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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Fim de tarde

vejo-te da janela ao entardecer
passas esvoaçando com o teu corpo
o teu perfume chega ao meu quarto
e altera a minha pele
o meu pensamento acaricia a tua pele
desperta em mim desejos adormecidos
tempos em que amei
a tua silhueta vai fugindo
mas a tua fragância espalha-se pela casa
parece que te tenho ao meu lado
amanhã vou vencer velhos fantasmas
retirar das paredes retratos antigos
talvez ver-te passar de mais perto
enquanto bebo o café na esplanada
lendo disfarçadamente, nada !

António Garrochinho                                   

pequenos formatos -Alvaro Mendonça no xalé de Bela Mandil


PEQUENOS FORMATOS de Alvaro Mendonça no xalé de Bela Mandil
visite a exposição de arte e poesia e passe uma tarde maravilhosa em ambiente campestre !

é bronco


O processo de descredibilização do novo ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, já começou, e por onde eu esperava - a sua produção académica. Hoje, no Público, na coluna habitual da última página, Sobe e Desce, lá aparece a fotografia do Ministro com a seta apontada para baixo, e a legenda: "Diz-se com insistência que o novo ministro da Economia fala de mais, mas pelos vistos não é só de agora. No seu livro os Mitos da Economia Portuguesa defendeu que, «se a Madeira quiser, um dia poderá tornar-se independente" E dava como exemplo os casos de Malta, Chipre e Timor-Leste. Uma ideia que terá dificuldade em manter agora no Governo»".

Esta legenda remete para um texto na página 6 onde o Jornalista Tolentino de Nóbrega faz alusão a um capítulo do livro de 2007 de Álvaro Santos Pereira onde ele, numa perspectiva académica e económica, analisa a ideia da independência da Madeira, aparentemente concluindo que a Madeira tem condições económicas para ser independente. Diz depois que uma tal ideia só deveria concretizar-se depois de estudos de custo-benefício apropriados, e só depois de feito um referendo.

Aquilo que se pretende passar é que o Ministro é favorável à independência da Madeira, para assim o embaraçar Mas não é isso que ele escreveu. Ele não é nem deixa de ser favorável á independência da Madeira. Aquilo que ele escreveu é que a Madeira tem condições económicas para ser independente, mas que a independência, a concretizar-se, devia ser precedida de estudos adequados e, acima de tudo, de um referendo.

O Ministro da Economia, que é um excelente académico, em breve estará ridicularizado.

O Ministro vem de um país democrático - o Canadá -, onde o separatismo não se resolve à paulada, mas democraticamente. Nos últimos trinta anos, os movimentos separatistas no Québec conduziram a dois referendos onde a população da Província foi inquirida se queria ou não separar-se do Canadá. Em ambos os casos, a resposta maioritária da população foi Não, embora da última vez por uma pequena margem.

O Ministro vai aprender que não está no Canadá. Que está num país sem tradição democrática, onde as coisas se resolvem quase sempre à traulitada, incluindo os debates de ideias. A grande diferença entre o povo canadiano e o povo português (que não a elite) é que, do ponto de vista intelectual, o povo português é bronco (em contrapartida, do ponto de vista do coração - da caridade ou do amor ao próximo , é muito melhor que o canadiano). Não sabe discutir uma ideia, não tem hábitos disso. E eu não me refiro ao povo agricultor ou operário, porque esse, em geral admite humilde e prontamente que não é competente para discutir este ou aquele assunto. Refiro-me ao povo que tem pretensões intelectuais, o povo que geralmente frequentou a Universidade - a maioria dos jornalistas, professores, políticos, bloggers, etc. -, mas que, ainda assim, nunca deixou de ser povo. Esse é que é o pior povo, e tem esse defeito principal - é intelectualmente bronco. Como o Ministro Álvaro Santos Pereira, por certo, já se estará a dar conta.

São como os chapéus...


De facto, há muitos! Os "palermas" são um caso de sucesso, tanto no aspeto reprodutivo, como nos lugares a que conseguem chegar. Apenas dois exemplos, um vindo do PS, o outro diretamente do governo de Passos Coelho.
1. Leio no “O tempo das cerejas” o resumo hilariante de um artigo de “opinião” de um tal Nuno Cunha Rolo, de que o Vítor Dias destacou estas pérolas:
«Orgulho-me de ser socialista desde que nasci, apesar de ter nascido sob a governação marcelista: sou descendente de uma família de socialistas socialistas. Com tenra idade, estive com as ruas e as rosas do 25 de Abril e nunca esquecerei o seu 1º de Maio na Alameda, provavelmente a maior manifestação popular portuguesa do século XXI (...)».
Partilho com o Vítor Dias a impressão de que ser-se socialista (ou comunista, ou católico, ou do belenenses) desde o dia em que se nasce deve fazer um mal danado ao cérebro… já nem se distinguindo cravos de rosas, acabar-se a confundir a Alameda com o Estádio 1º de Maio, isto para além da enorme dor de cabeça e grande confusão que devia ser já estar no século XXI... em 1974.
2. Leio no Público que o ministro da Economia (dos transportes, das obras públicas, do emprego, rei das bifanas, turista acidental e neoliberal emérito), o génio importado do Canadá, Álvaro Santos Pereira, acha que «a Madeira poderá tornar-se independente».
Para apoiar o seu “achismo”, o génio político apoia-se numa série de argumentos patéticos, mostrando principalmente que não passa disso mesmo: um pateta que não consegue ver cinco metros para lá dos vistosos cenários de hotéis de luxo e turismo endinheirado da baixa do Funchal, ignorando a realidade da miséria, da democracia mais do que deficiente, do autoritarismo, da corrupção generalizada, da dependência constante e da dívida gigantesca do falso “caso de sucesso” da Madeira.
Infelizmente, pensando bem, para lá da comédia aparente destes casos, o que fica é uma sensação de grande tristeza...

GASTAR Á FARTAZANA !



Gastou um milhão no Estoril 
Foi mais de um milhão de euros que António José Gomes Cunha desbaratou em jogo no Casino Estoril.
Segundo dados a que o CM teve acesso, deram entrada na CPEE 796 queixas entre Março de 2009 e Março de 2011, mas só em 12 casos aquela entidade detectou matéria criminal, que mereceu denúncia junto do Ministério Público. Das 796 queixas apresentadas, 137 diziam respeito à falta de restituição de quantias por parte dos agentes de execução e quatro davam conta de movimentações irregulares de dinheiro das chamadas contas-cliente (contas nas quais era colocado dinheiro relativo às dívidas recuperadas).
Foram também remetidas à CPEE 56 queixas por penhoras excessivas e 29 por cobrança ilegal de honorários.
D'SUL

Ex-presidente da Câmara dos Solicitadores suspenso de exercer funções públicas

O Tribunal suspendeu o ex-presidente da Câmara dos Solicitadores, António José Gomes da Cunha, do exercício de funções públicas e proibiu contactos com o actual presidente .


Numa nota publicada no site, segundo a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL) informa que "o tribunal aplicou a medida de proibição de entrada em casinos e de entrada no escritório, a medida de suspensão do exercício de funções públicas e proibição de contactos com o actual presidente da Câmara dos Solicitadores".

O Ministério Público tinha requerido a aplicação da medida de prisão preventiva por "entender estarem preenchidos os pressupostos legais", adianta a PGDL. Depois de conhecida a decisão do tribunal, o Ministério Público "interpôs, de imediato, recurso para a ata relativamente ao despacho judicial que decretou as referidas medidas coativas".

O ex-presidente da Câmara dos Solicitadores foi detido na quinta-feira por "indícios de desvio de quantias penhoradas", segundo o Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa.

António José Gomes da Cunha foi detido na sequência de um inquérito relativo a suspeita de apropriação, enquanto solicitador agente de execução, de "quantias de montante elevado, resultantes de penhoras em processos executivos", refere uma nota divulgada anteriormente pela Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL).

Fernando Nobre renuncia ao lugar de deputado.

Nobre, já tinha estado ausente das sessões parlamentares de apresentação do Programa de Governo, tendo alegado motivo de doença.
Será que ficar com um “melão do caraças” por não ser eleito presidente do Parlamento é doença?
A 16 de Abril em entrevista ao Expresso, Fernando Nobre indicava que renunciaria “de imediato” ao seu lugar de deputado, caso não conseguisse a eleição para a presidência do parlamento. Assumia ainda, que aceitara integrar as listas do PSD com o “exclusivo e inequívoco propósito” de ser eleito para segunda figura do Estado.
No dia seguinte, entrevistado na RTP, já dizia: “No caso de não ser nomeado (para o cargo de presidente) na altura certa ajuizarei qual é o lugar mais adequado para mim”. 
Há 15 dias atrás, afirmou que iria cumprir o seu mandato como deputado.
Fica provado que este Nobre, de nobreza não tem nada, mais uma vez arrastou consigo pessoas crédulas que, inocentemente, acreditaram nele, como deputado independente tinha voz e poderia defender as causas que achasse correctas, mas não, o lugar de deputado não tinha o prestígio de presidente da assembleia.
Teve o fim que merecia. Só e desprezado...

O governo pretende cortar entre mil e 1500 freguesias no país na reestruturação da administração local que vai levar a cabo

 O governo pretende cortar entre mil e 1500 freguesias no país na reestruturação da administração local que vai levar a cabo, apurou o i. Porém, o PSD deve evitar mexer no número de municípios, um ponto mais sensível e que ficou em cima da mesa depois da passagem da troika por Portugal. O Memorando de entendimento entre Portugal, Bruxelas e o FMI prevê a redução significativa do número de câmara municipais e juntas de freguesia até Julho de 2012. No seu programa, o PSD é muito mais moderado.

Além disto, o governo prepara-se ainda para reduzir o número de eleitos locais, reorganizar o sector empresarial local e passar algumas competências municipais para um nível supramunicipal, sabe o i. O executivo quer ter os objectivos da reforma autárquica definidos até ao final do ano e para isso já convocou para as próximas semanas as primeiras reuniões com a Associação Nacional de Municípios e com a Associação Nacional de Freguesias.

Contudo, o governo não mostra vontade de avançar com um dos pontos que mais desconforto causam aos autarcas, a redução do número de câmaras. O programa do executivo não vai tão longe como o Memorando de entendimento com a troika, que diz especificamente que "existem actualmente 308 municípios e 4259 freguesias. Até Julho de 2012, o governo desenvolverá um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número destas entidades". No seu programa, o governo fala apenas na promoção de "um acordo político alargado que viabilize uma reorganização do mapa administrativo visando a optimização e racionalização do número de órgãos autárquicos". Questionado sobre esta diferença, o secretário de Estado da Administração Local e Reforma Administrativa, Paulo Júlio, não quis para já adiantar pormenores sobre como a reorganização administrativa local será concretizada, mas adiantou que "o programa da troika é para cumprir". "O Memorando deixa espaço à abordagem e visa sobretudo a redução da despesa pública que vai ser considerada no nosso plano. A reforma administrativa do ponto de vista político é essencial", afirma ao i. O secretário de Estado considera que não pode "haver cegueira na abordagem": "Nada será feito de cima para baixo e há a preocupação de envolver os vários actores. A mentalidade terá de ser aberta, sem preconceitos, e tudo está em cima da mesa. Mas não se pretende fazer cortes cegos."

Em Maio, na apresentação do seu livro "Crónicas de Um Autarca", Paulo Júlio, então presidente da Câmara Municipal de Penela, considerava que a redução dos municípios (a começar pelos mais pequenos) seria um passo contrário à melhoria das condições das populações e que é o poder local, porque está mais próximo das pessoas, que melhor as pode ajudar a compreender as suas necessidades. Este sábado, já como secretário de Estado, Paulo Júlio abordou o tema da reforma administrativa, referindo que tem de haver uma diferenciação entre os territórios do Interior e os grandes centros urbanos.

lisboa é modelo No início deste ano, PS e PSD já se entenderam quanto à redução de freguesias em Lisboa, que passam de 53 para 24. O corte teve por base um estudo que levou em conta aspectos como a população, a história ou o planeamento e o urbanismo das freguesias da capital. A ideia é agora aplicar este mesmo modelo a todo o país no que diz respeito às freguesias urbanas, como já era defendido pelo anterior governo. Porém, as juntas de freguesia com baixa densidade demográfica terão uma abordagem diferente daquela que foi aplicada em Lisboa e será discutida com as associações. Quanto à redução do número de municípios, o governo não quer avançar já para essa hipótese, apesar de ter presente, apurou o i, que os cerca de 70 a 80 municípios com problemas estruturais têm de ser alvo de uma reforma urgente.

A ideia-base é que o municipalismo seja mais centrado, podendo até tornar-se uma alavanca de crescimento económico nos pontos do território com menos densidade populacional.

O sector empresarial local é outro dos pontos em que o governo quer mexer, de modo a reduzir despesas. Dentro de duas semanas será terminado um relatório sobre o sector que depois será analisado e tido em conta, na hora de decidir a reorganização da administração local.

BENTO DE JESUS CARAÇA - CIÊNCIA - CULTURA - POLÍTICA - A SUA ESTÓRIA COM DEPOIMENTO DE DIAS LOURENÇO DO PARTIDO COMUNISTA PORTUGUES

BENTO DE JESUS CARAÇA

Leonor Lains

O HOMEM ESCRAVO DAS COISAS - EIS A GRANDE CONDENAÇÃO, NO CAMPO MORAL, DO REGIME SOCIAL CONTEMPORÂNEO.
QUANDO TUDO ACONTECEU...

OS SENHORES E A TERRA

A origem histórica do latifúndio foi determinada pela política de ocupação e povoamento. D. Afonso II, em 1211, as terras de Avis aos frades, doa.  A colonização interna por senhores feudalizantes a grande propriedade, origina.


O PRIMADO DA INFÂNCIA
Bento de Jesus Caraça, filho de camponeses, nasce em Vila Viçosa. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
A rainha D. Amélia chora o filho e marido - D. Carlos paga com a vida os males atribuídos à monarquia - a 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço em Lisboa - regicídio!  Não muito longe, na Real Academia de Amadores de Música, consternação pela morte do seu presidente, o rei D. Carlos. Marquês de Borba e Duque de Loulé fazem parte dos  corpos sociais. Padre Tomás Borba é professor de Rudimentos, Harmonia. A Orquestra da Real Academia maravilha o público lisboeta com os seus concertos no Salão do Conservatório Real.
A criança calma e feliz, Bento de Jesus, faz a instrução primária ouvindo o repicar dos sinos, o sonar da nova banda a União Calipolense e a barafunda política.
Bento de Jesus cresce ladino como todos os meninos. Aprende as coisas do mundo nas brincadeiras com os irmãos mais velhos e as primeiras letras com José Percheiro, trabalhador sazonal. É uma criança bonita de riso e natural. Cativa todos os que o rodeiam. D. Jerónima, mulher sem filhos, quer assumir a sua educação. Os pais concordam. Leva-o para sua casa em Vila Viçosa para ir à escola primária.
- Então - diz o padre - fica Bento de Jesus.
- Como se chama o padrinho? - pergunta o padre.
No reino da penúria a pelagra e a fome, alastram. Vila Viçosa no Alentejo, eis o Convento das Chagas na Rua dos Fidalgos. Aqui estão albergados alguns dos criados da Casa de Bragança. Um casal de trabalhadores sazonais, João António Caraça e Domingas Conceição Espadinha acabaram de chegar com os seus dois filhos ainda pequenos, Francisco e António. Ela está novamente grávida. A 18 de Abril de 1901 dá à luz um rapazinho. A vida está má. Ele consegue um lugar de feitor na herdade “Casa Branca” da Senhora D. Jerónima, perto das Aldeias de Montoito, a 18 Kms. do Redondo.
                                                                                          Num meio-dia de fim de PrimaveraTive um sonho como uma fotografiaVi Jesus Cristo descer à terra 

VIVA A REPÚBLICA!



«A TRINCHEIRA DA LUTA PELA HUMANIDADE...»


: «o drama presente da civilização ocidental reside precisamente nisto: a uma evolução rápida, de ritmo catastrófico, no plano material, não correspondeu uma evolução convenientemente ajustada no plano espiritual»., em que enuncia o que é o homem culto: «É aquele que: 1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular na sociedade a que pertence. 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano. 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida». Ao mesmo tempo alerta para que não se confunda cultura com civilização. Porque civilização é a capacidade que uma sociedade tem em pôr à disposição do indivíduo todos os meios para tornar a existência fácil, enquanto cultura é o conceito do que seja a vida e a organização das relações sociais que permitam ao indivíduo viver a sua condição humana. Por fim chama a atenção: o desenvolvimento da civilização, só por si, «pode conduzir ao automatismo e à consequente escravização do homem, o que nos é mostrado pela civilização capitalista actual; é isso devido, não a um alto mas a um baixo grau de cultura que permite que os meios de progresso sejam utilizados num ambiente de completo abandono dos objectivos superiores da vida.» Por isso só um reforço intenso da cultura pode abalizar o desenvolvimento da civilização, porque, escreve ele no convida Bento de Jesus para falar sobre a época que se vive, o que dá origem à célebre conferência Salazar
- É urgente converter a educação científica numa praxis colectiva! É urgente promover melhor apetrechamento técnico e científico das Universidades! É urgente introduzir metodologias de ensino interdisciplinares!
Em 1932 a barbárie começa a dar urros lá para os lados da Europa Central. Bento de Jesus tem a intuição do perigo iminente de uma guerra.  Com a vontade firme de um homem forte e consciente escreve no semanário Liberdade:  «Que todos se apercebam bem disto – no momento que passa, a trincheira da luta pela Humanidade é a trincheira da luta contra a guerra.(…)».
Na Alemanha, Hitler a demência do medíocre, exercita. Na Itália, Mussolini a histeria  do nefelibata, excita. Em Portugal, Salazar a estratégia do aracnídeo, tece. Em Espanha, Rivera o abdómen do empáfio, arqueja.


«PORQUE NÓS SOMOS AS NOSSAS IDEIAS»


Em 1943 grande efervescência política e social. Em Lisboa, a casa de Mário Dionísio enche-se de amigos. Juntamente com Francine Benoit, Sidónio Muralha, Alexandre Cabral, entre outros, projectam «muita coisa que esforçadamente ergueu o punho contra a barbárie fascista». Destinadas a um vasto público, organizam as conferências no Grémio Alentejano (actual Casa do Alentejo)  ilustradas com recitais de poesia e música. A primeira conferência é de Bento de Jesus Caraça, alguma reflexões sobre a Arte, e decorre sem problemas de maior. Mas na segunda (e última) tudo muda de figura. O Grémio está a abarrotar. Lopes-Graça  fala sobre a música medieval. Põe um novo disco para documentar o que acaba de dizer. No silêncio momentâneo uma voz avinhada grita: «Vira o disco e toca o mesmo!». Era o sinal. Os mastins atiraram-se ao público como feras esfaimadas. Mas à volta da sala, um cordão de operários da Carris estava ali para o que desse e viesse. «E o que veio foi uma sessão de brutal pancadaria. Os corpos engalfinhavam-se nas salas, rebolavam pelas escadas do Grémio Alentejano abaixo até à rua e, na rua até à esquadra do Rossio. Apesar da indignação que tudo isto provocava, ainda nos mais calmos, Caraça maravilha-se: como era possível haver ainda gente pronta a bater-se, e de tal modo, em defesa da cultura!» escreverá Mário Dionísio na sua pequena autobiografia.
Em 1941 Bento expõe a sua filosofia de que todas as coisas emanam da Vida, têm a mesma matriz. Publica na Biblioteca Cosmos o 1.º volume dos Conceitos Fundamentais da Matemática. No prefácio escreve: «Sem dúvida que a matemática possui problemas próprios que não têm ligação imediata com os outros problemas da vida social. Mas não há dúvida também de que os fundamentos mergulham, tanto como os de outro qualquer ramo da ciência, na vida real; uns e outros entroncam na mesma madre». Caraça e muitos outros querem viver à altura do seu tempo e especialmente à altura das ideias do seu tempo, «porque nós somos as nossas ideias».
Bento de Jesus continua viúvo. Cândida Gaspar é sua aluna no I.S.C.E.F., sigla que os alunos, com humor, traduzem por «Isto Sem o Caraça Era Fácil». O amor entranha-se e enleva o ser. Com os amigos, a luta pela liberdade, o riso, o repasto e uns jogos de futebol nas praias magnificas da Costa da Caparica.


«EXTRAIR O MEDO DO CORAÇÃO DOS PORTUGUESES»
Bento de Jesus Caraça é demitido e proibido de leccionar. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.


obras


 funeral de B.J. Caraça
, António Sérgio faz uma crítica virulenta ao livro. É o confronto entre o criacionismo de Sérgio e o conhecimento científico de Caraça. Sérgio defende a separação entre o mundo sensível e o racional. Entende que a ciência deve aparecer completamente desvinculada da esfera do sensível. Bento Caraça combate esta concepção de ciência porque a intuição do sensível é o húmus do entendimento do mundo, afinal o objectivo da própria ciência. Confronto que ainda hoje atravessa o pensamento português, traduzindo-se pela tentativa hegemónica de uma cultura espiritualista, messiânica, dogmática, de origem judaico-cristã, contra o pensamento e a cultura científica que assentam no gosto do problemático.! O director da revista Em Setembro de 1946, a quinta Edição do 1.º volume dos
No início de 1945 Ortega Y Gasset inaugura em Lisboa um curso livre de especulação e problematização histórica. Numerosa afluência! O pensador espanhol desperta grande simpatia intelectual, segundo Santana Dionísio, «pelo seu espirito, especificamente paradoxal e audaz, inquietante e dramático – para dizer em duas palavras: genuinamente ibérico.». Em Maio manifestações populares pela vitória dos aliados. A 7 de Outubro Salazar vê-se obrigado a convocar eleições. A oposição aproveita a oportunidade. Logo no dia seguinte Bento de Jesus, Manuel Mendes, Câmara Reis, Afonso Costa (filho) e Nuno Rodrigues dos Santos, convocam uma reunião para o Centro Republicano Almirante Reis. Exigem condições de liberdade e reunião, de associação e de imprensa e garantias de lisura no acto eleitoral. Em Novembro os promotores da reunião constituem a primeira comissão central do Movimento de Unidade Democrática (MUD). O movimento explode em poucos dias. Organizam-se de norte a sul comícios entusiásticos. Personalidades dos vários sectores da oposição, monárquicos e católicos dissidentes do regime tomam posição crítica em relação ao Estado Novo. Circulam listas de apoio ao MUD e às suas reivindicações, abertas à subscrição pública em várias casas comerciais. Só em Lisboa são mais de 50 000 subscritores! Saltam para as ruas de Lisboa as “Heróicas” do Graça cantadas pelos jovens do MUD Juvenil. Sintomaticamente o Governo de Salazarabstêm-se em reprimir. Como não há condições democráticas, a oposição recusa a farsa eleitoral.


OS ÚLTIMOS DIAS DE UMA VIDA EXTRAORDINÁRIA


tamanho da minha altura…(Alberto Caeiro)
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do

Salazaraperta o cerco. O Ministro do Interior, Cancela de Abreu, em pessoa, acompanhado por uma brigada da PIDE, apreende um quadro de Mário Dionísio na II Exposição Geral de Artes Plásticas. Bento de Jesus passa momentos difíceis. Problemas financeiros provocados pelo seu afastamento da docência. Cândida também é perseguida, corre entre as aulas e a casa de Campo d’Ourique, onde vivem, na Rua Almeida e Sousa n.º 63 - 1º. A espantosa avidez de conhecer e dar a conhecer permite que Bento de Jesus, apesar de doente, continue a escrever incessantemente e a participar na vida política e científica portuguesa. Vai ao estrangeiro como delegado da Sociedade Portuguesa de Matemática que fundara com outros companheiros matemáticos.
Primavera de 48. Bento de Jesus procura reagir à doença que se agrava. Mesmo quando as forças se desvanecem continua a trabalhar. Tem entre mãos duas obras: um estudo sobre Leonardo da Vinci e uma História da Ciência. Não pode continuar. Cai à cama. O seu médico e grande amigo, professor Dr. Pulido Valente, está à sua cabeceira. Cândida está angustiada. Cuida do filho que já diz as primeiras palavras e, ao mesmo tempo, assiste à morte anunciada do seu querido amor.
Emídio Guerreiro, matemático e militante antifascista, encontra-se exilado em Paris. Através de um amigo comum, envia uma carta a Bento de Jesus Caraça fazendo-lhe uma observação crítica ao modo como Caraça aplica os princípios da dialéctica para explicar a passagem do número racional para o irracional. Mas infelizmente não chega a tempo. No dia 25 de Junho à tarde morre Bento de Jesus Caraça.
Logo que a notícia se espalha, centenas de pessoas acorrem a apresentar condolências e a velar o corpo que se encontra na sua residência. É como se o desaparecimento deste homem extraordinário fosse a morte da grande ilusão de Liberdade que varreu o país nos últimos tempos com a campanha de Norton de Matos.
Noite e dia passam por ali pessoas de todas as classes sociais e faixas etárias. Figuras públicas da oposição, professores, estudantes, cientistas, escritores, músicos,  gente anónima. Na madrugada, Abel Manta, Castro Rodrigues e Joaquim Correia fixam em barro a máscara fúnebre. De Lisboa, do Porto e doutros pontos do país chegam telegramas de condolências. O funeral está marcado para as 10 horas. Campo de Ourique está de luto. Coberto de flores o corpo é seguido pela multidão que cobre as ruas em direcção ao cemitério dos Prazeres. Silêncio profundo, só os passos de milhares de pessoas soam nas calçadas.
O aracnídeo recupera o seu território. Lança a baba pegajenta que afronta a inteligência e a dignidade humana. O manto seboso e tacanho do fascismo escorrega sibilino por entre as vidas portuguesas.
Muitos intelectuais, artistas e cientistas são marginalizados e impedidos de ocupar lugares para que estavam inequivocamente vocacionados. João de Freitas Branco, musicólogo e matemático, ocupará durante anos o modesto lugar de secretário-geral adjunto do Automóvel Clube de Portugal.
Mas o dia da Liberdade chega em Abril de 1974. Agora o I.S.C.E.F. pode homenagear o seu mestre e o país também, para que as futuras gerações não percam o sentido histórico da conquista pela liberdade e investigação científica que hoje começa a ser uma realidade em Portugal.
____________________
(1)           P.S.P. - Polícia de Segurança Pública(2)           G.N.R. - Guarda Nacional Republicana


PIQUENIQUE CLANDESTINO DE ANTI-FASCISTAS DO I.S.C.E.F.
 ACOMPANHADOS PELO PROF. BENTO DE JESUS CARAÇA
Em resposta ao nosso apelo para nos enviarem testemunhos, recebemos do dr. Ildefonso Santos Nóvoa, antigo aluno de Bento de Jesus Caraça, várias fotos de que reproduzimos duas.
Como assinala Ildefonso Nóvoa, estas fotos testemunham um passeio-piquenique que alguns estudantes anti-fascistas do ISCEF fizeram clandestinamente em 1937 - em plena guerra civil espanhola - com o seu professor Bento de Jesus Caraça. Foi na Praia da Adraga, por proposta do próprio BJC, por ser um local pouco conhecido e de acessibilidade difícil nessa época e, portanto, aconselhável nas condições de clandestinidade em que militavam.
PRAIA DA ADRAGA
PÁSCOA DE 1937
PASSEIO PIQUENIQUE CLANDESTINO DE ANTI-FASCISTAS DO I.S.C.E.F., ACOMPANHADOS PELO PROF. BENTO DE JESUS CARAÇA

FOTO Nº 1 – DE CIMA PARA BAIXO:
1-    DINATO FERRÃO -  DA CÉLULA DO BLOCO ACADÉMICO ANTI-FASCISTA DO ISCEF (BAAF do ISCEF)*
2-    CANDIDA GARPAR - DA CÉLULA DO BAAF do ISCEF *
3-    BENTO DE JESUE CARAÇA
4-    MARCELINO DA PALMA CARLOS - DA CÉLULA DO BAAF do ISCEF  E DA CÉLULA D0 PCP DO ISCEF
5-    JOSÉ MATOS CORREIA
6-    VICTÓRIA
7-    ILDEFONSO J.SANTOS NÓVOA - DA CÉLULA DO BAAF do ISCEF  E DA CÉLULA D0 PCP DO ISCEF
8-    JOÃO REMY TEIXEIRA FREIRE - DA CÉLULA DO BAAF do ISCEF *
9-    ERNESTO CASTRO E SILVA – DA FACULDADE DE MEDICINA E CONTROLADOR DA CÉLULA DO BAAF do ISCEF *
10- AUGUSTO SÁ DA COSTA - DA CÉLULA DO BAAF do ISCEF *






No centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça, entrecruzam-se os mais diversos testemunhos, memórias, apreciações. Vêm à tona recordações preciosas de quem com ele chegou a conviver. E é importante relembrar, também desta forma vivida, uma época da nossa história ainda tão próxima e, no entanto, as mais das vezes votada ao esquecimento. Não apenas pela memória. Mas para, recuperando-a, lançar novas pontes para o futuro. De alguma forma, desenterrar as memórias do que foi Bento Caraça para, aprendendo com elas e no quadro da realidade actual, avançar no espírito deste grande humanista.
Aqui damos nota do testemunho de Dias Lourenço, que conheceu, aprendeu e privou com Bento Caraça. Testemunho único, entre muitos outros.

Que tipo de personalidade era Bento de Jesus Caraça?
Estamos hoje a comemorar o centenário do nascimento de Bento de Jesus Caraça. É o centenário de uma grande figura nacional - da ciência, da cultura, da política. Um dos percursores mais destacados do movimento de resistência que nasceu como resposta à ditadura fascista. Como intelectual avançado, progressista, comunista, teve uma acção muito importante, num tempo em que a ditadura fascista se instalou no nosso país. Por tudo isso é uma figura que justamente merece a homenagem, não só do mundo culto português, mas também de todos aqueles que estão interessados no avanço da liberdade, da democracia, do progresso social no nosso país.
Há entretanto uma dimensão da sua personalidade que me parece particularmente importante destacar. Bento de Jesus Caraça foi um grande pedagogo. Deu uma contribuição extraordinária à pedagogia virada para a cultura popular. Procurou sempre que a sua cultura científica fosse como que um degrau para aqueles que não tinham acesso ao ensino superior, e até ao ensino médio, ou mesmo a qualquer forma de ensino. E assim deu uma contribuição impar para elevação cultural dos operários, dos trabalhadores, no seu esforço de autodidactas.
Sendo filho de camponeses, camponeses alentejanos, da zona do latifúndio, da zona do Redondo, onde se situava a parte mais concentrada do latifundismo, sempre teve orgulho de afirmar as suas origens de camponês, as suas origens de classe.
Em 31/32, já então como professor universitário, Bento de Jesus Caraça começa a desenvolver uma actividade múltipla, ligada também ao movimento operário de então.
Que actividade desenvolve, nessa altura, em ligação com o movimento operário?
Já como professor, é convidado por Bento Gonçalves para dar aulas em cursos de aperfeiçoamento. Eram cursos organizados pelo movimento sindical, antes da fascização dos sindicatos, numa altura em que a ditadura fascista já tinha triunfado e, ao movimento sindical, se colocavam tarefas de sobrevivência.
O fascismo iria depois pôr fim, com a Constituição de 33, aos sindicatos independentes. Em 1 de Janeiro de 34, os velhos sindicatos acabaram. Só podiam continuar como sindicatos nacionais, riscando do seu estatuto a luta de classes.
É nesta fase difícil que os sindicatos apostam no desenvolvimento de uma certa acção cultural. Era uma forma de encontrar terrenos de encontro, de debate, de desenvolvimento cultural. Neste início dos anos 30, um dos grandes sindicatos da classe operária portuguesa era o dos arsenalistas da Marinha, em Lisboa, em frente da Câmara. Este sindicato teve um papel muito importante na tomada de consciência do movimento operário. Bento Gonçalves, como torneiro do Arsenal da Marinha, participava activamente no trabalho desenvolvido por este sindicato. É em ligação com este trabalho que Bento Gonçalves entra em contacto com o professor Bento de Jesus Caraça e o convida a dar lições para os cursos de aperfeiçoamento.
Em que consistiam esses cursos de aperfeiçoamento?
A experiência que tenho é no sindicato de Vila Franca. O nosso curso de aperfeiçoamento o que era? Ensinavam-se disciplinas como matemática, francês, gramática, português. Eu até era professor de esperanto...
O objectivo era também criar uma base de atracção, sobretudo para os trabalhadores jovens, mulheres e homens. Elevar a consciência política dos trabalhadores dessa época. Por exemplo, quando se dava filosofia, falava-se em Marx, em Lénine, nas grandes figuras do movimento operário, nas teorias revolucionárias da época, na história revolucionária do mundo. Tentava-se criar uma base de cultura, política também, filosófica, com os trabalhadores que participavam nesses cursos de aperfeiçoamento. Estava-se no início dos anos 30 e importa não esquecer que é nessa altura que se inicia a feroz repressão fascista.
É para um leccionar num destes cursos de aperfeiçoamento, do sindicato dos arsenalistas da Marinha, que Bento Gonçalves convida Bento de Jesus Caraça. E é então, e através de Bento Gonçalves, que se cria a base de relação política de Bento de Jesus Caraça com o PCP.
Eu viria a conhecê-lo mais tarde. Por feliz iniciativa do meu pai, presidente do Sindicato de Vila Franca, e que sempre teve a preocupação de interessar os filhos pela cultura e pela política, vim para Lisboa, frequentar o curso industrial. Comecei então a tomar contacto com a juventude comunista. E é esse contacto que me leva depois a matricular-me na Universidade Popular, então muito conhecida entre os jovens operários da região de Lisboa.
Bento de Jesus Caraça era um dos professores da Universidade, com outras destacadas figuras da cultura portuguesa. Mais tarde ascendeu à direcção da Universidade Popular.
E as lições como eram? Eram na base de uma intervenção do mestre, para abrir ao debate. Havia lá professores como Agostinho da Silva, Diogo de Macedo, Barbosa de Magalhães.
Em 42/43, a Universidade Popular foi encerrada pelo fascismo. Mas entretanto muito trabalho tinha sido feito.
Ele foi meu professor de matemática. Sabe-se como os jovens estudantes em geral têm horror à matemática. Então como hoje. Mas o professor Bento de Jesus Caraça sabia ensinar os alunos a terem amor à matemática, a compreenderem a sua importância como instrumento para uma rápida compreensão e intervenção nos problemas da vida. Ensinava a matemática começando pelas coisas mais atraentes para os alunos. Coisas que lhes dissessem algo. Foi um grande pedagogo.
Cursos de aperfeiçoamento. Universidade Popular. No fundo, estamos a falar também de formas de resistência ao fascismo. Algumas das muitas em que Bento Caraça participou. Queres referir outros exemplos?
Há muitos outros exemplos. A participação no jornal "O Diabo". Os passeios no Tejo.
Nós, os jovens do movimento progressista, do movimento comunista da época, apostávamos então em criar uma base de intervenção na vida cultural e política. Foram-se criando núcleos e é nessa base que se organizam os passeios no Tejo, de barco, em que participavam, em média, 30 a 40 pessoas, intelectuais, trabalhadores como eu, e outros. Bento de Jesus Caraça estava presente em todas estas iniciativas.
Estes passeios de barco, que tiveram início por volta de 1933, foram-se organizando até 41. Reuníamos ali numa zona arborizada perto de Azambuja. E aí fazíamos o piquenique - um pretexto para o convívio e o debate. Participavam também esperantistas. E jovens de outras organizações. Havia, por exemplo, os Naturistas - que resolveram avançar com um movimento naturista que o fascismo não se atrevia a fechar.
Chegámos a fazer, em Vila Franca, grandes convívios, com cerca de 300 participantes, em particular jovens intelectuais ou com preocupações culturais.
Este período corresponde a uma fase em que, face às manobras de Salazar, o movimento democrático, principalmente com a actividade mais dinâmica dos comunistas, tenta organizar-se no sentido de arrancar as liberdades mínimas. De aproveitar as mínimas possibilidades legais - da legalidade colecte de forças do fascismo. O que não era nada fácil, com a repressão. E com a censura.
Já que estamos a falar dos muitos obstáculos que então era preciso ultrapassar, queres falar um pouco dessa grande barreira que era a censura?
Todas as formas de actuação e resistência anti-fascista tinham que passar várias barreira - a barreira policial e a barreira da censura. Como vencer a intervenção da censura, que era feroz na época? Tínhamos que encontrar as formas de vencer esta barreira. De fazer passar a mensagem.
Bento de Jesus Caraça e toda a nossa intelectualidade mais destacada teve que enfrentar essa outra arma poderosa do fascismo, que era a censura. E que era um obstáculo a que pudesse exercer um papel fundamental no debate de ideias, na cultura. Havia jornais que eram impedidos de sair sem alterarem um ou outro parágrafo. O lápis azul da censura era um inimigo terrível, na difusão das ideias, da cultura, da informação. Havia mesmo comissões distritais de censura, comissões para o teatro, comissões para a imprensa, etc.
Em termos literários, a acção da censura é impressionante. Foram apreendidos três mil e trezentos e cinco livros nacionais e estrangeiros (trezentos e vinte e dois portugueses). Escritores de uma grande projecção tiveram dezenas de livros proibidos e apreendidos. Oito jornais estrangeiros estavam impedidos de entrar em Portugal. Um dos atingidos, de entre as publicações nacionais, foi o jornal "República", que teve um papel muito importante na informação na época.
E como é que se conseguia, de alguma forma, tornar essa situação?
Com a participação em publicações como "O Diabo", por exemplo.
"O Diabo" era um jornal anti-fascista, criado em 34. Teve directores como Quintanilha, Ferreira de Castro. Foi entretanto o seu administrador, o Horácio Cunha, que alargou o âmbito de acção desta publicação. Era um homem que queria abrir portas. E abriu as portas ao jovens. E os jovens entraram. Entre eles Álvaro Cunhal.
Bento de Jesus Caraça foi um dos grandes colaboradores de "O Diabo". Convivia com isto tudo. E estes jovens de "O Diabo" - eram o diabo em figura e gente... Nós procurávamos penetrar em todos os terrenos em que era possível intervir, debater os grandes problemas da época. Fui colaborador de "O Diabo", entre grandes nomes da intelectualidade da altura. E costumo dizer que sou "um pigmeu entre gigantes".
Não esquecer nunca que esta foi a época do triunfo do nazismo, do triunfo da República em Espanha, do triunfo da Frente Popular em Espanha e França. O começo e o fim da guerra civil espanhola. É um período extremamente agitado da vida mundial. Que se reflectia muito profundamente em Portugal.
Como se compreende era uma época de acesas polémicas.
Este é o pano de fundo em que Bento de Jesus Caraça virá a assumir uma outra grande realização - a colecção "Cosmos".
Como surgiu a ideia da colecção "Cosmos"?
Nesta época, de grande repressão, os presos políticos iam directamente para Angra do Heroísmo.. De Angra iam depois para o Tarrafal uns, outros ficavam lá, outros regressavam. Mas Angra era, em geral, o porto de chegada dos presos políticos que iam deportados.
Ora bem, um dos presos políticos deportados foi o Manuel Rodrigues, que era comunista, e viria a ser o principal detentor do capital inicial da editora "Cosmos". Foi ele mesmo que me contou esta história.
Em Angra, Manuel Rodrigues encontrou-se com o Bento Gonçalves, já então conhecido como secretário-geral do PCP, e colocou-lhe uma questão: "Ó Bento - eu tenho umas coroas e não sei que lhes hei-de fazer. Está-me a custar perder aquilo de qualquer maneira... Tens alguma ideia da utilidade possam ir a ter?".
E o Bento Gonçalves respondeu: "Sim. Tu podes avançar com uma editora de livros virados para a cultura popular. Bem feitos, para passar as malhas do fascismo. E podes fazer uma coisa com grande expansão - cultural e revolucionária. E olha - a pessoa indicada para dirigir isso é o professor Bento de Jesus Caraça. Vais ter com ele - dizes que vais da minha parte - e pões-lhe esse problema".
Bento de Jesus Caraça aceitou a proposta e assumiu a direcção da colecção. Foi este o ponto de partida para a criação da "Cosmos".
Qual era o objectivo da "Cosmos"? Era ser uma editora cultural, com caracter enciclopédico. O que bento de Jesus Caraça concebeu foi uma enciclopédia virada para a cultura popular. A colecção englobava a cultura nas suas diversas expressões, com a edição de livros de autores estrangeiros e portugueses, livros que focassem de uma forma mais directa os diferentes sectores de conhecimento, da actividade cultural, científica. Todos os 129 volumes publicados pela Cosmos - um milhão de exemplares - se integram nesta perspectiva.
A "Cosmos" foi uma outra grande criação desta personalidade multifacetada que era Bento de Jesus Caraça.
Que outras facetas da sua personalidade gostarias de realçar?
Penso que há uma parte da personalidade de Bento Caraça que não está a ter o necessário relevo. Claro que merece todo o relevo o papel que ele teve na vida cultural e científica. Mas penso que a forma como se tem vindo a falar da sua actividade democrática, tem sido um pouco limitada. E essa actividade teve uma expressão muito vasta. O nome de Bento de Jesus Caraça está ligado a toda a actividade antifascista e democrática desenvolvida na época. Nomeadamente quando, com o fim da guerra e a derrota do nazismo, Salazar se vê obrigado a manobrar, a designar o fascismo português "democracia orgânica", e o movimento democrático tenta afirmar-se, aparecer à luz do dia, participar na vida política.
Bento de Jesus Caraça destaca-se desde logo nesta acção do movimento democrático, que então tentava forçar formas de acção mais abertas para poder avançar.
Na análise dos acontecimentos desta época é preciso ter sempre presente que não era possível desenvolver uma actividade política contra o fascismo, sem ter estruturas clandestinas, ilegais. Quer dizer - todos esses movimentos legais que apareceram na época tiveram, na sua criação e dinamização, na sua dinâmica até, a acção dos movimentos que estavam na clandestinidade. Em particular do Partido Comunista Português, da juventude comunista.
Em 1943 é criado um organismo clandestino, com uma grande força no movimento democrático em Portugal - o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista - o MUNAF. Este movimento englobou e trouxe ao seu seio os democratas mais combativos, aqueles que se dispunham mais a assumir o risco da acção política na época. Principalmente comunistas.
Este movimento era encabeçado pelo Conselho de Unidade Nacional, dirigido pelo general Norton de Matos, e era constituído por núcleos de anti-fascistas destacados, combativos.
O Bento de Jesus Caraça pertenceu ao Conselho Nacional de Unidade Anti-Fascista. Um facto que tem sido um pouco apagado..
O Conselho de Unidade Nacional Anti-Fascista vivia secretamente, com rígidas formas de secretismo.
E naturalmente cada um só sabia aquilo de que precisava de saber. Por isso mesmo, muitos não sabiam que o Bento de Jesus Caraça, como outros, era membro do PCP, embora não estivesse no Conselho como membro do PCP. Mário Soares, cujo liberalismo relativamente à cronologia e verdade da história é conhecida, veio nestes dias à televisão pôr em causa a qualidade de comunista de Bento de Jesus Caraça. Mas a verdade é que Bento Caraça foi militante do PCP.
Ao Conselho, o Bento de Jesus Caraça deu uma contribuição muito grande, que muitos poucos sabem. Foi ele quem elaborou o projecto de programa para o Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista. Que naturalmente foi depois submetido à discussão no Conselho, em que houve opiniões diversas e o programa saiu com a recolha de todas essas opiniões. Mas Bento de Jesus Caraça teve a confiança de todos para fazer um documento destes.
E das suas características humanas, queres dizer alguma coisa, contar algum episódio que tenhas vivido com ele?
Aqui vai um episódio, que me parece de todo o interesse.
Numa reunião do Conselho Nacional, estavam presentes o Dr. Nuno Simões, que era advogado de Lisboa, e um médico do Porto, o Dr. Veiga Pires. Como democratas, eles eram muito amigos os dois. A certa altura o Nuno Simões, que era assim "meia bola e força", faz considerações desprimorosas para o povo do Porto. E o Veiga Pires interveio muito chocado e diz que ali está a ser insultado "o heróico povo do Porto". Começam a discutir os dois e desafiam-se para a pancada, quando acabasse a reunião.
Entretanto a reunião teve um intervalo para o almoço e eu agarrei o professor Azevedo Gomes e o Bento de Jesus Caraça e disse-lhes: "Meus amigos, não devemos deixar que estes dois homens saiam daqui inimigos". Eles foram falar-lhes e conseguiram. Saíram dali amigos.
Bento de Jesus Caraça tinha essa grande outra particularidade - a capacidade de congregar pessoas de opiniões diferentes, um grande poder de ganhar para uma ideia comum os que tinham ideias diferentes entre eles. Era um homem com uma grande abertura. Um grande prestígio. E uma forma de falar politicamente elevada.
Este caso é significativo também do espírito de Bento de Jesus Caraça.
Bento de Jesus Caraça foi, como é conhecido, alvo da repressão fascista. De perseguições que iriam mesmo acelerar a sua morte. Acompanhaste este processo?
Sim. A certa altura desencadeia-se a repressão fascista contra os intelectuais, contra o professorado, até pelo seu apoio às lutas estudantis. E naturalmente pela sua participação no movimento antifascista.
Esta onda repressiva corresponde também a uma fase em que - com base no trabalho dos movimentos antifascistas ilegais - se tinha conseguido organizar um movimento legal - o MUD.
É em 1945 que é constituído o MUD e o MUD juvenil. E começam a ser criadas outras organizações - o movimento para a paz, o movimento das mulheres.
Bento de Jesus Caraça, foi um dos dirigentes do MUD, um dos seus percursores.
E, nesta qualidade, começa então a ter que dar a cara, pelo que cai sob a alçada da polícia. A primeira grande ofensiva é a de 46, em que um grande núcleo de professores, dos mais destacados do ensino universitário, são presos e, grande parte deles, expulsos do ensino. Como foi o caso de Bento de Jesus Caraça.
Já então ele estava gravemente doente. E a prisão foi um dos factores que mais contribuiu para a sua morte.
Tive contacto com ele praticamente até ao último minuto da sua vida. Fui a sua casa, em Campo de Ourique, no próprio dia da sua morte. Entro e vejo a casa cheia de gente consternada. Ele estava na agonia. Como eu estava então na clandestinidade, tive que me vir embora.
Em síntese, que te parece mais importante dizer do que foi a vida e a personalidade de Bento de Jesus Caraça?
Bento de Jesus Caraça era uma pessoa admirável. Um homem de um grande saber e de uma grande modéstia. E, por outro lado, com um grande sentido humanístico. Ele era de uma humanismo que ressaltava na sua personalidade. E uma pessoa de diálogo.
Ele foi um dos combatentes mais activos pela paz, pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo, pela abolição da exploração do homem pelo homem. Um combatente denodado, decidido.
Penso que, quando hoje, no centenário deste homem, se está a exaltar, e deve ser exaltado, a sua personalidade de cientista, de pedagogo, se deve também necessariamente dar relevo à sua personalidade política, ao que ele foi, em termos políticos, nas épocas duras do fascismo, na luta contra a ditadura fascista. Isso também é importante dizer.
Morre em Lisboa, no dia 25 de Junho, vítima de doença cardíaca.Conselho de Ministros determina a sua expulsão da cátedra universitária e fica proibido de exercer a docência. - Oemocrática). - nidade ovimento de Faz parte da comissão executiva do MUD (ascista) criado em Janeiro. - nti-acional nidade ovimento de Faz parte da direcção do MUNAF (Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática. - Funda a “Biblioteca Cosmos”, edição de livros de divulgação científica e cultural; publica o 1.º volume dos “Conceitos Fundamentais da Matemática”. - Funda com os professores Mira Fernandes e Beirão da Veiga o Centro de Estudos de Matemáticas Aplicadas à Economia, numa tentativa de trazer a econometria para Portugal. - publica em 2 volumes “Cálculo Vectorial”. - Funda com outros recém doutorados nas áreas da matemática e física o Núcleo de Matemática, Física e Química. - 1.º volume das “Lições da Álgebra e Análise”. - Conferência na União Cultural Mocidade Livre: “A Cultura Integral do Indivíduo - problema central do nosso tempo”, na qual esboça um programa de intervenção cultural, científica e pedagógica. -Publica as suas lições em livro “Interpolação e Integração Numérica”. - Concurso público com alto louvor e ascende à cátedra de Matemáticas Superiores. - É nomeado professor extraordinário. - É nomeado 1.º assistente. - Obtém a licenciatura. - Adoece gravemente com doença reumática, com sequelas cardíacas. É nomeado 2.º assistente do ISCEF. - Inscreve-se no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (actual ISEG). - Vai para Lisboa. Frequenta o Liceu Pedro Nunes. - Termina a escola primária com distinção. Vai para o Liceu em Santarém. - 1902: 1901:
Matemático, professor, político: 1901- 1948

MARCELO O PAPAGAIO CINZENTO !

Cavaco Silva – O subsecretário...




Foi este o “pensamento” político que ocorreu a Aníbal Cavaco Silva, para esclarecer a sua posição sobre o roubo de metade do 13º mês a milhões de portugueses, roubo que, segundo as estimativas, renderá 800 milhões de euros que irão direitinhos para os bolsos de especuladores e banqueiros, sem terem criado um posto de trabalho, sem terem resolvido um único dos problemas com que nos defrontamos.

Desde a chegada ao poder do seu governo PSD/CDS, que as declarações do Presidente da República têm ido sempre no mesmo sentido: o da amorfa subserviência, da defesa da obediência cega aos ditames da troika, da capitulação, do colaboracionismo mais abjecto, do roubo de muitos para o usufruto de uns poucos. Tem misturado estes “conselhos” com (muito pouco) velados elogios e louvores ao novo executivo de Passos Coelho que, agora sim, tem condições para dar esperança ao povo...

Já se sabia que o cidadão Aníbal possui o minúsculo nível de vergonha na cara que lhe tem permitido acumular o ordenado de PR com os ganhos de trocas manhosas de propriedades no Algarve, lucros duvidosos com títulos de bancos arruinados, vendidos a preço de favor por criminosos que antes foram seus colaboradores, etc.

Resta agora saber se terá o descaramento de cobrar igualmente “cachet” por esta sua nova atividade, a de “subsecretário de estado da propaganda”.

48. Vocações



A Mariana era a sua namorada e ele um incorrigível brincalhão. Uma das suas brincadeiras preferidas era inventar mentiras das que se desfazem ao fim de cinco minutos ou que, quando se não se desmoronavam por elas, ele próprio se encarregava de o fazer. Qualquer situação servia para que ele inventasse uma mentira. Na santa ingenuidade da adolescência e até mesmo quando já era um pouco mais crescido achava que não fariam mossa, pelo que por vezes perdia a noção do alcance ou de como, com isso, poderia estar a magoar alguém. Até a ele mesmo. Naquele dia, disse a Mariana que não poderia ir buscá-la ao emprego porque iria para a piscina. Depois de uma troca de palavras mais ou menos inquisitórias de um lado e explicativas do outro, Mariana ficou a saber que no Instituto onde ele estudava havia uma piscina. Ficou a saber mas não acreditou.

Desciam com frequência dos Anjos ao Terreiro do Paço, a Almirante Reis, a Rua da Palma, viravam à Barros Queiroz, entravam no Largo de S. Domingos, acediam à Praça da Figueira pela rua do Brás e Brás, passavam pela esplanada da Suíça, desciam a rua da Prata, davam uma olhada ao Martinho e apanhavam o vapor no Terreiro do Paço. Era bom o passeio, tanto poderiam beber (ele, ela não gostava de álcool) uma ginjinha do Espinheira, comer uns passarinhos fritos no Petiscabebe, um bolo na Lua de Mel ou um café no Martinho da Arcada e, o que era melhor ainda, namoravam mais tempo do que se optassem pelos transportes públicos. Mas não naquele dia. Naquele dia, ele entrou na Igreja de S. Domingos, deu esmola aos três pobres que pediam à porta, rezou alguns minutos e, quando saiu, informou-a que o namoro teria de acabar ali. Ele seguiria a sua vocação, iria entrar no Seminário e esperava, um dia, vir a ser frade dominicano. Naquela tarde, ele em meditação de cabeça baixa, ela num mar de lágrimas, não viram o pôr-do-sol que dourava as águas do Tejo e transformava o mar da palha num mar de fios de ovos.

Nem quando começou a namorar com Mariana ele deixou de ir aos bailes do clube. Mariana não se importava e sugeriu-lhe, em tom de brincadeira, que ele tentasse um casting no Bolshoi. Ele contrapôs com o bailado da Gulbenkian onde, aliás, lhe contou que já estava inscrito. Não foi a gota de água. Outras se seguiram e Mariana desistiu. Não antes de o ter visto descer as escadarias do Instituto, com os longos cabelos, que ele usava naquela época, completamente molhados de mais uns mergulhos na piscina. Virou-lhe as costas e nem reparou que o pas-de-deux estava ser dançado pela esguia bailarina que o acompanhava. Mas uma coisa ela teve a certeza de ter reparado. Ele não vestia o hábito dominicano.

Texto e foto (Malta, La Valleta) do autor. Todos os direitos reservados.
Constantino guardador de vacas blog

NÃO CONSEGUIU O TACHO PRETENDIDO MAS CUMPRIU A MISSÃO DE DIVIDIR E ENGANAR OS PORTUGUESES ! ( cabeçalho da responsabilidade de António Garrochinho)

Fernando Nobre poderá estar prestes a concretizar a ameaça de renunciar ao cargo de deputado caso não fosse eleito Presidente da Assembleia da República, tal como tinha anunciado em Abril passado, noticia hoje o Diário de Notícias.

Esta ilação, revelada "por vários dirigentes da bancada do PSD", tem por base o facto de Nobre ter faltado aos dois dias de debate do programa de governo, embora alegando doença.

Recorde-se que a 20 de Junho, primeiro dia da legislatura, Nobre foi duas vezes a votos para o cargo de Presidente da Assembleia da República, não tendo atingido os necessários 116 votos para ser eleito.
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