AVISO


OS COMENTÁRIOS, E AS PUBLICAÇÕES DE OUTROS
NÃO REFLETEM NECESSARIAMENTE A OPINIÃO DO ADMINISTRADOR DO "desenvolturas e desacatos"

Este blogue está aberto à participação de todos.


Não haverá censura aos textos mas carecerá
obviamente, da minha aprovação que depende
da actualidade do artigo, do tema abordado, da minha disponibilidade, e desde que não
contrarie a matriz do blogue.

Os comentários são inseridos automaticamente
com a excepção dos que o sistema considere como
SPAM, sem moderação e sem censura.

Serão excluídos os comentários que façam
a apologia do racismo, xenofobia, homofobia
ou do fascismo/nazismo.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

O Genocídio dos Índios Nativos Norte Americanos

Fatos Históricos Estimava-se em mais de 25 milhões o número de índios da América do Norte e a cerca de 2 mil os idiomas falados. No fim das chamadas “guerras indígenas”, eram apenas 2 milhões, menos de 10% do total. 

O genocídio dos índios foi um processo claramente controlado e impulsionado pelo governo dos Estados Unidos, recusando-se a assimilar qualquer conceito diverso de seus paradigmas e cultura e a acatar outros saberes. 

As políticas expansionistas tiveram o apoio declarado dos setores que deslumbravam a possibilidade de lucros com o extermínio generalizado dos índios e sua substituição por áreas integradas ao sistema de comércio, o que renderia dividendos a banqueiros, industriais das ferrovias, implementos agrícolas e outros capitalistas. 

Para tal, em 1830 o “Indian Removal Act”, a política de remoção dos índios, obrigou os nativos a deslocarem-se para os “Territórios Indígenas” ou “reservas” que eram zonas reduzidas específicas, destinadas às comunidades índias na tentativa de erradicar as suas práticas, as suas estruturas de pensamento diferentes da cultura predominante, condição sine qua non para poder obter a cidadania americana. 

A preponderância da cultura “superior” legitimava apenas as práticas da mesma. É de notar que o próprio nome dado à lei é, per si, muito depreciativo, “remove-se” um objeto e não um ser humano. A remoção dos índios fazia-se de forma muito penosa, distâncias enormes eram percorridas a pé, essas marchas forçadas incluíam crianças ao colo, idosos, enfermos, chegavam a atravessar quatro estados até chegar aos chamados “Territórios Indígenas” (atual Estado de Oklahoma), grande número de índios ficava pelo caminho devido às más condições da viagem. A “Trilha ou Caminho das Lágrimas” foi o nome dado pelos nativos às viagens de recolocações impostas pelo governo dos Estados Unidos. Em Democracy in America, o filósofo francês Alexis de Tocqueville, testemunhou a remoção da tribo Choctaw em Memphis (1831) (tradução aproximada):




5 Fatos Históricos Estimava-se em mais de 25 milhões o número de índios da América do Norte e a cerca de 2 mil os idiomas falados. No fim das chamadas “guerras indígenas”, eram apenas 2 milhões, menos de 10% do total. 


O genocídio dos índios foi um processo claramente controlado e impulsionado pelo governo dos Estados Unidos, recusando-se a assimilar qualquer conceito diverso de seus paradigmas e cultura e a acatar outros saberes. As políticas expansionistas tiveram o apoio declarado dos setores que deslumbravam a possibilidade de lucros com o extermínio generalizado dos índios e sua substituição por áreas integradas ao sistema de comércio, o que renderia dividendos a banqueiros, industriais das ferrovias, implementos agrícolas e outros capitalistas. 

Para tal, em 1830 o “Indian Removal Act”, a política de remoção dos índios, obrigou os nativos a deslocarem-se para os “Territórios Indígenas” ou “reservas” que eram zonas reduzidas específicas, destinadas às comunidades índias na tentativa de erradicar as suas práticas, as suas estruturas de pensamento diferentes da cultura predominante, condição sine qua non para poder obter a cidadania americana. 

A preponderância da cultura “superior” legitimava apenas as práticas da mesma. É de notar que o próprio nome dado à lei é, per si, muito depreciativo, “remove-se” um objeto e não um ser humano. A remoção dos índios fazia-se de forma muito penosa, distâncias enormes eram percorridas a pé, essas marchas forçadas incluíam crianças ao colo, idosos, enfermos, chegavam a atravessar quatro estados até chegar aos chamados “Territórios Indígenas” (atual Estado de Oklahoma), grande número de índios ficava pelo caminho devido às más condições da viagem. 

A “Trilha ou Caminho das Lágrimas” foi o nome dado pelos nativos às viagens de recolocações impostas pelo governo dos Estados Unidos. Em Democracy in America, o filósofo francês Alexis de Tocqueville, testemunhou a remoção da tribo Choctaw em Memphis (1831) (tradução aproximada): E-REI: Revista de Estudos Interculturais do CEI 6 “Pairava no ar um sentimento de ruína e destruição, o fim dos atraiçoados e um inexorável adieu; ninguém poderia assistir aquilo sem sentir um aperto no coração. Os índios estavam quietos, sombrios e taciturnos. A um deles que falava inglês eu perguntei porque os Chactas estavam deixando suas terras. "Para ser livre," o nativo me respondeu. Nós... assistíamos era à expulsão... de um dos mais famosos e antigos povos americanos.” Mapa da colocação das 5 tribos no “Território Indígena” (reservas). Essa ideologia da imposição de uma cultura dita “superior” leva-nos ao encontro de Jüngen Habermas, que defende que uma cultura majoritária, no exercício do poder político, ao impingir às minorias sua forma de vida, nega aos cidadãos de origem cultural diversa uma efetiva igualdade de direitos, e o direito, por intervir em questões ético-políticas, toca a integridade das formas de vida dentro das quais está enfronhada a configuração pessoal de cada vida, pois os cidadãos não são indivíduos abstratos, amputados de suas relações de origem.

Nem todas as tribos aceitaram essas medidas impostas, o que deu origem a conflitos e iniciaram-se as “guerras indígenas”. Tribos lutaram até ao fim para defender a sua liberdade e evitar que suas terras – planícies – que eram o sustento de suas famílias lhes fossem retiradas em detrimento do progresso económico. Uma das batalhas mais conhecidas deu-se a 25 de junho de 1876, conhecida por “Batalha de Little Bighorn’ em que os líderes e grandes chefes guerreiros “Sitting Bull” (Touro Sentado) e “Crazy Horse” (Cavalo Louco) das tribos Sioux e Cheyenne se juntaram e derrotaram o 7º regimento da cavalaria do General Custer. 


O último, e considerado o pior massacre contra as populações nativas deu-se a 29 de dezembro de 1890, conhecido por “Massacre de Wounded Knee” (Joelho Ferido). Por ocasião do aniversário deste trágico acontecimento (passaram-se 132 anos) o site americano “History”, dedicou no passado dia 29 de dezembro de 2012 uma página à tragédia que ocorreu há mais de 100 anos, (tradução): Durante a tragédia do capítulo final das longas “guerras indígenas”, a cavalaria dos Estados Unidos matou 146 índios “Sioux”, em Wounded Knee, no sul do Dakota. As tensões já se vinham a agravar na reserva de Pine Ridge, no sul do Dakota pelo motivo da popularidade crescente de um novo movimento espiritual conhecido como “Dança fantasma”. 

Muitos dos índios Sioux tinham sido colocados há pouco tempo nas confinadas reservas após muitos anos de resistência, viviam com o coração partido, em condições muito precárias, e “morriam de tédio” nesses espaços reduzidos. A “Dança fantasma” dizia que os índios tinham sido contrariados e colocados nas reservas por terem feito os deuses zangar-se ao abandonar as suas práticas quotidianas nas planícies. Muitos Sioux acreditavam que se praticassem o ritual da “Dança fantasma” e rejeitassem as práticas dos brancos, os deuses criariam um mundo novo, destruiriam os incrédulos e trariam de volta os índios assassinados juntamente com as imensas manadas de búfalos. 

No final de 1890, Washington D.C. foi avisada de que os índios estavam a dançar na neve e que estavam selvagens e loucos e que por isso era necessária proteção. Enquanto esperava pelos reforços, o agente Mc Laughlin tentou prender “Touro Sentado”, famoso chefe Sioux, pensando (por engano) que era apoiante da dança que estava a alastrar cada vez mais. O chefe guerreiro acabou por ser morto, o que piorou ainda mais a situação. No dia 29 de dezembro de 1890, o Coronel James Forsyth (do 7º regimento da cavalaria) ordenou que o grupo de índios que estava a praticar a E-REI: Revista de Estudos Interculturais do CE

“Dança fantasma” pousasse as armas. “Big Foot” (Pé Grande) e os seus seguidores não tinham qualquer intenção de atacar mas desconfiavam dos oficiais americanos e receavam ser atacados caso entregassem as suas armas. Houve um desentendimento entre um oficial e um índio e um tiro terá disparado, não se sabe por parte de quem, e então, iniciou-se o mais cruel dos massacres contra os índios, indefesos e de longe, menores em número do que os soldados. (…) 


Embora este massacre seja referido como uma “batalha”, é considerado pela maior parte das pessoas como um massacre trágico e que podia ter sido evitado. (…) Alguns historiadores especulam que os soldados que tinham pertencido ao 7º regimento da cavalaria ter-se-iam vingado da batalha que tinham perdido em Little Bighorn em 1876. Seja qual for o verdadeiro motivo, o massacre acabou com o movimento da “Dança fantasma” e foi o maior confronto contra os índios das planícies. Após a leitura desse artigo apercebemo-nos dos perigos das consequências que pode ter a interpretação de práticas diferentes por parte de outras estruturas de pensamento, neste caso, a cultura dominante, dita “padrão”, “superior” sentiu-se ameaçada ao ver que a dança estava a alastrar e decidiu exterminar os praticantes do ritual. 

Esse comportamento é comparável com a ideologia do ditador alemão através da dita “raça pura”, da mesma forma que queria exterminar todos os judeus, o governo americano queria eliminar os índios, reação que denota, sem dúvida, a recusa de assimilar qualquer conceito diverso dos seus paradigmas. Há registos de testemunhos de índios que escaparam ao massacre de Wounded Knee, como o de ”Louise, Pele de Doninha”, índia sioux, que narra o massacre de sioux pelo exército americano, em 29 de dezembro de 1890: “Tentámos correr, mas eles nos alvejavam como se fôssemos búfalos. Sei que há alguns brancos bons, mas os soldados deviam ser maus, para disparar contra crianças e mulheres. Soldados índios não fariam isso contra crianças brancas” Louise, “Pele de Doninha”, índia sioux

Depois da informação que foi mencionada até agora, torna-se imprescindível saber um pouco mais acerca dos hábitos dos índios. Assim, proponho apresentar a tribo Sioux que era conhecida por ter uma ligação muito forte com a Natureza, e como já referido anteriormente, por ser a tribo que mais se destacou na luta pelos seus direitos, assim como dois dos grandes chefes guerreiros que tiveram um papel de destaque nos confrontos com as armadas do governo. Práticas Culturais e Chefes Guerreiros Famosos 

A tribo “Sioux” É considerada uma das mais ricas civilizações da América do Norte. Ganhou o nome “Siuks” dos outros índios que habitavam os Estados Unidos. A palavra significa homens-búfalo e virou “Sioux” na versão dos colonos franceses. O búfalo fazia parte ainda dos mitos dessa tribo, tinham importância fundamental na cultura. Os “Sioux” acreditavam que, no início dos tempos, o povo vivia no centro da terra com os búfalos e que quando vieram para a superfície, “Wakan Tanka”, o “Grande Espírito”, ordenou aos animais que servissem de alimento para a tribo. Mas advertiu os últimos que não deveriam caçar de forma desenfreada, pois no dia em que os animais desaparecessem da face da terra, os Sioux também se extinguiriam. 

Uma índia só era considerada uma “boa mulher” se soubesse esquartejar um búfalo, extrair a carne sem danificar a pele e ainda preparar uma iguaria com esta. Já para os homens, a caça ao búfalo era um ritual de passagem da adolescência para a idade adulta. Antes da conquista do oeste, os “Sioux” viviam em paz com a natureza e com os búfalos que dominavam aquelas planícies, caçadores nómadas, desfrutavam de total comunhão com os animais. Comiam a sua carne e usavam a pele para confecionar tendas, chamadas “teepees”. Tradicionalmente vestiam com toucados de penas, couro com franjas, missangas e mocassins.



A Dança do Sol A “Dança do Sol” era um dos mais sagrados rituais dos Sioux e de todos os índios americanos. Acontecia no solstício de verão e durava até oito dias. 

A tribo acreditava que a dança purificava e renovava suas almas. Durante este período, era comum os guerreiros serem possuídos por visões. “Touro Sentado”, por exemplo, viu muitos soldados americanos mortos. E a sua visão impulsionou os guerreiros em Little Bighorn (batalha de 1876), quando o general Custer foi morto. A relação com o mundo onírico era tão importante para os Sioux que os seus nomes vinham de sonhos. Até aos 16 anos, um índio sioux não tinha exatamente um nome. 

Os jovens eram nomeados de acordo com suas características físicas. Apenas quando atingiam a idade certa podiam aventurar-se nas Colinas Negras, onde permaneciam por dias em busca de sua visão. Era a montanha que lhes daria um nome.



Chefes guerreiros famosos “Touro Sentado” - Tatanka Yotanka (na língua índia nativa), nasceu no que é agora conhecido por Dakota do Sul, em março de 1831 e faleceu a 15 de dezembro de 1890.

Filho do famoso guerreiro chamado “Returns-Again”, matou o primeiro búfalo com 10 anos e tinha quatorze anos quando participou na primeira batalha, ganhando fama de corajoso. Em 1865 combateu contra o exército americano pela primeira vez e deram-lho nome de “Touro Sentado”. É provavelmente o mais famoso dos chefes indígenas Sioux Lakota Hunkpapa. 

Os confrontos com os soldados americanos tiveram início depois de se descobrir ouro nas terras cujo Tratado de Laramie em 1868 tinha acordado como pertencendo às tribos Sioux, o que após a descoberta não se verificou – o governo não cumpriu o que tinha prometido aos indígenas e declarou guerra a quem se opusesse às novas condições, o que enfureceu “Touro Sentado” que recusou obedecer às novas regras. Dizem que durante 36 horas dançou a Dança do Sol e que no fim, teve uma visão de que ganhavam aos americanos.




Dias depois ganhou a batalha de Rosebud. Em 1876, a sua tribo, junto aos Cheyenne, aos Arapaho e aos Sioux Lakota Oglala de “Cavalo Louco”, participou na batalha de Little Bighorn, da qual saíram vitoriosos. Em 1877, refugiou-se no Canadá (sob a proteção da rainha Vitória com algumas condições) e voltou aos Estados Unidos em 1881. 

Quando “Touro Sentado” voltou para as reservas sioux, em 1881 (onde viveu preso até 1883), já se tinha tornado uma lenda tanto para os índios como para os homens brancos. A sua popularidade era tanta que foi convidado para o evento de inauguração da ferrovia transcontinental Northern Pacific. 

Ao chegar lá, acompanhado de um intérprete, não honrou o convite. Falou na sua língua e terá dito o seguinte contra a multidão: "Odeio toda a gente branca. Vocês são ladrões e mentirosos. Roubaram nossa terra e tornaram-nos párias". O intérprete, claro, não traduziu à letra. E a multidão explodiu em aplausos, conforme narra o historiador Dee Brown no clássico Bury my heart at Wounded Knee.




“Touro Sentado” e Buffalo Bill Após o evento,” Touro Sentado” entrou no “Wild West Show” de Buffalo Bill (cow-boy conhecido) com um contrato de 50 dólares por semana, um bónus de 125 dólares e 1,5 dólares por cada foto sua assinada, foi levado a 15 cidades americanas, como um animal em exibição. 

O governo queria que ele passasse o maior tempo possível longe das reservas indígenas para evitar rebeliões. Viajou durante 4 meses nos Estados Unidos, mas logo quis voltar para a tribo. Ficou chocado com a pobreza que viu e com o ódio que lhe era dirigido por alguns membros da plateia nos espetáculos. 

O racismo era o sentimento existente para com os índios por parte de grande número de americanos. Dizia que preferia morrer como um índio do que viver como um branco. Bill deu de presente a “Touro Sentado” um sombreiro e um cavalo branco. Regressou para perto do local onde tinha nascido e rejeitou o cristianismo honrando a sua forma de vida. Foi preso e assassinado com um tiro na cabeça. Em 1953, os seus restos mortais foram trasladados para o Dakota do Sul, em Mobridge.



“Cavalo Louco” - Ta-sunko-witko (na língua nativa) o "Seu-Cavalo-é-Louco", nasceu em 1840 e faleceu a 5 de setembro de 1877. Quando nasceu recebeu nome Cha-O-Ha (Na Selvajaria ou Entre as Árvores”). 

A mãe chamava-lhe "Encaracolado" ou "Cabelo Claro" como tinha o cabelo encaracolado e claro como o da mãe. Recebeu este nome porque teve a visão de um cavalo negro debatendo-se furiosamente. Era descendente de “Búfalo Negro” (também o nome de sua primeira esposa, Mulher-Búfalo Negro), um dos índios que pararam uma das expedições exploratórias. Era líder militar da tribo dos Sioux Lakota Oglala e lutou com o seu povo contra o governo federal dos Estados Unidos para preservar as terras e tradições dos dacotas, durante a segunda metade do século XIX, nas chamadas “Guerras Indígenas”.




Foi, juntamente com “Touro Sentado”, o símbolo da resistência Sioux aos brancos, participou nas vitoriosas batalhas Fetterman, Rosebud e Little Bighorn. 

Atraído para uma cilada em 16 de setembro, foi assassinado com um golpe de baioneta. Em 1947 iniciou-se a construção do monumento em homenagem a “Cavalo Louco” situado no monte Thunderheade em Custer no Dakota do Sul, pelo escultor Korezak Ziolkowski, no local escolhido por ele e pelo filho de “Cavalo Louco” em 1940, o monumento tem 170 metros de altura e 195 de comprimento e representa “Cavalo Louco” no seu cavalo.


7ª Arte e Imagem do Índio Como mencionado na introdução, as personagens de origem índia que apareciam em produções cinematográficas tinham sempre conotação negativa, o desenho animado do qual já falei anteriormente, “Tom Sawyer” tinha uma personagem do índio Joe (que a maior parte de nós temia e ainda hoje muitas crianças temem) e os westerns passavam uma imagem com conotação pejorativa, enquanto na realidade lhes foi imposto um tratamento de choque. Houve, durante muitos anos, uma espécie de “lavagem de cérebro” junto do grande público acerca dos índios. 

É possível verificar essa ideologia nos westerns realizados por John Ford, que retratavam a conquista do oeste, são o exemplo típico da presença do poder do ser “superior”, neste caso os americanos como seres “civilizados” versus o índio, ser “inferior” ou “selvagem”, “incivilizado”. Em todas as produções de westerns, a ideia subjacente era de que se tratavam de seres “selvagens”, “fora de lei”, “assaltantes de comboios ou de diligências”, “alcoólicos”. Era patente o racismo que emanava dessas produções onde se podia ver que os índios eram retratados como desprovidos de qualquer valor humano. 

Parece-me pertinente relembrar os críticos da cultura de massa, nomeadamente Queenie Dorothy Leavis e Frank Raymond Leavis que se opunham ao cinema. Em Fiction and the Reading Public (1932), Q. D. Leavis, defendia que a leitura de ficção popular era “uma forma de toxicodependência que podia levar ao hábito de fantasiar, o que causaria um desajuste com a vida real”1 . F. R. Leavis, em Mass Civilization and Minority Culture (1930), atacava o cinema, porque os “filmes sujeitavam o espectador à recetividade hipnótica de apelos emocionais básicos”2 . 

Para estes críticos culturais, o conceito de cultura implicava a distinção entre (verdadeira) cultura e cultura de massas, uma dicotomia na qual o segundo termo significava sempre uma forma de cultura inferior e sem qualquer fundamento intelectual, associada à influência nefasta das indústrias mediáticas dos Estados Unidos. Essa influência verificou-se em relação à opinião que transmitiu acerca dos índios, estava criado o estereótipo de que os índios não passavam de “selvagens” e “maus”. 

Em Racism In the Western, Jean-Jacques Sadoux atribui importância ao ano de 1958, em que os representantes de sessenta e duas tribos nativas americanas
 protestaram pela forma como o cinema manipulava a sua imagem. 

Através dessas manifestações, os índios nativos visavam o racismo que era projetado pela indústria cinematográfica e que ajudava a criar estereótipos acerca dos índios. Também explica que o facto de nos westerns os índios serem massacrados em grande número desencadeava animosidade por parte do público para com os nativos americanos (p. 30) Mas esse ataque à comunidade índia começou a desvanecer devido a vários fatores que contribuiram cada vez mais para que a má imagem do índio na grande tela e no ecrã fosse diminuindo. 

Ciências interligadas entre si, tais como a etnologia, a antropologia e a linguística, começaram a evoluir através de estudos cada vez mais numerosos realizados junto de comunidades índias e cujos resultados se revelaram altamente importantes para a humanidade. Tiveram um papel considerável na forma de encarar esses povos como detentores de uma enorme riqueza cultural, que foi ao longos de vários séculos desperdiçada e considerada sem qualquer tipo de valor. Essas ciências permitiram um novo olhar e uma tomada de consciência do valor que estes povos representavam. 

A tomada de consciência começou a invadir aos poucos as produções cinematográficas, que começaram a mudar os guiões, alterando dessa forma a imagem dos índios para uma conotação cada vez menos negativa. 

Um exemplo dessa mudança de ideologia está patente no filme Devil´s Doorway, 1950 (O Caminho do Diabo) de Antony Mann que inovou ao colocar o índio como indivíduo consciente e vítima do processo de ocupação do oeste, e não mais como um “selvagem”, “ingénuo” ou “cruel”. Os estúdios da MGM mostraram-se relutantes em lançá-lo, mas quando o fizeram, o filme causou impacto e polémica. Como era de esperar, tentar inculcar uma ideia oposta nas estruturas de pensamento já formatadas iria causar divergências

Outro western, Broken Arrow,1950 (Flechas de Fogo) do realizador Delmer Daves, que apresenta um ex-soldado que salva a vida de um índio Apache e que começa a compreender os nativos, foi indicado ao óscar de Melhor Ator, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro, notável por ser um dos primeiros westerns a retratar os índios americanos de forma mais simpática e equilibrada. É interessante mencionar que o próprio John Ford, realizador conhecido pelos seus westerns, em 1965, realizou o seu último filme, Crepúsculo de uma Raça, como um mea culpa por, segundo ele próprio, “ter matado mais índios que o General Custer” e também para ajudar financeiramente um grupo de nativos de uma reserva que eram seus amigos. 
O cineasta admitiu a injustiça sofrida pelos indígenas numa famosa entrevista a Peter Bogdanovich: “Vamos enfrentar a verdade: nós tratámo-los muito mal. É uma mancha que carregamos. Trapaceámos, roubámos, matámos, assassinámos, massacrámos, e tudo o mais, mas se eles matassem um homem branco, Deus, lá vinham as tropas.” Essa mudança de ideologia também era apresentada nos filmes através da possibilidade de haver “salvação” para esses seres “selvagens ”, era possível adotarem as práticas da cultura proeminente e tornarem-se americanos, era possível a hibridização, a aculturação, como demonstra o papel da atriz Audrey Hepburn no filme The Unforgiven, 1960 de John Huston, em que encarna o papel de uma índia raptada por uma família branca e totalmente acostumada às práticas da cultura americana. Neste filme também está explícito o racismo para com os índios e as pessoas das quais se suspeitava que tinham sangue índio. A temática da possibilidade da hibridização também está patente no filme The Savage, 1952 (Trágica Emboscada) de George Marshall, no qual Charlton Heston interpreta um homem branco criado pelos índios Sioux. Também papéis de índios interpretados por atores brancos começaram a ser representados por verdadeiros índios em várias produções, o que demonstrou que já se começava a considerar os índios como seres humanos com direitos como os demais americanos.


Um fator que teve peso muito importante foi o crescente apoio de muitas celebridades a favor dos direitos dos índios, como foi o caso, em 1968 da atriz Jane Fonda, que protestou a seu favor. É importante mencionar que na década de 1960 a palavra “índio” passou a ser substituída por “nativo americano” por ter conotação menos negativa. 

Se muitas figuras públicas já demonstravam a sua revolta com a desumanização do índio, um acontecimento bombástico ocorreu no ano de 1973. Aquando da cerimónia de entrega dos óscares, o ator Marlon Brando recusou o óscar de melhor ator e mandou a índia Sacheen Little Feather (Pequena Pena), da tribo Apache como forma de protesto ao tratamento dado aos nativos americanos. Ela anunciaria diante de toda a plateia de Hollywood que Marlon Brando recusa essa honra devido ao tratamento reservado aos indígenas nos filmes, na televisão e em Wounded Knee. O discurso que Sacheen devia supostamente ter lido na íntegra, em nome de Marlon Brando, está visível no link que se segue na edição do New York Times: http://www.nytimes.com/packages/html/movies/bestpictures/godfather-ar3.html A cidade de Wounded Knee tinha sido invadida e ocupada por cerca de 200 nativos americanos armados que exigiam que o governo do estado desse maior atenção aos problemas enfrentados pelas tribos nativo-americanas nas reservas. A cidade foi ocupada 71 dias, sendo que diversos tiroteios ocorreram entre os nativos americanos e tropas militares, onde dois nativos americanos que protestavam morreram. Como é possível verificar, ao visualizar o vídeo, o apresentador Roger Moore, estrela de diversos filmes da série James Bond, tentou entregar a estatueta a “Pequena Pena”, mas ela afastou-a com o braço dizendo que Brando não poderia aceitar o prémio. Leu trechos de uma declaração escrita pelo ator, cujo inteiro teor foi depois publicado pela imprensa, inclusive pelo The New York Times: “(…)

A comunidade da indústria cinematográfica tem sido igualmente responsável por degradar o Índio e ridicularizar seu caráter, descrevendo-o como selvagem, hostil e malvado." Várias produções continuaram a defender a causa dos nativos, mas na década de 1990 Dances With Wolves, que desmistificava a imagem de homens selvagens ao mostrar um povo digno e honesto, dirigido, coproduzido e protagonizado pelo próprio Kevin Costner, foi nomeado para doze óscares, ganhando sete, dois dos quais entregues ao próprio Kevin Costner, o óscar de melhor realizador e o de melhor filme, traduzindo-se assim no maior sucesso cinematográfico de Kevin Costner. 
O facto de figuras públicas revelarem a sua descendência nativa americana, como a cantora Cher, o vocalista dos Aerosmith, Shanaya Twain e muitos outros - incluindo Johnny Depp que sempre disse ter descendência Creek ou Cherokee por parte de uma tetravó e que foi recentemente “adotado” por uma tribo, ficando com o nome de "Mah Woo May", que significa "aquele que muda de forma", tem contribuído para que os direitos dos nativos americanos sejam cada vez mais reconhecidos.

Conclusão 

Por mais estranho que pareça, os Estados Unidos, apesar do genocídio do qual foram palco, não deixaram de se apresentar como o melting-pot, uma controvérsia….Desde os anos 60, o ativismo a favor dos direitos dos nativos americanos tem-se multiplicado e tem dado origem à construção de infraestruturas culturais e a um maior reconhecimento. Criaram-se jornais independentes, o primeiro canal de televisão nativo americano, o ” FNX” (2011), escolas comunitárias assim como museus (regionais e nacionais) e programas de linguagem tribal. Muitas universidades lecionam estudos sobre os nativos americanos. Nos dias que correm, é notória a importância da preservação das tradições dos povos que vivem no planeta, pois as diferenças culturais representam uma riqueza que beneficia ciências que têm interesse no seu estudo

“De todos os caminhos desta vida, existe um que realmente importa. É o caminho para o verdadeiro ser humano.” “Pássaro Esperneante”, em ”Dancing with the Wolves” Bibliografia Habermas, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. Edições Loyola, São Paulo, 2002 E-REI: Revista de Estudos 


E-REI: Revista de Estudos Interculturais do CEI 24 Leavis, F. R. Mass Civilization and Minority Culture. Cambridge: Minority Press, 1930 Leavis, Q. D. Fiction and the Reading Public. London: Chatto and Windus, 1932 Sadoux , Jean-Jacques. Racism In the Western. New York: Revisionist Press, 1981 Webgrafia History, 2012. This Day in history. Dec, 1890: U.S. Army massacres Sioux at Wounded Knee . [em linha]. URL: http://www.history.com/this-day-in-history/us-army-massacres-sioux-atwounded-knee (29.12.2012) Indians.org, 2012. Crazy Horse. [em linha]. URL: http://www.indians.org/articles/crazyhorse.html (29.12.2012) Biography. com, 2012. Sitting Bull Biography – Facts, Birthday, Lifestory. [em linha]. URL: http://www.biography.com/people/sitting-bull-9485326 (29.12.2012) Wikipedia, a enciclopédia livre, 2012. Povos Ameríndios. [em linha]. URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Povos_amer%C3%ADndios (29.12.2012) O Falcão Maltês, 2012. Índios em Hollywood. [em linha]. URL: http://ofalcaomaltes.blogspot.pt/2012/01/indios-em-hollywood.html (27.12.2012)

Indian native americans photos, (sine datum). [em linha]. URL: http://www.google.pt/search?q=indian+native+photos&hl=ptPT&sa=X&tbo=u&tbm=isch&source=univ&ei=PGj0UJusNsGShgfSjYGIDg&ved=0CCoQs AQ&biw=1264&bih=594 (22.12.2012) You Tube, 2012. Marlon Brando's Oscar® win for " The Godfather". [em linha]. URL: http://www.youtube.com/watch?v=2QUacU0I4yU (24.12.2012) IG Cultura, (23.05.2012). Johnny Depp é “adotado” por tribo indígena nos EUA. [em linha]. URL: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/2012-05-23/johnny-depp-e-adotadopor-tribo-indigena-nos-eua.html (24.12.2012) Wikipédia, 2012. Dakota do Sul. [em linha]. URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dakota_do_Sul (24.12.2012) De Malta, Corto, (24.08. 2012). Cinema, Mitos Cinematográficos: Dança com Lobos foi o Primeiro Faroeste a Defender os ìndios. [em linha]. URL: http://interney.net/blogs/melhoresdomundo/2012/08/24/mitos-cinematograficos-danca-comlobos-foi-o-primeiro-faroeste-a-defender-o-indio/ (23.12.2012) Access Genealogy, 2012. Sioux Indian Family History. [em linha]. URL: http://www.accessgenealogy.com/native/tribes/siouan/siouanfamilyhist.htm (23.12.2012) Rituais, povos e Culturas, (sine datum). [em linha]. URL: http://www.rituais.com/Paginas_I/Povos_e_Culturas.htm#Grupo2 (22.12.2012) Grupos do Google, 2012. Aventuras na História – Os Homens-Búfalo. [em linha]. URL: https://groups.google.com/forum/?hl=pt&fromgroups#!topic/tradicional/IaYrIP3zRUE (19.12.2012) Notas 1 Q. D. LEAVIS. Fiction and the Reading Public. London: Chatto and Windus, 1932, p. 154. 2 F. R. Leavis. Mass Civilization and Minority Culture. Cambridge: Minority Press, 1930, p. 10.

Trabalho realizado no âmbito da unidade curricular: Estudos Interculturais, lecionada pela docente Dr.ª Clara Sarmento Maria José de Sousa Gomes - Turma R31D - 2100155 Porto / janeiro 2013


www.iscap.pt

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

HISTÓRIA DO WHISKEY IRLANDÊS


Poucas histórias são mais tristes que a do whiskey irlandês. Imagine se o vinho ou aguardente a bebida de nossa nação, deixasse de ser produzida? Imagine se, após um longo e turbulento período de crise em Portugal, todas as nossas destilarias fossem à falência e deixassem de existir?
Pois é. Foi exatamente isso o que aconteceu com a Irlanda. No século 19, mesmo com o país tendo passado pela grande fome e sobrevivido ao maldito movimento Temperance, que pregava a abstinência do álcool, o whiskey conseguiu se manter como uma de suas grandes indústrias. A grande fome, aliás, foi uma das maiores desgraças humanitárias que ocorreram no século 19. A população, muito dependente de batatas, viu sua produção ser dizimada por uma praga. O Reino Unido tomou uma série de medidas esdrúxulas que só pioraram a situação, levando à morte de mais de um milhão de pessoas e obrigando outro milhão a partir, emigrando principalmente para os Estados Unidos.
Duas coisas ajudaram e muito o whiskey a tomar o lugar do conhaque como o destilado mais consumindo no mundo. Primeiro, o Napoleão tocando o terror na Europa. Num primeiro momento de triunfo militar a bebida francesa até tomou algum impulso; porém, com as derrotas, as coisas começaram a se complicar para o conhaque. O segundo ponto e ainda mais impactante, os produtores de whiskey contaram com a ajuda daquele insecto tinhoso destruindo todos os vinhedos do mundo.
E a derrocada? Com certeza, uma das razões foi o purismo e a falta de vontade de se adaptar aos novos tempos e adoptar novas tecnologias. No caso, a tal tecnologia era a destilação em coluna que citei anteriormente, que havia sido criada no próprio país, por um irlandês inspector de alfândega, o Aeneas Coffey. No caso, em vez de precisar destilar a bebida duas ou três vezes, o líquido poderia ser destilado uma única vez, num processo contínuo muito mais exacto. Porém, o sujeito foi rechaçado e acabou levando sua invenção para a Escócia. Em pouco tempo, começaram a aparecer os blended scotch whiskies. E foi assim que surgiu a grafia whiskey para o destilado dos irlandeses que, ultrajados com seus primos escoceses, acabaram por adoptar a letra a mais para não serem confundidos com o rival.
McConnel’s foi uma das grandes marcas a sucumbir com a crise. A marca, porém, foi reavivada há pouco tempo, voltando a ser produzida em Belfast.

















Desde a grande fome, em meados do século 19, as coisas andavam meio azedas entre a Irlanda e o Reino Unido. Após uma porção de medidas impopulares por parte da Coroa, a situação piorou de vez e a Irlanda entrou em guerra pela independência bem na época da Primeira Guerra Mundial. Com o desgaste da Grande Guerra, a Inglaterra não conseguiu administrar a sua situação interna, culminando com a proclamação da independência dos irlandeses. 
A partir daí as coisas começaram a piorar para a indústria do whiskey no país. Assim que se separaram, começou uma outra guerra entre a Inglaterra e a Irlanda, dessa vez comercial. Perderam o comércio com todo o império britânico, o que significava cerca de 25% do mercado mundial na época. E para piorar, no ano de 1919, foi criada a maldita Lei Seca nos Estados Unidos. Assim, os irlandeses perderam de uma só tacada todos os seus grandes mercados. Diferente dos escoceses, com suas destilarias rurais e menores, longe das áreas metropolitanas, os irlandeses tinham construído destilarias enormes em suas cidades para atender a demanda.
Destilaria gigante da Jameson em Dublin.









Logo, aquelas fábricas se viram totalmente encalhadas e começaram a colapsar. Inúmeras destilarias desapareceram, sobrando algumas poucas, como Powers, Jameson e Paddy’s. Essas famílias resolveram então se unir, tornando-se uma única empresa, a Irish Distillers, sobrevivendo assim ao século 20. A crise foi tão periclitante que no meio do século passado existiam apenas duas destilarias na Irlanda ainda em funcionamento, a da Irish Distillers e a Bushmill’s, na Irlanda do Norte.
Porém, essa história tão desgraçada parece estar chegando ao fim. A indústria do whisky cresce no mundo inteiro e não seria diferente com o destilado irlandês. No final do século passado foi reaberta a destilaria de Cooley e o número de destilarias só aumenta, com a abertura recente da Roe & Co, Teeling, Tullamore, Slane e Waterford. Há outras que ainda estão amadurecendo seus whiskeys e que começarão a apresentar suas bebidas nos próximos anos. Enquanto isso, muitas dessas novas destilarias vem produzindo gin e vodka, para compensar o investimento que é amadurecer uma bebida por tanto tempo.

E como é o whiskey irlandês?

Para poder ser chamado de irish whiskey, o destilado precisa, obviamente, ser produzido na Irlanda. Assim como os escoceses, precisa ser envelhecido por no mínimo 3 anos e ter um teor alcóolico de, no mínimo, 40%. E a idade também precisa ser sempre referente ao barril de whiskey mais novo utilizado na composição. Há quatro tipos de whiskey irlandês: single pot still whiskey, single malt whiskey, grain whiskey e blended whiskey.

Single pot still whiskey

No século 19, o principal tipo de whiskey irlandês era o single pot still whiskey, que consiste na destilação geralmente tripla em alambique de cobre de uma mistura de malte e cevada não maltada, eventualmente acompanhada de outros grão também não maltados, como trigo, milho e centeio. Tal combinação faz com que o whisky irlandês seja mais picante e cremoso. E para um whiskey poder ser chamado de single pot still, é obrigatório que seja produzido na Irlanda. Na composição do whiskey, é necessário que tenho no mínimo 30% de malte e 30% de cevada não maltada.
Esse estilo de whiskey foi criado no final do século 18, quando os ingleses resolveram aumentar a taxação do malte. Assim, os irlandeses produtores de whiskey, querendo manter algum lucro, resolveram adicionar a cevada não maltada e ainda não tributada à mistura. Tal gambiarra, no final das contas, se mostrou maravilhosa e, assim, o single pot still whiskey se tornou a quinta essência do whiskey irlandês.
Esse estilo delicioso de whiskey só não foi extinto graças ao Master Distiller Barry Crockett, da destilaria New Midleton, a mesma que produz o Jameson e comandada pela Irish Distillers. Por muito tempo, só existiam duas marcas de single post still, o Redbreast e o Green Spot.  Actualmente, o mercado já conta com uma variedade razoável de marcas deste tipo de whisky. Até mesmo marcas que haviam abandonado esse estilo voltaram a produzir tiragens de Single Pot Still, como Powers e Midleton.

Single Malt Whiskey

Aqui, não há nenhuma diferença em relação ao single malt escocês. Aqui, só pode ser utilizado malte de cevada. A bebida precisa ser destilada duas ou três vezes e não costuma ser defumada. A única excepção é o Connemara, que se assemelha muito aos whiskies de Islay. Enquanto que o single pot still quase desapareceu, esse estilo de single malt, impulsionado pelos escoceses, passou a ser muito difundido na Irlanda. Bushmill’s e Tyrconnell são bons exemplos de single malt irlandês. Como o whiskey irlandês quase desapareceu, ainda não é possível mapear os diferentes estilos de sabores.

Grain Whiskey

Apesar de terem refutado inicialmente o uso da destilação em coluna, os produtores irlandeses precisaram se adaptar aos novos tempos. Agora, todas as destilarias produzem grain whiskey; principalmente para abastecer a produção de seus blended whiskeys e, eventualmente, até os vender engarrafados. Assim como os escoceses, também adotam o termo single grain whiskey, que significa ser um produto de uma única destilaria e não de um único grão. Para ser um grain whiskey, a bebida precisa conter no máximo até 30% de malte em sua mistura de grãos, sendo o milho o mais comum de todos. Há vários bons single grain whiskeys irlandeses, como Kilbeggan, Greenore e Teeling.

Blended Whiskey

Aqui, não tem muita regra. para ser um blended irlandês, basta misturar dois dos estilos de whiskey que citei acima. Pode até misturar os três. Com a decadência tão lazarenta do whiskey irlandês, marcas que eram reconhecidas por seu single pot still whiskey acabaram por se tornar blended whiskeys, como Jameson, Powers e Midleton. Mesmo que atualmente todas estas marcas produzam tiragens de single pot still, o blended continua como  chefe. 

medium.com

Rica Pancita julga os sambas-enredo do Carnaval de SP 2019


 

Baseado em criteriosa análise técnica, o Guerreiro do Som ouviu e avaliou todos temas e sambas do Grupo Especial paulistano

Chegamos finalmente em 2019 e cabe a mim lembrá-los que, tal qual fiz mês passado, já começou o Carnaval. Aqueles papos que você sempre ouve de que “no Brasil o ano só começa depois do Carnaval” é tudo verdade mesmo, e dessa vez ele vai de AGORA até a primeira semana de março. Daí a gente volta pra tristeza de sempre.

Dessa vez venho com os sambas e enredos do Carnaval paulistano, que tá com muito mais grana, muito mais estrutura, Liga trabalhando direito, 0% de virada de mesa, mas ainda falta alguma coisa que tem nos sambas da outra ponta da Dutra. Falta um tchans. É como se fosse uma cerveja IPA com garrafa muito bonita descolex, mas que o gosto não é tão bom quanto a PILSEN tradicional de sempre.
O disco desse ano é bom bem bom, mas quero pontuar algumas coisas que eu preferia que não tivesse mais não. Primeiro, essa liberdade total pras escolas fazerem o que quiserem na gravação resultou em faixa que enfiou o máximo de participação especial que dava (e não precisava de nenhuma, na verdade), e muito textinho recitado no final — pra que eternizar o seu samba com esses textinhos, meu Deus? Fora isso tem o fade out. Tem gente que gosta, mas eu odeio fade out TANTO que cês num faz ideia.
Para além disso, essa safra 2019 deixou bem claro pra mim que sambista não faz milagre e não tem como sair uma puta obra se o carnavalesco entrega uma sinopse abertaça de tudo. Alô, carnavalescos, vamo dar um capricho nesses enredos pro próximo ano.
Mas para além dessa cornetagem, é um dever meu enquanto paulistano (eu sou paulistano) saudar esses HERÓIS que por décadas seguraram a onda onde, até um passado recente, Carnaval era sinônimo de uma das maiores cidades do mundo completamente desertas porque praticamente todo mundo fugia pra outro lugar. Agora que o cenário tá melhorando bem, eles merecem alguma bonificação por tanto esforço.
Fica aí meu abraço a todas as escolas de São Paulo. Canetei todos.

Acadêmicos do Tatuapé

Enredo: “Bravos Guerreiros - Por Deus, pela honra, pela justiça e pelos que precisam de nós” é um enredo sobre: guerreiros. Aí foi um negócio meio amplo, desde figuras religiosas como São Jorge, uns Deus Vult, figuras da história negra — na imagem oficial do enredo tem até barco do Greenpeace. Dá pra fazer uma graça no sambódromo, mas ainda assim tá amplo demais.
Nota: 9,8
Samba: Baita gravação. A introdução afro com Jorge Ben Jor mandando a oração à São Jorge, coro, batuque moendo, ficou um porradão. Bateria 40, melodia muito boa, ótimo de ouvir. Só esqueceram do enredo. Tem São Jorge pra caralho, mas cadê o resto da galera da imagem oficial? Aqui que num tá. Ainda rola um trecho nacionalista “sou brasileiro / vou defender minha nação” que eu tô muito de boa.
Nota: 9,8

Mocidade Alegre

Enredo: Com “Ayakamaé: As Águas Sagradas do Sol e da Lua”, a Mocidade Alegre vai contar a lenda da criação do Rio Amazonas. A lenda mesmo eu entendi mais ou menos, então vai ter que explicar bem isso aí. Tema bom, que centraliza em só uma lenda indígena, aí até que sai um negócio muito brasilzão, mas não tão confuso assim. A ver. Por enquanto é:
Nota: 9,8
Samba: Igor Sorriso tá mandando muito bem no samba que tem uma letra confusa de tudo. Eu nem tentei me esforçar muito pra entender o que que tá acontecendo. Vou torcer pra que tenha a ver com o enredo. E sinceramente, duvido muito que mais de 30% dos componentes vá conseguir decorar essa letra até o dia do desfile, mesmo ensaiando semanalmente. Arquibancada esquece, ou eles olham pro desfile ou olham pro papelzinho com a letra. Pelo menos o refrão é fácil
Nota: 9,7

Mancha Verde

Enredo: “Oxalá, salve a princesa! A saga de uma guerreira negra” é sobre Aqualtune, princesa africana (especificamente no Congo), que veio ao Brasil escravizada e é mãe de Ganga Zumba e avó de Zumbi dos Palmares. A história é bem interessante de dar uma pescoçada na Wikipedia, ao menos. Puxa desde história do Brasil, negritude, história africana, etc. Parece que a ideia veio de ninguém mais ninguém menos que Paulo Serdan himself. Foi bem nessa o Paulo.
Nota: 9,9
Samba: Melodia bem boa, bateria redondinha porém muito reta — faltou #ousadia —, mas ainda assim bem boa também. A letra tá um compiladão de frases soltas, todas relacionadas com o enredo, mas juntas não formam uma unidade. Aí sinceramente dificulta pra quem tá de fora da comunidade empolgar com o samba.
Nota: 9,7

Tom Maior

Enredo: O título é “Penso logo existo - As interrogações do nosso imaginário em busca do inimaginável”. Aí cê pensa: “Lá vem”. Aí eu digo: “Lá vem”. É sobre questões que a humanidade se faz ao longo de toda a sua história e a busca por respostas na ciência, religião ou tutoriais do YouTube. Qual questão? Qualquer questão. O enredo e a sinopse podem ser resumidos com um pontão de interrogação de tão aberto.
Nota: 9,6
Samba: Samba retinho, bem na moral, sem inventar graça. Na letras, os compositores operaram o milagre basicamente enfiando tudo que tava na sinopse. Então seja lá o que o carnavalesco tem na cabeça (ninguém sabe), ele tá descrito em algum momento do samba. Só pela gravação, sem o desfile, fica muito genérico. Um monte de questão, “Será que nesse mundo estou sozinho? / Depois do fim, qual o caminho? / Segredos da imaginação”, somado com o refrão que fala de destino na palma da mão e cartas do tarô resultam em meu Deus do céu o que que tá acontecendo aqui
Nota: 9,7

Dragões da Real

Enredo: “A invenção do Tempo - Uma odisséia em 65 minutos” é sobre o: tempo. Basicamente a mesma coisa que a Mocidade Independente de Padre Miguel vai fazer no RJ, mas se lá eles tem o Hans Donner, aqui a Dragões tem o Fábio Brazza. “Influência do tempo na humanidade” blá blá blá, a gente já viu isso antes. Então, pra ser justo, vai a mesma nota da Pe. Miguel.
Nota: 9,6
Samba: Fizeram um samba com letra bem boa, com refrões fáceis de ficar grudado na cabeça. Isso aí é pra quem achava que o Fábio Brazza não ia saber fazer outra coisa além daqueles raps com pose de “estou refletindo” na capa. O enredo tá bem trabalhado na letra. Calhou que a princípio o enredo é isso daí.
Nota: 9,8

Império da Casa Verde

Enredo: “O Império Contra-Ataca” será sobre o cinema. Se o título já vem com tiradinha, tudo que eu espero é que no dia do desfile tenha violação de direito autoral a rodo. Mas aí eles que resolvam.
Nota: 9,6
Samba: A letra é uma explosão de referências largadas soltas por aí. “Deixa o vento me levar que eu vou (...) / Pode chover eu vou cantar de alegria / Encontro além do arco-íris um castelo / Seguindo a estrada de tijolos amarelos”. A gravação do samba pelo menos tem umas bossas pra dar um tchans, mas na melodia mesmo não tem grandes destaques.
Nota: 9,7

Gaviões da Fiel

Enredo: “A saliva do santo e o veneno da serpente” é a reedição do enredo vice-campeão de 1994 sobre a história do tabaquinho. Bom tema, mesmo sendo reedição, só que em 1994 ainda tinha o Hollywood Rock, e a F-1 era umas caixas de cigarro que andavam. Como que vão refazer isso em 2019 sem dar merda parece um bom desafio.
Nota: 9,8
Samba: O samba é um dos mais famosos da história da Gaviões, então nem tem muito o que tar falando. A letra é simples, cobre o enredo e é fácil de guardar. Fora que a parte do “erva santa curou dores / seduziu com seus sabores” tem uma melodia que tá difícil de encontrar nos sambas de hoje. O refrão “é um raro prazer, sabor de emoção / mas não abuse que faz mal pro coração”, se eles não conseguirem uma grana da indústria do tabaco por essa propaganda vai ser um puta vacilo.
Nota: 9,9

Rosas de Ouro

Enredo: “Viva Hayastan!” será sobre a Armênia. O que é Hayastan eu não sei. Mas enfim, é um povo com relação com a cidade de São Paulo e com uma história interessante. Aposto 1 real que vai ter referência à Dona Armênia que a Aracy Balabanian fazia.
Nota: 9,7
Samba: A letra imagino que cobriu bem o enredo, tratando tanto história quanto cultura Armênia do melhor jeito que dava. Melodia ok, apostando tudo nos refrões pra ganhar a galera. Não que empolgue muito, mas vá lá, é festa. E Royce do Cavaco jamais criticarei. O que é Hayastan eu ainda não sei.
Nota: 9,7

Unidos de Vila Maria

Enredo: “Nas asas do grande pássaro, o vôo da Vila Maria ao império do sol” é sobre o: Peru. E lá vamos nós pra mais um enredo CEP. Nesse ritmo, logo menos acabam os países com comunidade em São Paulo e as escolas vão ter que falar de Sri Lanka e Micronesia ou sei lá qual país ainda não virou enredo. Só aqui eu acho que já falei mais que a sinopse oficial.
Nota: 9,
Samba: Ah meu. Pra mim rolou bem médio. Enredo genérico virando letra genérica. “Me leva, ó, vento, me leva”, “Esse povo de pele morena / tem o seu valor”. O Wander Pires e a bateria da Vila Maria fizeram o máximo possível pra transformar isso em algo empolgante. Conseguiram mais ou menos.
Nota: 9,7

Vai-Vai

Enredo: “Quilombo do Futuro”, em resumo, será sobre a luta do povo negro pela igualdade. Nomes históricos, uma breve passada ao longo da história e tal. Digo em resumo porque o enredo era explicado por uma sinopse gigante, que não li, além de um vídeo-sinopse, que não assisti. Mas enfim, sendo isso tá bom.
Nota: 9,8
Samba: Primeiramente, antes de qualquer coisa: Grazzi Brasil. Eu por mim já afirmo que é uma das principais intérpretes do carnaval paulista E carioca TAMBÉM. Joga pra ela que ela resolve pois, pelamor, que voz. Já o samba pra mim tá perfeito a gravação. É empolgante, bateria cadenciada (mas reta), melodia ótima de tudo. Podiam meter uma crítica mais porradona na letra, mas enfim, num quiseram, tá no direito. Vai pegar fácil no sambódromo essa aí. Por fim: Grazzi Brasil.
Nota: 10

X-9 Paulistana

Enredo: A escola que mais escolhe uns enredo que pelo amor de Deus. Dessa vez vai homenagear Arlindo Cruz com o enredo “O show tem que continuar, meu lugar é cercado de luta e suor, esperança de um mundo melhor”. Precisava de um título desse tamanho? (Não) Enfim, boa escolha pra enredo. Melhor que RALLY DOS SERTÕES.
Nota: 9,
Samba: Baita samba. Pra cima, letra gostosa, sem clichê (pelo menos nenhum que eu tenha notado). Só incomodou muito pouquinho a repetição “é voz dos humildes por um pedaço de chão / voz dos humildes por um pedaço de pão”. Mas os refrões superam tudo isso aí. Não gostei muito das bossas da bateria, mas pelo menos fizeram umas bossas né. Cheio de escola aí seguindo mais reto que a Avenida Paulista, tá louco.
Nota: 9,9

Águia de Ouro

Enredo: “Brasil eu quero falar de você! Que país é esse!”. Só esse “que país é esse” eu já fico meio ihhhhh lá vem. O papo aqui é crítica pela “ganância” que “explora” as “riquezas” do nosso “país”. Lá vem. Com uns papo mais ou menos assim o Laíla foi campeão do carnaval carioca de 2018 com a Beija-Flor. E eu achei peleguíssimo aquele enredo do Frankenstein de Nilópolis de 2018. Bateção de panela total. Assim sendo: lá vem.
Nota: 9,7
Samba: Por decisão que não tenho a menor dúvida que veio do Laíla, esse ser que personifica a BAGUNÇA PROFISSIONAL que é o carnaval carioca, a Águia de Ouro decidiu fazer um catadão entre os quatro sambas finalistas na disputa interna da escola, e transformar numa coisona só. Logo, oficialmente, esse samba-enredo foi composto por TRINTA E QUATRO pessoas. TRINTA E QUATROOOO. Tem mais compositor do que ritmista no tamborim. Que papai do céu abençoe essa ZONA. E, bom, saiu uma versão 2.0 do samba da Beija-Flor 2018. “Somos filhos dessa pátria / Que não cuida do que é seu / E não ouve a nossa voz”. Já tô ligado onde que vai levar isso aí. E a parte do “(...) revestido de coragem / (...) pra acabar com a sacanaaaageeem” é pe-le-go. Porém, temos Tinga cantando, o que é bom demais, pode meter ele cantando “Você também é responsável” (a.k.a. O hino do MOBRAL) que vai ficar top. E a bateria tá beeeem caprichada
Nota: 9,8

Colorado do Brás

Enredo: “Hakuna Matata - Isso é viver”. Sério? Sério. Porém, calma. Oficialmente, o tema é a reconstrução do Quênia após a guerra civil, que terminou com a independência do país. E o “hakuna matata” é na verdade uma referência à música “Jambo Bwana” sendo destacado na sinopse a versão dance 80s da banda Boney M. Oficialmente é isso. Extra-oficialmente, é exatamente o que você pensou quando leu “Hakuna Matata”.
Nota: 9,8
Samba: Pela introdução já dá pra ver qual “Hakuna Matata” que vai ter mais a ver com a letra, mas vamo lá. Deixando isso de lado, fica um samba afro, que ok, legal, animadão, talvez acelerado mais do que necessário, mas que encaixa no enredo. Mas dá pra inventar uma dezena de outros enredos de tema “história do povo africano” que ia encaixar igual igual. Mas de ouvir é muito bom.
Nota: 9,8

Acadêmicos do Tucuruvi

Enredo: “Liberdade, o canto retumbante de um povo heróico” tem como tema, pelo que eles tão falando, a “luta pela liberdade na história do Brasil, desde o descobrimento até os dias de hoje”. Quais liberdades eu não sei, porque parece que vão tratar de várias “liberdades” nesse enredo. Logo é um enredo crítico, mas não dá pra saber o QUÃO crítico vai ser de fato. A ver.
Nota: 9,7
Samba: Não sou nenhum especialista (e faço questão de deixar claro que não sou nenhum especialista), mas achei a melodia meio genericona. Tá ok, refrão simples, que é bom porque é fácil de pegar. Trata o enredo, mas de crítica mesmo tá faltando. De destaque deixo só o catadão de sucessos da MPB em “caminhando contra o vento, eu vou / pra quebrar as correntes / quem sabe faz a hora, não espera acontecer / apesar de você” que quase que passou desapercebido.

www.vice.com