Quase se vai às lágrimas ouvindo Alexandre Soares Santos e Belmiro de Azevedo, nas suas inúmeras e estridentes aparições mediáticas sempre tão apaparicadas, proclamarem a sua desvairada, mesmo doentia, paixão pela Pátria. Estão sempre perfilados na primeira linha dos dispostos a fazer se não tudo, pelo menos quase tudo para Portugal superar a crise.
Ultrapassadas as estridulantes manifestações de amor pátrio, seguem-se sibilinos conselhos de como ultrapassar as dificuldades agitando as recorrentes reformas estruturais e a urgência do Estado se apagar para o empreendorismo ficar com o terreno livre e poder atapetá-lo com a sua conhecida vocação para a iniciativa.
Um deles, podia ser o outro, por isso não interessa a autoria, essa gente diz sempre o mesmo, chegou a afirmar,quase com os olhos em alvo e a mão a bater convulsivamente no peito que devíamos ”em conjunto darmos as mãos para recuperarmos o País trabalhando” (RTP, “Portugal e o Futuro”). Não disse é o que faria à mão que lhe fosse dada.
O Estado, este governo, de facto ao serviço dessa gente, tem dado passos na direcção que eles, e outros do mesmo quilate querem. O chamado “Acordo Tripartido para a Competitividade e o Emprego” vai ao encontro desses desejos. Se a precariedade já era a normalidade nas empresas desses dois agora, com a bênção da UGT, fica agravada com condições de trabalho próximas da servidão. Tudo para dar uma imagem “ao mundo e aos mercados” como disse o Álvaro de como Portugal está empenhado em cumprir o pacto com a troika e mesmo ir mais além, como o primeiro-ministro sublinha com enlevo, para, supostamente, sair da crise. Os mercados responderam logo no dia seguinte atingido os juros do empréstimo a dez anos um novo recorde, 14,67%, a cinco 15,54%, a dois 18,46%,  dei-xou-a-eu-fo-ri-a-e-xi-bi-da-no-di-a-na-te-ri-or-por-Vic-tor-Gas-par-pe-la-co-lo-ca-ção-de-um-em-prés-ti-mo- a-cur-to-pra-zo-ain-da-mais-ga-gue-jan-te, e que ninguém, a não ser a conversa fiada dos nossos governantes e sua corte, acredita serem pagáveis a começar pelas malfadadas agências de notação que, logo a seguir, nos atiraram para o lixo.
Há que lhes dar razão com estas políticas estamos irremediavelmente condenados a acabarmos na lixeira.
Entretanto o que fazem esses dois empreendedores para ”em conjunto darmos as mãos para recuperarmos o País trabalhando”.
Continuam a explorar e a esmagar gananciosamente os produtores nacionais. Isto já depois de um, Alexandre Soares dos Santos, ter ido a correr para a Holanda atrás do outro para fugir aos impostos, aliás seguindo o exemplo de 19 das 20 grupos económicos cotados na Bolsa de Lisboa, mostrando que o seu empenho no país é conversa da treta e que o governo mente descaradamente quando afirma que os sacrifícios são iguais para todos. Quando há uma iniciativa legislativa que quer fazer efectiva justiça social propugnando que Soares dos Santos, Belmiros, Amorins, Espíritos Santos e outros paguem impostos compatíveis com a riqueza que ostentam e contraria a fuga de capitais para offshores e países com regimes fiscais ainda mais permissivos que os em prática em Portugal, é logo chumbada pela maioria PSD/CDS.
Na semana passada a ASAE, depois de uma denúncia de produtores de leite de que no Continente se estava vender leite a € 0,13/litro, numa prática de concorrência desleal, vendendo mais baixo que o preço médio, € 0,33/litro no produtor, apreendeu quase 400 mil litros de leite na cadeia dos supermercados Continente, mas também no Pingo Doce.
As juras e as acções mediáticas a favor da produção nacional (lembram-se da feira dos produtores continente na Avenida da Liberdade?) desses dois parceiros são a maior e mais bem montada rábula a que se assiste em Portugal. Depois de anos em que foram, com a cumplicidade activa e passiva do Estado, de que eles tanto se queixam, destruindo progressivamente o comércio tradicional, incapaz de juntar forças para fazer frente aos predadores, até ficarem numa situação quase monopolista, actualmente detém em conjunto uma fatia de mercado perto dos 70%, continuam a apertar implacavelmente o garrote aos produtores.
Leia-se o insuspeito Nicolau Santos no Caderno Economia do Expresso (26 Março 2011) no artigo o “Maravilhoso Mundo da Distribuição”:
“ Os dois maiores distribuidores (Continente e Pingo Doce) representam mais de 50% do mercado de distribuição, mais do que a soma dos sete seguintes, uma estrutura que não existe em mais nenhum país da União Europeia. Em Espanha, por exemplo, Mercado na e El Corte Inglês têm quotas inferiores a 13%. (…) Resultam daqui contractos leoninos com os fornecedores – “um contrato entre as duas partes tem 28 obrigações para os fornecedores (e respectivas penalizações) e apenas 3 para a distribuição; e nos direitos, 12 para a distribuição e 3 para os fornecedores”. Deveria acrescentar que Continente e Pingo Doce além dessas práticas, que lhes permitem esmagar as margens de lucro dos produtores e tê-los á sua mercê, acrescentam uma mais-valia nada desprezível na margem financeira do negócio, recebendo a pronto e pagando, na melhor das hipóteses a 180 dias. Façam as contas, vejam como essa gente, repimpada nos seus sofás, ganha sem fazer nenhum.
Preparam-se para o assalto final. Estão a montar uma rede de mercearias de bairro com horário alargado, em parceria com o comércio tradicional. Um rede de franchising que obrigará as mercearias ainda existentes a comprar através das cadeias de distribuição e acessoriamente terão que ter a mesma decoração e mobiliário e que terão de ser identificadas com um símbolo ou nome comum que demonstre que pertencem a essas redes ou não para a simulação de autonomia se manter. Um pormenor porque o que está realmente em causa é a relação entre os produtores e os distribuidores. Ficando os produtores cada vez mais enfraquecidos, se não encontrarem formas de, colectivamente, enfrentarem os abutres. Ainda na semana passada, o Partido Comunista Português denunciou junto do Ministério da Agricultura duas situações que exemplificam bem esta situação. O Continente exige aos produtores de queijo uma participação de 25% na promoção de uma feira de queijos. O Pingo Doce pressiona os produtores a fazerem um desconto de 10% na facturação dos meses de Outubro, Novembro e Dezembro. O Ministério diz que vai montar um Observatório. Com composições equivalentes ás da concertação social, bem podem limpar as mãos á parede. A ver vamos.
Com tantas públicas ejaculações verbais a favor da produção nacional, para Belmiros e Alexandres a produção nacional só é boa se a puderem explorar sem peias. Essa gente, que também ejacula por tudo o que é sítio conselhos e fervor patriótico estão entre os maiores contribuidores para o desequilíbrio da nossa balança comercial. Esses campeões do “made in Portugal” estão entre os dez maiores importadores nacionais, ocupando o patriota Alexandre Soares dos Santos o quinto lugar.
Nada a esperar dessa gente. A ganância atropela-os

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