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segunda-feira, 16 de julho de 2018

José Mário Branco: “No estado em que esta porcaria está não sei o que hei de dizer. Não me sinto bem a cantar as coisas do costume” [VÍDEO]



“As pessoas dizem-me 'As tuas canções são tão boas, a gente gosta tanto'. Então ouçam os discos”. Em entrevista à BLITZ, José Mário Branco explica por que razão se mantém afastado dos palcos



 

José Mário Branco regressa com "Inéditos 1967-1999", um disco duplo que reúne canções feitas para filmes, maquetes restauradas, singles e temas 'perdidos'. A esse propósito, deu à BLITZ uma longa entrevista da qual pode ver, desde já, um excerto. Neste momento da conversa, o músico justifica a sua relutância em gravar novo repertório e voltar a dar concertos.
"O meu trabalho agora é dirigir os outros e fazer música para os outros. Pode ser que eu volte a cantar em palco, pode acontecer. Agora, não sei muito bem o que é que hei de dizer, no estado em que esta porcaria está. Não me sinto bem ir para o palco cantar aquelas coisas do costume".

VÍDEO

blitz.sapo.pt


CARTA DE FRIDA A DIOGO RIVERA


Escrever na praia



À medida que a legislatura se aproxima do fim, começam a surgir textos de balanço sobre o que representou a experiência da actual maioria para o país e para a esquerda. Um desses balanços foi proposto pela Catarina Príncipe, num texto na Jacobin.

Porque este debate é importante e porque as questões levantadas são pertinentes, gostaria de participar nele. Usarei como referência o texto da Catarina, com tradução minha dos excertos citados.

Resumindo a minha leitura do texto, diria que o texto da Catarina avança com alguns diagnósticos correctos, outros forçados e outros ainda contraditórios para chegar a uma conclusão… a que depois não chega.


Diagnóstico 1: “O papel atribuído a Portugal era o de servir como exemplo para o resto da Europa. Servia para provar que austeridade funciona.”

A primeira ideia é a de que as instituições europeias teriam escolhido Portugal para ser o bom exemplo da austeridade e que teriam dedicado a Portugal um tratamento mais favorável do que o dado à Grécia. Claro que uma hipótese alternativa seria a de que as instituições europeias simplesmente apoiaram um governo como o de Passos Coelho que implementava fervorosamente as suas orientações e perseguiram um Governo como o grego que dava sinais de uma potencial insubordinação, sinais infelizmente nunca confirmados.

Na verdade, a actual maioria parlamentar foi recebida com inequívoca hostilidade. A Catarina conta muito mal a história quando diz:

“Mais tarde em 2016, embora o nível do défice estivesse acima do limite imposto pelo Tratado Orçamental, a Comissão Europeia decidiu não aplicar sanções a Portugal ou Espanha.”

Falta dizer que o défice de Portugal estava muito abaixo do de outros países como a França e incluía uma redução muito considerável no OE2016 para valores inferiores aos do PEC, ao contrário da França, mesmo antes de ser rejeitado pela Comissão, obrigando a uma revisão. É verdade que beneficiámos da companhia do governo de direita da Espanha, como refere a Catarina. Também beneficiámos da percepção de que as sanções penalizariam politicamente o governo anterior e não o actual. Mas não é menos verdade que o arrastamento da polémica durante meses foi mais uma punição política e financeira à nova maioria e a um governo acabado de empossar ou, no mínimo, um aviso à navegação. Ao longo da legislatura, a opção da Comissão foi a de tolerar a actual solução, escolha possível, claro está, porque o Governo sempre fez questão de afirmar que as regras do Euro seriam escrupulosamente respeitadas. E foram.

Diagnóstico 2: “Retrospectivasmente, esta foi uma boa opção tática: num clima de recuperação económica lenta, mas estável ao nível Europeu e nacional, permitia ao PS usar a margem de manobra a seu favor, com a introdução de políticas de austeridade-leve.”

O termo austeridade não é um termo técnico e, portanto, presta-se às mais variadas definições, incluindo as de geometria variável. Por isso, se quisermos definir a política actual com recurso a essa terminologia, temos primeiro de nos entender sobre o que queremos dizer quando falamos de austeridade. Para que a definição escolhida tenha alguma coisa a ver com a percepção pública que existe sobre o assunto, proponho definir como austeridade, a política defendida por Bruxelas de desvalorização real, ou seja, de compressão dos salários, incluindo naturalmente os serviços públicos.

“No entanto, longe de ser uma solução, a austeridade agrava o problema, criando um ciclo vicioso de redução salarial, redução do consumo, aumentos de impostos e aumento da dívida pública. Mas Portugal, de facto, ganhou alguma margem de manobra, libertando-se desse processo.”

Um bom resumo de ambos os processos. Mas o que a Catarina faz é descrever o processo que é desencadeado pela política de austeridade para depois dizer que Portugal se "libertou" desse processo e logo a seguir voltar a falar de austeridade:

“O facto de a austeridade já não ser tão dura permitiu uma pequena retoma do rendimento (essencialmente entre os funcionários públicos e pensionistas), que começou lentamente a reconstruir uma classe média desmantelada.”

Vale a pena referir que os pensionistas que beneficiaram de medidas de reposição de rendimento andarão perto dos 3 milhões. Mas a esses ainda convém somar dois universos com sobreposição, os 669 mil funcionários públicos e os 670 mil trabalhadores com salário mínimo, bem como os beneficiários de prestações sociais que viram repostos os cortes nessas prestações. Se somarmos a estes os contribuintes afectados pela reversão (muito) parcial da reforma do IRS executada por Vítor Gaspar, temos que uma enorme maioria da população beneficiou de medidas de reposição de rendimento, e certamente a parte mais desfavorecida.

É evidente que esta política está bem longe de repor sequer os níveis de rendimento pré-troika, quanto mais de traçar um futuro decente para a esmagadora maioria das pessoas. No entanto, chamar a isto austeridade-leve é promover um equívoco altamente prejudicial para a compreensão da situação política. Um equívoco que, aliás, a direita tem encorajado por duas razões: a) iliba o seu próprio governo através do discurso “eles estão a fazer o mesmo” e b) consolida a percepção de que as alternativas à austeridade são ilusórias. Mais rigoroso seria definir a actual política como anti-austeridade-lite.

Diagnóstico 3: “Uma retórica de limitação da pobreza veio a substituir qualquer apelo à resistência às políticas de austeridade impostos a nível Europeu.”

O diagnóstico mais grave do texto da Catarina é o que basicamente coloca os partidos à esquerda no bolso do PS. Retrospectivamente, a Catarina critica a estratégia negocial dos parceiros à esquerda do PS por não terem ido mais longe na negociação do acordo. Começando pelo desafio lançado por Catarina Martins a António Costa, que a Catarina descreve da seguinte forma:

“Esta foi uma táctica inteligente: forçou o PS a definer-se politicamente e a clarificar as suas lealdades. Mas baseava-se em 3 premissas que depois se revelaram incorrectas: 1) que o PS ganharia as eleições, 2) que o Bloco de Esquerda teria um resultado baixo e 3) que o PS se recusaria a negociar com a esquerda.”

As premissas são da Catarina (Príncipe) e não nos permitem perceber então porque é que o apelo foi reiterado na noite eleitoral, já depois de conhecidos os resultados eleitorais (ou seja, sem as premissas 1 e 2) e, já agora, porque é que o PCP manifestou, também na noite eleitoral, igual disponibilidade. Se era tudo um bluff, porque é que acabou por acontecer?

Daqui a Catarina parte para a crítica do acordo obtido, por considerar, aparentemente, que teria sido possível obter condições mais favoráveis da parte do Partido Socialista. É um posição optimista sobre um debate especulativo, mas muito interessante: teria sido possível introduzir elementos mais precisos no que diz respeito a matérias como legislação laboral, serviços públicos ou investimento? Teria o PS assinado um acordo com essas características? Podia a esquerda não assinar o acordo a que efectivamente se chegou? A Catarina parece achar que sim, mas não se pode dizer que se perca em detalhes sobre o assunto:

 “Esta estratégia deveria ter acentuado as contradições do governo do Partido Socialista, através de uma estratégia dentro-fora virada para exigências conducentes a uma verdadeira superação da austeridade e aproveitando a acumulação de descontentamento. Neste quadro, era necessário deixar em aberto a possibilidade de, no limite, quebrar o acordo, mesmo que com o custo de derrotas eleitorais temporários.”

Na realidade, é difícil perceber em que é que a primeira parte desta recomendação é diferente do que foi feito, seja no plano institucional seja no plano dos movimentos, quer pelo Bloco, quer pelo PCP, salvaguardando diferenças de estratégia e cultura política. No plano institucional, a esquerda manteve uma linha de proposta autónoma, combinada ou não com negociações com PS e governo. Esse facto, de resto, foi frequentemente comprovado pelos diversos momentos de tensão ou divergência aberta que marcaram e continuam a marcar a vigência do acordo.

No plano dos movimentos, aos quais a Catarina dedica uma boa parte do final do texto, a realidade é bem mais eloquente. Quando o acordo foi assinado, o movimento social vivia numa letargia absoluta que data da crise política que ocorreu a meio do mandato do governo das direitas. Essa crise decorreu das enormes mobilizações dos primeiros anos da troika e a sua resolução foi um golpe profundamente desmoralizador para os vários movimentos. Até ao final do mandato das direitas, esse foi o estado do movimento social em Portugal.

O acordo mudou isso? Nos primeiros anos com a nova maioria, a resposta parecia ser claramente que não. A contestação parecia ter passado para as mesas de negociação e o atentismo era a postura dominante na maior parte dos movimentos.

Hoje, no entanto, isso não é, pura e simplesmente, verdade. Há, nomeadamente na frente dos serviços públicos e em lutas laborais concretas, um cenário bem mais animador. E indiscutivelmente melhor do que aquele que existia quando o acordo foi assinado. E a explicação é, na realidade, bem simples: os movimentos não se movem apenas por indignação ou injustiça. Também precisam de ter gente que acredita que pode ganhar. E nos últimos 3 anos, houve vitórias. Por mais modestas, por mais parcelares, por mais invisíveis para a Catarina que sejam, essas vitórias constroem mais mobilização do que todos os “apelos à resistência” que, de resto, nunca deixaram de ser feitos.  

Conclusões: “Se o Partido Socialista propuser um novo acordo de governo, com que base política pode a esquerda não aceitar? Se em 2015, o “medo da direita” serviu para justificar toda a espécie de acordos, o que poderá fornecer um pretexto similar em 2019?”

Para ser franco, esperava que um texto tão demolidor no plano do diagnóstico tivesse dado origem a uma proposta estratégica clara, por mais polémica ou ousada que fosse. É de certa forma um “anti-climax” que um texto que propõe um diagnóstico tão sombrio sobre uma esquerda radical refém da social-democracia acabe com referências consensuais à importância da luta não-institucional e interrogações quanto ao resto.

Se o acordo está a sufocar a resistência, deve esse acordo ser repudiado? Deve um novo acordo ser rejeitado à partida? Se a resposta da Catarina for, como a minha, não a ambas, é justo dizer que essa posição se deve ao tal “medo de derrotas eleitorais”? E nesse cenário, quais seriam as condições concretas da Catarina? Tudo isto fica por responder e é uma pena. Pela minha parte, respondo:

1. Fizemos bem em assinar o acordo, mesmo que não tenhamos feito tudo bem nas negociações e depois delas, e apesar da lamentável falta de diálogo entre as forças à esquerda do PS. Se a esquerda radical tratar a vida das pessoas como um detalhe nos seus debates estratégicos, bem pode preparar-se para o justo desprezo a que foi votada em muitas paragens dessa Europa pelo povo que diz defender. Se a esquerda rompesse o acordo por outra razão que não fosse uma flagrante violação do acordo por parte do PS, seria simultaneamente responsável e vítima, não de uma derrota eleitoral, mas sim de uma profunda derrota política e social. Não é por acaso que a Catarina fala dessa hipótese a título meramente teórico, com o extremo cuidado de não se comprometer;

2. É, para mim, impensável que a esquerda não formule uma proposta concreta de convergência para o próximo ciclo político, que avance com propostas nas principais áreas em que este governo falhou: saúde, educação, ciência, cultura, investimento público, legislação laboral e dívida. Uma proposta certamente mais exigente porque as pessoas o exigem, mas uma proposta séria porque as pessoas também o exigem;

3. Continuo a não vislumbrar qualquer contradição (muito pelo contrário) entre um programa abertamente eurocéptico e anticapitalista como são os do PCP e BE e uma acção concreta quotidiana, dentro e fora das instituições nacionais e europeias, na procura de todas as vitórias possíveis para a vida das pessoas hoje. A alternativa é uma esquerda tão inofensiva quanto os seus apelos, refugiada na sua inutilidade. Felizmente, Bloco e PCP, fizeram a única escolha radical: fazer o combate do seu tempo em vez de se meterem no cantinho da razão.

Serra da Estrela coberta de branco em pleno verão



Regiões do Norte e Centro do país foram afetadas por trovoadas e queda de granizo

Ao longo da semana passada, foram partilhadas várias imagens nas redes sociais que mostram a Serra da Estrela coberta de branco em pleno verão, depois de o granizo que se fez sentir ter caído nas zonas do Norte e Centro do país.
Este fenómeno não deixou os utilizadores do Facebook indiferentes, uma vez que é uma situação rara para acontecer em pleno verão.

“A depressão que está afetar o país. A instabilidade provocou queda de granizo e trovoada nas regiões Norte e Centro", explicou Cristina Simões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), em declarações à TVI, tendo a mesma responsável afirmado que se pode “dizer que ainda estamos na 'transição da primavera'".

imagens de Sandra Alpalhão


ionline.sapo.pt

16julho2018 - Imagens curiosas e engraçadas para alegrar o seu dia














































PCP acusa Governo de "esquecer e desrespeitar" população de Beja


O PCP acusou hoje o Governo de "esquecer e desrespeitar" a população do distrito de Beja e insistiu na exigência da conclusão da A26/IP8 até Vila Verde de Fialho e da eletrificação do troço ferroviário Beja/Casa Branca.

PCP acusa Governo de "esquecer e desrespeitar" população de Beja


Além de esquecer, o Governo está a desrespeitar a população do distrito de Beja", sobretudo "devido às dúvidas e à falta de garantias em relação a projetos estruturantes", como a conclusão da A26/IP8 e a eletrificação do troço ferroviário Beja/Casa Branca, disse à agência Lusa Manuel Reis, da Direção da Organização Regional de Beja (DORBE) do PCPO dirigente comunista falava à margem da "inauguração simbólica" feita hoje pelo PCP do troço de cerca de 10 quilómetros da A26 entre o nó Grândola Sul da A2 e Santa Margarida do Sado, no concelho de Ferreira do Alentejo, que "está concluído, mas ainda não abriu ao trânsito", porque a praça de portagens "não está concluída".
Em relação à A26/IP8, que deveria ligar Sines e Beja e cujas obras dos troços entre Santa Margarida do Sado e Beja foram canceladas, "ninguém na região sabe se vai ou não ser construído o que falta e quando e o Governo não se preocupa, nem diz nada", disse.
"O mesmo se passa" em relação à eletrificação do troço ferroviário Beja/Casa Branca", já que "o Governo também não diz se vai avançar ou não e quando", lamentou.
O troço Beja/Casa Branca, com 63 quilómetros, não está eletrificado, porque ficou de fora das obras de eletrificação da Linha do Alentejo, o que "obriga" a CP a operar com recurso a uma frota de automotoras diesel, que tem "uma idade média superior a 50 anos, baixas velocidades comerciais, tempos de percurso elevados, baixa fiabilidade e elevados custos de manutenção", segundo disse à Lusa fonte da empresa.
Por isso, frisou Manuel Reis, "registam-se, com muita frequência, problemas" no troço Beja/Casa Branca devido a avarias em automotoras, nomeadamente atrasos e supressões de ligações de comboio e que acabam por ser substituídas por viagens em autocarros.
Segundo Manuel Reis, o PCP exige a construção da A26/IP8 até Vila Verde de Ficalho, no concelho de Serpa (Beja), e sem portagens e a eletrificação do troço ferroviário Beja/Casa Branca, porque são "dois projetos absolutamente fundamentais e inadiáveis para se poder encarar um pouco melhor e com alguma confiança o futuro do distrito de Beja".
O PCP também exige a abertura imediata ao trânsito do troço da A26 entre o nó Grândola Sul da A2 e Santa Margarida do Sado, disse, referindo que o Governo "prefere" que o troço esteja fechado aos utentes do que o abrir "sem a respetiva cobrança de portagens".
A "inauguração simbólica" do troço da A26 foi uma das ações da campanha que a DORBE do PCP está a promover até ao final deste mês para divulgar junto da população as propostas do partido em relação às acessibilidades rodoviárias e ferroviárias e aos serviços de saúde no distrito de Beja.
Na passada quinta-feira, o Grupo Parlamentar do PCP entregou na Assembleia da República um projeto de resolução em que recomenda ao Governo que assegure e calendarize as obras de conclusão da A26/IP8 entre Sines e Vila Verde de Ficalho e sem portagens e a abertura imediata do troço já concluído.


www.noticiasaominuto.com

ADÉLIA GARCIA




Nascida a 15 de Junho de 1933, numa aldeia do nordeste transmontano, no berço de uma família humilde e tradicional do povo, Adélia sempre foi uma pessoa que gostava de cantar. Tudo o que é tradição e costume fazia parte desta mulher. Cancioneiro vivo, dentro da sua cabeça moravam imensas cantigas, tal tesouro que muitos desejam conhecer e descobrir.
Dona de uma voz bela, deu a conhecer ao mundo suas cantigas, por muitos procurada, por vezes apenas por curiosidade; mas o facto é que a simplicidade da Adélia não deixava qualquer um indiferente e fazia com que gentes a quisessem conhecer melhor.
Adélia retratava a mulher tradicional do povo, uma mulher simples que sofreu muito, passou por muitas dificuldades sem ter deixado de ter dentro dela uma alegria imensa que se dava a conhecer através das suas cantigas, das suas modas, das suas vivências.
Adélia Augusta Pires Garcia, viveu sempre em Caçarelhos com quem partilhou as suas crenças e costumes. Fez parte do coro da paróquia e do rancho, rezava o terço e a Via Sacra na Aldeia, deu catequese, muitas vezes em devoção às suas crenças pelo bem da comunidade.
Logo de nova aprendeu a ser uma Mulherzinha, pois a vida assim o quis.
Caçarelhos, sendo uma povoação perto da fronteira, favorecia que as pessoas vivessem muito do contrabando. Adélia era uma dessas pessoas, ia comprar à Espanha, às vezes até trocando por outras coisas e vendia às pessoas em Portugal.
Tanta vezes ficou sem nada, pois indo a salto por vezes era apanhada pelos Guardas na fronteira.
Chegou mesmo a ser presa, em momentos em que Portugal era o que era, não havia liberdade de expressão, tudo era controlado... o Salazarismo, a Pide. Eram tempos de miséria em que o pouco era suficiente e se vivia dessa forma. Mesmo assim havia felicidade na Adélia, sempre com uma música no ar, uma moda para aprender.
Adélia era tradição e a tradição reflete a cultura de um povo. Uma cultura cada vez mais extinta. Talvez essa a razão por que era tão apreciada por pessoas de fora, aquela que tão bem guardada estava na Adélia
Por volta de 1960, Michel Giacometti gravou-a para a posterioridade para o seu programa “O Povo que ainda Canta”. Adélia, uma mulher genuína, simples, que contava o que viveu, o que lhe ia na alma e isso fez da Adélia uma pessoa única, sem rodeios. Além disso, vivia na Adélia uma pessoa humilde, acolhedora, que dava o pouco que tinha.
Giacometti não foi o único, muitos se seguiram, porque a Adélia tinha tanto para contar, muito para ensinar. Tudo o que imana  de um povo, a Adélia sabia e o que ela nos descobria era algo tão raro nos dias de hoje, um tesouro perdido no tempo. 



Adélia Garcia com Né LadeirasCantada por Né Ladeiras, gravada por Judith Cohen, Alberto Jambrina Leal, Pablo Madrid e José Manuel González Matellán, Daniel Loddo, Enrique Cámara de Landa e José Alberto Sardinha, B-Fachada, Colaborou com os Galandum Galundaina, entre muitos mais.
Incluíram músicas que a Adélia lhes ensinou nos seus álbuns. Músicas tão belas, que lhe dão sucesso.
Uma pessoa humilde, do campo, que lhes dava guarida, e que embora com pouco tinha sempre algo para oferecer desta doce menina encantadora, oferecido de coração com a melhor das intenções.
Adélia tinha uma vida bela que apetecia viver, longe do trânsito, longe da cidade. Onde se respirava plenitude e qualidade de vida, estava-se bem com a Adélia, a aprender com ela suas vivências, que embora sejam vivências do povo nos ensinavam tanto e tão valiosa dádiva cultura. Não era dona de riqueza material mas vivia com ela o maior tesouro à face da terra. Qualidade de vida, simplicidade, não era por viver do pouco mas o silêncio que por imensas vezes lhe fazia companhia e de repente desaparecia porque Adélia soltava uma das suas cantigas, uma das suas quadras que ela apreciava com tanto apreço

Em 1999 por iniciativa de Domingos Raposo e com apoio de Mário Correia, foi com ela gravado e editado um CD intitulado CANTIGAS DA SEGADA. Adélia Garcia, José Garcia e Maria Augusta Falcão davam voz às cantigas que se cantavam nas cegadas do antigamente.
Em 2002, integrou o um dos filmes sobre as tradições musicais de Trás-os-Montes, da série POVO QUE CANTA, da responsabilidade da Duvideo/RTP. Em 2004, a Sons da Terra publicou novo CD, com o título ADÉLIA GARCIA e em 2010, novo CD na Sons da Terra, intitulado CANTOS RELIGIOSOS ANTIGOS. 
Conheceu Tiago Pereira também com quem guardou sempre uma grande amizade, que fez com que através da sua forma de viver a vida, fosse descoberta tal diva, um talento inigualável.
Tiago tornou-a protagonista dos seus vídeos, dos seus programas na Rádio: por coincidência voltou ao "o Povo que ainda Canta", na rádio e na TV; "a Música Portuguesa a gostar dela Própria" até mesmo nas suas entrevistas, o Tiago fez questão de mostrar a Adélia, presente nas histórias que contava.
Mas a Adélia era mais que tudo. A sua genuinidade e simplicidade fizeram com que não se tornasse indiferente à sua pessoa. Não se tratava de um simples trabalho, mas sim acabava por fazer parte da vida da Adélia, parte da vida do Tiago. A Velhinha das Velhinhas de Tiago, a quem ele gostava de visitar ano a anoem 2010 pelo projecto MemoriaMedia, onde participou em vários vídeos em conjunto com Maria Augusta Falcão, Maria Martins Lopes e Francisco Augusto Bartolomeu
Tantos papéis, guardados em gavetas, letras e letras raras que a Adélia colecionava. 
Quase que são manuscritos secretos, pois ninguém os sabia... Mas Adélia sabia e conservava-os com 
tanto carinho. Colecionadora, se assim a podemos chamar, é um talento perdido - mas não o foi por acaso, foi porque caso
 contrário não era a Adélia que nós conhecemos.
E esta era Adélia, não é nenhuma esmeralda, não mas era a mais bela valiosa fortuna.
 Aquela que dava valor a tudo que somos, aquela que nos fez herdar uma herança pura onde não existe discórdia, apenas amor
 cheio de encantos belos.
A Adélia era de Caçarelhos e merece qualquer homenagem, porque sempre teve honra de pertencer a esta
 localidade, dignificando-a a cada representação. E viveu a 100 % em cada um dos dias que viveu na sua vida.
 Não foi mais ninguém, foi simplesmente a simples e única Adélia, que a tornou tão valiosa e genuína.
 A Adélia que todos gostamos de ouvir nas suas fabulas, nas suas histórias.




Adélia e Manuel Carmona o seu marido
No final do ano de 2016, mesmo no último dia, a Adélia partiu para sempre mas estará viva sempre nos
 nossos corações, com aquela alegria que só ela nos transmitia.

Adélia Garcia 1933-2016

adelia.cacarelhos.com