Que silêncio estranho, este, em que só os meus passos ecoam pela rua; ao longe vislumbro um vulto, à entrada da praça principal da cidade, nas escadas da igreja, numa das portas secundárias, que se transmuta de pobre para sem abrigo. Começa aqui o seu inferno… em mais uma noite de inverno que nunca mais acaba.
São onze horas da noite. O largo está mal iluminado e despido de pessoas. Das poucas casas ainda habitadas, só algumas exibem sinais de vida e o homem, qual felino enjeitado, procura abrigo enrodilhando-se no seu cartão.
Durante anos trabalhou na construção civil, como servente, sem contrato, com horário certo para entrar, nunca para largar. O que ganhava mal dava para comer e, aos poucos, foi desistindo da cólera que o inquietava.
Há muito tempo que procura trabalho… mas não encontra. A idade já lhe pesa mais que o corpo. Muitas são as noites em que se deita sem se recordar do jantar, mastigando sonhos.
A mulher acabou por se cansar de tanta canseira.
- Sou filho da imaginação e tenho uma válvula de escape para as tempestades da alma – disse, quando parei junto dele.
Em tudo o mais, é igual aos outros. Tem um nome, sentimentos, desejos, utopias, mágoas; sofre calado, e já se esqueceu dos momentos de alegria.
Muitas são as vezes que vive do nada. Não tem trabalho, casa ou vida; o seu mundo está num completo desalinho, quebrado em cacos, por força de um vendaval que por ali passou e tudo destruiu. E poucos se importam!
Há desdém por quem mais precisa de ajuda. Não há liberdade ou democracia enquanto não existirem os bens essenciais que assegurem a sobrevivência e a subsistência de todos e de cada um. E, por assim não ser, essa é uma dor imensa, profunda, que não se demove do meu pensamento, quando deparo com vidas assim.
O pior é que se estão a tornar banais.

Praça do Bocage