a porem Portugal no caminho de um segundo resgate, era difícil pensar num ‘timing' mais absurdo para a UE embarcar num processo de adopção e ratificação de um novo Tratado. Este novo Tratado tenta constitucionalizar o travão da dívida, a ‘regra de ouro' (equilíbrio orçamental) e comprometer os países com a "cultura de estabilidade", que é essencial para restaurar a confiança dos mercados, como dizem os alemães. Contudo, o Tratado parece francamente desnecessário para este e outros propósitos.

Desde logo, só fala de austeridade. Será suficiente? Em 2007, a Alemanha tinha um défice orçamental recorde, a Espanha e Irlanda tinham excedente. Mesmo acreditando piamente no mantra da consolidação, a regra por si só não é eficaz. Gordon Brown, o ex-líder britânico, inscreveu a "regra de ouro" nas finanças britânicas em 1997 e volvidos treze anos deixou o país com um défice de dois dígitos.

Depois, acrescenta confusão ao tomar o défice estrutural (de 0,5%) como teste da "regra de outro". Este indicador desconta o efeito do ciclo mas depende do cálculo do produto potencial, para o qual existem várias ‘escolas de pensamento'. Bruxelas tem uma metodologia mas vários países não a seguem e chegam a valores diferentes. Até agora este era só um elemento de análise, agora terá peso paraconstitucional.

Aliás, o objectivo de Berlim em constitucionalizar o pacto de estabilidade também saiu furado. Há países onde só uma revolução mudará a carta magna. Na Finlândia, por exemplo, são precisos 4/5 do Parlamento, na Dinamarca impõem-se eleições e referendo. Depois de muito debate a actual lei de enquadramento orçamental em Portugal também serve.»

Luis Rego, Diário Económico.


BREVE ENSAIO SOBRE A POTÊNCIA





«tudo tornou-se luz, serena e alegre, e tendo-a visto apaixonei-me por ela»Corpus Hermeticum



Coincide a morte com a vida, o silêncio com a palavra. Escutemo-la. Breve Ensaio Sobre a Potência (Língua Morta, Janeiro de 2012) é apenas uma parte de um livro mais extenso. A data de edição poderá levar-nos a falar, no futuro, de primeira obra póstuma. Prefiro referir-me ao livro como última obra publicada em vida. Pormenores de somenos importância, é certo. Mas convém sublinhar o recato e a discrição dos editores em circunstâncias tão adversas. Com um formato em tudo semelhante ao dos saudosos folhetos da colecção subterrâneo três (&etc.), este poema-sequência marca o regresso de Rui Costa (1972-2012) à edição após As Limitações do Amor são Infinitas (Sombra do Amor, Junho de 2009). Além destes, foram anteriormente publicados os livros A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Quasi Edições, Maio de 2005), Prémio Daniel Faria 2005, e El desayuno de Carla Bruni/O pequeno-almoço de Carla Bruni, edição bilingue com versão castelhana de Uberto Stabile (Ayuntamiento de Punta Umbría/Livrododia Editores, Inverno de 2008) Cingimo-nos, obviamente, à poesia e a publicações em nome individual. Este breve ensaio... são trinta e uma estrofes, na sua maioria de sete versos, onde Rui Costa ensaia uma cosmologia poética em perfeita sintonia com aquilo que foi/é a coerência da sua obra. O verso inaugural — «a luz é a metáfora do verbo» (p. 5) — envia-nos directamente para o Génesis, o primeiro livro daBíblia onde a criação do mundo serve de cenário a uma análise da condição humana. A metáfora declarada acaba por ser uma não-metáfora, é antes o portal de um discurso algo hermético que procura dar imagem às relações alquímicas que estão na origem das coisas. O poeta não enjeita o invisível e o inexplicável, funde numa só matéria, porque a linguagem lho permite, as relações indecifráveis e enigmáticas entre luz e sombra, fauna e flora, ruído e silêncio. Há nesta atitude a crença numa linguagem poética enquanto território onde o que parece contraditório às leis científicas assume uma lógica própria. Deste modo, a poesia não copia a realidade, reinventa-a, subverte-a, vira-a do avesso com suas imagens e metáforas, armadilha o leitor, deixa-o na expectativa, transforma-o não só num espectador, mas sobretudo num ser actuante. No entanto, o tom dominante nas primeiras estrofes, típico de qualquer cosmologia onde a ciência pede favores à imaginação, adquirirá nas estrofes subsequentes um sentido muito mais acessível. Rui Costa respiga na química, na física, na biologia, na antropologia, vários elementos que incorpora nos seus poemas, evoluindo a pouco e pouco de uma panorâmica geral para uma reflexão mais concentrada na figura do homem (do nascimento à evolução, do homem primitivo ao homem actual). É curioso verificar que a esta evolução corresponde, igualmente, uma inflexão na direcção do discurso. Primeiro o homem pede para nascer, depois «é um fantasma calmo descansando / na margem» (p. 12), entretanto comove-se, «tem vontade de comer mas entretém-se / com uma luz que lhe sai da barriga» (p. 15), pensa, constrói, gera os seus inimigos e inventa Deus, fabrica punhais e degenera numa coisa reproduzível, baixa, saturada:

26

Ser adulto é quase impossível no mundo
só imberbe. Acreditas mais num ficheiro
Microsoft do que nas salmodias da tua avó.
O novo deus do mundo será um adolescente
com jeito para a música e o cabelo a imitar
os heróis da manga. A luz desloca-se com
pressa para chegar antes de envelhecer
.

Há uma consciência política na poesia de Rui Costa que pode passar despercebida se lhe fragmentarmos o raciocínio, porque, na verdade, o que este poema-sequênciademonstra é que nenhuma parte do poema faz sentido isoladamente. Há, no decorrer das trinta e uma estrofes, uma evolução discursiva que se revela em diversos pormenores formais, semânticos e sintácticos. De um discurso “iniciáticamente” hermético evoluímos para um discurso muito mais claro, mas não necessariamente luminoso, onde o que se joga é, precisamente, a degenerescência do ser humano, o seu afastamento de coisas essenciais tais como a natureza e o amor. É como se ao tornar claro o discurso o poeta quisesse dizer-nos que essa clareza corresponde a uma fase já muito distante da nossa natureza profunda, a qual será sempre, para todos os efeitos, confusa, paradoxal, contraditória, misteriosa, contrastante. As ilustrações são de Maria João Worm.


Animals Have Feelings - Os animais têm sentimentos!

"All of the animals except for man know that the principle business of life is to enjoy it."
~ Samuel Butler



de volta á vida - sextilhas de António Garrochinho

foto do album de Cristina Gomes Nina

DE VOLTA Á VIDA


da lixeira ressuscitados
novamente reabilitados
para alegria da criançada
girafas, ursos, leões
vão alegrar os corações
dos miúdos que não têm nada


assim desenterrados da morte
voltaram á vida, tiveram sorte
foi deste homem o capricho
o mundo tem muita agrura
muitos abusam da fartura
outros são felizes com o lixo

António Garrochinho



Endeviches tinha os olhos largos

Endeviche tinha os olhos largos, diziam na aldeia à boca calada. via mais longe que ninguém, e, ainda as coisas estavam em margens inventadas e já ela, em premonição, quem sabe, lhes divisava contornos. se fosse caso disso,  desviava-se delas a sete-pés. talvez por isso nunca tenha casado, nunca tenha arranjado homem, diziam uns. talvez por ser uma espécie de videira rupestre,  torta e retrocida, a reflorir a cada primavera no círculo das pedras da aldeia de crescer, diziam os mais avisados – o seguro morreu de velho e,  de velha,  haveria Endeviche de morrer.  briosa, tinha gosto de assim ser.
 manienta, contudo,  terá sido por via dos "olhos largos" que embicou de cismar que o vizinho de baixo tinha um caso com o  da courela de cima e, ela, ali no meio,  ficava agravada só por imaginar o que, ora em cima, ora em baixo, os dois sempre juntos, estavam a aprontar.  dona de um dialecto sensível, acomodou a fala na algibeira da saia.  por ter olhos largos,  quando entendeu o caso, armou o laço a ambos. no dia agendado de um tempo de vindimas, ébrio ao paladar, e em que, junto ao pelourinho, na peneira da tarde,  era obrigatória a vacina dos cães, entregou os seus , recolhidos de vadios ambos, a um a cada um, com a recomendação  solene de que jamais os largassem em que circunstâncias fosse - seria um enorme favor, enfatizava,  abalizada à corcundice naquele olhar só dela, a luzir de penas, porque, em rigor e por causa maior,  não poderia  ser ela mesma (e o quanto lhe custava) ser a portadora dos ditos. como assim? ora bem  vê, vizinho, por ter de ir a banhos na hora da maré rasa,  em hora certa, sem falhar uma virgula, recomendação do médico, do curandeiro, e, com perdão da palavra "do bruxo de subserra", repetiu a cada um, enquanto se soltava da trela, primeiro na courela cimeira e a seguir, na de baixio. depois, devagarinho, deu três passos, rumo à várzea de beira-rio, não sem antes, onde os olhos lhe  foram aves e o ângulo dos ossos lhe doía, deixar  a bengala pousada contra a soleira da porta.
bebeu de um cantil a embriaguez da origem das causas justas, expurgou-se em diálise melancólica. metamorfoseada, como se, repentinamente, tivesse retirado um peso  dos ombros, como se, por obra e graça do divino, o pensamento fosse vassoura do tempo e  resina arábica a recompor colagens soltas, Endeviche, repuxou o corpete até às ancas, redopiou sobre os calcanhares e tomou caminho. para trás ficavam os cães e os seus vizinhos.  nos olhos levava um névoa, um gemido manso, mascarado de poesia, e, da vilanagem dos homens, uma dor tão funda  que comovia  a tarde. a mesma tarde que, recíproca, se nebulizava em gotas de orvalho nas árvores de pele descoberta. 
na escala da floresta ouvia nítidos, quão longínquos,  o ganir dos cães "os cães ladram, a caravana passa" – na verdade, sorria de si para si,  na sensoralidadede do tempo breve,  recordava-se agora de uma falha  imperdoável  nas suas recomendações: não lhes falara, nem sequer ao de leve,  de que, cães vadios, o ódio entre eles era antigo,  tanto quanto o amor de d. Quixote a Sancho Pança... 




ele foi comprar castanha assada
para a sua namorada
e na pressa derramou
tocou-lhe as mãos confiante
certo o dia não estará distante 
lhe diga que sempre a amou
 
 
António Garrochinho



chuva e amor


doce é o Outono ao teu lado
o Inverno é moderado
no teu corpo, a fogueira, o calor
o frio para depois o prazer
e no teu rosto lamber
as gotas de chuva
o amor


António Garrochinho

Artigo 21.º- PORQUE SOMOS POVO, PORQUE TEMOS DIGNIDADE ! NÃO NOS DEIXEMOS PISAR PELA CANALHA !



Vasco Cardoso é o novo responsável pelo PCP Algarve

 
Rui Fernandes, que durante alguns anos foi o responsável pela Direção da Organização Regional do PCP no Algarve vai abandonar essas funções.
Passará a ter esta responsabilidade Vasco Cardoso, igualmente da Comissão Política do Comité Central do PCP.
A saída de Rui Fernandes, segundo explicou ele próprio em mensagem de correio electrónico, prende-se «com necessidades do trabalho partidário». 

CORAGEM NUM PAÍS DE VENDIDOS


Coragem, num país de vendidos

“Podemos sempre pensar que apenas em cenários limite – genocídio, a guerra, extermínio – acontecem escolhas-limite; e que é a violência absoluta ou é a humilhação ou o sofrimento absoluto que impõem a revolta, o inconformismo, a coragem; ou não. Tenho para mim que as escolhas-limite se fazem todos os dias, no nosso quotidiano, e duvido muito que quem vive de espinha dobrada em tempo de paz, em tempo feliz – como é, já nos esquecemos o tempo democrático – seja capaz de endireitar a espinha em tempos difíceis”.

“Para um país onde, precisamente, 4 décadas de democracia produziram, afinal, uma sociedade asfixiada por valores do silêncio, da cobardia, do bajulamento e dessa gangrena da nossa pátria que é a inveja social. Por junto, uma cultura mesquinha, quase sempre não há ninguém que diga aquilo que todos sabem, que todos devem calar. Uma terra onde, finalmente, se instalou um medo e uma noção puramente alimentar da dignidade individual, traduza-se “está caladinho para guardares o trabalhinho” – neste aspecto, em genocídio ou democracia, os reflexos e os mecanismos são os mesmos”.

Uma crónica que não poderia ter sido mais certeira. O autor deste texto “não esteve caladinho” e, porque falou, “perdeu o trabalhinho”. Vale a pena ouvir, na íntegra, a última crónica de Pedro Rosa Mendes para a Rádio pública. Há honrosas excepções neste povo que se habituou a andar curvado e de mão estendida.




Poemário prostibular [42]


Deste por ti 
com o poema quase na boca
a massajares as palavras
para a frente e para trás
à espera que elas se soltassem 
para cima do papel,
que o manchassem
de uma forma bem vigorosa
.
MG 2012

25 Jan 2012 No tempo em que beijar era pecado mortal !


“Era a um quilómetro de distância (risos). Era à janela e nos bailes, ao domingo e quarta-feira. Não é como hoje. Era uma lei e todos sabiam. Mas para namorar tinham de pedir aos pais. Os que não eram permitidos, os pais batiam (…) A avó era pobre e os pais do avô não deixavam porque eram ricos e queriam uma mulher rica. Os pais dele não foram ao casamento e até nos queriam matar. Na terra uma rapariga que andava com um rapaz, se ele a deixasse era raro ela casar, com medo que ela já tivesse sido beijada. Só quando estavam para casar é que se beijavam. Também faziam maroteiras como agora mas não se sabia. Um beijo na altura era uma desonra. Quando andavam na catequese já ensinavam que não se podia beijar. Agora depois da missa eles cumprimentam-se todos. Na altura “Ai Jesus!”

En t r e v i s t a realizada por Martin. \ Idade da Entrevistada em 1974: 32 anos
Fonte: ” Mundo Actual ” – Foto: “Notorius” 1946 com Cary Grant e Ingrid Bergman \ Beijo censurado quando da passagem do filme no nosso país.
Posted by Palma @ 18:34
www.louletania.com


Merkel a crise vai apertando cada vez mais.

Angela Merkel favorável à criação dos "Estados Unidos da Europa"
A chanceler alemã, Angela Merkel, disse em entrevista publicada, esta quarta-feira, por seis jornais europeus que a sua visão para o futuro da União Europeia passa por uma união política. 
Temos de nos aproximar passo a passo, em todos os âmbitos políticos. 
Porque o certo é que cada vez percebemos com maior nitidez que cada tema do vizinho nos diz respeito. A Europa é política interna", afirmou a dirigente alemã em resposta a uma questão sobre os Estados Unidos da Europa. A historia é outra, está difícil escoar os produtos Alemães, a malta da Europa não está a comprar os Audis e os Volkswagens a Merkel está a beira da crise.....
blog D´Sul

Pequenos Grandes Prazeres... (2) Ou Bye, Bye maria Ivone...


Segundo o SOL, parece que a nossa amiga pronunciada como prevaricadora vai ser corrida do tacho fládico com que o inginhero lhe pagou os serviços...
A sinistra ministra e ainda mais sinistra pessoa, o alvo dos ovos voadores e a pior imimiga da classe docente, (daqueles a sério, dos quais tem profunda inveja e uma raiva ressabiada) parece que vai ser corrida da FLAD...
Temos pena, parece-nos é que já vai demasiado tarde...  
 
blog porquemedizem

Alexander Petrov - animação - simplesmente maravilhoso

NEM CRISTO REI


festa na aldeia


FRUTOS SECOS


AMÊNDOA E O FIGO AO SOL
NOS LADRILHOS DA AÇOTEIA
FIGO CHEIO E FIGO MOLE
TODA A GENTE REGATEIA
 
 
António Garrochinho


Miguel Sousa Tavares, Cavaco... e o tiro


Aqueles de entre vós que estejam em dia mais pachorrento... ou, pelo contrário, atacados de um forte desejo de autoflagelação, podem ver e ouvir, neste link, o sempre profundo Miguel Sousa Tavares dizendo coisas. Desta vez é em dose familiar. Fala da Madeira, disserta sobre a Justiça, dá uns bitaites sobre o papel dos sindicatos na chamada “concertação social”... não resistindo a tentar enxovalhar a CGTP com as provocações costumeiras...
Não conseguiu prender-me a atenção por aí além... até ter dito, com profundidade (acho que já disse que ele é profundo), que Cavaco Silva «deu um tiro no pé».
Pois... se calhar... mas atendendo às famosas declarações cavacais sobre a “pensão de miséria” e à tão inútil, quanto esfarrapada “explicação” que veio dar dias depois, tudo isto somado ao seu já longo historial de vida coerentemente “anibalesco” e, sobretudo (como muito bem exorta o Sérgio), para a sua vasta e demolidora "obra política"... já que o Miguel Sousa Tavares decidiu falar sobre o tiro no pé, bem podia ter dito em qual dos quatro!



As castanhas miúdas


O homem é pequenino, velhote, mas simpático e usa uns óculos antigos que ficam embaciados com o fumo e vapor das castanhas, no assador. Um jovem, normalmente calado, vai-o ajudando. Talvez seja neto dele.
Como eu agora tenho mais tempo livre, comecei a criar novas rotinas de ócio e passeio. E, quase semanalmente, sou freguês e compro-lhe, no Largo, meia dúzia de castanhas. Mas, hoje, como me pareceram muito miúdas, acabei por dizer-lhe.
O velhote explicou-me, então, que os fornecedores, até Viseu, já quase esgotaram a castanha e, agora, tem que comprá-las na região de Bragança - quase o último reduto. E acrescentou:
"- Vai ver que são mais gostosas do que as graúdas, têm outro sabor..."
E o neto, que estivera calado até aí, acrescentou, muito sério:
"- É como a mulher e a sardinha, maneirinhas..."
Eu prometi que, na próxima vez, lhes daria a minha sincera e isenta opinião.




"Esqueçam a Grécia. É Portugal que vai destruir o euro"


Um "default" é acidente. Dois já é uma crise sistémica. Quem o diz é Matthew Lynn, colunista da Bloomberg News, sublinhando que Portugal voltará a ter um importante papel no palco mundial. Mas pela negativa.
Matthew Lynn (na foto), colunista da Bloomberg News e responsável pela “newsletter” da área financeira desta agência, traça um cenário sombrio para a Zona Euro. E diz que Portugal será o responsável pela queda do euro.

No seu mais recente artigo de opinião, Lynn começa por relembrar a importância do País para a história mundial, com a assinatura do Tratado de Tordesilhas, que dividiu o mundo não europeu entre Espanha e Portugal em 1494. E salienta que 2012 pode ser o ano em que Portugal volta ao centro do palco mundial. Como? “Fazendo o euro ir ao ar”, responde.

“A Grécia já estoirou – e o seu incumprimento está já descontado pelo mercado. Mas Portugal está precisamente na mesma posição (…). Está também a resvalar para um inevitável ‘default’ das suas dívidas – e quando isso acontecer, vai ter um efeito devastador para a moeda única e infligir danos ao sistema bancário europeu, que poderão revelar-se catastróficos”, escreve o comentador da Bloomberg.

O analista compara a situação de Atenas e de Lisboa, destacando que “Portugal - um dos países mais pobres daUnião Europeia, com um PIB per capita de apenas 21.000 dólares, significativamente abaixo dos 26.000 dólares da Grécia – fixou metas de redução do seu défice de 4,5% em 2012 e de 3% em 2013”.

“Então e como está a sair-se?”, questiona-se. E responde: “Quase tão bem como a Grécia – ou seja, nada bem. Prevê-se que a economia grega registe uma contracção de 6% este ano e Portugal não fica muito atrás – o Citigroup estima que a economia ‘encolha’ 5,7% em 2012 e mais 3% em 2013”.

Matthew Lynn recorda o estudo da Universidade do Porto, divulgado na semana passada, que diz que a economia paralela aumentou 2,5% no ano passado e que representa agora cerca de 25% da actividade económica em Portugal. “E não há qualquer expectativa de que isso vá mudar em breve. As empresas portuguesas simplesmente não conseguem sobreviver a pagar as taxas de imposto que lhes foram impostas”, refere o especialista.

“O resultado qual será?”, pergunta. E volta a responder: “Os objectivos de redução do défice não vão ser cumpridos. No início deste mês, o governo reviu em alta a previsão do défice, de 4,5% para 5,9% do PIB este ano. Se a experiência grega for válida, esta meta continuará a ser revista em alta. A economia encolhe, cada vez mais pessoas transitarão para a economia subterrânea para sobreviverem e o défice continuará a crescer”.

“Em resposta, a União Europeia exige mais e mais austeridade – o que significa, muito simplesmente, que a economia continuará a contrair-se ainda mais. É um círculo vicioso. Se alguém souber como sair dele, então está a guardar o segredo para si próprio”, comenta Lynn.


Juros da dívida a escalarem


O comentador da Bloomberg recorda o corte do “rating” da dívida soberana de longo prazo de Portugal, para nível de “lixo”, por parte da Standard & Poor’s. Das três principais agências, só faltava a S&P para a dívida pública de Portugal ser colocada na categoria “especulativa” – ou seja, não é considerada “digna” de investimento, atendendo aos riscos que os investidores correm de não serem reembolsados.

Segundo Matthew Lynn, haverá mais “downgrades”. “Os juros da dívida estão a disparar. Na semana passada, as ‘yields’ das obrigações a 10 anos superaram os 14%. E deverão subir ainda mais”, prognostica. O analista relembra que a maturidade a 10 anos da dívida soberana grega já está com juros de 33% e diz que “não há qualquer razão para as ‘yields’ da República Portuguesa não atingirem os mesmos níveis”.

“E isso é importante”, sublinha. Isto porque, adianta, a crise grega poderia até ser vista como um caso especial. “Mas não a de Portugal. Não houve ‘manipulação’ nos números [Portugal] não registou défices excessivos – com efeito, quando caminhávamos para a crise de 2008, o País apresentava défices de menos de 3% do PIB, bem dentro das regras impostas pela Zona Euro. Não era irresponsável. O problema, muito simplesmente, é que Portugal não conseguiu competir no seio de uma moeda única com economias muito mais fortes. Agora, o País está a mergulhar numa depressão em toda a escala – tão má como o que se testemunhou nos anos 30 [Grande Depressão] – devido à união monetária”.

“Vai ser tão grave como na Grécia. E talvez até pior”, vaticina.

Lynn refere igualmente que os bancos europeus estão mais expostos a Portugal do que à Grécia. “No total, os bancos têm uma exposição de 244 mil milhões de dólares a Portugal, contra 204 mil milhões de dívida grega”, segundo os dados do Banco de Pagamentos Internacionais citados pelo analista da Bloomberg.

“O grosso da dívida portuguesa é detido pela Alemanha e pela França. Mas estes são os dados oficiais. É bem provável que grande parte da dívida privada, que é mais substancial do que a dívida pública, seja detida por bancos espanhóis. E estes já estão frágeis. Conseguirão assumir as perdas? Talvez, mas não apostaria a minha última garrafa de vinho do Porto nisso”, comenta Matthew Lynn.

Em seguida, diz o colunista da Bloomberg, esta situação também irá repercutir-se na moeda única. “Se um país entrar em incumprimento, dentro de uma união monetária, isso pode ser visto como um acidente infeliz. Todas as famílias têm uma ovelha negra. Mas quando um segundo país cai, o caso fica muito mais sério. A ideia de que isto é culpa de alguns governos irresponsáveis vai deixar de ser sustentável. A explicação alternativa – a de que o euro é uma moeda disfuncional – vai ganhar mais peso”.

Segundo Lynn, “um incumprimento da dívida soberana por parte de Portugal desencadeará uma retirada da Zona Euro – e neste momento, parece que esse poderá ser o motor que desencadeará o colapso do sistema”. “Foram cinco séculos de espera. Mas agora Portugal poderá estar prestes a desempenhar de novo um papel central na economia global”, conclui o especialista da área financeira.