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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Amor com melão se paga
 
05-08-2011
 
 


Rita e Fábio poderiam ser só mais um casal jovem, como tantos outros. O que os diferencia é o facto de venderem melão, em pleno verão, esperando que este seja apenas o passaporte para a vida que sempre sonharam. Ela vende melão para pagar as propinas, ele, embora não goste e enquanto não arranja trabalho como eletricista, acompanha-a. Uma história de amor à beira da estrada.



 

Texto Bruna Soares Fotos José Ferrolho

O dia está quente. Tão quente que as escassas sombras que se encontram à beira da estrada estão todas ocupadas. Numa delas está Rita e Fábio. Dois jovens a vender melão em pleno verão.

Fábio Freitas, 22 anos, espera pelos clientes numa cadeira de praia, o que não significa que vá avistar o mar tão cedo. Rita Espada, de 20 anos, está encostada à carrinha que em tempos terá sido branca como a cal, mas que, por fruto da idade e do trabalho no campo, desbotou.

Fábio, dono de um cabelo ondulado, espreita por cima dos óculos. Rita ri-se e o seu sorriso denuncia a sua alegria de viver e de vender melão. “Eu gosto muito disto”, conta.

Fábio, por sua vez, brinca com os chinelos, também eles de praia, que traz calçados. Mete um pé por cima do outro. Fixa o olhar no chão e suspira. O suficiente para se perceber que vender melão não é definitivamente o que mais o agrada. Volta a olhar por cima dos óculos e diz: “Eu não gosto, mas tem de ser. A vida é assim”.

O que une este casal, porém, é mais forte do que aquilo que os separa. E vender melão, embora ela goste e ele não, é só mais uma prova do quão é importante estarem juntos. “Isto, na verdade, é uma história de amor. Só comecei a andar nesta vida quando a conheci”, confessa Fábio. Rita acena positivamente com a cabeça. Já vendem melão há dois anos e o amor, esse, resiste, embora Fábio tenha de vir todos os dias vender para a beira da estrada, à entrada da cidade de Beja, que por sinal também é a sua terra.  

“A minha mãe é produtora de melão e conheço esta vida há muito tempo. Sempre a ajudei e agora ajudo-me a mim e a ela”, defende Rita. “Se estamos juntos eu também o faço. Não poderia ser de outra maneira”, completa o companheiro.

Fábio tem a balança aos seus pés, que, enquanto não chegam os eventuais compradores, está vazia. Os carros continuam a passar na estrada. Rita com o seu ar despachado olha para os possíveis clientes. Espera que encostem à beira da estrada, que façam uma pausa no percurso e que, se possível, sigam caminho com o carro cheio de melão. “Está a 50 cêntimos o quilo. Acho que é um bom preço, mas as pessoas cada vez compram menos. Antes compravam uma saca. Hoje compram um ou dois”, diz.



Venda de melão serve para pagar as propinas O dia soalheiro continua a encadear Fábio. O vento não corre e ao fundo ouvem-se as cigarras. “Não é comum verem-se jovens da nossa idade a vender melão à beira da estrada. A maioria dos jovens da nossa idade, nesta altura, está de férias”, lembra Fábio, deixando safar um sorriso. Ambos sabem perfeitamente que férias é algo que não poderão ter. “Se conseguirmos descansar um fim de semana será muito bom”, conclui.

Os jovens estão no local desde as 6 e 30 da manhã. Preveem chegar a casa por volta das 21 horas. Depois é preciso voltar a encher a carrinha de melão e melancia. Por fim, podem começar a pensar em procurar o jantar. Normalmente comem quando o relógio marca as 23 horas. A rotina, essa, volta no dia seguinte. “Durante os meses em que se vende melão este é o nosso dia a dia. Só nos falta dormir aqui”, vinca Fábio.

Rita é natural de Olhas, no concelho de Ferreira do Alentejo. É aqui que a mãe tem a produção de melão e também de melancia. É a este local que voltam todos os dias para carregar a carrinha, companheira de viagem. “Nós fazemos de tudo. Na altura do cultivo ajudamos a meter os plásticos, a rega. Estamos envolvidos em todo o processo”, diz Rita Espada, enquanto o seu companheiro vinca: “Aqui não há descanso. Começamos na altura do cultivo e estamos neste local todos os dias. Ao domingo também é preciso comer”.

No mesmo local estão mais vendedores e, na sua grande maioria, são reformados. “Todos os que vendem aqui encaram isto como um complemento. Se não venderem têm a reforma. Nós precisamos disto para orientar a nossa vida. Os tempos estão difíceis”, defende o jovem.

Quando Fábio diz que precisa deste trabalho para  orientar a vida, refere-se à casa que compraram e que está à espera de ser recuperada, mas também ao pagamento das propinas da universidade de Rita, que estuda na Escola Superior Agrária e, como não poderia deixar de ser, seguiu engenharia agrónoma. “Vendo melão para pagar as propinas. Quando se quer muito uma coisa é preciso acreditar e trabalhar para isso”, desabafa Rita.

A jovem sonha um dia poder trabalhar com hortícolas, recorrendo à técnica de hidroponia – cultivar plantas sem solo, onde as raízes recebem uma solução nutritiva balanceada que contém água e todos os nutrientes essenciais ao desenvolvimento da planta. Já Fábio só sonha poder trabalhar no seu ofício. “Sou eletricista. É disso que eu gosto”, refere com orgulho. E o sorriso só esmorece quando se fala na dificuldade em arranjar trabalho na sua área. “Faço biscates. Beja não tem obras. A construção civil está em crise. Está tudo parado”.

Fábio já foi técnico de som e gostava dessa vida, mas um choque elétrico arredo-o desse caminho. Foi preciso começar de novo, contando sempre com o apoio da sua companheira de venda de melão e de vida.

“Invisto e faço várias formações. Não posso estar parado. Agora, ando na venda de melão, mas se Deus quiser será o último ano que estou à beira da estrada de manhã à noite. Pelo menos tenho esperança que isso aconteça”, confidencia Fábio. Até lá, uma carrinha carregada de melão e de melancia transporta-os todos os dias, enquanto esperam que os seus sonhos se concretizem e que sejam, finalmente, transportados para uma outra vida, para a vida que têm esperança que um dia chegue.
feed - Alvitrando
fonte Diário do Alentejo

ANONYMOUS DECLARA GUERRA AO FACEBOOK


Anonymous declara guerra ao Facebook e marca data para primeiro ataque -vídeo

por Giuliana Diaz, Publicado em 11 de Agosto de 2011  
Ciberactivistas anunciam ataque à rede social, que acusam de espionagem em massa.

Já imaginou não poder bisbilhotar a vida dos outros através do Facebook? Ou ter que enviar um email para cada um dos seus contactos a contar as suas novidades ou para enviar as fotos das suas últimas férias? E se não puder contar onde é que está, o que é o que está a fazer, a pensar, a comer, a ver ou a ouvir? Poderíamos voltar a ser iguais ao que éramos antes de uma rede social existir? Se calhar esta visão apocalíptica de um mundo sem Facebook pode acontecer mais cedo do que pensava.
Esta semana foi publicado no Youtube um vídeo titulado “Message from Anonymous: Operation Facebook, Nov 5 2011”. Durante dois minutos uma voz-off acusa a rede social de vender clandestinamente informações sobre os seus membros a agências governamentais e a empresas de segurança, de forma a que estas possam “espiar pessoas em todo o mundo”. O vídeo critica ainda o Facebook pelas suas políticas de transparência e pelas definições de abertura que impõe aos seus membros. “O Facebook sabe mais sobre vocês do que a vossa própria família”, diz a mesma voz, alertando para a inutilidade de se apertarem as definições de privacidade ou para a eliminação da conta.
“Eliminar a conta é impossível. Mesmo que apaguem a conta, toda a vossa informação pessoal fica no Facebook e pode ser recuperada em qualquer altura”, alerta o vídeo. Mas de quem é essa voz? Fazem-se chamar de Anonymous, definindo-se como ciberactivistas, e afirmam lutar pela liberdade de informação. Os membros do grupo não são conhecidos, mas organizam-se numa comunidade online descentralizada e actuam de forma coordenada e com objectivos comuns.
Sucessores do Wikileaks? Sabe-se que os Anonymous partilham as mesmas ideias de Julian Assange, criador do WikiLeaks, que ainda este ano descreveu o Facebook como “a mais apavorante máquina de espionagem já inventada”, argumentando que “aqui [no Facebook] temos a base de dados mais abrangente de pessoas, das suas relações, nomes, moradas, localização, comunicações com outras pessoas, familiares, tudo dentro dos Estados Unidos da América, acessível aos serviços de inteligência norte-americanos”.

Para os Anonymous, Julian Assange é considerado um preso político e todos aqueles que se declararam inimigos do criador do WikiLeaks foram automaticamente atacados pelos ciberactivistas, tal como aconteceu com a PayPal e a MasterCard, que se recusaram a receber donativos para a WikiLeaks e que sofreram ataques dos Anonymous.

Guerra informática “Os que negam a liberdade aos outros não a merecem eles próprios.”

A frase do 16.o presidente norte-americano Abraham Lincon, é vista como exemplo para os Anonymous que lutam pela liberalização da informação.
A guerra informática deste grupo chegou também a todos os governos que participam no acordo comercial a que chamaram Anti-Counterfeiting Trade Agreement (ACTA). Um acordo que pretende dar uma resposta “ao aumento global do comércio de produtos falsificados e pirataria de trabalhos protegidos por direitos de autores”.

A abrangência da ACTA é vasta, incluindo temas como a contrafacção de bens físicos ou a contrafacção digitar, pela Internet. Entre as várias disposições, o acordo prevê a criação de um “regime reforçado de responsabilização legal para os intermediários técnicos como os fornecedores de acesso à Internet”.

Tem medo? Comprar cão já não ajuda Os Anonymous são autores de mais de 70 ciberataques a organismos oficiais no mundo inteiro. A ideia da compra de armas em nome da defesa nacional hoje em dia já não é suficiente. A declaração de guerra dos Anonymous mostra que as guerras, agora, podem não ter canhões nem mísseis, nem tanques ou navios. O ataque não é armado, é informático. O palco do combate não é físico, nem palpável. Esta é uma guerra virtual, com soldados (fardados ou não) em diferentes pontos do universo. Basta tomar como exemplo a Líbia, Egipto ou Tunísia, cujos sistemas informáticos governamentais foram severamente castigados pelos Anonymous durante as revoltas das populações. Armas? Já não servem. Cada vez mais os governos, as empresas e as organizações internacionais são vulneráveis a este tipo de ataques, a defesa informática pode ser agora a melhor forma de combater inimigos.
Sobra uma pergunta: os Anonymous são uma rede de criminosos que devem ser detidos a todo o custo, ou uma rede de pessoas que defendem o aumento da segurança na Internet, a liberdade de expressão e o fim da ditadura e da corrupção política? A guerra vai começar. 5 de Novembro.

Governo tarda a cortar na despesa

12 Agosto 2011, 14:25

Esperava-se esta manhã uma conferência do ministro das Finanças com as medidas que o Governo vai aplicar para cortar na despesa. Em vez disso, Vítor Gaspar anunciou a antecipação do aumento do IVA na electricidade e no gás e o congelamento dos aumentos salariais em dois ministérios. Tarda a promessa do governo no que diz respeito ao corte na despesa e Francisco Sarsfield Cabral considera que o Executivo deve apresentar, o quanto antes, novas medidas sobre esta matéria.
Maior Tv

Uma Frente De Luta

Os comentários a outros comentários exprimem não a Opinião Pública mas as opiniões públicas. Felizmente não existe uma única Opinião Pública. A Internet demonstra este facto. É ela um meio extraordinário que permite e estimula a participação civil e cívica, a discussão, a informação, a pluralidade. Neste sentido amplo é uma contra-informação relativamente às televisões (também à imprensa escrita). É, como se tem verificado, um poderoso meio de convocação. À letra: chamam-se e unem-se as vozes. Este século, este início de um novo milénio, demonstra a força e as potencialidades ainda latentes deste meio de contra-poder. Lembremos as revoltas e revoluções desde o Médio Oriente a outras partes do Mundo. Não esqueçamos de incluir a Europa. Os tiranos temem-na e os governos europeus também. Imagine-se só a sua utilidade se existisse no Portugal da ditadura fascista.


Por tudo isto é de prever que os mandantes deste mundo conspirem para travar, limitar e controlar este meio (as redes sociais, incluindo os blogues e outros dispositivos). Se pudessem, silenciavam-no (é tudo uma questão de poder). Contudo, tiram proveito desses dispositivos (a publicidade, as empresas na bolsa). “Eles” debatem-se com as suas contradições. As redes sociais são, em muitos casos, poderosas empresas e um dos negócios mais lucrativos, tanto mais quanto se interligam com os telemóveis e outras novíssimas tecnologias. Uma boa parte da riqueza de alguns países assenta na invenção, produção e exportação dessas tecnologias, num progresso técnico constante cujos limites não prevemos.

O capitalismo é mesmo assim: contraditório. E sempre foi. Karl Marx entendeu muito bem isso já na primeira metade do século XIX. Então explicou que o capitalismo é um modo de produção simultaneamente positivo e negativo. O que para ele era necessário, por consequência, era que as contradições se agudizassem (quanto mais de desenvolvia), sendo para isso indispensável que a consciência social –pública - não mais suportasse –ou acreditasse – na sociedade movida exclusivamente pelo lucro privado.

Por ora, a internet mostra ser um factor formidável (embora limitado e relativo) de fortalecimento dessa consciência. Defender sem cedências este factor –ou meio – é, hoje, uma importante frente da luta democrática mundial.

+ 1 do Público - Os criminosos são operários, estudantes, homens, mulheres e até crianças.

+ 1 do Público

+ 1 do Público

Os criminosos são operários, estudantes, homens, mulheres e até crianças.


O Público deve perder o resto da vergonha que tenha no focinho (se é que ainda tem alguma) e ir um pouco mais longe. "Os criminosos são operários, estudantes, jornalistas, engenheiros, advogados, empresários, polícias e até deputados e membros da família real".

 

11.08.2011 -  Por Rita Siza

"Por que não aproveitaríamos a oportunidade de ficar com artigos caríssimos à borla?", perguntou um envolvido nas pilhagens "Por que não aproveitaríamos a oportunidade de ficar com artigos caríssimos à borla?", perguntou um envolvido nas pilhagens (Phil Noble/Reuters)
Quem são os indivíduos que compõem a indistinta massa humana que saiu para as ruas de Londres - e de Birmingham, Manchester, Gloucester, ou Liverpool -, desafiando a polícia, roubando à descarada e destruindo tudo o que lhes apareceu à frente, num vandalismo indiscriminado e uma violência aparentemente arbitrária?
Um deles é Christopher Heart, 23 anos, pai de dois filhos, operário da construção, apanhado pela polícia com umas sapatilhas de marca Lacoste e um casaco ainda com o dispositivo de alarme preso à manga, abandonando uma loja de artigos desportivos de Hackney.

Outro é Alexis Bailey, de 31 anos, que trabalha como conselheiro de aprendizagem numa escola primária londrina. Detido em flagrante, no tribunal declarou-se culpado do furto de uma aparelhagem numa loja saqueada em Croydon na segunda-feira..

Ou Aaron Mulholland, que chorou e garantiu ao magistrado do tribunal que tinha aprendido a lição. O nadador-salvador, de 30 anos, trabalha num ginásio de Peckham e aproveitou a confusão para pilhar uma loja de telemóveis.

A polícia também agarrou um menino de 11 anos, que no tribunal de Romford (Essex) confessou calmamente pertencer ao gang que destruiu e saqueou um armazém do grupo Debenhams.

Até agora, tinha-se pintado um retrato impreciso da turba envolvida nos saques e desacatos. A generalização apontava para "jovens de classes desfavorecidas residentes em bairros sociais". Alguns seriam "elementos" já conhecidos das autoridades; outros cidadãos marginalizados, arrastados pela corrente: "Pessoas habitualmente discriminadas e que de repente se vêem poderosas", explicava o criminólogo John Pitts, acrescentando que essa sensação "pode ser tão alucinante como uma droga".

Mas à medida que as centenas de pessoas detidas nas pilhagens e confrontos vai sendo presente a tribunal, é possível ficar com uma ideia mais precisa sobre a demografia dos criminosos. Não há mais rapazes do que raparigas, nem há predominância de minorias, étnicas ou religiosas. Não são todos desempregados ou estudantes sem perspectivas de futuro. E a haver uma "inspiração" para os saques, é a do consumismo desenfreado.

O que têm em comum o recruta do exército, o designer gráfico, o camionista, o estudante universitário, apanhados juntos a pilhar lojas de Londres; o que os leva a roubar sapatilhas e óculos de sol, ecrãs de plasma, telemóveis, roupa de marca, bebidas alcoólicas e até bilhetes da lotaria?

Em Manchester, um repórter da BBC perguntou porquê a uns jovens que estavam a pilhar lojas na terça-feira. "Porque podemos. Porque não nos acontece nada" foi a resposta de um. "Por que não aproveitaríamos a oportunidade de ficar com artigos caríssimos à borla?", replicou o outro. Depois, os dois disseram que era por causa do Governo. "O Governo não manda nada. Se mandasse, nada disto estava a acontecer. Quero lá saber da polícia, por mim vou continuar a roubar até ser apanhado", garantiu um deles.
Publico.pt

José Manuel Osório (1947-2011)




Foi um cantor de Abril. Dos aguerridos. Daqueles que já cantavam Abril antes de ele acontecer. Muito cedo decidiu que o fado não poderia ficar prisioneiro do triste e vil cinzentismo em que tinha mergulhado durante o salazarismo... e trouxe-o, de armas e bagagens (e algum escândalo), para o meio das cantigas de protesto, para o campo da música de intervenção. Antes de Abril, cantando contra o fascismo, a guerra colonial, pela liberdade. Depois de Abril, pela Reforma Agrária e todas as demais conquistas...
Juntos fizemos milhares de quilómetros de “cantos livres”, por montes e vales, aldeias e cidades. Juntos participámos na fundação do grupo de teatro “A Barraca”. Juntos sonhámos um mundo melhor. Deu-me a conhecer inenarráveis fados operários, antigos, daqueles que eram cantados pela calada por gente vestida de ganga...
Há muitos anos, depois de muito tempo sem nos vermos, perguntei-lhe (como sempre se pergunta) “então e estás bom”?... respondeu-me que não, que estava doente e exactamente de quê. “Vou aparecer aí um dia destes” – disse eu... estávamos em 1985.
Quando lhe telefonei, uns dias mais tarde, para nos encontrarmos, dizendo que estava em Lisboa, vindo do Porto, ficou muito surpreendido. Quando, horas depois o cumprimentei (cumprimentámos, já que a “Ampara”, como lhe chamava, também estava presente) com um apertado abraço, senti que se comoveu. Percebi então que quase toda a gente “do meio” o tinha abandonado. Com o passar dos anos e o esbater do medo... a situação acabou por melhorar.
(Estou certo de que muitos deles estarão na primeira linha do funeral)
Os últimos quase trinta anos foram de grande produção artística, nos bastidores. O José Manuel Osório tornou-se um estudioso do fenómeno do fado e deixa obra publicada em belíssimas e cuidadas colectâneas de gravações em CD e vários textos.
Os últimos quase trinta anos, preencheu-os também com a sua disciplinada e obstinada luta diária contra a SIDA, uma luta de contornos fantásticos. Uma luta que foi um inestimável exemplo para muitas centenas de infectados com o vírus (alguns mesmo antes de nascer). Um exemplo de resistência e profundo amor à vida.
Ultimamente (a última vez, pelo Facebook) comunicávamos de tempos a tempos... sempre com projectos de encontros futuros...
- Nunca mais ninguém me chamará em publico “Ezequiel”... com a naturalidade com que o fazias, para espanto de quem nos rodeava e apostaria que me conhecerias bem melhor...
- Nunca mais terei ninguém que cante comigo a duas vozes o “Simón Bolívar” dos “Inti-Illimani”, como tu cantavas!
Até sempre amigo!