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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

porque te amo - quadra de António Garrochinho

OUTRAS MANHÃS, OUTRAS MAÇÃS - POEMA DE ANTÓNIO GARROCHINHO

O que os outros escrevem...Excerto da Crónica de Miguel Sousa Tavares. Semanário Expresso de 2011-12-10

Desculpe, Gonçalo

Há uns quinze anos, fiz uma entrevista ao Gonçalo Ribeiro Telles para uma revista que então eu dirigia, a "Grande Reportagem". E, na introdução à entrevista, escrevi: "este homem tem razão há vinte anos e ninguém o ouve". Se hoje tivesse de refazer essa introdução, a única coisa que mudaria era escrever "este homem tem razão há trinta e cinco anos e continuam a não o ouvir".
Costuma dizer-se que o destino de certos homens é terem razão antes de tempo e não serem escutados por isso mesmo. Não é o caso de Gonçalo Ribeiro Telles: ele teve razão não antes, não depois, nem fora de tempo: teve razão no tempo exacto, no tempo em que, saídos de uma ditadura, todas as esperanças e projectos eram possíveis, tudo era novo e limpo e havia um país todo para reiventar. Sá Carneiro teve a percepção disso e chamou-o para o governo, onde Gonçalo Ribeiro Telles inventou a política do Ambiente, que ninguém sabia o que era nem para que servia, criou o Ministério (que, depois dele, nenhum governo entendeu mais para que servia) e foi ainda a tempo, na curta governação, de lançar as leis sobre a Reserva Agrícola e a Reserva Ecológica Nacional - as quais, apesar de tão esquartejadas, excepcionadas, autarquizadas e transaccionadas em projectos PIN e outras batotas que tais, são hoje todo o travão que nos resta ao simples fartar vilanagem, em matéria ambiental e territorial.
Mas, depois disso, o país foi capturado e corrompido pelos dinheiros fáceis da Europa, pelas grandes obras de fachada feitas por patos bravos para bravos patos e por essa trágica urgência de que todos os governos pareceram sempre acometidos e que lhes serviu a todos de desculpa para nunca terem tempo de, simplesmente, pensarem Portugal. Que não havia tempo a perder, disseram-nos, que a paisagem de chaparros e oliveiras não dava de comer a ninguém, que a agricultura não tinha futuro nessa Europa grandiosa onde tínhamos acabado de pôr o pé, que a nossa pesca - ainda feita de tragédias e naufrágios e anzóis e redes cozidas à mão - era rídicula face às fábricas de sashimi ambulante dos japoneses. Não havia tempo a perder. Nunca houve tempo a perder. A nossa tragédia é mesmo essa: nunca tivemos tempo a perder para escutar as poucas pessoas que pensavam como o Gonçalo.
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Com essa invocada superioridade de quem dizia representar a modernidade contra a estagnação as ideias de Gonçalo Ribeiro Telles foram chutadas para o caixote do lixo da história, até descobrirem, tarde e a más horas, que, afinal, eram elas a modernidade.

NOTA: Excerto do artigo de Miguel Sousa Tavares publicado no semanário Expresso de sábado. Aconselho a sua leitura na integra.

Será que, para o ministro Mota Soares, os mortos andam?

O ministro da vespa, digo, do carrão, oficialmente da Segurança Social, anunciou que as  regras de acesso ao rendimento social de inserção (RSI) vão mudar em 2012.
Para Pedro Mota Soares "Só faz sentido atribuir esta prestação a partir do momento em que todo o processo esteja instruído. Queremos que a atribuição seja feita, [quando] é assinado um contrato de inserção e os beneficiários se comprometem, perante o Estado, a cumprir um conjunto de obrigações."
Com tais regras,  "Vai-se protelar o deferimento dos processos"pôr os mais pobres em lay-off", afirma um professor da Universidade do Porto e um outro, da Universidade dos Açores, garante que "Muita gente vai precisar de RSI e vai ficar quatro, cinco, seis meses ou mais à espera".
Ora, convém recordar, por um lado, que estamos a falar de pessoas extremamente carenciadas que precisam do subsídio para sobreviver e, por outro, que não há entre as  Instituições Particulares de Solidariedade Social uma entidade que não afirme que já não dispõe de meios para atender a todos necessitados que todos os dias vão surgindo, cada vez mais e mais.
Nestas circunstâncias, estando em causa a sobrevivência das pessoas, é óbvio que não faz sentido falar em lay off . De facto, em relação às pessoas que não têm recursos próprios, nem têm ninguém que lhes possa valer, esperar meses e meses pelo subsídio, o mais apropriado é falar em morrer à mingua. Não digo morrer à fome, para não ferir a sensibilidade do senhor ministro.
Estranho é que um ministro que faz parte dum governo que tem por lema "connosco, ninguém fica para trás" revele uma tal insensibilidade social. Será que Mota Soares julga que os mortos andam?
Blog Terra dos espantos

rota segura - poema de António Garrochinho

partidas - poema de António Garrochinho


ELA FAZ BEBÉS - ( recebido por e-mail )


Uma jovem escultora excepcional 
as obras desta jovem  são extraordinárias!

 
Ela faz bebés

 

Bebés em massa de amêndoas

É fascinante  ver com que realidade, esta artista  dá, vida a suas esculturas, miniaturas...
Sao feitas  com massa de amêndoas e clara de ovo.....

Incríveis!

Os detalhes são quase reais!

Além disso,  pode-se comer... mas acho que ninguém os comeria!





 



















































    

medo do beijo - poema de António Garrochinho

ruas, casinhas - poema de António Garrochinho


 
 
ruas, casinhas - poema de Antonio Garrochinho


ruas, casinhas do nosso país
pedrinhas, flores, a nossa raíz
... canteiro de malva e malmequer
a cal que de alva nos fere a vista
e um luar de Agosto que nos conquista
como o belo rosto de uma mulher

Uma das grandes fugas da nossa História



Em 4 de Dezembro de 1961, oito presos políticos personificaram uma fuga do forte de Caxias, não menos espectacular do que a de Peniche ocorrida quase dois anos antes, mas muito menos conhecida provavelmente porque não envolveu a pessoa de Álvaro Cunhal.

Derrubar um portão de um forte com um carro blindado, supostamente oferecido por Hitler a Salazar, e fazê-lo depois de uma longa preparação que implicou que o seu principal intérprete tenha fingido «rachar» (ou seja passar para o lado da polícia) para se movimentar à vontade e preparar todos os detalhes, nada tem de trivial e é digno de homenagem e admiração. Pertencerá para sempre ao nosso património – material ou imaterial, como se preferir, mas bem real e a ser preservado.

O Diário de Notícias publicou no passado Domingo uma longa reportagem sobre o assunto, com alguns defeitos mas onde os factos são descritos com o detalhe possível. Vale muito a pena lê-la.

1961, Anno Horribilis para Salazar. Faltava a cereja em cima do bolo: daí a uns dias, cairia Goa...

(Clicar e aumentar cada uma das imagens.)




Victor: em foto-entrevista ao Pegada

por joao moreira de sá às 10:33
Afinal que parte da crise é que os ricos vão pagar?

Então quem é que ai pagar a maior parte?

E como é que vão conseguir que o povo pague mais imposto?

Confesse lá, quantas vezes mais é que ainda vão aumentar os impostos, só este ano?

E quando a malta já não tiver mesmo mais para sacar?

E sobre isto da Madeira, acha que o Alberto João lhe está a dar baile?

Para acabar, tem noção de que o acham um bocado... chato?

Não é? Diga-me lá uma palhaçada que já tenha feito.  Já pregou alguma partida à Merkel, por exemplo?



Pórtico de cobrança atingido por disparos e estrutura de apoio incendiada 
12-12-2011  

Um pórtico de cobrança de portagens na Via do Infante (A22), junto ao nó de Boliqueime, foi baleado hoje de madrugada e uma estrutura de apoio com meios informáticos foi incendiada, disse à Lusa fonte da GNR de Faro.    
O incidente ocorreu cerca das 02:40, quando várias câmaras de leitura instaladas no pórtico foram destruídas com recurso a arma de fogo, adiantou a mesma fonte, que disse desconhecer se os pórticos ficaram inutilizados e qual a dimensão dos estragos na estrutura de apoio.
Fonte da Estradas de Portugal disse entretanto à Lusa que ainda estão a ser avaliadas as consequências dos danos, remetendo para mais tarde mais informações sobre o assunto.
Observatório do Algarve

o que vale a pena - poema de António Garrochinho


Donos do Mundo


´



in Algarve Mais, Dezembro de 2011

Thomas Jefferson, disse em 1802, portanto há 209 anos atrás: “Acredito que os bancos são mais perigosos para as nossas liberdades do que os exércitos. Se o povo Americano alguma vez permitir que bancos privados controlem a emissão da sua moeda, primeiro pela inflação, e depois pela deflação, os bancos e as empresas que crescerão à roda dos bancos despojarão o povo de toda a propriedade até os seus filhos acordarem sem abrigo.”

Jefferson não foi um qualquer radical, foi o principal redator da declaração de independência dos EUA e foi o 3º Presidente norte-americano. Pelo andar das coisas, a visão de Jefferson vai-se concretizar e na Europa como nos EUA uma grande parte da população vai cair na pobreza.

Os bancos, os fundos de investimento, o poder financeiro das multinacionais, com as mãos muito livres, são os novos donos do mundo, ganharam uma dimensão asfixiante e uma vida própria que não respeita a vida humana, ganharam uma dimensão e um poder que esmaga a vida humana. Hoje em dia, há quem aponte que 90% dos milhões de milhões de euros que circulam sem parar diariamente pelo mundo não têm nada a ver com a produção ou comércio de bens ou serviços, não têm nada a ver com emprego nem salários. Hoje em dia, 90% dos milhões de milhões de euros que circulam pelo mundo movem-se no campo da especulação, de criar lucro com compras e vendas especulativas de ações, moedas, produtos futuros.

Chegámos a este ponto a reboque de uma ideologia neo-liberal, com a crescente desregulação dos mercados financeiros a partir da década de 1980, com a justificação que a liberalização financeira iria permitir uma melhor movimentação internacional e uma aplicação do capital onde ele fizesse mais falta, potenciando um grande crescimento económico mas o resultado não foi esse. Não só não se cumpriu nenhum paraíso na terra como o crescimento da finança desregulada acompanhado do crescimento do poder das multinacionais é equivalente à crescente sucessão de crises que ameaça tornar-se numa depressão económica jamais vista.

Nas 100 maiores economias do mundo estão 42 empresas multinacionais, essencialmente das áreas do petróleo, banca, seguros, telecomunicações, farmacêutica, agrotóxicos, supermercados e indústria automóvel. As maiores 500 empresas do mundo têm um lucro total equivalente a um terço do rendimento mundial. São os donos do mundo.

Portugal tem um Produto Interno Bruto anual de 167 mil milhões de euros. À frente de Portugal estão uns 35 países e atrás uns 150 países. Mas, o Royal Bank of Scotland tem ativos no valor de 2 500 mil milhões de euros, a Shell tem vendas no valor de 333 mil milhões de euros e a ExxonMobil tem um valor de 243 mil milhões de euros de euros. E os fundos de investimento da Bridgewater Associates têm 42 mil milhões de euros e os da Pimco têm 18 mil milhões de euros. Em Portugal as vendas das maiores 50 empresas superam os 50 mil milhões de euros

Os Estados, assim como os trabalhadores e os consumidores, perderam poder para as multinacionais e fundos de investimento, que por sua vez arrastam os salários para baixo e concentram o lucro numa escassa classe de super-ricos, 1% da população, destruindo a classe média e atirando para a pobreza uma grande parte da população.

Foi quebrado um contrato social entre o capital e o trabalho que tinha sido instituído após a Grande Depressão da década de 1930 e após a II Guerra Mundial. O medo da ascensão da URSS e da luta dos trabalhadores, o medo dos horrores das 2 guerras mundiais, geraram um contrato social na Europa e nos EUA baseado na valorização do trabalho e do salário, no desenvolvimento da Segurança Social, na presença do Estado na Economia e em setores estratégicos, no espaço para as Pequenas e Médias Empresas.

Este contrato, que foi o grande responsável pelo desenvolvimento da Europa e dos EUA, foi rasgado pelo capital, pela escassa classe de super-ricos de 1% da população, que já não querem repartir lucros com o resto da população.

Ainda há pouco tempo estava a ver o humorista norte-americano, Jon Stewart, na TV a dizer que a guerra de classes está de volta e são os super-ricos que estão a atacar a maioria da população. Mas se o contrato social foi quebrado e a guerra de classes está de volta, também estarão de volta as convulsões sociais, as revoltas e as revoluções. Os debaixo, a maioria da população, podem estar ainda acomodados ou iludidos mas tanta pobreza e vidas precárias explodirá mais cedo ou mais tarde.

Caía a neve nos despidos arvoredos


 
Caía a neve nos despidos arvoredos
E um rapazinho muito unído a sua fé
Mostrava a outro a mão cheia de brinquedos
Que o bom Jesus lhe fora por na chaminé

... Olha pra isto tão bonito que apanhei
Este palhaço esta carroça este carrinho
Hoje é natal e de manhã quando acordei
Tinha isto tudo no meu lindo sapatinho

Muito tristonho o outro disse a soluçar
Amarrotando um velho lenço entre os seus dedos
Pois se eu não tenho uns sapatinhos para calçar
Como podia o bom Jesus dar-me brinquedos

Não tenho casa vivo só não tenho nada,
E vou vivendo com a venda dos jornais
Durmo num banco, num degrau ou numa escada
A vida tem destes medonhos vendavais

Não digas mais que essas palavras comoveram
Meu coração lhe disse o outro rapazinho
Dou-te metade dos brinquedos que me deram
E desta forma também ficas contentinho

Se neste exemplo curioso dos gaiatos
Todos os homens ponderacem com juíso
Não haveria tantas lutas desacatos
E o mundo inteiro era um perfeito Paraíso


esta letra era cantada no fado Ginginha tenho pena de não saber informar o autor

NATAL E OS QUATRO CAVALEIROS DO APOCALIPSE

Gostava de poder falar de um período de amor, fraternidade, solidariedade que as famílias pudessem comemorar reunindo-se com alegria e a amizade que deve ser o traço de união entre os respetivos membros.  Mas eu não sou muito inclinada a reduzir a um dia a comemoração de sentimentos que deveriam coexistir sempre e em toda a Humanidade.Por outro lado,atualmente vive-se uma época de tanta loucura ,desvario e crime,  que me apetece dizer, metaforicamente, que este Mundo anda comandado pelos "Quatro Cavaleiros do Apocalipse".
Portanto eu não sinto o tal apelo natalício à paz e à fraternidade. Compreendo que essa tradição se mantenha na mente da maioria das pessoas, mas eu não consigo afastar o meu pensamento da miséria da Humanidade.
A mim chega o apelo da revolta, da luta, do inconformismo.

Estarei a ser pessimista, a atacar as ilusões e pensamentos de AMOR que, nesta época, quase magicamente, se instalam nas pessoas? Não, eu compreendo a Magia,mas dentro de mim, a revolta é tão grande que não a posso aceitar.

Vou deixar um excerto de um poema de Manuel Gedeão que ameniza um pouco esta pequena e controversa crónica mas que , de certo modo, a absolve.

 Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.


É entrar! É entrar, que o aldrabão sou eu


«Francisco José Viegas acredita que apesar da subida do IVA nos espectáculos em 2012, de 6% para 13%, o sector não vai sentir uma quebra da procura. “Acreditamos que vamos conseguir manter públicos na cultura e em alguns casos aumentar, precisamente porque as pessoas fazem opções”, disse o secretário de Estado.

Esta gente é parva e acredita mesmo naquilo que diz ou mente com todos os dentes porque não sabe o que dizer? É que ninguém que não seja minimamente atrasado mental consegue ver que com a redução de salários, aumento de impostos e de preços dos bens essenciais, mais a precariedade e o desemprego e em milhões de casa pobreza e até fome, as pessoas a primeira coisa que vão deixar é o supérfluo, aquilo que não é essencial à sobrevivência do dia a dia. Os cinemas, teatros e outros espectáculos vão certamente ressentir-se e muito. O Secretário de Estado sabe-o e por isso mente.

As viúvas


Nunca teremos chegado a entender o homem! O número e a intensidade do desgosto desesperado (e ridículo) das centenas de viúvas que José Sócrates deixou, mostra bem o poder dessa espécie de “magnetismo” com que o ex-primeiro-ministro encantou alguns milhares de seguidores.
Não! Não estou a fazer qualquer espécie de insinuação de cariz sexual sobre a figura do afastado político. Não o fiz antes, não iria começar agora. Era uma coisa idiota antes, não o seria menos agora.
Porém, se virmos a violência com que algumas dessas “viúvas inconsoláveis” ainda reagem a qualquer reparo que se faça a seu propósito (ainda nesta última vez levei com dois “comentários” de ódio, que publiquei... mais uns quinze que foram diretamente para o lixo, tal o nível de abjeção da linguagem), pressentimos que ali há qualquer coisa de “físico”, ou de “místico”.
De ideológico não é certamente, já que isso foi coisa que raramente terá habitado o esconso espaço vago que o atual estudante não sei de quê, numa universidade não sei das quantas (ah!... mas de Paris, que é coisa fina!), tem sobre os ombros e entre as orelhas.
Há que compreender a grande incomodidade de muita desta gente. Estão conscientes de que não podem fazer qualquer tipo de oposição a este governo miserável a que abriram o caminho com as políticas que impuseram ao país nos últimos seis anos. Não podem... a menos que tenham memória de “gupi”, ou uma falta de vergonha sem medida... ou que se chamem António José Seguro.


Está a doer-me a cabeça


O país está doente e insiste em tomar a medicação que lhe é imposta por uma Europa Merkleana que, em vez de ser uma cura, só agrava a doença. Digo isto porque também eu não escapei a uma constipação que me deixa rabugento e mal disposto. Mal já eu ando com o que se passa neste país e agora mais as dores de cabeça, no corpo. Não me apetece ouvir notícias nem estar para aqui a fazer o sacrifício de escrever sabendo que tudo fica na mesma. Vou fazendo os bonecos que pelo menos estou distraído.

E Há os Amigos

"Tenho horror a hospitais – os frios corredores, as salas de espera, ante-salas da morte – mais ainda a cemitérios onde as flores perdem o viço; não há flor bonita em campo santo!
Possuo, no entanto, um cemitério meu, pessoal, eu o construí e inaugurei há alguns anos, quando a vida me amadureceu de sentimento. Nele enterro aqueles que matei, ou seja, aqueles que para mim deixaram de existir, morreram, os que um dia tiveram a minha estima e a perderam.
Quando um tipo vai além de todas as medidas e, de facto, me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego o cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério – nele não existem jazigos de família, túmulos individuais; os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrice, do mau carácter. Para mim, o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar.
Raros enterros – ainda bem! – de um pérfido, de um perjuro, de um desleal, de alguém que faltou à amizade, traiu o amor, foi por demais interesseiro, falso, hipócrita, arrogante – a impostura e a presunção me ofendem fácil. No pequeno e feio cemitério, sem flores, sem lágrimas, sem um pingo de saudade, apodrecem uns tantos sujeitos, umas poucas mulheres, uns e outras varri da memória, retirei da vida.
Encontro na rua um desses fantasmas, páro a conversar, escuto, correspondo às frases, às saudações, aos elogios, aceito o abraço, o beijo fraterno de Judas. Sigo adiante, o tipo pensa que mais uma vez me enganou, mal sabe ele que está morto e enterrado."
Jorge Amado , in “ Navegação de Cabotagem, Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei ”, 1992, Editora Europa–América, Mem- Martins


Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia", Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1958
Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Helder, in “ Ofício Cantante”, Lisboa, Assírio & Alvim, 2009



Os Amigos
no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência

Al Berto, in "Sete Poemas do Regresso de Lázaro"


Preciso de alguém
"Que me olhe nos olhos quando falo.
Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência.
Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado; alguém Amigo o suficiente para dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odia-lo por isso.
Neste mundo de cépticos, preciso de alguém que creia, nesta coisa misteriosa, desacreditada, quase impossivel de encontrar: A Amizade.
Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa.
Preciso de um Amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida.
Mesmo que isto seja pouco para as suas necessidades.
Preciso de um Amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo:
"Nós ainda vamos rir muito disso tudo"
Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo, mas posso escolher o meu Amigo.
E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela..."
Charles Chaplin


A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.

Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o acto sem continuação, o acto em si,
o acto que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade, In “Antologia poética (selecção e prefácio de Massaud Moisés)”, Lisboa, Portugália, 1965, Colecção “Poetas de Hoje”

Perguntei a um sábio

Perguntei a um sábio,
a diferença que havia
entre amor e amizade,
ele me disse essa verdade...
O Amor é mais sensível,
a Amizade mais segura.
O Amor nos dá asas,
a Amizade o chão.
No Amor há mais carinho,
na Amizade compreensão.
O Amor é plantado
e com carinho cultivado,
a Amizade vem faceira,
e com troca de alegria e tristeza,
torna-se uma grande e querida
companheira.
Mas quando o Amor é sincero
ele vem com um grande amigo,
e quando a Amizade é concreta,
ela é cheia de amor e carinho.
Quando se tem um amigo
ou uma grande paixão,
ambos sentimentos coexistem
dentro do seu coração.


William Shakespeare


Espera

Na volta do mar
espreito
teu vir
teu ir
tua ausência.

Na volta do mar
deixo meus gestos de adeus.

Luisa Ducla Soares, in " A Maresia e o Sargaço dos Dias", Edições Asa